
A Cincia dos Espritos

por Eliphas Levi

Filosofia Oculta
A cincia dos espritos
Revelao do Dogma Secreto dos Cabalistas
Esprito Oculto dos Evangelhos
Apreciao das Doutrinas e dos Fenmenos Espritas
por Eliphas Levi


A cincia dos espritos
A SOCIEDADE DAS CINCIAS ANTIGAS, dando prosseguimento as suas publicaes sobre Filosofia 
Oculta, edita hoje uma obra que trata da Cincia dos Espritos; trata-se de um livro que, sob a 
forma literria e potica, oculta para o vulgo e ensina para os estudiosos da matria os maiores 
mistrios da Cincia. Este estudo est dividido em trs partes: na primeira parte, sob o ttulo 
Espritos reais, trata de Deus e do homem reunidos e idealizados na pessoa de Jesus Cristo; na 
segunda parte, sob o ttulo de Espritos hipotticos, fala dos anjos, dos demnios e das almas 
desencarnadas, segundo as doutrinas cabalsticas e mgicas; na terceira parte, consagrada aos 
pretensos espritos ou fantasmas, aborda as evocaes e aprecia os fenmenos e as doutrinas 
espritas.
A Cincia supe necessariamente Deus, estuda os esprito do homem em suas mais altas aspiraes, 
examinas as hipteses relativas aos espritos desconhecidos e rejeita os fantasmas. Acima da 
Cincia est Deus, na Cincia Cabalstica est o Absoluto, na Filosofia Oculta est o Agente 
Universal. A esplicao desta fora universal nos  dada magistralmente por Eliphas Levi, o 
sbio cabalista francs do sculo passado.
Introduo
ELIPHAS LEVI, o mais importante ocultista do sculo XIX, escreveu um conjunto de livros que 
constitui um curso completo de Filosofia Oculta. A maioria desses livros foram traduzidos para a 
lngua portuguesa, fornecendo ao estudioso de Ocultismo as bases necessrias para que possa 
atingir, por seu esforo, as luzes do conhecimento. Seus livros contm o desenvolvimento da 
teoria cabalstica, trazida at sua poca por Guilhaume Postel, Raymund Lullo, Paracelsus, Jacob 
Boheme, Kircher, Khunrath, Louis Claude de Saint-Martin e tantos outros mentores do Gnero 
Humano. O prprio Eliphas Levi foi s fontes originais, consultando velhos manuscritos hebreus, 
latinos ou gregos. Desvendou o Zohar, traduzindo os trechos mais importantes para seus 
discpulos; penetrou no Sepher Yetsirah, como todo cabalista deve fazer. Estudou a fundo os 
Evangelhos apcrifos, bem como todos os antigos grimrios que pde reunir em uma vida repleta de 
pesquisas e de trabalho, o que lhe permitiu adquirir grande erudio.
Em A CINCIA DOS ESPRITOS, Eliphas Levi explica os dogmas cabalsticos, que contm em resumo 
toda a Cincia, mas a Cincia da qual eles so a expresso foi desenvolvida nas suas obras 
precedentes: a Histria da Magia explica as asseres contidas no Dogma e Ritual da Alta Magia; 
a Chave dos Grandes Mistrios completa e explica a Histria da Magia. A Cincia dos Espritos d 
a chave dos dogmas cabalsticos, cuja doutrina em seu conjunto forma uma verdadeira Cincia. 
Esse livro nos introduz na essncia da Bblia; demonstra-nos a imortalidade da alma, ergue o vu 
do Plano Invisvel e adverte-nos dos perigos que corre o viajante temerrio, que profana as 
regies desconhecidas da Natureza.
A CINCIA DOS ESPRITOS harmoniza o Antigo Testamento com o Novo; busca a Cincia Cabalstica 
nas suas origens, atravs das Escrituras Santas legadas ao Gnero Humano pelo Judasmo e pelo 
Cristianismo. Faz a Luz jorrar das antigas lendas bblicas, explicando-nos o sentido real do 
simbolismo religioso pelas chaves cabalsticas. Confronta os fenmenos modernos do Espiritismo 
com as antigas narraes bblicas sobre os espritos, evocaes sangrentas e aparies. Relata-
nos a histria de Jesus segundo o Talmude e segundo a Tradio Oculta; explica-nos os fenmenos 
que denominou "Espritos Reais e Hipotticos", "pretensos espritos ou fantasmas", pela teoria 
dos cabalistas sobre os anjos, demnios e as almas dos mortos.
Este livro, um dos mais importantes do autor, reconcilia a Cincia com a F, destruindo as 
supersties e os preconceitos, e fornece mais poesia e revelao ao simbolismo dos prprios 
Evangelhos. Mostra-nos, ademais, que as lendas e alegorias mais distanciadas da realidade 
objetiva so as que apresentam maior ligao com a Revelao Divina. Deixa claro que as 
Escrituras Sagradas so alegorias iniciticas e que a histria d lugar ao smbolo.
Por intermdio da luz que emana da Divindade e que iluminou seu Esprito, Eliphas Levi explica-
nos as diferentes lendas evanglicas, relacionando-as com os mistrios da evoluo humana nos 
diferentes planos da Criao. Descreve-nos os mais sublimes quadros de vises, trazendo  terra 
as apoteoses do Mundo Divino. Em muitas passagens ele  magistral; suas pginas parecem poemas, 
compostos com a beleza da inspirao divina. Suas narraes levam-nos a um mundo desconhecido, 
pleno de beleza e de amor; traam-nos o caminho que todo homem deve seguir para atingir a Glria 
de habitar com o Cristo; mostram as contradies e o desespero dos "filsofos" sem f e dos 
crentes passivos que no procuram o conhecimento. A todos demonstra a necessidade de reconciliar 
a razo com a f, de conduzir simultaneamente sua vida no trabalho e na prtica da caridade. A 
Salvao est no equilbrio da Fora e da Beleza: "a harmonia resulta da analogia dos 
contrrios". A letra mata e o esprito vivifica. O Cristo fala no corao do justo que se fez 
digno de coabitar com o Verbo, que no mede sacrifcios para ajudar seu semelhante a caminhar em 
paz na senda da Verdade e da Justia. Conduzir a prpria vida no sacrifcio, no trabalho e na 
prtica da Caridade  viver segundo os preceitos cristos.
Em essncia, essa doutrina  to antiga quanto o homem sobre a terra, pois que o retorno  
Divindade pressupe a restaurao da grandeza primitiva do filho. E essa dignificao da 
natureza humana no se faz sem o concurso da Graa Divina. Mas para que a mo de Deus paire 
sobre a cabea do homem,  necessrio que este tenha mritos.  preciso que sua obra de 
Reconciliao abrace toda a Humanidade e que seus feitos em benefcio de seus semelhantes possam 
produzir uma energia que, subindo at o Plano Divino, comova at o prprio Criador do Universo. 
Essa fora, produto da Vontade Humana, atrair as energias divinas que jorraro na alma do 
Iniciado, formando um manto de luz. Esse manto acalentar o corao de todos aqueles que 
necessitam, uma vez que o homem, cada vez mais sintonizado com a Vontade Divina, servir de elo 
de ligao do Cu com a Terra. E esse trabalho de Regenerao da Humanidade, de Reintegrao da 
criatura no seio do Criador, difundido a todos os povos da terra pelo Cristo e por seus 
seguidores, foi, necessariamente realizado pelo primeiro Adepto que a Humanidade conheceu e que 
a Cabala personifica na figura de Ado, o primeiro pecador e o primeiro a obter a Reintegrao. 
Ado forma o tipo do homem tornado Filho de Deus, como Jesus Cristo, o exemplo a ser seguido por 
todos os homens.
A Iniciao promete a Reconciliao do Judasmo com o Cristianismo atravs da considerao do 
Schin (c), que entra na palavra Jehovah (h w h y) formando Jehoschuah (h w c h y), o Messias, o 
Cristo.  o grande mediador universal posto a servio da regenerao do homem.  a ferramenta do 
Grande Arquiteto do Universo que desbasta a Pedra Bruta, colocando-a no edifcio do tempo que, 
depois de construdo, aparecer na Jerusalm Celeste, como nos narra So Joo em seu Apocalipse.
A CINCIA DOS ESPRITOS, isto , a Cincia segundo o Esprito, que explica a iluminao dos 
seres criados, enaltecendo suas inteligncias e seus coraes,  a mesma tanto no Antigo como no 
Novo Testamento, como demonstra Eliphas Levi em todas as suas obras.  a Tradio Oculta 
ensinada nos antigos santurios que chegou at ns e que o Autor vivifica com o talento que nos 
 conhecido. Essa Cincia, ensinada a Moiss, Esdras, Daniel, Ezequiel, Davi, Salomo e a tantos 
outros adeptos surgidos na humanidade, foi reconstituda no advento do Cristianismo e adaptada 
aos novos passos que a humanidade iria dar em sua evoluo coletiva. Isso explica por que a 
doutrina crist no se limitou ao povo hebreu, mas conquistou o mundo. O conhecimento da 
tradio primitiva pelos primeiros cristos  demonstrado nas obras cabalsticas que so o 
Apocalipse e o Evangelho segundo So Joo. As mais belas narrativas do Mundo Divino j vistas 
so inspiraes divinas destinadas a fortalecer a doutrina da religio nascente. Essa tradio 
se mantm intacta em pleno sculo XX e ser legada  posteridade por aqueles que fazem por 
merecer o apoio do Reparador. Pois se os campos tornam-se desertos, a mo da Providncia faz com 
que a fertilidade surja em outras terras. E os homens deslocam-se para a Terra Prometida, 
material e espiritualmente falando. Foi assim que o Cristianismo trouxe aos gentios a 
oportunidade de serem chamados Filhos de Deus, e nisso est o seu grande mrito. A Nova 
Jerusalm no  deste mundo, mas todo lugar que acolher um Filho do Eterno ser chamado "Terra 
de Israel".
Toda a Cincia est na afirmao de que o Verbo  o Princpio e o Fim de todo o trabalho de 
criao; ele  o alfa e o mega. Ele  Deus e se manifesta para extinguir as trevas e resgatar 
os homens da escravido das paixes e dos vcios. Ele se faz carne para que a vontade do Pai se 
afirme e se una  Vontade do Filho.  preciso que o homem adquira a CINCIA DOS ESPRITOS e que 
em esprito v at o mundo de Yetsirah receber a uno do Verbo, que descer dos mundos 
superiores, podendo ser recebido pelo Anjo de Deus, como ocorreu com So Joo; ir, assim, 
vislumbrar a rvore da Vida e a Jerusalm Celeste, sentindo no prprio ntimo a abertura dos 
sete selos. Soaro, ento, as sete trombetas, manifestando o jbilo do Cu pela apoteose do 
coroamento de um novo Eleito, pela derrota da besta e do falso profeta. Quando regressar ao 
Plano Fsico, trar a mensagem divina s sete Igrejas e a todos os povos da terra.
"O homem nada pode quando est s", explica-nos Eliphas Levi. "As Grandes Foras Humanas so as 
foras coletivas. O homem deve receber em si a Luz Divina, que jorra substancialmente do seio de 
Deus, e projet-la por sua vez sobre toda a Natureza; ele deve atrair toda a criao inferior 
pelo amor, e lanar-se em direo a Deus por esforos jamais esmorecidos."
Sociedade das Cincias Antigas
Prefcio
Anunciamos novos estudos sobre a Filosofia Oculta. A primeira srie desses estudos foi 
publicada.  Sob a forma literria e potica do aplogo, ocultamos para o vulgo e ensinamos para 
os investigadores esclarecidos os maiores mistrios da cincia.Abordamos hoje a segunda srie, a 
que trata da cincia dos espritos.Este estudo est dividido em trs partes.Na primeira parte, 
sob o ttulo de espritos reais, tratamos de Deus e do homem reunidos e idealizados na pessoa de 
Jesus Cristo.Na segunda parte, sob o ttulo de espritos hipotticos, falaremos dos anjos, dos 
demnios e das almas desencarnadas, segundo as doutrinas cabalsticas e mgicas.Na terceira 
parte, consagrada aos pretensos espritos ou aos fantasmas, tratamos das evocaes e apreciamos 
os fenmenos e as doutrinas espritas.A Cincia supe necessariamente Deus, estuda o esprito do 
homem em suas mais altas aspiraes, examina as hipteses relativas aos espritos desconhecidos 
e rejeita os fantasmas.Dissemos em nosso Dogma e Ritual da Alta Magia que Deus para ns  o 
AZOTO dos sbios.M.de Mirville, que no compreendeu essa palavra, explicou-a simplesmente como 
sendo um erro de ortografia, que nos atribuiu, e imaginou ingenuamente que adoramos o gs 
azoto.A palavra AZOTH, empregada pelo sbio iniciado Baslio Valentino, para exprimir o agente 
universal,  composta da primeira e da ltima letra dos alfabetos hebraico, grego e latino.Ela 
equivale ao INRI da Maonaria e significa o princpio e o fim, isto , o absoluto nos trs 
mundos.Acima da cincia est Deus, na cincia cabalstica est o absoluto, na fsica oculta est 
o agente universal.Esse nome exprime, pois, trs coisas:
1.) A hiptese divina;
2.) A sntese filosfica;
3.) A sntese fsica.
Isto significa uma crena, uma idia e uma fora.No estamos dando essas explicaes para 
Mirville, que no pode ser considerado um ingnuo de boa f, e que tem, a priori, o propsito de 
no nos compreender, e at mesmo de nos injuriar.Sabemos que esse  o procedimento da escola a 
que ele pertence.Damos essa explicao para os leitores que no procuram seno a verdade. 
Comecemos nosso livro.
Primeira parte
ESPRITOS REAIS
A CINCIA DOS ESPRITOS
Introduo
Deus ou o esprito criador, que a cincia  forada a admitir como primeira causa;Deus que  a 
hiptese necessria na qual se ligam todas as certezas;O homem ou o esprito criado cuja vida 
aparente comea e termina, mas cujo pensamento  imortal;O mediador ou o esprito do Cristo 
homem sobre-humano pelo pensamento, Deus humanizado pelo trabalho e pela dor:Tal  o trplice 
objeto da cincia dos espritos. O homem, nada podendo conceber acima de si mesmo, idealiza-se 
para conceber Deus. O Cristo, por seus sublimes pensamentos e suas admirveis virtudes, realizou 
esse ideal. , pois, em Jesus Cristo que se deve estudar Deus, e como o mediador  tambm o 
prottipo e o modelo da humanidade,  ainda nele que se deve estudar o homem considerado 
exclusivamente sob o ponto de vista do esprito. A cincia dos espritos se resume pois, 
inteiramente, na cincia de Jesus Cristo.Os anjos e os demnios so seres puramente hipotticos 
ou lendrios; pertencem  poesia e no poderiam pertencer  cincia.Contentemo-nos com os 
homens, estudemos Jesus Cristo e procuremos Deus. Quanto menos definimos Deus, mais somos 
forados a acreditar nele. Negar o Deus indefinido e desconhecido, princpio existente e 
inteligente do ser e da inteligncia,  afirmar temerariamente a mais vaga e a mais absurda de 
todas as negaes; tambm Proudhon, essa contradio encarnada, pde dizer com razo que o 
atesmo  um dogma negativo e constitui a mais ridcula de todas as crenas: a crena 
irreligiosa. Mas um Deus definido  necessariamente um Deus finito, e todas as religies 
pretensamente reveladas de uma maneira positiva e particular desabam logo que a razo as toca; 
no h seno uma religio, e Vtor Hugo disse bem quando bradou: Protesto em nome da religio 
contra todas as religies. Se Deus tivesse autorizado somente Moiss, no teria permitido Jesus. 
Se tivesse autorizado somente Jesus, no teria permitido Maom. No pode a haver seno uma lei 
divina, mas h, nesse baixo mundo, uma multido de juzes e uma grande multido de advogados que 
tentam rebater incessantemente, apesar de seus perptuos desabamentos, a Babel das contradies 
humanas. Pascal, esse ateu to religioso, esse ctico supersticioso que duvidava de tudo em 
presena da lgica inexorvel dos nmeros e que acreditava no deus dos Jansenistas baseando-se 
num amuleto, Pascal, que, contra a sua prpria vontade, no era catlico porque queria ser 
excessivamente catlico, no teve medo de afirmar que  mais garantido acreditar nos dogmas da 
Igreja Romana, a nica a ameaar com o inferno aqueles que no aderem a esses dogmas, como se 
uma ameaa no-humana fosse uma razo e como se, em matria de f, fosse legtimo que o medo 
superasse a confiana.
Produzir trevas para aumentar o medo, redobrar a obscuridade dos mistrios, exigir a obedincia 
cega,  a magia negra das religies;  o segredo dos sacerdcios ambiciosos que querem 
substituir a divindade pelo sacerdote, a prpria religio pelo templo e as virtudes pelas 
prticas. Esse foi o crime dos Magos que pereceram por uma reao fatal: esse foi o crime dos 
sacerdotes hebreus, contra os quais Jesus veio protestar, e que crucificaram Jesus. O qu?! O 
cu nos imporia uma lei rigorosa, sancionada por suplcios eternos, e no deixaria claro e 
evidente para todos a prpria promulgao dessa lei! Como?! A verdade, ou antes, o livro fechado 
que a contm seria o quinho exclusivo de alguns fanticos inexorveis, e a humanidade quase 
inteira seria abandonada s oscilaes do erro e  fatalidade de uma maldio infinita! S  
maldito aquele que pode acreditar nisso. O Deus que ele adora assemelha-se a esses monstruosos 
dolos do Mxico, cujos lbios eram incessantemente umedecidos com coraes sangrando. Uma 
religio exclusiva no  uma religio catlica. Catlica quer dizer universal. Apoderar-se das 
foras fatais e dirigi-las para fazer delas a alavanca da inteligncia, esse  o grande segredo 
da magia. Apelar s paixes mais cegas e ilimitadas em seu impulso, submet-las a uma obedincia 
de escravo,  criar a onipotncia. Desse modo, colocar o esprito sob o imprio do sonho, 
exaltar ao infinito a cobia e o medo por meio de promessas e ameaas que sero tomadas por 
sobrenaturais porque sero contra a natureza, fazer um exrcito da imensa multido de cabeas 
fracas e de coraes lassos que se tornaro generosos por interesse ou por temor, e com esse 
exrcito conquistar o mundo: eis o grande sonho sacerdotal e todo o segredo poltico dos 
pontfices da magia negra. Ao contrrio, esclarecer os ignorantes, libertar as vontades, 
libertar os homens do medo e dirigi-los pelo amor, tornar acessveis a todos a verdade e a 
justia, impor  f apenas as hipteses necessrias  razo, e conduzir assim todos os povos a 
um Dogma nico, simples, consolador e civilizador: essa  a realidade divina, e foi isso que o 
Evangelho deu ao mundo. O Evangelho  o esprito de Jesus, e esse esprito  divino. Eis nossa 
profisso de f claramente formulada sobre a divindade de Jesus Cristo. Minhas palavras so 
esprito e vida, disse esse revelador sublime; nada disso se refere  carne. O Evangelho  a 
histria de seu esprito. No  a crnica de sua carne. Homem pela carne, Deus pelo esprito. 
Ele morreu e ressuscitou. Se viverdes de meu esprito, disse a seus Apstolos, vossa carne ser 
minha carne e vosso sangue ser meu sangue, e essas coisas to eminentemente espirituais, 
materializadas pela estupidez dos telogos brbaros, deram-nos hstias sangrentas e comunhes 
antropofgicas.  chegado o tempo de no mais confundir o esprito com a carne. A cincia dos 
espritos  o discernimento do esprito, e quando o esprito de Jesus Cristo for compreendido, 
esse esprito que a Igreja chama e adora sob os nomes de esprito de cincia, esprito de 
inteligncia, esprito de fora, esprito de iniciativa ou de conselho, e, por conseguinte, 
esprito de liberdade, quando esse esprito, repetindo, for compreendido, j no se pediro 
orculos ao sono,  catalepsia, ao sonambulismo ou s mesas giratrias. A cincia dos espritos 
tem por base o conhecimento do esprito de Jesus Cristo, que  a mais alta expresso das 
aspiraes inteligentes e magnticas da humanidade. Jesus, o homem de luz e de bondade, foi 
pressentido e saudado antecipadamente pelos iniciadores de todos os cultos. O Egito, sob o nome 
de Horus, adorava-o dormente ainda no seio de sis; a ndia o chamava de Krishna e o suspendia 
nas mamas de Devaki; os Druidas elevaram uma esttua  virgem que devia ger-lo; Moiss e os 
profetas preludiaram com magnficos ditirambos a epopia dos Evangelhos; Maom o reconhece e s 
protesta contra a adorao idoltrica de sua carne. A humanidade , pois, crist desde o incio 
do mundo. Vestida  moda indiana, egpcia, judaica ou turca, em toda parte a humanidade  a 
mesma e o dogma  universal. Proclamemos pois, hoje, a catolicidade do mundo e no excomunguemos 
nem mesmo aqueles que querem isolar-se num cu cujas nuvens de glria se formariam dos vapores 
de uma fogueira onde queimaria sob eles e por eles quase toda a humanidade. Um tempo vir, e ele 
est prximo, em que tais idias inspiraro em todo mundo um terror tal, que no se ousar mais 
profess-las em voz alta, e que a memria dos inquisidores de todos os cultos ser condenada por 
sua vez, e para sempre, pela inquisio do desprezo. Uma das grandes pirmides do Egito estava 
semioculta pelas montanhas de areia. De sculo em sculo, as bordas nmades do deserto 
amontoaram sobre elas construes hbridas e imundcies, de modo que no a enxergvamos mais. Um 
grande prncipe chega, ele quer desaterrar esse lugar para ali construir um templo; escava-se em 
redor do monte de lixo, ele  escalado, derrubado, e a grande pirmide reaparece em toda sua 
majestade. Isso  uma apologia. A guerra da filosofia contra a Igreja no a destruir, mas a 
libertar; porque a Igreja  a sociedade dos homens, animada pelo esprito de Jesus Cristo.  
medida que as supersties religiosas, ou antes, irreligiosas descem, o Evangelho sobe; ele  
estvel, eterno e inabalvel, quadrado na base e simples como as pirmides. H sempre uma lgica 
no poder; foras sem razo seriam foras sem alcance e, por conseguinte, sem efeito. Se o 
Evangelho  um poder, existe uma lgica no Evangelho.
A lgica ou a razo, o logos do poder supremo,  Deus. Essa razo, essa lgica universal, 
ilumina todas as almas razoveis. Ela resplandece nas obscuridades da dvida; atravessa, 
penetra, dilacera as trevas da ignorncia, e as trevas no podem compreend-la, peg-la, 
encerr-la e aprision-la. Essa razo fala pela boca dos sbios; resumiu-se em um homem que, por 
isso, foi chamado de logos feito carne, ou grande razo encarnada. Os milagres desse homem foram 
milagres de luz, isto , de inteligncia e de razo. Ele fez os homens compreenderem que a 
verdadeira religio  a filantropia. A palavra  moderna em francs, mas encontra-se 
textualmente em grego no evangelho segundo So Joo. Ele os fez ver que no  nem em tal cidade, 
nem sobre tal montanha, nem no templo que se deve procurar Deus, mas no esprito e na verdade. 
Seu ensinamento foi simples como sua vida. Amar a Deus, isto , ao esprito e  verdade, mais do 
que a todas as coisas, e ao prximo como a vs mesmos, eis, dizia ele, toda a lei.  dessa forma 
que ele abria os olhos dos cegos, que forava os surdos a ouvirem e os coxos a caminharem 
direito. As maravilhas que operava nos espritos foram contadas sob essa forma alegrica, to 
familiar aos orientais. Sua palavra tornou-se um po que se multiplica; seu poder moral, um p 
que caminha sobre as ondas, uma mo que apazigua as tempestades. As lendas se multiplicaram com 
a admirao cada vez maior de seus discpulos. So contos encantadores, semelhantes aos das Mil 
e Uma Noites, e era digno dos sculos brbaros, que acreditamos ter ultrapassado e que ainda no 
terminaram, tomar essas fices graciosas por realidades materiais e grosseiras, discutir 
anatomicamente a virgindade maternal de Maria, estabelecer entre as mos de Jesus uma padaria 
invisvel e milagrosa para multiplicar os pes no deserto, e ver correr um sangue globular e 
seroso, um sangue antropofgico e revoltante, sobre as brancas e puras hstias que protestam 
contra o sangue e que anunciam para sempre a consumao do sacrifcio. O Evangelho pertence  
cincia apenas como monumento da f, e no como documento da histria.  o smbolo das grandes 
aspiraes da humanidade.  a lenda ideal do homem perfeito. Essa lenda, a ndia j havia 
esboado ao contar a maravilhosa encarnao de Vishnu na pessoa de Krishna. Krishna  tambm 
filho de uma virgem. A casta Devaki amamentando seu divino filho encontra-se no Panteo indiano 
e parece uma imagem de Maria. Perto do bero de Krishna encontra-se a figura simblica do asno; 
a me leva a criana para livr-la de um rei ciumento que queria mat-lo. Se os Vedas no fossem 
anteriores ao Evangelho, acreditar-se-ia que tudo isso  cpia de nosso Novo Testamento. Quer 
dizer que tudo isso  desprezvel e nada contm de divino? Acreditamos que  necessrio chegar a 
uma concluso diametralmente oposta. O esprito do Evangelho  eterno e sua frmula  a das 
aspiraes da humanidade to antigas quanto o mundo. A idia de uma encarnao, isto , de uma 
manifestao de Deus no homem, encontra-se em todos os dogmas dos santurios antigos; o livro do 
ocultismo, Siphra Di-Tzeniutha, que contm as mais altas doutrinas do judasmo sobre Deus, 
representa a divindade saindo da humanidade como uma luz, e a humanidade descendo da divindade 
como uma sombra, de modo que tendo Deus criado o homem, o homem, por sua vez,  chamado a 
realizar e a criar, por assim dizer, a idia de Deus. Que o Evangelho  um livro simblico, isso 
os Apstolos no nos ocultaram. Cristo  o fundamento, diz So Paulo, e sobre esse fundamento 
alguns construram com pedra, outros com madeira, outros ainda com palha. O fogo da provao 
vir, e tudo o que no for slido ser consumido.  desse modo que se pode explicar a escolha 
que se fez mais tarde dos livros cannicos, e a rejeio definitiva dos Evangelhos apcrifos. 
So Joo, por sua vez, nos diz: Jesus fez e disse ainda muitas coisas, e, se quisssemos 
escrever todas, no creio que o mundo inteiro pudesse conter os livros que se poderiam fazer. 
Ora, o campo da histria  limitado, mas o da alegoria  imenso, e se So Joo no quisesse 
indicar com essa frase o verdadeiro alcance dos Evangelhos teria dito um absurdo. Mas quando os 
Apstolos se calassem, a evidncia falaria o suficiente. Como se deve, por exemplo, demonstrar a 
pessoas que o diabo, isto , o personagem fictcio que representa o mal, no transportou Jesus, 
concreta e efetivamente, sobre uma montanha to alta que se poderia ver de l todos os reinos da 
terra? O Evangelho est cheio de histrias semelhantes compostas segundo o gnio dos hebreus, 
que ocultavam sempre sua doutrina secreta atravs de enigmas e imagens; segundo o gnio do 
prprio Jesus, que, no dizer dos Evangelistas, quase nunca falava sem parbolas. O Talmude 
inteiro  composto segundo esse mtodo, e Maimnides diz que os absurdos mais evidentes desse 
livro escondem segredos da mais alta sabedoria. Observemos somente, diz o abade Chiarini, em sua 
Teoria do Judasmo, que, para estudar o Talmude,  indispensvel, entre outras coisas, passar os 
olhos pelas antiguidades religiosas de todos os povos do Oriente, a fim de no atribuir apenas 
ao judasmo, como geralmente se faz, o estilo alegrico e esse amor imoderado pelas fbulas 
sagradas, comum a todos os intrpretes das religies orientais. Quer dizer que, sob todas essas 
alegorias, a pessoa real do Cristo desaparece e se anula? Devemos considerar, como Dupuis e 
Volney, a existncia humana e pessoal de Jesus to duvidosa como a de Osris, to fabulosa como 
a do indiano Krishna? Como se ousaria afirmar isso, uma vez que Jesus Cristo est ainda vivo em 
suas obras, ainda presente em seu esprito, que j mudou e certamente transfigurar toda a face 
da terra? Duvidou-se da existncia de Homero, mas de qual Homero? Daquele dos comentadores pode 
ser, mas a Ilada e a Odissia no esto a? Esses divinos poemas compuseram-se sozinhos? E que 
grande distncia existe entre esses livros sem dvida admirveis e o poema vivo do cristianismo, 
essa Ilada dos mrtires onde os deuses combatem e so vencidos por mulheres e crianas? Essa 
Odissia da Igreja que, aps tantas perseguies e tempestades, chega, mendicante sublime, ao 
umbral do palcio dos Csares, lana com um brao vitorioso as flechas que atravessam os 
coraes de seus inimigos e vai sentar-se no trono do mundo. O esprito de Jesus existe com 
muito maior certeza e evidncia que o gnio de Homero. Mas esse esprito  um esprito de 
abnegao e de sacrifcio, e  por isso que ele  divino. Quanto menos o homem se procura, mais 
se encontra. Quanto mais se abandona, mais merece a adorao do cu. Quanto mais se esquece, 
mais ser lembrado. Eis, em poucas palavras, os grandes segredos da onipotncia do cristianismo. 
Jesus, que deu esses preceitos, deu tambm o exemplo. Ele se anulou em presena de sua obra. O 
homem desapareceu no smbolo, e foi assim que se fez Deus. O Evangelho nos diz que ele conduziu 
seus discpulos para o alto de uma montanha e se transfigurou diante deles. Seu rosto tornou-se 
um sol e suas roupas ficaram brancas como a neve, isto , o homem apagou-se na luz da revelao 
nova. E mais tarde a tradio, completando a lenda, diz que Jesus, subindo ao cu, no deixou 
nada dele sobre a terra alm do seu esprito espalhado em toda a Igreja, e a marca indelvel de 
seus ps sobre o cume da montanha. De que serve procurar agora, seja em Nazar, seja em Belm, o 
bero da criana que foi Jesus Cristo, na esperana de reencontrar, em algum fragmento de seus 
cueiros, traos de sua vida puramente humana? A choupana de Jos foi derrubada h muito tempo, e 
dos cueiros do Salvador, branqueados pela Virgem, fizeram-se faixas para cobrir as chagas da 
humanidade. Jesus ressuscitou. Ele no est mais aqui; por que procurar um vivo entre os mortos? 
O Evangelho  Jesus transfigurado;  a epopia de seu admirvel esprito, so os milagres de sua 
moral representados pelas mais comoventes imagens. No se deve suprimir nenhuma palavra desse 
livro, no  necessrio colocar nele mais nenhuma letra. Porque  o testamento divino do homem 
que se anulou para ns. Procuremos nele as luzes para a f, e no ensinamentos para a histria 
das crenas consoladoras, e no probabilidades cientficas. Quando as antigas estaturias do 
Oriente representavam os deuses, davam-lhes formas hbridas e monstruosas, a fim de que todos 
compreendessem que os deuses no so homens.  dessa forma que os evangelistas, semeando sua 
narrativa de fatos materialmente impossveis ou formalmente contraditrios, nos queriam fazer 
compreender que no escreviam uma simples histria, mas um profundo smbolo, e que aqui, como em 
todos os livros sagrados, a letra que mata serve de vu ao esprito que s vivifica!  pois uma 
impiedade, uma verdadeira profanao, procurar no exterior da marca que deixou sobre a montanha, 
ao se elevar ao cu, os traos eminentemente humanos e materiais desse homem que, pelo mais 
perfeito dos sacrifcios, desmaterializou-se, confundindo-se de alguma forma com Deus. Mas se 
quisssemos faz-lo, se os crticos inimigos do cristianismo quisessem os documentos para a 
histria desse homem, no seria disfarando o Evangelho e nele tecendo variantes de fantasia; 
no seria dando explicaes grotescas a seus milagres, tomado ao p da letra, que conseguiriam 
fazer alguma coisa racional. Jesus era judeu; viveu e morreu entre os judeus. Foram os judeus 
que o conheceram, que o rejeitaram, que o acusaram e o condenaram, e se dezenove sculos aps 
sua glorificao quisermos revisar seu processo, sero os judeus que deveremos ouvir. Ora, os 
judeus, apesar das ridculas asseres de Dupuis e de Volney, atestam a existncia real de Jesus 
e acusam-no ainda de muitos crimes; suas lembranas esto consignadas no Talmude, esse 
repertrio imenso e completo de todas as tradies dos judeus. Vidas de Jesus, redigidas 
conforme o Talmude e aumentadas por comentrios odiosos, foram escritas por cabalistas e 
rabinos. Conhecemos dois desses escritos: o Sepher Toldos Jeschu e o Maas Talouy, ou a histria 
do enforcado. Pesquisamos e encontramos esses livros, dos quais fazemos uma anlise fiel, 
descartando somente as divagaes e injrias. Lendo-os, compreenderemos por que a grande e 
antiga sabedoria de Israel rejeita e despreza nossos mistrios. Que deplorvel mal-entendido 
separa os pais dos filhos! Como se estivssemos dizendo que existe um outro deus que no Deus! 
Como se Davi tivesse blasfemado quando disse aos mestres da terra: Vs sois deuses e morrereis 
como homens. Como se o prprio Jesus no tivesse dito: Retorno para junto de meu Pai e vosso 
Pai, para junto de vosso Deus e meu Deus! Mas de que serve defender uma causa que no tem 
juzes? S vejo aqui partes interessadas. Vejo o ilustrssimo Renan, vejo Veuillot, esse 
ultramontano to tristemente clebre, e, por trs desses dois advogados comprometedores, observo 
uma plebe mais ardente do que hbil. Para quem, pois, escreverei? Meu livro no ter importncia 
para meu sculo se eu no pisar em um dos sulcos abertos por esses lavradores de terrenos vagos; 
mas que me importa? Consagrei minha vida  verdade, e eu a direi para quem quiser e souber 
entend-la; se isso no acontecer em um dia, acontecer em um ano, se no for em um ano, o ser 
em um sculo, mas estou tranqilo, porque sei que esse dia vir. No terei nem entusiasmo nem 
prostrao. No procuro proslitos e no temo os adversrios, no quero nem um Thabor nem um 
pelourinho, mas me resigno tanto a um como ao outro. A verdade no vem de ns e no  para ns. 
Insensato  tanto aquele que a oculta como aquele que a revela e se vangloria. Vi homens que a 
vendiam como foi vendido o Salvador, mas aqueles que acreditaram pag-la eram ingnuos e loucos. 
A verdade no  uma prostituta, ela no se vende; ela se d queles que a amam e que a procuram 
com grande sinceridade. A ignorncia da maior parte dos cristos em relao  teologia dos 
judeus,  sua exegese, a seu Talmude, sua Cabala, impede-os de compreender bem o gnio dos 
evangelhos nascidos na Judia. Todos os doutores judeus concordam em admitir a alegoria nas 
tradies que o povo eleito queria ocultar  inteligncia dos profanos. Maimnides, como j 
dissemos, encontra tanto mais cincia e profundidade nas fbulas talmdcas, quanto mais elas 
parecem desprovidas de bom senso, pois a prpria enormidade dos absurdos  um preservativo 
contra a credulidade cega que toma tudo ao p da letra, preservativo hierrquico, por assim 
dizer, porque esclarece apenas aos sbios e cega cada vez mais os insensatos.  para os sbios 
que escrevemos. Daremos primeiramente a viso talmdica sobre Jesus, depois analisaremos 
rapidamente os evangelhos cannicos e consagrados a fazer ressaltar o gnio; procuraremos nos 
evangelhos apcrifos as manifestaes excntricas desse gnio universal. Estudaremos as mais 
antigas hipteses e os maiores sbios do mundo. Em seguida, retomaremos a questo dos espritos 
e dos milagres, procuraremos seu princpio, examinaremos, para melhor explicar os antigos, 
aqueles que se cumprem em nossos dias. Diremos nossa ltima palavra sobre o espiritismo, e nosso 
livro inteiro ser apenas uma homenagem ao verdadeiro cristianismo e  eterna razo.

HISTRIA DE JESUS
Segundo os talmudistas
No ano seiscentos e setenta e sete do quarto milnio aps a criao do mundo, durante os dias do 
rei Janne, que tambm se denominava Alexandre, uma grande desgraa veio em ajuda dos inimigos 
de Israel. Apareceu ento um certo miservel, homem sem conscincia e sem moral, procedente de 
um dos ramos derivados da tribo de Jud, que se chamava Joseph Panther. Esse homem era de 
estatura elevada, de vigor pouco comum e de notvel beleza; havia passado a melhor parte de sua 
vida nos desregramentos, roubos e violncias, e morava em Belm, cidade de Jud. Tinha por 
vizinha uma viva cuja filha se chamava Maria, e  essa mesma Maria, cabeleireira de mulheres, 
que  mencionada em diversas partes do Talmude. Essa jovem, ao se tornar adolescente, ficara 
noiva de um jovem chamado Jochanan, dotado de grande modstia, de notvel doura e do verdadeiro 
temor a Deus. Ora, aconteceu que, por desgraa, Joseph, passando em frente  porta de Maria, 
olhou-a e sentiu arder por ela uma paixo impura; assim, ele passava, passava, sem cessar; mas 
ela nem mesmo o olhava. A apatia apodera-se dele, e sua me, vendo-o destruir-se, lhe diz: Por 
que te vejo emagrecer e empalidecer? Ele responde:  que estou morrendo de amor por Maria, que  
noiva de outro. Sua me lhe diz: No  preciso te atormentar e desesperar por isso; faa o que 
te vou dizer e poders aproximar-te dela e com isso te satisfazer. Joseph Panther escutou sua 
me, passando a rondar incessantemente a porta de Maria, esperando a ocasio que no encontrava. 
Quando, numa noite de sbado, vestido como Jochanan e ocultando a cabea com seu manto, 
encontrou Maria na porta, pegou-a pela mo sem dizer nada, e levou-a para dentro de casa. Ora, 
ela, acreditando ser Jochanan, seu noivo, lhe diz: No me toques; a hora em que deverei ser tua 
ainda no chegou e neste momento estou protegida contra ti pelas enfermidades comuns de meu 
sexo. Mas ele, sem escut-la, realizou sua m inteno e voltou para casa; em seguida, perto de 
meia-noite, como a paixo o atormentasse ainda, levantou-se, voltou  casa de Maria, que comeou 
a chorar, lhe dizendo com horror: Como vens me ultrajar uma segunda vez, tu que eu acreditava 
ser incapaz de abusar de nosso noivado, e como podes acrescentar ao crime a vergonha, visto que 
eu te disse que o estado em que me encontro nesse momento devia me tornar sagrada para ti? Mas 
ele no escutou suas palavras. Sem nada dizer, satisfazia seu desejo; em seguida retirou-se e 
continuou seu caminho. Ora, aps trs meses, vieram dizer a Jochanan que sua noiva estava 
grvida, e Jochanan, assustado, foi encontrar seu preceptor Simo, filho de Schetach, e lhe 
revelando o que se passava, perguntou o que deveria fazer. Seu mestre perguntou-lhe: Suspeitas 
de algum? Jochanan respondeu: S posso suspeitar de Joseph Panther, que  um grande libertino e 
mora na vizinhana. Seu mestre lhe disse: Meu filho, escuta meu conselho e cala-te. Se este 
homem abusou uma vez de tua noiva, no  possvel que no mais procure rev-la. Trata de 
surpreend-lo, chama testemunhas e faze com que seja julgado pelo grande Sindrio. O jovem 
partiu muito triste, s pensando na desgraa de sua noiva e na vergonha que poderia recair sobre 
ele; abandonou a Judia e foi para a Babilnia, onde permaneceu. Maria, em seguida, tornou-se 
me de um filho que chamou Jhosuah, nome de seu tio materno. Tendo a criana comeado a 
crescer, sua me lhe deu por mestre Elchanan. O menino fazia grandes progressos, porque tinha um 
esprito preparado para a inteligncia das coisas. Isso  extrado e traduzido textualmente do 
Sepher Teldos Jeschu. A primeira juventude de Jesus  narrada como se segue pelos autores 
talmudistas do Sota e do Sanhdrin, que encontramos citados  pgina 19 do livro da disputa de 
Jchiel. O rabino Jhosuah, filho de Prachiah, que continuou, aps Elchanan, a educao do 
jovem Jesus, iniciou-o nos conhecimentos secretos; mas tendo Janne feito massacrar todos os 
iniciados, Jhosuah, para escapar a essa condenao, fugiu para Alexandria no Egito. Esse 
massacre dos iniciados, substitudo pelo massacre dos inocentes, parece-nos notvel, sobretudo 
se nos recordarmos de que no livro primeiro dos Reis est dito que Saul, iniciado h pouco no 
crculo dos profetas, era uma criana de um ano quando subiu ao trono. Ora, Saul tinha, na 
realidade, mais de vinte anos. Era, pois, costume nas iniciaes profticas da judia, assim 
como nas da Franco-Maonaria moderna, designar o grau dos iniciados por uma idade simblica, e o 
Evangelho, falando da morte das crianas de at dois anos, no contradiria a assero do 
Talmude, que a seu modo tornava-se historicamente mais aceitvel do que a narrao do Evangelho. 
Podem-se encontrar traos da proscrio dos cabalistas, sempre perseguidos e denunciados pela 
sinagoga oficial, mas no se encontra essa abominvel matana de crianas pequenas, que revolta 
a natureza e que desonrou para sempre o reino de Herodes, se  a Herodes, como quer o Evangelho, 
e no a Janne, como pretendem os talmudistas, que se deve atribuir a condenao em questo. 
Aqui os talmudistas comeam a envolver seu pensamento com alegorias, e eis o que nos contam: 
Jesus e seu mestre Ben-Perachiah foram, pois, residir em Alexandria, na casa de uma senhora rica 
e sbia que os recebeu com honra e lhes ofereceu todos os seus tesouros. Essa senhora, como 
podemos compreender,  o Egito personificado. O jovem Jesus, tendo-a olhado, disse: Esta mulher 
 bela, mas tem um defeito nos olhos que deve prejudicar a retido de seus olhares. Essa terra  
bela, mas  um magnfico exlio. Seu mestre ento irritou-se com ele, por ter ele encontrado 
alguma beleza no Egito e por ter admirado a terra da servido. Jesus lhe disse: No h servido 
para os filhos de Deus e a terra que os abriga  sempre a terra de Israel. Ben-Perachiah 
amaldioou ento seu discpulo e o rechaou de sua presena. Jesus submeteu-se humildemente, 
apresentando-se muitas vezes  porta do mestre, rogando-lhe que o recebesse; o rabino permaneceu 
inflexvel. Um dia, no entanto, quando lia os mandamentos de Deus que ordenavam amar ao prximo, 
Jesus apresentou-se, e o mestre, tocado pelo arrependimento, fez-lhe sinal para aguardar, tendo 
a inteno de ceder e de receb-lo; mas Jesus, entendendo que ele o repelia uma vez mais, foi 
embora e no voltou. Nossos pais procederam mal, dizem a esse respeito os doutores do Talmude, 
em rechaar Jesus sem escut-lo, e sobretudo em, ao mesmo tempo, amaldio-lo. Jamais batemos 
com as duas mos naquele que desejamos punir; guardemos uma para levant-lo, consol-lo e cur-
lo! Palavra que contm todo um futuro, palavra que deve um dia trazer a reconciliao entre os 
filhos e os pais; porque ns tambm amaldioamos os judeus, rechaando-os com as duas mos; 
portanto, agora tambm  com duas mos que, de um lado e de outro, para expiar essa falta 
recproca, devemos nos perdoar e abenoar! Mas voltemos  histria de Jesus, segundo os autores 
do Talmude. Vimos que o jovem iniciado tinha admirado a cincia do Egito e fora rechaado por 
seu mestre por ter sonhado com uma conciliao entre a filosofia do exlio e a religio da 
ptria. A perseguio contra os cabalistas abrandou-se e Jesus voltou  Judia com seu mestre, 
ou pelo menos ao mesmo tempo que ele. Como vivera no Egito? Trabalhando, sem dvida, no seu 
ofcio de carpinteiro. Ao entrar em sua cidade natal, que segundo os talmudistas no era Nazar, 
mas sim Belm, passou em frente aos ancios, que estavam reunidos, conforme o costume,  porta 
da cidade, e no os saudou; mas ao passar seu mestre Jehosuah Ben-Perachiah Jesus o saudou, 
provocando dessa forma os murmrios dos ancios. Com efeito, o jovem os desprezava porque no 
eram iniciados na verdadeira cincia, e s reconhecia como seu superior aquele que lhe havia 
aberto a porta. Os ancios indignaram-se e o chamaram de filho de mulher impura, o que 
surpreendeu Jesus, porque sempre tinha enxergado sua me como um modelo de pureza. Foi consultar 
um de seus tios, aquele que tinha o seu prprio nome, e este lhe revelou a desgraa de Maria e 
todo o mistrio de seu nascimento. Jesus retirou-se com o corao ferido e no retornou mais  
casa de sua me, comeando a pregar a nova cincia: a da reconciliao das naes e da religio 
universal com que tinha sonhado no Egito.  ento que nossos autores chegam s bodas de Cana, 
na Gallia, onde Jesus reecontrou sua me e respondeu-lhe duramente quando ela quis falar-lhe: 
Mulher, o que h de comum entre ti e eu? Em seguida, vendo que a pobre mulher resignava-se com 
doura, ficou com o corao comovido, e, reunindo seus discpulos em torno de si, contou-lhes o 
crime de Panther e perguntou-lhes: Credes que eu poderei honrar esse homem como pai? - No! 
responderam todos em uma s voz. Credes que minha me seja impura? - No, responderam novamente. 
Pois bem. disse Jesus, no tenho pai sobre a terra, meu pai  Deus que est no Cu, e quanto  
minha me, sua virgindade no poderia ser manchada por um crime no qual ela no consentiu. Eu a 
considero sempre virgem. Pensais como eu? - Sim, responderam os discpulos. E  por isso, 
acrescentam os autores judeus, que Jesus foi considerado por todos os que crem nele como o 
filho de Deus e de uma virgem. Essa histria apcrifa, ofensiva para os leitores cristos, no 
deixa de ter uma certa grandiosidade, e pode-se a observar que os maiores inimigos do 
cristianismo rendem uma homenagem involuntria  pureza de Maria e  elevao do carter de 
Jesus. Aqui comea a narrao dos milagres, e os talmudistas, longe de neg-los, parecem 
empenhar-se em exager-los. A lembrana dos milagres estava ainda bem viva e bem forte entre os 
judeus. Mas eis como explicam esses milagres. Eles dizem que existe, no santurio do Deus vivo, 
uma pedra cbica sobre a qual esto esculpidas as letras santas, cujas combinaes explicam as 
virtudes do nome incomunicvel. Essa explicao  a chave secreta de todas as cincias e de 
todas as foras ocultas da natureza.  o que denominamos o Schema hamphorasch. Esta pedra  
guardada por dois lees de ouro que rugem no momento em que tentamos aproximar-nos dela. Os 
leitores de nossas obras sabem o que  o Schema hamphorasch e reconhecero nos dois lees os 
gigantescos querubins do santurio, cujas figuras monstruosas e simblicas eram capazes de 
amedrontar e de fazer recuar os profanos. Alm do mais, as portas do templo eram bem guardadas, 
acrescentam nossos rabinos, e a porta do santurio s se abria uma vez ao ano, e somente para o 
grande sacerdote; mas Jesus tinha aprendido no Egito os grandes mistrios da iniciao e 
apoderou-se das chaves invisveis com a ajuda das quais pde entrar sem ser descoberto. Copiou 
os segredos da pedra cbica, ocultando-os entre as pernas, como na mitologia grega vemos Jpiter 
ocultar Baco; em seguida, saiu e comeou a surpreender o mundo.  sua voz os mortos levantavam-
se e os leprosos ficavam curados; fazia subir do fundo do mar as pedras que l estavam 
enterradas h sculos, e essas pedras formavam uma montanha sobre as guas, e do cume dessa 
montanha Jesus instrua a multido. Reecontramos aqui, com todo o gnio do simbolismo oriental, 
o motivo secreto do dio dos padres contra Jesus. Ele revelou ao povo a verdade que eles queriam 
esconder s para eles; adivinhara a teologia oculta de Israel e a havia comparado com a 
sabedoria do Egito, e a encontrara a razo de uma sntese religiosa universal. Os padres 
procuraram ento arruin-lo, e enviaram  sua presena um falso irmo chamado Judas Iscariotes, 
para faz-lo cometer algumas faltas e entreg-lo, assim, a seus inimigos. Esse foi o Judas que 
levou Jesus a realizar, no momento em que os chefes da religio apresentavam mais animosidades 
contra ele, uma entrada triunfal em Jerusalm, seguida de um tumulto no templo. Fizeram, ao 
mesmo tempo, correr o boato de que Jesus encantava as rvores e as tornava estreis, que 
blasfemava contra a lei de Moiss, querendo fazer-se adorar como Deus. No entanto, Jesus ia 
todos os dias ao templo, mas como os judeus oravam com a cabea coberta, ele se perdia nessa 
multido envolvida em hbitos brancos. Judas prometeu aos sacerdotes entreg-lo a eles e fazer, 
ao mesmo tempo, um grande escndalo, que pudesse compromet-lo aos olhos de todo o povo. Ele 
veio com uma multido de pessoas dedicadas aos fariseus e, prosternando-se diante de Jesus, ele 
o adorou. Os cmplices de Judas revoltaram-se contra o sacrilgio e quiseram lanar-se contra 
Jesus. Os discpulos de Jesus tentaram defend-lo. Jesus conseguiu escapar e refugiou-se no 
Jardim das Oliveiras, onde foi perseguido e preso pelos guardas do templo. Colocaram-no ento 
numa priso, onde ficou quarenta dias, durante os quais fizeram proclamar seu ato de acusao ao 
som de trombetas e perguntaram se algum queria tomar sua defesa; mas ningum se apresentou. 
Jesus foi ento flagelado como rebelde e, em seguida, apedrejado como blasfemador, num lugar 
chamado Lud ou Lydda; logo depois, deixaram-no expirar sobre uma cruz em forma de forcado. 
Alguns de seus discpulos, que eram ricos, resgataram seu corpo e simularam ostensivamente seu 
sepultamento; mas na realidade arrastaram-no secretamente e enterraram-no no fundo do leito de 
um rio, cujas guas foram desviadas para abrir sua tumba; depois, deixaram as guas retomarem 
seu curso. Isto explica por que o corpo no mais foi encontrado quando os discpulos declararam 
que seu mestre havia ressuscitado. A essa narrao fundamental os autores do Sepher Toldo Jeschu 
acrescentaram as mais ridculas fbulas, tiradas, evidentemente, das lendas crists alteradas ou 
disfaradas.  dessa forma que encontramos aqui a histria da ascenso de Simo, o Mgico, 
atribuda ao prprio Jesus Cristo, com a inteno evidente de confundir o Messias dos cristos 
com o famoso impostor.  desse modo ainda que Simo Pedro ou Cphas  confundido, aqui, com 
Simo, o Estilita, prova evidente do pouco valor histrico desse Sepher, que foi composto 
evidentemente vrios sculos aps o incio da era crist. Os documentos talmdicos so mais 
srios, porque o Talmude  a compilao de todas as tradies judaicas, e  l somente, fora dos 
monumentos cristos, que se deve procurar a lembrana desse personagem to importante para a 
histria, mas que todos os escritores profanos ignoram ou desconhecem. Essas tradies, marcadas 
como devem ser por menosprezo e dio com relao ao sbio que os judeus crucificaram, contm 
confisses preciosas em favor das crenas crists. Das narraes do Talmude resulta, com efeito, 
segundo as tradies judaicas:
1. que Jesus de fato existiu;
2. que ele nasceu em Belm;
3. que sua me, de moral irrepreensvel, era somente noiva de um homem justo e crente em Deus, 
incapaz portanto de abusar de sua noiva;
4. que o nascimento extraordinrio de Jesus s se explica por um milagre ou por um atentado que 
os judeus deviam necessariamente supor, visto que reconheciam a elevada moralidade da jovem 
virgem e no admitiam o milagre;
5. que Jesus foi perseguido pela Sinagoga por causa do mistrio de seu nascimento, e mais ainda 
por causa da superioridade de sua doutrina;
6. que essa doutrina supunha a iniciao nos segredos da mais alta teologia dos hebreus, 
conforme, em muitos pontos,  filosofia transcendente dos iniciados egpcios;
7. que ele realizava coisas prodigiosas, curando os doentes, ressuscitando os mortos e 
adivinhando coisas ocultas;
8. que s se pde conden-lo e faz-lo morrer por traio;
9. que seu corpo no foi encontrado quando seus discpulos declararam que ele havia 
ressuscitado.
No podemos, racionalmente, perguntar mais sobre esse assunto aos doutores hebreus adversrios 
de Jesus Cristo. As asseres do Talmude e do Sepher Toldos Jeschu esto repetidas no Nizzachon 
vetus, ou antigo livro da Vitria, na Controvrsia do rabino Jechiel e em outras compilaes 
rabnicas. O Sepher Toldos, ao qual os judeus atribuem grande antigidade e que ocultam dos 
cristos com precaues to grandes, que esse livro durante muito tempo no foi encontrado,  
citado pela primeira vez por Raymond Martin, da ordem dos Irmos Pregadores, quase no final do 
sculo XIII. Porchetus Salvaticus, pouco tempo depois, publicou alguns fragmentos dos quais 
Lutero se serviu e que se encontram no VIII tomo de suas obras, edio da Ina; mas no se 
possua ainda o texto hebraico. Esse texto, encontrado finalmente por Munster e por Buxtorf, foi 
publicado em 1681 por Christophe Wagenseilius em Nuremberg, e em Frankfurt, numa coleo 
intitulada Tela ignea Satanoe, as flechas ardentes de Sat. Esse livro foi evidentemente escrito 
por um rabino iniciado nos mistrios da Cabala; est escrito por dentro e por fora - para nos 
servimos de uma expresso de So Joo, o grande iniciado cristo -, isto , apresenta um sentido 
oculto e um sentido vulgar. Os contos absurdos dos quais est impregnado so parbolas que o 
autor quer opor quelas do Evangelho. Censuram aqui duas coisas em Jesus Cristo: 1. o fato de 
ter surpreendido ou adivinhado os mistrios do templo; 2. t-los profanado dizendo-os ao vulgo, 
que os desfigurou e compreendeu mal. No podendo retirar a pedra cbica do templo, ele fabricou, 
segundo o autor do Sepher Toldos, uma pedra de argila que havia mostrado s naes como sendo a 
verdadeira pedra cbica de Israel. Juntamos a esse fato a confisso que So Paulo deixa escapar 
em uma de suas epstolas: Somente a natureza podia revelar Deus aos homens, e eles so 
imperdoveis por no o compreender. Mas j que, com efeito, no chegaram a Deus pela sabedoria, 
foi preciso salv-los pela loucura, e perguntar  f o que no se obtinha pela cincia. Quoniam 
non cognovissent per sapientiam Deum, placuit per stultitiam proedicationis salvos facere 
credentes.  essa loucura da f que os judeus no querem compreender e que denominam uma pedra 
de argila, como se a f, que  a confiana do amor, no fosse tambm durvel e freqentemente 
mais invencvel que a razo; como se o amor, que  a razo da f, no fosse tambm a razo da 
existncia dos seres submissos s investigaes da cincia. O amor encontra o que a razo 
procura, ele v aquilo que escapa s investigaes da cincia. Quando ela no sabe mais, comea 
a crer, e quando a razo esgotada pra e cai no umbral do infinito, a f abre suas asas, lana-
se, dilacera as nuvens, faz descer  terra a escada luminosa de Jac e sorri docemente 
estendendo a mo  sua irm. Talvez os cristos tenham primeiro glorificado a f de maneira a 
fazer crer que renunciavam  razo;  por isso que, em relao a ns, os judeus transformaram-se 
em severos guardies das tradies antigas e protestam eternamente contra todas as idolatrias. 
So adversrios que nos vigiam, que nos advertem e que reconduziremos um dia ao lhes provar que 
toda dissidncia que os separa de ns repousa sobre um mal-entendido. Encontram-se nos livros 
atribudos a Hermes essas estranhas lamentaes do sbio Trismegisto: Ah, meu filho, um dia vir 
em que os hierglifos sagrados tornar-se-o dolos; tomaro os signos da cincia para os deuses, 
e acusar-se- o grande Egito de ter adorado monstros. Mas aqueles que nos caluniaro dessa forma 
adoraro eles mesmos a morte ao invs da vida, a loucura ao invs da sabedoria; amaldioaro o 
amor e a fecundidade, enchero seus templos de ossadas, esgotaro a juventude na solido e nas 
lgrimas. As virgens sero vivas antes do tempo e extinguir-se-o na tristeza, porque os homens 
tero desprezado e profanado os mistrios sagrados de sis. O que o profeta egpcio anunciava 
antecipadamente, os judeus nos acusam de ter feito. Dizem eles que desprezamos o verdadeiro 
Deus, e adoramos a carne de um enforcado. Rendemos culto a essas relquias da morte que Moiss 
declara imundas. Consagramos nossos padres e nossos religiosos a um celibato que reprova a 
natureza e que condena aquele que disse aos seres: crescei e multiplicar. Quanto  moral de 
nossos evangelhos, confessam que  pura, no reprovam nada em nossos apstolos, e o autor do 
Sepher Toldos Jeschu diz que So Pedro era um servidor do verdadeiro Deus, que vivia na 
austeridade e em penitncia, compondo hinos e morando no alto de uma torre; que pregava a 
misericrdia e a doura, recomendando aos cristos que no maltratassem os judeus. Mas, 
acrescenta o mesmo autor, aps a morte de Cephas, outro doutor veio a Roma; este sustentava que 
So Pedro tinha alterado os ensinamentos do Mestre. Ele misturava um falso judasmo s prticas 
crists, ameaava aqueles que no o obedeciam com um inferno ardente e lodoso; prometia s 
multides um milagre em confirmao de sua doutrina; mas quando ergueu sua cabea contra o cu, 
uma pedra caiu do cu e o esmagou. Assim perecem todos os teus inimigos, Senhor, acrescenta 
finalizando o autor do Sepher, e que todos aqueles que te amam sejam como o sol quando brilha 
com toda a sua fora. Desse modo, segundo os judeus que aceitam o Sepher Toldos Jeschu, no  o 
cristianismo, mas sim o anticristianismo que os rechaa. Ora, o anticristianismo apareceu na 
Igreja, com efeito, desde os primeiros sculos e no tempo mesmo dos apstolos. O anticristo, 
dizia So Joo,  o que divide Jesus Cristo, e ele j est neste mundo. Em outro lugar, esse 
apstolo escreve que no ousa visitar seus fiis, porque um prelado orgulhoso, chamado 
Diotrephes, impede-os de receb-lo. Sabei, dizia So Paulo, que o mistrio da iniqidade j se 
realiza, de sorte que aquele que tem agora ter at a morte, depois se manifestar o filho da 
iniqidade que se eleva acima de tudo que  divino, a ponto de sentar-se no templo de Deus e de 
se mostrar, ele prprio, como Deus, at que o Senhor o destrua pelo esprito de sua palavra e 
pela luz resplandecente de seu segundo advento. Jesus era um verdadeiro profeta e um verdadeiro 
sbio, dizem os muulmanos, mas seus discpulos tornaram-se insensatos e adoraram-no como sendo 
um Deus. No entanto, judeus e mululmanos se enganam; no adoramos Jesus como sendo um Deus 
diferente do prprio Deus. Dizemos como Miguel dos hebreus: Quis ut Deus? Dizemos com os crentes 
do islamismo: No h outro deus alm de Deus; mas esse Deus nico, indivisvel, universal; ns o 
adoramos manifestando a perfeio humana em Jesus Cristo. Acreditamos em uma aliana ntima da 
divindade com a humanidade, da qual resulta, para empregar a linguagem dos telogos, no a 
confuso, mas a comunicao dos idiomas, Deus adotando, para cur-las, as fraquezas da 
humanidade, que ele eleva at ele, com sua fora e seus esplendores. Toda alma dotada do sentido 
interior que adora, todo corao que padece da necessidade de amar at o infinito, sentir que 
nesta concepo sublime, e s nela, o, ideal, religioso se determina e se completa, que todos os 
sonhos dogmticos e simblicos s podem ser a investigao e a produo dessa sntese, ao mesmo 
tempo divina e humana, que Deus em ns e ns em Deus com Jesus Cristo e por Jesus Cristo  a 
paz,  a f,  a esperana,  a caridade sobre a terra,  no cu a eternidade da vida e da 
felicidade. Eis por que nenhuma religio jamais substituir o cristianismo no mundo. O que se 
poderia acrescentar ao infinito? Que idia seria ao mesmo tempo mais grandiosa e mais 
consoladora que a do homem Deus consolidando, pelo seu exemplo, a grande lei da abnegao que 
realiza os sacrifcios, assim consagrando para sempre a aliana e como que a identificao de 
Deus com a humanidade? Os antigos acreditavam que nem toda verdade deve ser dita a todos, ao 
menos no da mesma maneira, e ocultavam a cincia sob o vu da alegoria.  assim que as 
mitologias se formaram. Aqueles que se enfadam dos smbolos mitolgicos devem renunciar  
cincia do velho mundo cujos monumentos so todos mais ou menos mitolgicos. Nosso sculo que, 
contra todas as evidncias, no admite em princpio a desigualdade das inteligncias, detesta a 
mitologia. Procuram-se, agora, fatos histricos e positivos at nas teogonias de Sanchoniaton e 
de Hesodo. O que no se compreende  tratado como absurdo e tolice, e  assim que Renan, 
mutilando e estropiando os textos da lenda evanglica, criou sua pretensa Vida de Jesus. O Jesus 
de Renan, espcie de pastorinho entusiasta e entregue a no sei que onanismo intelectual, meio 
louco e meio impostor, vendendo tudo barato desde que seja adorado, , apesar de toda a doce 
poesia que cerca as reminiscncias verdadeiramente crists do autor, um ser ridculo e odioso. 
No se trata, assim, do verdadeiro Jesus da lenda evanglica. Alis, sendo Renan, segundo dizem, 
um estudioso eminente, versado na lngua hebraica, como pde ignorar ou negligenciar o Sepher 
Toldos Jeshu, as tradies talmudistas e os evangelhos apcrifos?  que o gnio simblico 
causava horror  sua imaginao fria e positiva.  que ele queria agradar aos ignorantes, cuja 
preguia intelectual repele tudo o que exige trabalho para ser compreendido.  que ele precisava 
de fama imediata, e  preciso convir que conseguiu muito bem. Mas, conseguir aguadar no  
conseguir fazer bem. Faa pois, para refutar Renan, alguma coisa que chegue a ser lida como seu 
livro, dizia-nos um grande artista, que nessa circunstncia talvez no fosse um grande crtico. 
No podemos, em nome da cincia, aceitar esse desafio. Dizendo a verdade no chegaremos a ser 
lidos to universalmente, nem to avidamente e de imediato, mas chegaremos a ser lidos por 
leitores mais eminentes e por mais tempo. O Evangelho  um livro simblico, o que no prova que 
Jesus no tenha existido. Rousseau dizia que o inventor de uma histria semelhante seria mais 
extraordinrio que o heri. Aceitamos plenamente esse argumento. Jesus  suficientemente grande 
quanto  inteligncia e quanto ao corao para criar essa admirvel lenda,  superior quele que 
adora estupidamente, ou que nega mais estupidamente ainda o vulgo; ele  verdadeiramente a 
encarnao sempre viva do Verbo de verdade, e ns o saudamos Filho de Deus, em todo o resplendor 
e em toda a energia do termo. At o presente s se viu do Evangelho a letra que mata e a casca 
que seca; iremos revelar o esprito e a vida, Minhas palavras, dizia Jesus, so esprito e vida, 
e, para compreend-las, a matria e a carne de nada servem. Mas, para explicar esse texto 
sagrado, quais so nossas autoridades? A cincia e a razo.
- Mas a f o explicou de outro modo.
- A f cega, sim; a f esclarecida, no.
- Mas s Deus pode esclarecer a f.
- Sim, pela razo e pela cincia, que so tambm filhas de Deus.
Dito isso, comecemos nosso estudo.
Cristo quer dizer ungido ou sagrado; isto , sacerdote e rei.
O cristianismo  a religio hierrquica das almas e a monarquia da mais perfeita devoo.
O cristianismo primitivo dos apstolos de Jesus era uma doutrina secreta que tinha seus signos, 
seus smbolos e seus diferentes graus de iniciao. Para os santos ou eleitos, o dogma cristo 
era uma sabedoria elevada e profunda; para os simples catecmenos, era uma maravilhosa e obscura 
revelao. Sabemos que o Mestre sempre se exprimia s por parbolas e ocultava a verdade sob o 
vu transparente das imagens, a fim de proteger a nova cincia contra as blasfmias da 
ignorncia e as profanaes da maldade: No atirai vossas prolas aos porcos, dizia ele a seus 
discpulos, para que eles no as pisoteiem, e para que, voltando-se contra vs, no vos devorem. 
Jesus tambm no deixou nada por escrito, mas legou a seus apstolos suas tradies e seu mtodo 
de ensino. Ora, eis qual era o fundamento do dogma cristo:A inteligncia  eterna; ela se 
expande porque  viva. A vida da inteligncia, sua expanso,  a palavra, o Verbo; o Verbo  
pois eterno como a inteligncia, e o que  eterno  Deus. O Verbo manifesta-se pela ao 
criadora que produz a forma, ele se reveste da forma humana, e a carne torna-se a vestimenta do 
Verbo; havia o Verbo mesmo quando no existia a expresso exata: assim o Verbo se fez carne. O 
Verbo perfeito  a unidade divina expressa na vida humana. O homem verdadeiro  nosso Senhor, o 
chefe do qual todos os fiis so os membros. A humanidade, constituda por uma escala 
hierrquica e progressiva, tem por chefe aquele que  Deus, porque ele  ao mesmo tempo o melhor 
dos homens, aquele que morreu pelos outros a fim de reviver em todos. Somos todos, pois, um 
mesmo corpo cuja alma deve ser a de Jesus Cristo, nosso prottipo e nosso modelo, o Verbo feito 
carne, o Homem-Deus. Tudo, portanto, deve em princpio ser comum entre ns, como entre os 
membros de um mesmo corpo; mas, de fato, cada membro deve se contentar com o lugar que ocupa, e 
a ordem hierrquica  sagrada como a vontade de Deus. Cristo, revelando a lei da unidade, que  
a lei do amor, armou o esprito de fora para vencer o egosmo da carne, que  a diviso e a 
morte, instituiu um signo chamado Comunho, para op-lo ao egosmo, que  o esprito de diviso 
e de separao. Ora, a comunho no era outra coisa seno a caridade representada por uma mesa 
comum, e como Cristo havia destinado sua carne  dor e  morte para legar a seus fiis o po 
fraterno ao qual ligava, no futuro, seu pensamento perseverante e sua nova vida, dizia-lhes: 
Comei todos, esta  minha carne! Tambm dizia do vinho da fraternidade: Bebei todos, este  meu 
sangue, porque eu o derramei inteiramente para vos assegurar para sempre a realidade desse 
signo. A comunho era, pois, a fraternidade divina e humana, e por conseguinte tambm a 
liberdade; pois onde pode estar o opressor entre irmos cujo pai  o prprio Deus? O 
cristianismo era, portanto, a mudana mais radical e vinha subverter o velho mundo. Isso basta 
para explicar a necessidade dos mistrios, porque o mundo h mil e oitocentos anos devia estar 
ainda menos disposto do que hoje a se deixar destruir: ele tinha mais tempo para viver. Todavia, 
o Cristo no queria concluir revolues seno pela fora moral, sabendo bem que s existe essa 
fora que no  cega: ele havia plantado o gro da mostardeira, e dizia a seus discpulos para 
esperar a rvore; havia ocultado o fermento na massa e queria que a deixassem fermentar. A vida 
do Cristo estava toda em sua doutrina, e, sobretudo para seus discpulos, sua existncia devia 
ser inteiramente moral. O que dizia, fazia-o no domnio do esprito;  por que os livros 
evanglicos contm o dogma e a moral em parbolas, e freqentemente o prprio Mestre  o sujeito 
das narraes alegricas de seus apstolos. Temos que procurar as provas disso somente nos 
evangelhos apcrifos, pois razes de alta convenincia nos impedem de abordar os evangelhos 
consagrados. No aprovamos nem condenamos, todavia, os trabalhos do doutor Strauss, pois no 
somos juzes de Israel. Comecemos pela narrao de algumas lendas extradas desses livros 
antigos muito pouco estudados em nossos dias.
PRIMEIRA LENDA
Como uma mulher chorava por no ser me e como teve uma filha que se tornou a me de Deus. Havia 
uma mulher chamada Hannah que era estril porque seu esposo tinha-se afastado dela. Essa mulher 
estava, pois, triste e desolada, como a Sinagoga quando aguardava o Messias. Veio o tempo das 
novas pscoas e ela no ousava vestir suas roupas de festa, porque no era me e suas prprias 
criadas a censuravam por ser estril. Ela se foi, ento, e deixou-se cair sob um loureiro. Era 
no tempo em que Roma acabava de dominar o mundo. E sobre os galhos desse loureiro ela viu um 
ninho de pardais e chorou amargamente, repetindo: No sou me. Ento o Esprito do Senhor lhe 
falou e lhe disse: Estou tocado pela tua dor, e te devolverei teu esposo; Porque meu ouvido est 
sempre inclinado em direo aos lbios daqueles que choram. Tu dizes: No coloquei um homem no 
mundo, e eu te prometo alguma coisa mais feliz: porque tu gerars a mulher sem pecado; Aquela a 
quem direi, pela boca da humanidade: s minha me! A Sinagoga gerar a Igreja de onde sair o 
princpio da associao catlica; a escravido engendrar a liberdade; a mulher escrava colocar 
no mundo a mulher pura e livre. Com essas palavras, Hannah sentiu suas lgrimas secarem: 
levantou-se e correu, porque pressentia que seu esposo no estava longe. Ela o encontrou, quando 
ele conduzia seu rebanho e voltava dos campos dizendo: Dormirei esta noite em minha casa. E ela 
o abraou e em seguida lhe disse: Amanh deixarei de ser estril. E tudo lhe aconteceu conforme 
ela havia acreditado, e cumprido o termo tornou-se me. Mas suas companheiras, que a 
felicitaram, disseram-lhe, como que para amainar sua alegria:  apenas uma menina. Que seja 
chamada Maria, respondeu Hannah, e que o mundo espere, porque minha filha ter um filho: Maria 
ser me de Deus. Suas companheiras no compreenderam o que ela queria dizer, mas envolveram a 
criana em roupas brancas e colocaram-na em seu bero novo, admirando o quanto era bela. Quando 
a pequena Maria tinha trs anos seus pais levaram-na ao templo, e, como eles a haviam colocado 
no cho, ela subiu sozinha os degraus do altar. Assim, numa idade to tenra, sua religio j foi 
livre e suas crenas no lhe foram impostas. Ela ficou no templo at a idade de catorze anos e 
tomou-se de amor pela beleza eterna.  por isso que disse: Sou a serva do Senhor.  por isso que 
jamais foi serva de um homem. O esprito de amor ento no havia ainda descido sobre a Terra, a 
gerao era vista como uma mcula. O homem era filho da carne, o cristianismo no o havia feito 
ainda filho de Deus.
SEGUNDA LENDA
Como Deus ordenou que um velho companheiro carpinteiro esposasse uma virgem de sangue real. 
Havia, na tribo de Jud, um bom velho chamado Jos, carpinteiro de profisso, homem vivo, e pai 
de muitos filhos, muito trabalhador, ainda que de habilidade medocre, simples em seus 
pensamentos, mas justo em seus julgamentos, o que lhe havia dado o apelido de Justo, o 
verdadeiro modelo do homem do povo, o tipo do verdadeiro proletrio. A ele deveria ser confiada 
a Virgem, porque o povo pobre sabe o que custa a famlia e compreende melhor que ningum a 
santidade do lar, a pureza da jovem, e a dignidade da me. Jos, pois, tendo ouvido tocar os 
clarins do Templo, que anunciavam o dcimo-quarto ano aps o nascimento de Maria, deixou seu 
machado e foi a Jerusalm. L, encontravam-se jovens de todas as tribos, que desejavam a beleza 
de Maria; todos sonhavam com o prazer que teriam em possu-la; Jos pensava na felicidade de ser 
seu amigo e de trabalhar para nutri-la, deixando-a dona de si mesma. O sumo sacerdote disse aos 
jovens: Pegai na mo bastes, e aquele cujo basto florescer e sobre a cabea do qual a pomba 
pousar, aquele ser o esposo de Maria. Mas, quando Maria olhou, no viu florido o basto de 
nenhum de seus pretendentes que queriam tornar-se seus donos, e a pomba no encontrou em quem 
pousar. Chamaram ento, por escrnio, o velho Jos, que se mantinha afastado, e ele teve o 
basto florido. Ento a pomba pousou e Maria lhe estendeu a mo. Jos lhe disse: - Como o Senhor 
escolheu-me para ser seu esposo? pois sou velho e tenho filhos grandes. Maria lhe disse: - s 
justo e no oprimirs a virgem que Deus te confia. Prometi a Deus que no seria escrava de um 
homem; sirva-me de pai. Porque todos esses jovens que esto aqui me desejaram sem me amar, e no 
consentirei jamais no ultraje de seus desejos. Jos lhe disse: - Que assim seja, e a levou para 
sua casa em Nazar, onde a deixou, e voltou a trabalhar em Capharnam. Ora, Maria era de estirpe 
real e sacerdotal e levou como dote, ao trabalhador Jos, a hereditariedade da realeza e do 
sacerdcio. Assim, por ter compreendido a dignidade da Virgem, e ter sido feito o seu protetor, 
o simples trabalhador tornou-se sacerdote e rei, e o mundo trocou de donos. Porque Maria no 
havia escolhido, para seu guardio, nem um sacerdote, nem um rei, mas um pobre velho carpinteiro 
chamado Jos, e isso porque ele era justo. E foi a o incio desse reino de justia, que, apesar 
de todos os esforos dos maus, finalmente se estabelecer sobre a terra. 
TERCEIRA LENDA
Como a virgem tornou-se me sem pecado, e das ansiedades de Jos. Naquele tempo, tendo Maria 
sado para tirar gua, um jovem de grande beleza abordou-a perto da fonte e lhe disse: Eu te 
sado, cheia de graa. Maria perturbou-se e voltou precipitadamente para casa, mas l 
reencontrou o mesmo jovem que a saudou dizendo-lhe outra vez: No temas nada, sou um anjo do 
Senhor,  ele quem me envia a ti. O que mais ele lhe disse encontra-se narrado nos Evangelhos, 
onde se v que esse jovem era o anjo Gabriel. Mas os judeus, na sua malcia, pretendiam que 
fosse um soldado chamado Panther, e que, durante muitos dias, voltava para ver Maria em sua 
casa. Seis meses aps, Jos voltou a Nazar e ficou consternado vendo que a virgem estava 
grvida. Ele lhe perguntou como pudera isso acontecer, e ela respondeu chorando: No faltei com 
minhas promessas e no sou infiel nem diante de Deus nem diante de vs. Jos bem sabia que no a 
tinha tocado e no se atribua nenhum direito sobre ela, visto que ela o havia escolhido somente 
para seu amigo e seu guardio. Entretanto ele ficou com o corao triste e no mais a 
interrogou, mas pensava em mand-la embora. Uma noite, quando adormecera com esse pensamento, 
uma mo o tocou e uma voz lhe falou. Abrindo bem os olhos, viu diante de si o mesmo anjo que 
havia aparecido a Maria. Pai Jos, disse-lhe, tu prometeste proteger Maria; por que queres 
abandon-la quando ela mais tem necessidade de cuidados de um pai e de um amigo? Ela no te 
pertence, s tu que pertences a ela; por que queres abandon-la? Prometeste respeitar os 
segredos de seu pudor; tu a deixaste virgem e tu a reencontras prestes a tornar-se me. Honra-a 
sempre como a uma virgem e protege-a como a uma me. Por que condenas a criana cujo pai no 
conheces? No sabes que sempre o pai de uma criana  Deus? Ama-a pois por causa de Maria que 
est confiada a ti, e guarda-a em considerao a Deus, seu pai. Dessa forma ocultars de todos a 
maldade dos homens, e tua casa ser abenoada. Jos meditou sobre essas palavras durante o resto 
da noite, e, ao amanhecer, foi encontrar Maria e lhe disse: Perdoa-me por te fazer chorar, eu 
que sou teu pai; sou teu amigo e te fiz chorar. Pensava em te mandar embora quando te tornasses 
me, e quem pois te receberia se teu velho Jos te abandonasse? Guarda esse segredo que  de 
Deus; eu protegerei teu filho que  tambm filho de Deus e do qual terei a honra de cuidar como 
se fosse meu. Maria respondeu-lhe: Bendito sejas, porque a verdade eterna falou em teu corao. 
Poderias me desonrar, e no o fizeste. Por isso teu nome ser venervel. E quando as geraes do 
futuro me chamarem de Maria, a bem-aventurada, a ti chamaro Jos, o justo. E o filho de Deus te 
chamar de pai, porque tu te pareces com Deus, que  justo e bom, e ele te assistir em teu 
ltimo dia, porque ters sido o fiel guardio de seu nascimento. 
QUARTA LENDA
Por que Maria ria e chorava ao voltar a Belm, e de suas duas parteiras, Zelomi e Salom. Aps o 
ocorrido, Jos foi obrigado a voltar a Belm com Maria para obedecer ao decreto de Csar 
Augusto. E, quando estavam a caminho, Jos, olhando Maria que estava sentada sobre seu asno, viu 
que ela chorava e lhe disse: Por que choras? Maria lhe disse: Vejo um grande povo que chora, e 
meu filho se atormenta em minhas entranhas. Porque esto l, deitados sobre a terra nua, como 
ovelhas magras e tosquiadas at a pele, e, por pastores, eles tm carniceiros. Jos olhou a seu 
redor e no viu ningum. Pensou que Maria estivesse sofrendo por causa de seu estado de avanada 
gravidez. Depois de um instante observou-a mais uma vez e a viu sorrir, embora seus olhos 
estivessem ainda midos de lgrimas. - Ento agora sorris? perguntou-lhe. - Sim, respondeu 
Maria, porque vejo uma multido que est em alegria porque meu filho veio romper seus grilhes. 
- Fica tranqila, disse Jos com bondade, espero que cheguemos logo, e poders repousar; no te 
canses com devaneios e palavras inteis. Ento um anjo se apresentou e disse a Jos: Por que 
chamas de inteis as palavras que no compreendes? Faze descer Maria porque o tempo urge, e  
aqui que ela deve dar  luz, e lhe mostrava com o dedo a entrada de uma caverna. Maria entrou 
ento na caverna, que se encheu de luz quando, sozinha e sem dores, ps seu filho no mundo. 
Entretanto, Jos havia sado para procurar socorro, e trouxe consigo duas parteiras, a primeira 
chamada Zelomi e a segunda, Salom, e lhes disse: Uma virgem vai dar  luz, e continua virgem. 
Zelomi viu a luz celeste e acreditou na palavra de Jos, porque compreendeu que ele havia falado 
conforme o Esprito do Senhor. Mas Salom ficou incrdula, e porque quisera tocar Maria, sua mo 
e seu corao secaram. Maria ento teve piedade dela e lhe disse: -  assim que a v curiosidade 
seca aqueles que querem julgar as coisas do esprito pelo testemunho dos sentidos. Zelomi 
representa a f e tu representas a razo; ela sabe porque cr; e tu ignoras porque duvidas; ela 
 s e diligente, e tu, eis que ests doente e paralisada; mas se abraares meu filho ficars 
curada, porque te tornars como ele se consentires em am-lo. Salom acreditou na palavra da 
me; prosternou-se diante da criana, tomou-a nos braos e embalou-a docemente, abraando-a com 
respeito. Ento ela se sentiu curada, e uniu-se a Zelomi, a servio de Maria e de Jesus. Jesus, 
em seguida, foi levado a um estbulo e deitado numa manjedoura, como se l no livro dos 
Evangelhos, e os pastores pobres dos campos vizinhos vieram saudar essa criana do novo povo, 
cujo nascimento j fazia tremer os reis do velho mundo.
QUINTA LENDA
Como o filho do carpinteiro suavizava o dio das serpentes. Naquele tempo o rei Herodes, tendo 
medo do filho do pobre trabalhador, fez massacrar todas as crianas de Belm. Porque o egosmo 
usurpador da terra no quer que haja lugar para todo mundo, e colocou a morte como sentinela nas 
portas da vida. Jos ento foi forado a fugir com Maria e seu filho. Ora, como eles estavam nos 
limites da Judia, sentaram-se  sombra, prximos de uma caverna perto da qual brincavam algumas 
crianas. Imediatamente duas enormes serpentes saram sibilando da caverna, e as crianas 
fugiram gritando. Mas o menino Jesus fez um sinal, e as serpentes pararam diante dele como que 
para ador-lo, e vieram se arrastando lentamente, como se aos poucos se fossem amansando, at 
colocar suas cabeas aos ps da me do menino. Jos queria ento bater nelas com seu basto. Mas 
Maria o impediu, dizendo-lhe: Deixa-as viver, porque seu veneno transformou-se em doura, e j 
que deixaram de prejudicar, no tens mais o direito de mat-las. Est escrito a meu respeito que 
a mulher esmagar a cabea da serpente, mas se a serpente pudesse deixar de ser m, de envenenar 
com suas mordidas, por que no teria piedade delas como de outros seres vivos? I Deus no criou 
nada intil, e quando todas as criaturas estiverem na ordem que lhes foi destinada, deixaro de 
prejudicar umas s outras. No est escrito que os prprios drages e as serpentes da terra 
devem louvar a Deus? No destruas, mas instrui e dirige os seres vivos. As crianas que antes 
haviam fugido, vendo que as serpentes no faziam mal a Jesus e a Maria, retomaram e acabaram at 
por se animar a brincar com os rpteis, e as serpentes brincavam com elas sem toc-las e sem 
irrit-las, porque s com o olhar de seus olhos to doces e com um gesto de sua mo to terna, 
Jesus as havia desarmado de todo o seu veneno e de toda a sua clera.
SEXTA LENDA
Do grande e maravilhoso rebanho que se reuniu em torno da criana da manjedoura. Quando Jesus, 
nos braos de sua me, atravessava o deserto para ir ao Egito, os tigres e os lees saram de 
seus antros e os seguiram, as panteras deitavam-se aos ps de Maria para lhe servir de almofada 
quando ela descansava; os unicrnios escavavam a terra para fazer brotar fontes; os leviats lhe 
emprestavam sua sombra; os cervos e as gazelas misturavam-se sem temer os lees e os tigres; 
porque Jesus vinha dar a paz ao mundo e espalhar sua doura por toda a natureza. Esse rebanho 
inumervel de todos os animais da terra, smbolos de todas as paixes humanas, caminhava em 
torno da divina me, e uma criana os conduzia. 
STIMA LENDA
A palmeira do deserto. Eles chegaram num deserto onde no havia nem animais vivos, nem 
mananciais, nem fontes, e como l procurassem sombra, s encontraram uma nica palmeira. Maria 
desceu de sua montaria e veio sentar-se  sombra dessa palmeira, e vendo que ela estava 
carregada de frutos disse a Jos: - Gostaria de saborear essas frutas, pois o calor  demais. 
Jos lhe respondeu: - A rvore  muito alta e j no sou jovem. Jesus disse ento  palmeira: 
Inclina-te e apresenta teus frutos a minha me. A palmeira ento inclinou-se e veio apresentar 
seus frutos  mo de Maria, que ao colh-los ofereceu-os a Jesus e a Jos. Em seguida, como ela 
continuasse curvada sobre seu tronco e inclinada, Jesus disse-lhe: Ergue-te! E a palmeira se 
ergueu. Jesus disse-lhe: - D-nos gua da nascente oculta que alimenta tuas razes. E 
imediatamente, de dentro das razes da palmeira, uma fonte lmpida jorrou. E Jesus disse ainda  
palmeira: - Tu no morrers e frutificars novamente no jardim de meu pai. Porque todas as 
criaturas foram dadas aos homens para seu uso, e eles devem submeter toda a natureza pelo 
trabalho; ento diro s montanhas: Aplanai-vos, e as montanhas se aplanaro; e s rvores: Dai-
nos vossos frutos, e as rvores se inclinaro; e s fontes: Subi e jorrai da terra, e as fontes 
subiro e jorraro; e os filhos da mulher consolaro sua me e lhe diro: Descansa e te 
refresca, porque  para te servir que a natureza nos obedece. Um anjo ento apareceu no cimo da 
palmeira; apanhou um galho e retomou seu vo em direo ao cu para replantar a palmeira do 
deserto nos campos do futuro, que ser o reino de Deus. Essa terra, onde o gnio da fraternidade 
completar os milagres do trabalho, onde a me no mais ser escrava de seus filhos, onde os 
justos no mais sero exilados, onde a verdade ter uma ptria; A terra ento no mais ser uma 
madrasta, porque ser livre, e um antagonismo mpio no mais a forar a ser estril. O homem 
ento dispor da onipotncia de Deus, e falar  natureza e a natureza obedecer.  o que quis 
dizer Tiago, o Menor, apstolo do santo Evangelho, com essa lenda da palmeira. 
OITAVA LENDA
Os trs malfeitores.
Escrevemos mais longamente essa lenda: eis em toda a sua simplicidade, tal como a encontramos 
nos evangelhos da Santa-Infncia. A santa famlia do Salvador, proscrita por Herodes, encontrou 
dois ladres no deserto. Esses ladres chamavam-se, segundo alguns, Titus e Dumachus, e, segundo 
outros, Dismas e Gestas; seguimos os costumes dos hebreus denominando-os, em nossa lenda, 
Johanan e Oreb, isto , o Misericordioso e o Homem de sangue. Um deles, Oreb, queria degolar a 
santa famlia. Mas Johanan se ops e, servindo ele prprio de guia aos trs viajantes, deu-lhes 
hospedagem em sua caverna. Ora, Deus lembrou-se da misericrdia e da hospitalidade do ladro: 
Jesus, na cruz, perdoou-lhe todos os pecados e prometeu dar a ele, por sua vez, hospedagem no 
cu no mesmo dia. Assim os fariseus deveriam um dia crucificar trs malfeitores, e entre esses 
trs deveriam encontrar o justo por excelncia e o culpado arrependido. Para que se saiba que a 
justia dos homens ser apenas um aoite que bater para punir e no para curar, que todo 
pecador que coopera com uma sentena de morte talvez aceite a responsabilidade do deicdio. Vs 
todos que estais sem dvida isentos de pecado, visto que ousais atirar a primeira pedra no 
culpado, lembrai-vos dos trs malfeitores e acautelai-vos para no bater no meio ou  direita, 
quando quiserdes bater  esquerda!
NONA LENDA
Como, na chegada do Salvador ao Egito, caram os dolos de ouro e de prata, e os seres 
depravados morreram. Est escrito nos evangelhos da Infncia e nas crnicas antigas que ao 
nascer o Salvador muitos milagres se realizaram. Assim, primeiramente, os orculos calaram-se em 
Delfos e por toda a terra, o que significava que as antigas religies j tinham tido seu tempo e 
que tendo o Verbo divino penetrado mais profundamente na humanidade e estando ele resumido em 
Jesus, os antigos orculos nada mais tinham a dizer, a no ser para lhe render testemunho, como 
ocorreu no Egito e em outros lugares. O segundo milagre simblico da chegada do Salvador foi a 
morte de todos os seres depravados que ultrajavam a natureza desviando-a de seus desejos; isso 
deve ser entendido apenas no sentido moral, porque a pureza e a castidade acabavam de revelar-se 
ao mundo e reabilitar a gerao humana. Acrescenta-se tambm que todas as guas amargas 
tornaram-se doces e potveis, para fazer entender que a doutrina de fraternidade deveria adoar 
todos os pensamentos e servir como que de refrigrio s almas fatigadas de dio e de clera. Os 
velhos evangelistas dizem ainda que Jesus, quando seus pais se levantaram de sob a palmeira 
milagrosa da lenda precedente, abreviou-lhes o resto da viagem, e eles se encontraram s portas 
de Mnfis; ento todos os dolos do Egito caram prosternados, e a esttua de sis, deixando 
escapar de seus braos a imagem de Horus, desceu de seu pedestal. Todas essas imagens poticas 
so fceis de compreender. A doutrina do Cristo abrevia, para a humanidade, o longo tempo do 
exlio, os cultos terminam desde que so substitudos por um culto mais perfeito e as imagens 
confusas cedem lugar s imagens mais exatas, como essas ltimas cedero lugar, finalmente,  
realidade.
DCIMA LENDA
Como, quando Jesus voltava do Egito, os prisioneiros romperam suas algemas. As verdades 
nascentes no encontram asilo seguro em lugar nenhum. Jesus tinha que deixar a Judia para 
escapar s suspeitas homicidas de Herodes, e eis que o ressentimento dos sacerdotes ia persegui-
lo no Egito. Jos ficou sabendo que Herodes estava morto e partiu com Maria e seu filho para 
voltar a Nazar. L-se, no captulo dcimo terceiro do evangelho da Infncia, um dos mais 
antigos entre os evangelhos apcrifos, que a santa famlia, na volta do Egito, passou perto de 
uma caverna onde ladres mantinham presos seus cativos. Com a aproximao da santa criana os 
ladres acreditaram ouvir o barulho de um grande exrcito e os clarins dos arautos que 
anunciavam a aproximao de um grande rei; ento fugiram aterrorizados. Os cativos, ficando ss, 
quebraram as algemas uns dos outros e recuperaram tudo o que lhes havia sido roubado; e saindo 
para ir ao encontro do grande rei e de seu exrcito, viram apenas uma criana, uma jovem mulher 
e um velho, e lhes perguntaram: Afinal onde est o grande rei que aterrorizou nossos inimigos e 
nos fez quebrar nossas algemas? - Ele vem depois de ns, respondeu Jos. Com efeito, a idia 
crist aterroriza os ladres do velho mundo. No os expulsamos mais, eles fogem diante da luz do 
cristianismo que avana e os pobres prisioneiros quebram mutuamente suas algemas. O grande rei e 
o grande exrcito que os ladres ouviram  o povo justo cujo reino deve chegar aps o do 
cristianismo simblico, e  por isso que Jos dizia: Ele vir depois de ns.  estranho 
encontrar tais idias em lendas to antigas. Mas sabemos que, na humanidade, o sentimento 
precede sempre a concepo e  por esse motivo que a religio se formula antes da filosofia. As 
fbulas precedem os dogmas, aos dogmas sucedem os princpios, e  sempre a mesma verdade que 
germina, floresce e frutifica, e se desenvolve sucessivamente sob a influncia de suas 
diferentes estaes.
DCIMA-PRIMEIRA LENDA
Os aplogos da santa infncia.
I
Jesus e os passarinhos. Certo dia, o menino Jesus estava brincando com outras crianas; faziam 
passarinhos de argila, e cada um preferia a sua obra  dos outros. Mas Jesus, tendo abenoado os 
passarinhos que acabava de fazer, disse-lhes: Vo! e eles voaram. Acontece o mesmo com os 
sistemas religiosos nas pocas de dvida: cada um prefere o seu, mas o melhor ser aquele que 
viver.
II
Jesus e a criana cada. Em outra ocasio, Jesus estava brincando num terrao com crianas de 
sua idade. Uma delas caiu do alto desse terrao e morreu. Vendo isso, todas as outras crianas 
fugiram, exceto Jesus. Ento os pais da criana morta acorreram aos gritos, acusando Jesus de 
t-la jogado. Jesus, sem dar ateno s palavras deles, desceu tranqilamente, pegou a criana 
pela mo e a ressuscitou.  desse modo que se acusa a idia crist dos males que ela vem 
reparar.
III
Jesus e o gro de trigo. Certo dia, o menino Jesus pegou um gro de trigo e, abenoando-o, 
colocou-o na terra. Esse gro germinou e produziu, s ele, o trigo para alimentar todos os 
pobres do pas, e Jos ainda ficou com o resto. Essa lenda, restituda por Toms, o Israelita, 
parece ser a primeira idia do milagre alegrico da multiplicao dos pes. O gro que Jesus 
semeou  esta palavra: Vs sois irmos, associai-vos. A associao centuplicar os recursos da 
humanidade e se pode dizer, na verdade, que o po se multiplicar.
DCIMA-SEGUNDA LENDA
A morte do carpinteiro Jos. Quando chegou o tempo em que o bom velho Jos deveria descansar, 
suas faculdades se debilitaram, sua memria obscureceu e sua inteligncia diminuiu. Maria cuidou 
dele com ternura e pacincia, como havia cuidado de seu filho. Chegou o momento da agonia e Jos 
comeou a se atormentar dizendo: Ai, ai de mim! porque pequei durante minha longa vida, e que 
ser de minha pobre alma se Deus julg-la com rigor? Os terrores do inferno me perseguem. Ai de 
mim, porque trabalhei bastante durante minha vida e minha morte est cheia de medo. Jesus, 
ento, aproximou-se do leito do doente e lhe disse: Jos, meu pai, homem justo e laborioso, 
repousa em paz. O inferno do pobre trabalhador  na terra, e como Deus poderia, aps uma vida 
to penosa e laboriosa, atorment-lo ainda aps a morte? Em seguida, levantando os olhos, Jesus 
viu aproximar-se os fantasmas da noite eterna, os esqueletos com olhos ardentes, os demnios 
horrveis com os membros peludos e monstruosos, as larvas gementes e plidas, os grifos negros 
com asas de morcegos e o inferno inteiro se movendo sobre ondas de sombras espessas como a 
baleia de Jonas e com uma imensa boca aberta, como que para engolir o mundo. Jesus soprou essas 
hediondas quimeras e elas se evaporaram como a lembrana de um sonho. E Jos s viu perto dele 
Jesus e Maria, que sustentavam sua cabea entre as mos e enxugavam o suor frio de sua fronte, 
enquanto o anjo da morte tocava seus olhos com um ramo de lis, cujo perfume parecia espalhar por 
todos os seus traos o repouso e o sorriso eternos. Os anjos da f, da esperana e da caridade 
receberam sua alma e seu corpo voltou  terra. Mas Jesus ordenou que ele fosse preservado da 
corrupo, porque, disse ele, sua morte  apenas um sono,  espera de que o reino dos maus tenha 
passado. Ento vir meu reino, o da justia e da fraternidade, e lembrar-me-ei de meu pai, o 
velho e corajoso trabalhador. Eu o acordarei de seu sono de morte e ele vir sentar-se junto a 
mim no banquete da comunho universal. Que o sepulcro lhe seja, pois, como a crislida para o 
inseto laborioso que fia seu sudrio e espera uma outra vida mais livre e mais brilhante. Dorme 
Jos, dorme pobre trabalhador! Quando despertares, sers herdeiro do cu e, pelo trabalho, 
poders conquistar o mundo.
DCIMA-TERCEIRA LENDA
O sermo na montanha.
Depois de Jesus ter repelido numa viso todas as coroas da Terra que lhe eram oferecidas pelo 
gnio do mal, a quem elas pertenciam, e que lhe propunha comprar a tirania ao preo de 
escravido, como estava na lei do velho mundo; Depois de ter dominado a fome, o orgulho e a 
ambio do poder, Jesus, o conquistador pacfico, subiu a montanha, e, cercado de pastores e 
pecadores, comeou seu primeiro discurso: Bem-aventurados aqueles que so pobres de esprito, 
porque a eles pertence o reino dos cus! Isso queria dizer: Infelizes os escravos da riqueza 
egosta, porque s acumularo a misria eterna! Bem-aventurados aqueles que so dceis, porque 
possuiro a terra!  como se dissesse: Infelizes os que querem reinar sobre a terra pela 
violncia, porque o poder lhes escapar! Bem-aventurados aqueles que choram, porque sero 
consolados! Bem-aventurados aqueles que tm fome e sede de justia, porque sero saciados. 
Pobres e deserdados, esperai pois! o cristianismo vos abre a porta de um futuro feliz. Bem-
aventurados os misericordiosos, porque obtero a misericrdia! Compreendemos que a frase acima 
quer dizer tambm: Infelizes os homens sem piedade, porque no haver piedade para eles! Bem-
aventurados aqueles que tm o corao puro, porque vero Deus! Deus  a verdade e a justia. 
Bem-aventurados os pacficos, porque sero chamados de filhos de Deus! Um de nossos poetas 
disse: o amor  mais forte do que a guerra. A fora bruta passar e se consumir, mas a razo 
calma e senhora de si mesma triunfar e ter sempre um novo poder! Bem-aventurados aqueles que 
sofrem perseguio pela justia, porque a eles pertence o reino do cu!  perdoando que os 
mrtires provam sua realeza. Quem persegue, abdica, e quem sofre, resiste. Resistir  poder, e 
poder  reinar. No vim para destruir, mas para realizar, dizia ainda o filho do carpinteiro, 
declarando-se assim o iniciador do progresso. O que dizia ento ao judasmo podemos diz-lo ao 
catolicismo, ns, os homens do progresso religioso; ns, seus discpulos e continuadores de sua 
obra! Se vossa justia, dizia ele, no  mais rica que a dos escribas e fariseus, no entrareis 
no reino dos cus, e podemos dizer: Se no sois melhores e mais justos que os mais ardentes do 
velho mundo e da Idade Mdia, no entrareis na associao universal do cristianismo realizado. 
Cristo disse: Aquele que injuriar seu irmo merecer condenao; e ns dizemos: Aquele que no 
cuidar de seu irmo e que tratar como estranho um s membro da famlia humana, merecer ser 
renegado pela famlia e ter lugar no julgamento dos fratricidas. Cristo disse: Perdoai sempre, 
e ns dizemos: No vos ofendais mesmo com o mal que vos possam fazer. Os maus so doentes, 
tratai-os e no vos irriteis contra eles. Ele disse: Prestai ateno, antes do vosso sacrifcio, 
se vosso irmo no tem alguma coisa contra vs e ide reconciliar-vos com ele antes de vossa 
prece. E dizemos: Antes de vos sentardes  mesa perguntei a vosso irmo se no precisa de nada; 
dai primeiramente uma parte de vosso po a quem no o tem, em seguida sentai no banquete da 
comunho e Deus vos reconhecer como seus filhos. Ele disse: Aquele que abandona sua mulher  um 
adltero, e aquele que rechaa sua companheira a impele  prostituio. E ns dizemos: Aquele 
que prostitui uma mulher, ultraja sua me, e aquele que casa sua filha por dinheiro, vende sua 
filha, e aquele que compra ou vende uma mulher, a prostitui; porque a essncia do casamento  o 
amor e as relaes conjugais sem amor so a impureza. Cristo disse: No jureis, mas que vossa 
palavra seja sagrada. E ns dizemos: Para que a palavra seja sagrada  necessrio que ela seja 
livre. Libertemos a inteligncia; no fechemos a boca seno  mentira. Aquele que sufoca a 
palavra verdadeira  um deicida. Condenar no  responder. Perseguir uma idia  sancion-la. Um 
homem inteligente que fala fora de tempo pode no ter razo, para julgar  preciso ouvi-lo. 
Aquele que  forado a se calar tem sempre razo. Quanto  perversidade e  estupidez, o prprio 
bom senso impe-lhes silncio. Ele disse: Oferece a face esquerda se te baterem na direita; e se 
te tomarem a tnica, abandona tambm teu manto. E ns dizemos a nossos irmos: Quando vos 
caluniarem por ter dito a verdade ireis vos expor ainda  injustia, e quando tiverdes sofrido a 
injria e a calnia, ireis vos expor com jbilo  misria e  morte no desprezo. Quanto mais 
vossos inimigos vos batem, mais eles enfraquecem; quanto mais sofreis, mais sois fortes. Cristo 
disse: No sejais hipcritas. E ns dizemos: Prestai solicitude a todos, falai menos de moral e 
sede menos infames. Sede francos e modestamente homens, e no procureis encobrir as torpezas da 
estupidez sob as asas de um anjo. Ele disse: No se pode servir a Deus e ao dinheiro. E ns 
dizemos: A propriedade no se faz respeitar quando no tem por origem o trabalho e por regra a 
fraternidade na associao. Ele disse: No julgueis e no sereis julgados. E ns dizemos: Operai 
a transformao da penalidade em higiene moral, levantai aquele que cai e no batais nele; dai 
s enfermidades morais tratamentos morais, e no punies mpias; no gireis em um crculo 
sangrento punindo o homicdio, porque agindo dessa forma dais de algum modo razo aos assassinos 
e perpetuais uma guerra de canibais. Se quereis que o homicdio seja realmente um crime, fazei 
com que no seja jamais um direito, e lembrai-vos desse condenado que dizia: Assassinando, 
arrisquei minha cabea; vs ganhais, eu pago: estamos quites. E em seu pensamento acrescentava: 
Somos iguais. Cristo disse: Procurai primeiramente o reino de Deus e sua justia e o resto vos 
ser dado por acrscimo. E ns dizemos: O reino de Deus no  o reino da fome para Lzaro e das 
orgias do rico mau. O reino de Deus  o sol para todos, e a terra para todos  a fraternidade do 
trabalho,  a prostituio tornada impossvel pelo respeito  mulher,  a escada social 
acessvel, em todos os seus degraus, ao trabalho e mrito de todos.  o trabalho para todos;  a 
famlia para todos,  a propriedade para todos,  o reino da razo,  o sacerdcio do amor,  a 
comunho de cada um em todos e de todos em cada um,  a unidade divina e humana, Deus vivo na 
humanidade, o Cristo ressuscitado e vivo no grande corpo do povo cristo; a liberdade 
progressiva e submetida  ordem, a igualdade relativa na ordem da hierarquia e a fraternidade 
distribuindo tudo a todos, segundo as leis da harmonia, que  a eterna sabedoria.
DCIMA-QUARTA LENDA
Algumas palavras de Jesus Cristo que no esto nos Evangelhos cannicos e que foram conservadas 
pela tradio dos primeiros sculos. Jesus estava certo dia, com seus discpulos, nos limites da 
Judia, nas proximidades do deserto, e se perderam nas montanhas. Encontraram um pastor que 
estava deitado  sombra de um sicmoro e perguntaram-lhe o caminho. O pastor, que era 
preguioso, no se deu ao trabalho nem de levantar nem de lhes responder, mas apenas estendeu o 
p na direo que deveriam seguir, e nem mesmo voltou a olhar para eles. Eles se foram e 
encontraram uma jovem que voltava da fonte, sustentando sobre a cabea um cntaro de gua. 
Perguntaram tambm a ela qual o caminho, e a jovem no s lhes indicou, mas, carregada como 
estava, ps-se a andar na frente deles e s os deixou aps t-los colocado em seu caminho. 
Mestre, disse So Pedro, qual ser a recompensa dessa jovem to diligente e to caridosa? - Ela 
se casar com o pastor preguioso, respondeu Jesus. E, como os discpulos ficassem espantados, 
ele lhes disse: A felicidade da mulher  ser me e, quando ela salva, por seu amor, o homem com 
quem divide suas prprias virtudes, ela  me duas vezes, porque seu esposo e o filho que ele 
lhe d precisam igualmente dela. Todo sacrifcio feito por amor aumenta o amor, e tudo o que 
aumenta o amor aumenta a felicidade. Que oua isso quem tem ouvidos para entender. Ento Joo, o 
discpulo bem-amado, aproximando-se do mestre, disse-lhe: Creio em vossa palavra e sei que assim 
ser em vosso reino. A felicidade da devoo ser aqui o primeiro prmio do sacrifcio, e ser 
recompensado aquele que fizer o bem oferecendo-lhe ocasio de fazer mais bem ainda. Mas, dizei-
me, quando vir vosso reino e por que sinal os homens o reconhecero? Jesus respondeu: Quando 
dois forem apenas um, quando o que est dentro estiver fora e quando o homem com a mulher no 
forem nem homem nem mulher; Isto , quando tiver cessado o antagonismo entre a inteligncia e o 
amor, entre a razo e a f, entre a liberdade e a obedincia. Quando o pensamento evanglico, 
que  a fraternidade, for realizado pelas formas polticas e sociais; E quando a mulher for a 
irm pura e a esposa bem-amada do homem, diante da sociedade assim como diante de Deus, sem que 
haja antagonismo ou rivalidade entre os dois sexos. Essa palavra, citada pelo papa So Clemente, 
autor contemporneo dos Apstolos,  todo o programa da renovao social operada pelo ideal 
cristo. Jesus diz ainda: A vida  um banco; sede hbeis cambistas. Aquele que d ganha mais que 
aquele que rebece. Se, pois, pretendeis enriquecer, dai.
DCIMA-QUINTA LENDA
A direita e a esquerda de Jesus, o Thabor e o deserto, o povo organizado em grupos. Jesus 
revela-se a seus trs discpulos mais inteligentes, como o centro da humanidade, colocando-se, 
no passado, entre Moiss, o homem da ordem e da doutrina, e Elias, o homem do protesto e da 
profecia insubmissa. Tal  a significao dessa transfigurao do Thabor onde Pedro queria 
edificar trs tabernculos, um para Moiss, um para Cristo e o terceiro para Elias: mas o tempo 
da sntese no havia ainda chegado. No esqueamos que os evangelistas colocaram em ao toda a 
parte esotrica ou oculta do Evangelho, e que para dizer: Jesus elevou o esprito de seus 
discpulos a uma grande altura e fez com que compreendessem toda a verdade de sua doutrina, eles 
dizem: Jesus os conduziu sobre uma montanha e, transfigurando-se, diante deles, apareceu a todos 
resplandecente de luz, de modo que seu rosto estava brilhante como o sol e suas roupas 
deslumbrantes como a neve. Joo e Tiago disseram-lhe ento: Mestre, fazei-nos sentar um  vossa 
direita, outro  vossa esquerda, quando vosso reino tiver chegado. Jesus disse-lhes: Posso 
conceder-vos parte em meu clice e em meu batismo; mas sentar-se  minha direita ou  minha 
esquerda, no cabe a mim conceder; esses lugares esto reservados queles que so predestinados 
por meu Pai. Assim Jesus esperava ainda dois homens para completar sua doutrina e concluir sua 
obra: o homem da direita, isto , o homem da ordem e da organizao; e o homem da esquerda, isto 
, o homem da expanso, do amor e da harmonia. Quanto  organizao social, Jesus indicou-a 
sumariamente na parbola da multiplicao dos pes, onde lemos que Jesus dividiu o povo em 
grupos de cem e de cinqenta, secundum contubernia, segundo morassem ou pudessem morar juntos. 
Depois repartiu, entre todos, os cinqenta pes e os dois peixes que representavam o primeiro 
avano da pobreza crente na associao, e a associao multiplicou de tal modo esses dbeis 
recursos, que, com aquilo que sobrou, podiam-se encher doze cestos. Aqui, o que afirmamos sobre 
o simbolismo dos milagres evanglicos est suficientemente comprovado pelo absurdo da letra e a 
impossibilidade material do fato, como o doutor Strauss teve o trabalho de demonstrar. Mas o 
sentido da parbola  admirvel, a parbola  necessria quando a verdade  perigosa ou intil 
de ser revelada. Tambm Jesus dissera: Tenho ainda muitas coisas a vos ensinar, mas no podereis 
carreg-las agora. O esprito de inteligncia vir e vos ensinar toda a verdade. Primeiro todo 
o velho mundo deveria dissolver-se e perecer, depois esse esprito deveria chegar e renovar a 
face da terra. Talvez estejamos na hora da dissoluo universal, mas tranqilizamos nosso 
corao e esperamos: porque, sobre as runas, j podemos ver a pomba celeste e o sopro da 
revelao renovada j se ergue nas nuvens do Oriente.
DCIMA-SEXTA LENDA
O que  a comunho. Para mostrar que todos tm direito ao po que alimenta e ao vinho que 
fortifica, Jesus, falando em nome da humanidade, disse do po: Isto  minha carne; e do vinho: 
Isto  meu sangue. E o po  verdadeiramente a carne da humanidade, como o vinho  
verdadeiramente o sangue daqueles que o bebem; porque o po renova a carne e o vinho esquenta o 
sangue. Ora, Jesus, falando em nome da prpria humanidade, disse: O po que conquistei por meus 
trabalhos e por minha morte  minha carne e eu a dou a todos a fim de que todos a comam; o vinho 
 meu sangue e eu o derramarei para todos a fim de que todos bebam e vivam de minha vida.  
dessa maneira que Cristo constituiu a unidade divina e humana: dando-lhe por base a comunho do 
po e do vinho na qual todos so chamados por Deus, e a qual no se pode recusar a ningum.  
Assim aquele que priva injustamente seu irmo de sua parte na comunho do po, rasga e se 
apropria de um pedao da carne de Cristo; ele come assim o que deveria ser a carne de seu irmo 
e atravs dessa antropofagia deicida, ao invs de comungar com a humanidade, comunga com seus 
carrascos. Mas para que a comunho do po seja possvel na realidade e sem representaes,  
necessrio que no mais haja preguiosos. "Aquele que no trabalha no deve comer." E para que a 
comunho do vinho no seja uma desordem  preciso que no mais existam bbados. Advertncia ao 
povo!
DCIMA-STIMA LENDA
O julgamento de Jesus. No repetiremos aqui os fatos narrados pelos quatro evangelistas pois 
eles so conhecidos de todo o mundo. O grande drama da paixo , h dezoito sculos e meio, o 
julgamento escrito dos sacerdotes e reis, a condenao sangrenta das leis do velho mundo e o 
protesto imortal dos condenados contra uma sociedade deicida. Somente um dos evangelhos 
apcrifos ou secretos, o de Nicodemos, acrescenta  narrao dos quatro algumas circunstncias 
muito notveis; so elas: Quando Pilatos fez Jesus entrar no pretrio para interrog-lo, as 
guias de Roma e as imagens dos deuses que portavam os estandartes inclinaram-se diante do rei 
do futuro. Os judeus irritados exclamavam: Csar foi trado. Eis que so rendidas a este homem 
as honras do imprio. O prprio Pilatos ficou pasmado e perguntou aos vexilrios o que 
significava aquilo que acabava de acontecer: eles protestaram dizendo que o faziam contra sua 
vontade e que no podiam evit-lo. Pilatos fez vir os homens mais robustos do pretrio e os mais 
hostis a Jesus (pois foram esses que, uma hora depois, flagelaram-no e o coroaram de espinhos); 
em seguida confiou-lhes as insgnias recomendando que as mantivessem firmemente; e os simulacros 
divinos inclinaram-se uma segunda vez diante de Jesus  vista de todo mundo e ficou provado que 
a fora dos homens nada pode contra a mudana das idias e que os signos religiosos mais 
protegidos pelo poder caem por si mesmos e se inclinam diante dos smbolos proscritos que o 
progresso revela, protestando contra o julgamento dos homens e simpatizando com a agonia dos 
mrtires. Jesus foi, pois, interrogado em segredo por Pilatos, em seguida foi conduzido at os 
judeus, e seus acusadores foram ouvidos; eram, como se sabe, os prncipes dos sacerdotes, os 
ancies do povo, os fariseus, os escribas e os doutores, isto , tudo o que havia de 
considervel e de respeitado na nao judaica. Pilatos perguntou se ele no tinha tambm algumas 
testemunhas que o absolvessem. Fez-se, de incio, um grande silncio porque os raros amigos de 
Jesus tiveram medo. Finalmente Zaqueu, o publicano, levantou timidamente a voz para dizer que 
Jesus bebera e comera em sua casa, e depois lhe tocara o corao pela sabedoria de seus 
discursos. Os risos e as algazarras da multido no o deixaram completar, porque os publicamos 
eram vistos como homens infames, e os fariseus fizeram valer o testemunho de Zaqueu como uma 
prova a mais contra Jesus. Depois de Zaqueu, foi uma mulher toda chorosa que se lanou aos ps 
do procnsul; no deixaram que ela proferisse nem mesmo uma s palavra; um grito de reprovao 
elevou-se de toda a multido:  Madalena, a prostituta,  esta que derrama aos ps desse 
vagabundo os perfumes preciosos que ela paga com sua pessoa; ela  digna dele e ele no  
indigno dela! Excomunho para os infames! Entretanto, o cego de Jeric acabava de atravessar a 
multido e gritava, estendendo as mos para se fazer escutar: Nasci cego e Jesus me devolveu a 
viso! -  um imbecil! gritaram os padres; no o escutem, ele no merece crdito: ns o 
expulsamos da Sinagoga. - Estava morto e ele me ressuscitou, disse ento um homem de Betnia 
chamado Lzaro. Pilatos e os romanos comearam a rir: os judeus saduceus soltaram gritos 
selvagens; e Lzaro foi expulso pelos lictores. Ento uma senhora rica e considerada adiantou-se 
e disse: Sou viva, meu nome  Seraphia; afligia-me um fluxo de sangue que me fazia morrer aos 
poucos. Um dia Jesus estava passando, acompanhado de uma multido de pobres que ele instrua, de 
mulheres do povo que consolava e de doentes que havia curado. Aproximei-me dele sem nada dizer e 
apenas toquei na franja de sua roupa: ento fui tomada de venerao e de susto, porque me senti 
curada. A essas palavras os judeus comearam a murmurar; todavia continham seus clamores porque 
Seraphia era rica e respeitada. Pilatos ento tomou a palavra e disse: Faam retirar esta 
senhora, ela no pode ser admitida como testemunha neste processo, porque, segundo vossas leis, 
que so as de todo o Oriente, o testemunho de uma mulher  nulo em justia. Depois de Seraphia, 
ningum ousou levantar a voz a favor de Jesus; os que eram considerados pessoas honestas 
acusavam-no e ele s tinha em sua defesa pessoas sem reconhecimento, pessoas suspeitas de lepra 
ou de devassido, pessoas da populaa e mulheres. Ele foi, pois, condenado e no se encontraram 
expresses para resumir seus crimes; escreveram por escrnio.  o rei dos judeus. Seraphia, que 
foi depois chamada Vernica, vendo que seu testemunho no podia salvar seu Salvador, foi 
chorando esper-lo no caminho quando ele saa da cidade carregando sua cruz, e apesar dos gritos 
dos algozes e das pancadas dos soldados, ela se aproximou dele e lhe enxugou o rosto com uma 
toalha fina, que guardou a marca de sangue dos traos de Jesus. E os mrtires dos primeiros 
sculos no tinham outra imagem de seu mestre que no os traos de sangue que marcavam o lugar 
dos traos de Jesus sobre a toalha de Seraphia.
DCIMA-OITAVA LENDA
Pedro e Joo. Jesus tinha um discpulo pouco inteligente, pelo qual se sentia amado e que 
acreditava fervorosamente nele. Tinha o carter simples e ardente do trabalhador; tinha todas as 
virtudes e todos os defeitos do povo, igualmente pronto ao desnimo e ao empenho, mas, em suma, 
sempre amigo de seu mestre e disposto a dar a vida por ele. Esse discpulo era um homem do porto 
chamado Simo. Jesus considerou-o como o modelo vivo do trabalho corajoso e lhe disse: Tu s a 
pedra sobre a qual fundarei minha associao (ecclesiam), e as portas do inferno, isto , os 
poderes desse mundo no prevalecero jamais contra ela. A pedra bruta que foi rejeitada pelos 
arquitetos da sociedade presente tornar-se- a pedra angular de uma sociedade nova. Dar-te-ei as 
chaves do reino da inteligncia e do amor, que  o reino dos cus, e s tu que realizars as 
vontades de Deus na terra. Somente aqueles sero acorrentados e tu os acorrentars, e outros 
sero livres, visto que os libertars, porque tu s o homem do trabalho e te fao meu 
representante diante do futuro. A Igreja, antes da chegada do esprito de inteligncia, 
acreditou ver nessas palavras a consagrao do poder absoluto e infalvel dos papas, e um certo 
Alexandre VI pretendeu ser o herdeiro legtimo das promessas feitas a Pedro, o homem de f, o 
trabalhador e o mrtir. Todavia, os primeiros papas eram apenas os representantes do povo 
perante Deus e, por isso mesmo, de Deus perante o povo, visto que era o povo quem os escolhia; e 
 por esse motivo que os grandes pontfices dos bons tempos do catolicismo foram tribunos que 
resistiam aos imperadores, puniam os crimes dos grandes e defendiam os povos contra os vcios de 
seus mestres. Enquanto o papado reinou ele foi santo; a corrupo para ele devia ser a 
decadncia. Quando fores velho, disse Jesus a Pedro, um outro te cercar e te far ir onde tu 
no queres. Triste quadro da servido temporal a que se reduziu o papado decado! Entretanto, o 
papado  um princpio,  a primeira monarquia crist, e o cristianismo no se regenerar sem 
ele. O apstolo Pedro foi at o fim a imagem do gnio laborioso e desconhecido; crucificaram-no 
como a seu mestre e o puseram de cabea para baixo, tanto os carrascos tinham medo de v-lo em 
p. Jesus havia milagrosamente profetizado o que narra a lenda, porque quando Pedro sara de 
Roma para fugir da perseguio de Nero, o Salvador lhe apareceu carregando sua cruz, e lhe 
disse: Vou a Roma onde devo ser crucificado uma segunda vez. Pedro compreendeu que o 
cristianismo devia conquistar sua liberdade pelo martrio; retornou pois sobre seus passos e 
voltou para morrer. Jesus tinha um outro discpulo que foi chamado de discpulo do amor e que 
sempre  representado jovem porque, segundo a lenda, ele no deveria morrer. Joo  o 
evangelista da sntese e liga ao cristianismo todo o gnio de Plato na filosofia do Verbo. 
Jesus havia resumido toda a lei em duas palavras: Amai Deus, amai-vos uns aos outros. So Joo 
faz cumprir o amor a Deus no amor ao prximo e afirma que ningum jamais viu Deus, mas que vemos 
os homens e que neles devemos amar a divindade que os anima. Amar Deus na humanidade, tal  pois 
toda a religio; nosso sculo, adotando essa frmula, s fez resumir a doutrina de So Joo. So 
Paulo diz que a f e a esperana passaro, mas que a caridade no acabar jamais. Essa palavra  
a promessa do reino da fraternidade, e  porque o futuro pertence ao amor que o personagem 
mstico de So Joo  considerado imortal pelos legendrios. Dizia-se que ele dormia em seu 
atade e que sua respirao agitava docemente a poeira da sepultura. Ele esperava a volta de seu 
mestre, como as virgens sbias que tiveram o cuidado de se apoderar do leo da caridade para 
avivar sua lmpada, para quando Deus desejasse manifestar-se novamente. Dizia-se, com efeito, 
que um leo maravilhoso vertia do sepulcro de So Joo e devolvia a sade aos doentes.  assim 
que a lenda segue-se ao Evangelho e adota suas imagens, como o Evangelho reproduz, explicando-
as, as grandes figuras da Bblia. Mas em todo o conjunto dos livros sagrados e da tradio 
mstica, um apstolo tem o cuidado de nos prevenir disso, a letra mata e o esprito vivifica.  
por isso que, quando os cultos tm que morrer, eles se materializam ligando-se  letra da 
palavra, e o esprito lhes escapa ampliando sua expanso, como o homem faz quando abandona as 
roupas de sua infncia. O signo caracterstico de So Joo, o ltimo dos evangelistas,  uma 
guia, smbolo de liberdade, de inteligncia e de soberania, porque o reino do amor, facilitando 
o progresso, deve tornar todos os homens livres por seu trabalho e sua virtude, cada um por sua 
vez, os primognitos da famlia humana, sacerdotes, reis e proprietrios do mundo. Fecisti non 
reges et sacerdotes et regnabimus super terram. (So Joo) Vs nos fizestes sacerdotes e reis, e 
reinaremos sobre a Terra.  por isso que, nesses ltimos tempos, a guia reapareceu no mundo.  
por isso que a guerra ser apenas a preparao do imprio universal. O verdadeiro imprio  a 
paz: a guia vitoriosa repousar sobre o trovo e fixar o sol. No ser mais a guia do 
conquistador, ser a guia do evangelista.
DCIMA-NONA LENDA
A viso de Aaswerus. - Anda! dissera o judeu Aaswerus a Cristo oprimido sob sua cruz. - Anda! 
respondeu-lhe o Salvador do mundo, at que eu volte aqui e te diga: Repousa! Desde esse tempo, 
Aaswerus no pra de fazer a volta ao mundo; e todos os anos, em meados da Pscoa, ele volta 
para onde foi sua casa maldita para ver se ali reencontra Jesus. Ele anda, anda, chega quebrado, 
ofegante, prestes a cair morto de cansao; chega e no encontra ningum. Ele eleva os olhos e v 
no cu sempre implacvel uma mo que lhe mostra o Ocidente! Anda! grita-lhe uma voz que parece 
ser um eterno eco da sua, no dia do crime, e o velho Aaswerus curva a cabea; o soluo de 
salvao que cresce em seu corao recai silencioso e sem lgrimas; ele recomea sua viagem 
eterna. Na poca em que os cruzados tomaram Jerusalm, o Judeu Errante tinha ouvido dizer que 
Cristo havia retomado  montanha santa; ele s encontrou ali um padre cercado de soldados. - Um 
judeu! um judeu! gritaram alguns homens com mos sangrentas... Anda! Anda! disseram os soldados 
batendo no velho com seus bastes e o aguilhoando com a ponta de suas lanas. Aaswerus meneou a 
cabea e voltou a caminhar, em meio s maldies da multido. - Ai de mim! murmurou ele, a cruz 
ainda no me pode absolver, visto que ela no ensinou ainda o perdo a seus defensores. Os 
homens s a adoram como um instrumento de suplcio e uma lembrana de vingana! Insensatos, 
querem vingar aquele que os salvava perdoando, e no sentem que se condenam eles mesmos ao 
destrurem o perdo do Homem-Deus! Eles no sabem que a perseguio exercida pelos cristos  a 
negao dos mrtires e a reabilitao de seus algozes. Tambm, quando Aaswerus reencontrou 
depois os judeus perseguidos pelos cristos, ele os incitava a morrer ao invs de abjurar as 
crenas de seus pais, e ele prprio, com seu basto secular na mo, a barba e os cabelos 
eriados ao vento, os conduzia de exlio em exlio... E no entanto, melhor que ningum, ele 
compreendia que Jesus  o filho nico de Deus! Mais tarde ele viu carem as cruzes e se 
levantarem os cadafalsos, ouviu falar da santa guilhotina e no ficou surpreendido; os 
inquisidores no haviam ainda inaugurado as festas da morte em nome da Cruz santa? O culto era o 
mesmo e s o altar estava mudado. Falava-se ento tambm de humanidade, de progresso; era justo: 
o machado  mais diligente e menos cruel que o pelourinho sangrento do Glgota. Ele viu em 
seguida recomearem as solenidades do bezerro de ouro; h muito tempo sabia como terminavam tais 
orgias, e quando lhe perguntam: Que faz a esta hora o filho do carpinteiro? - ele responde, 
meneando a cabea: Um atade! Porque ele sente que o tempo est prximo e seu andar parece 
tornar-se mais lento; olha por sua vez o sculo que passa e os acontecimentos que se precipitam. 
No dia em que o sucessor de Pedro caiu por se ter apoiado num cetro, e saiu da cidade eterna por 
sua vez amaldioado e exilado, Aaswerus entrou no Vaticano deserto, e, com o cotovelo apoiado na 
cadeira vazia dos papas, deixou a cabea cair sobre sua mo, parecendo cochilar por um instante. 
Reviu em sonho o campo de Jerusalm revestido de sua fertilidade primeira: a vinha com 
gigantescas uvas da Terra prometida, as oliveiras carregadas de frutos cobriam as colinas e os 
vales estavam cheios de loendros e de roseiras em flor. A montanha de Mria estava coberta de um 
povo inumervel, formado por deputados de todos os povos da terra, e no cimo do monte sagrado 
elevava-se um imenso altar. No meio do altar, subia at as nuvens um gigantesco candelabro de 
ouro, encimado por um sol radioso, e no meio desse sol aparecia, branca e transparente, a divina 
hstia do sacrifcio do amor, a sntese do trigo, o smbolo da unidade divina e humana, o po da 
unio social e da comunho universal. Em frente ao altar, um velho estava em p, segurando numa 
das mos um po branco e leve, como o da alfaia, e na outra um clice. Uma msica celeste se fez 
ouvir e da fronte de todas as falanges elevaram-se nuvens de incenso. Muitos homens, vestidos 
com hbitos esplndidos, trouxeram um quadro que cobriram com um pano branco. Um desses homens 
usava a roupa dos soberanos pontfices da lei crist, um outro, a do chefe dos iman, um terceiro 
estava vestido como os grandes sacerdotes da lei judaica, um quarto portava os ornamentos do 
grande Lama e todos os quatro agiam e oravam combinados e pareciam amar-se como irmos. Era o 
dia em que Cristo saiu outra vez do tmulo e j mais de duas mil vezes o mundo havia celebrado o 
aniversrio, mas nenhum fora to esplndido como aquele. A msica cessou; o silncio se fez na 
multido e todos os olhos se voltaram em direo ao Ocidente. Ento, viu-se aparecer um outro 
velho cujos cabelos e a barba cobriam-lhe o peito e os ombros; ele jogou seu basto de viagem, 
endireitou-se com um grande suspiro e se deixou vestir com uma tnica branca, levantando em 
direo ao cu os olhos cheios de lgrimas. Ele olhou a hstia e exclamou chorando:  ele! Olhou 
o sacerdote que, escolhido pelo sufrgio de todos, fazia nesse dia o ofcio de pontfice 
universal, e repetiu:  ele! Olhou a multido silenciosa e recolhida, e estendeu os braos em 
ao de graas, dizendo ainda:  ele!  ele vivo em tudo,  ele s em todo lugar e sempre! Ento 
o sacerdote do povo desceu do altar, uma cadeira foi colocada diante da Mesa santa sobre a qual 
depositou-se a hstia e o clice, e o pastor disse, dirigindo-se ao velho: Repousa, Aaswerus! Em 
seguida os pontfices de todos os cultos passados vieram, aps o sacrificador da associao 
universal, dar o beijo de paz na barba branca do maldito reconciliado. Depois, todos, em p ao 
redor da mesa, comungaram com ele. Aaswerus ento sentiu-se viver uma vida nova, pareceu-lhe que 
era o prprio Cristo e que, dividindo ele mesmo os pes que se multiplicariam sobre a Mesa 
santa, ele os distribuiria  multido. Assim acabou o sonho do Judeu Errante; um barulho de 
armas e de gritos de angstia o acordou: eram os salteadores das naes que dividiam entre si a 
cidade santa. Ele saiu do palcio dos papas que oscilava sobre os tmulos entreabertos e voltou 
a caminhar para continuar a volta ao mundo que, talvez brevemente, ele no mais recomear. No 
o lastimeis, vs todos que o encontrareis curvado, ofegante e poeirento; ele  mais feliz que 
todos os grandes polticos de nosso sculo e que os ltimos reis desse mundo; ele sabe para onde 
vai.
VIGSIMA LENDA
O reino do Messias. Quando o esprito de inteligncia se espalhar sobre a terra, vir um tempo 
em que o esprito do Evangelho ser a luz das naes. Compreender-se- que o princpio do poder 
 a soberana razo, como est dito no incio, por tanto tempo mal compreendido, do Evangelho 
segundo So Joo. Ento Cristo renascer todos os dias, no mais simbolicamente nos altares, mas 
realmente e corporalmente em toda a superfcie da Terra. Ele no disse que o menor entre ns  
ele? Assim, ento, o nascimento de cada criana ser um Natal, e todos os homens respeitaro o 
Salvador uns nos outros. Cristo no mais ser apenas pobre, faminto, proscrito, sem mulher e sem 
filhos, perseguido e crucificado; ser rico como J aps sua provao, estar na abundncia de 
todas as coisas, ser esposo, ser pai, reinar e perdoar soberanamente aqueles que o tiverem 
perseguido. Porque, um dia, todas as naes sero apenas uma nao, todos os tronos sero 
submetidos a um s trono e sobre esse trono sentar-se- um justo que ter o esprito de Jesus 
Cristo e que ser assim o prprio Jesus Cristo, como ns todos podemos ser ele quando ele est 
em ns. Esse rei reconciliar o Oriente com o Ocidente e o Norte com o Sul. Ele dar aos povos a 
verdadeira liberdade porque tornar inabalveis as bases da justia.
Reprimindo a libertinagem ele suprimir a misria. Todos tero o direito e os meios de fazer o 
bem; ningum ter o direito de se embrutecer e de ser vicioso. A penalidade ser substituda 
pela higiene moral, os culpados sero vistos como doentes e submetidos ao tratamento dos 
alienados. A grande expiao da Cruz  suficiente para todas as ofensas humanas e suprimir um 
dia o cadafalso, execrvel desde que intil. No mais se permitir a existncia real do erro, 
porque somente a verdade existe e a mentira  fugidia como o sonho. No haver, pois, mais do 
que uma religio no mundo e o pontfice universal declarar, do alto da suprema autoridade, que 
os judeus, os maometanos, os budistas, etc., so cristos mal instrudos, dos quais ele  chefe 
e pai. Ele os abenoar e os convocar ao grande conclio das naes. Ele lhes abrir o tesouro 
inesgotvel das indulgncias e das preces e dar realmente e em verdade sua beno  cidade e ao 
mundo. Ser ento a poca da volta do filho prdigo; ele no tem mais nada, mas seu irmo lhe 
emprestar e ele trabalhar para reconquistar sua riqueza. Ser a hora em que as virgens loucas, 
tendo enfim o leo em suas lmpadas, voltaro a bater na porta, e se o esposo se recusar a 
abrir, as virgens sbias lhes estendero a mo e as faro entrar pela janela; porque a ltima 
palavra do cristianismo  solidariedade, reversibilidade, caridade universal; e em verdade vos 
digo que no h um santo no cu que no esteja pronto a descer ao inferno para livrar dele as 
pobres almas, mesmo que seja preciso l ficar s, em lugar delas, e fechar para sempre as portas 
sobre ele. Concebeis um cu sobreposto a um inferno? Um banquete eterno em frente a uma eterna 
fogueira, uma casa de paz e de preces sobre um poro cheio de soluos e de torturas? Um sonho 
apenas deve preencher o sono eterno de cada justo: a libertao de um condenado; e se este sonho 
fosse sem esperana, tornar-se-ia um pesadelo mais terrvel que os prprios suplcios do 
inferno.  dessa forma que os gnsticos, isto , aqueles que sabiam, em outros termos, os 
iniciados do cristianismo primitivo, interpretavam os orculos dados pelo esprito de Jesus 
Cristo; eles foram seguidos pelos discpulos de Orgenes, mas a Igreja os condenou, e tinha 
razo em conden-los, porque divulgavam as doutrinas secretas e profanavam os mistrios do 
Mestre. No se deve, exagerando a esperana do vulgo, suprimir da lei a sua sano terrvel, e o 
dogma da eternidade do inferno s exprime, afinal, o divrcio eterno entre o bem e o mal. Os 
apcrifos so o lado revolucionrio do esprito de Jesus; seu lado hierrquico, edificante e 
constituinte, pertence de direito  Igreja docente, da qual no nos cabe usurpar as funes. Em 
continuao a essas lendas to singelamente orientais, poderamos apresentar as narraes, 
evidentemente simblicas, da lenda dourada, os atos apcrifos dos apstolos, a histria do 
gigante Cristforo dobrado em dois sob o peso misterioso de um menino, o martrio de santa F, 
de santa Esperana e de santa Caridade, e tantas outras inspiradas pelo mesmo esprito e todas 
brilhantes, com as mesmas cores maravilhosas. Um sopro de inspirao nova passara sobre o mundo 
e esse sopro era o de Jesus Cristo. O que distingue os evangelhos apcrifos dos evangelhos 
cannicos , talvez, a maior audcia nas suas fices e a menor prudncia na indicao das 
tendncias revolucionrias e radicais; mas est em toda parte o mesmo gnio emancipador do 
pobre, protetor do fraco, a mesma ternura maternal pelos rfos da sociedade, a mesma f, humana 
porque  divina e divina porque  humana. As histrias maravilhosas variam porque a forma da 
parbola  arbitrria.  somente o esprito que vivifica. Essas histrias, alis, so 
essencialmente judaicas e podemos compar-las com os aplogos do Talmude; podemos acus-las de 
misticismo e idealismo exagerados; mas que sonhos magnficos, quando os tomamos somente por 
sonhos! So fotografias de aspiraes coletivas; so as parbolas pstumas de Jesus inteiramente 
reavivadas em seus discpulos; so os orculos, no so mesas giratrias, mas mesas 
eucarsticas, e eis como os espritos divinos falam aps sua morte, se  que podem morrer. Mas 
no, os grandes pensamentos no morrem e no tm necessidade, para serem transmitidos, de bater 
contra as paredes. Eles movem as almas e no os mveis, eles batem nos coraes e no nas pedras 
ou nas tbuas; eles so como rvores que lanam a semente e reproduzem florestas. Em vo, quer-
se escraviz-los e circunscrev-los; eles tm uma energia que faz rebentar as barreiras e que 
destri as prises; correm como o incndio em madeira morta. No mais procureis Jesus no tmulo 
onde os padres o haviam colocado; ele ressuscitou; ele no est mais aqui, no procureis o vivo 
entre os mortos! O que querem de ns pois essas larvas e esses vampiros que, nos crculos de 
pretensos espritos, procuram diminuir o Homem-Deus! Que faremos de um Jesus sem divindade e sem 
milagres? No so seus maiores milagres aqueles de seu esprito? Quereis escrever sua histria? 
Escrevei a histria do mundo transfigurada por seu gnio. Sua vida  sua doutrina e sua doutrina 
ainda vive. Eu vos dou um Jesus de mrmore, disse Renan. E da! O que temos a ver com teu 
mrmore? temos um Jesus de esprito e de carne, seu esprito est em todo lugar. Sua carne 
palpita no peito inocente de nossos filhos, seu sangue aquece e rejuvenesce o corao de nossos 
velhos. Filsofo de mrmore, guarda tua esttua sem alma e deixa-nos nosso Homem-Deus! Alfredo 
de Vigny escreveu que a lenda , muitas vezes, mais verdadeira que a histria, porque a lenda 
conta, no os atos freqentemente incompletos e abortados, mas o prprio gnio dos grandes 
homens e das naes.  sobretudo ao Evangelho que se deve referir esse belo pensamento. O 
Evangelho no  simplesmente a narrao do que aconteceu,  a revelao sublime do que  e do 
que ser sempre. Sempre o Salvador do mundo ser adorado pelos reis da inteligncia, 
representados pelos magos; sempre multiplicar o po eucarstico para nutrir e consolar as 
almas; sempre, quando o invocarmos na noite e nas tempestades, ele vir a ns caminhando sobre 
as ondas, ele nos estender a mo e nos salvar ao fazer-nos passar sobre as ondas; sempre 
curar nossas apatias e devolver a luz a nossos olhos; sempre aparecer a seus crentes luminoso 
e transfigurado sobre o thabor, explicando a lei de Moiss e regulando o zelo de Elias. Os 
milagres do Eterno so eternos. Admitir o simbolismo das maravilhas do Evangelho  ampliar a 
luz,  proclamar a sua universalidade e durao. No, esses acontecimentos no constituem 
passado, tal como nos dizem; eles jamais passaro, eles ficam eternamente. As coisas que passam 
so acidentes que passam, as coisas que o gnio divino revela pelo simbolismo so imutveis 
verdades. Lede os Padres dos primeiros sculos, passai as grandes pocas do cristianismo, 
escutai Santo Agostinho aspirando ao infinito e So Jernimo sonhando com o cu, sob o barulho 
do imprio romano que desaba; escutai clamar a eloqncia de So Joo Crisstomo e de Santo 
Ambrsio, em seguida descei s divagaes espirituais de Home ou s elocubraes pantesticas de 
Allan Kardec; vs sorrireis de piedade e de desgosto. E ento, a morte seria uma amarga 
decepo! As realidades da outra vida seriam a irriso de nossas aspiraes nesta vida! O 
verdadeiro paraso seria menos resplandecente que o de Dante e o verdadeiro inferno menos 
terrvel que seu inferno! Ora, os espritos desencarnados passeariam como os de Swedenborg, com 
chapus na cabea, e viriam importunar os vivos para lhes fazer escrever misrias! Mas ento no 
vedes que o inferno da Idade Mdia com seus horrores surpreendentes seria prefervel a esta 
ridcula decadncia das almas! Que Deus me torture, se  que existe um deus capaz de me 
torturar, mas que ele no me torne idiota. Amaria mais o diabo e seus chifres do que as casas de 
Victorien Sardou construdas em claves de sol e em traos de letras finas e mal feitas, e que 
essas flores ideais abertas sob o lpis dos Mdiuns e que parecem pstulas de lepra vistas ao 
microscpio. Despertai, pobres espritos, no sentis pois que estais tendo um pesadelo?
Segunda parte
ESPRITOS HIPOTTICOS
ou Teorias dos cabalistas sobre os anjos, os demnios e as almas dos mortos. Sobre as coisas que 
nossa cincia nesta vida no conseguiria alcanar s se pode raciocinar por hipteses. A 
humanidade no pode saber nada de sobre-humano, visto que o sobre-humano  o que ultrapassa o 
alcance do homem; os fenmenos de decomposio que acompanham a morte parecem protestar em nome 
da cincia contra essa necessidade inata de crer numa outra vida que gerou tantos sonhos. A 
cincia, todavia, deve dar-se conta dessa necessidade, porque a natureza, que no faz nada de 
intil, no d aos seres necessidades que no devam ser satisfeitas. A cincia pois, forada a 
ignorar, deve supor pelo menos a existncia de coisas que no conhece, e no poderia colocar em 
dvida a continuao da vida aps o fenmeno da morte, visto que nada se nota de bruscamente 
interrompido na grande obra da natureza, que, segundo a filosofia de Hermes, jamais opera por 
sobressaltos. As coisas que esto alm dessa vida podem ser vistas de duas maneiras, ou pelos 
clculos da analogia, ou pelas intuies do xtase; em outros termos, pela razo ou pela 
loucura. Os sbios da Judia escolheram a razo e nos deixaram nos livros, geralmente ignorados, 
suas magnficas hipteses. Lendo-os compreendemos inicialmente que nossas crenas saram deles 
como fragmentos inexplicveis e que o absurdo aparente de nossos dogmas desaparece quando os 
contemplamos pelas grandes razes desses velhos mestres. Admiramo-nos tambm por encontrarmos 
ali realizadas e completadas filosoficamente todas as mais belas e grandiosas aspiraes de 
nossa poesia moderna. Goethe estudou a Cabala, e a epopia de Fausto  extrada das doutrinas do 
Zohar. Swedenborg, Saint Simon e Fourier parecem ter visto a divina sntese cabalstica atravs 
das sombras e alucinaes de um pesadelo mais ou menos estranho, segundo os diferentes 
caracteres desses sonhos. Esta sntese , na realidade, o que o pensamento humano pode abordar 
de mais completo e de mais belo. Os livros que tratam dos espritos segundo os cabalistas so a 
Pneumatica Kabbalistica que se encontra na Kabbala denudata do baro de Rosenroth, o Liber de 
revolutionibus animarum por Isaac de Loria, o Sepher Druschim, o livro de Mosch de Corduero e 
alguns outros menos clebres. Apresentamos aqui no somente o resumo, mas de alguma forma a 
quintessncia. Juntamos aqui os trinta e oito dogmas cabalsticos, tal como os encontramos na 
coleo dos cabalistas publicada por Pistorius. Esses dogmas resumem quase toda a cincia, e se 
no nos contentamos em acrescentar a uma rpida explicao  porque em nossas obras precedentes 
desenvolvemos a cincia da qual esses dogmas so a expresso.
CAPTULO 1
Unidade e solidariedade dos espritos. Segundo os cabalistas, Deus cria eternamente o grande 
Ado, o homem universal e completo, que encerra em um s esprito todos os espritos e todas as 
almas. Os espritos vivem pois duas vidas ao mesmo tempo, uma geral, que  comum a todos, e a 
outra especial e particular. A solidariedade e a reversibilidade entre os espritos faz com que 
vivam realmente uns nos outros, todos iluminados das luzes de um s, afligidos todos por causa 
das trevas de um s. O grande Ado era representado pela rvore da vida; estendese em cima e 
embaixo da terra em galhos e razes; o tronco  a humanidade, as diversas raas so os galhos e 
os indivduos inumerveis so as folhas. Cada folha tem sua forma, sua vida particular e sua 
parte de seiva, mas s vive atravs do galho, como o prprio galho s vive atravs do tronco. Os 
maus so as folhas secas e as cascas mortas da rvore. Elas caem, apodrecem e se transformam em 
estrume que retorna  rvore pelas razes. Os cabalistas comparam ainda os maus ou os condenados 
s excrees do grande corpo da humanidade. Essas excrees servem de adubo  terra que d 
frutos para alimentar o corpo; assim a morte retorna sempre  vida e o prprio mal serve de 
renovao e de alimento para o bem. A morte, assim, no existe e o homem no sai jamais da vida 
universal. Aqueles que chamamos de mortos vivem ainda em ns e ns vivemos neles; eles esto 
sobre a terra porque ns aqui estamos, e ns estamos no cu porque eles l esto, Quanto mais 
vivemos nos outros, menos devemos temer a morte. Nossa vida aps a morte, prolonga-se na terra 
naqueles que amamos, e servimo-nos do cu para lhes dar a serenidade e a paz. A comunho dos 
espritos do cu na terra, e da terra no cu, faz-se naturalmente, sem perturbao e sem 
prodgios; a inteligncia universal  como a luz do sol que repousa ao mesmo tempo sobre todos 
os astros e que os astros refletem para iluminar uns aos outros durante a noite. Os santos e os 
anjos no necessitam de palavras nem de sons para se fazer ouvir; eles pensam em nosso 
pensamento e amam em nosso corao.O bem que no tiveram tempo de concluir eles o sugerem e ns 
o fazemos por eles, eles o desfrutam em ns, e repartimos com eles a recompensa, porque a 
recompensa do esprito se engrandece quando a dividimos, e o que damos ao outro multiplica-se em 
ns mesmos. Os santos sofrem e trabalham em ns e s sero felizes quando a humanidade inteira 
for feliz, visto que fazem parte da indivisibilidade humana. A humanidade tem no cu uma cabea 
que resplandece e que sorri, na terra um corpo que trabalha e que sofre, e no inferno, que para 
nossos sbios no  seno um purgatrio, ps que esto acorrentados e que queimam. Ora, a cabea 
de um corpo cujos ps queimam s pode sorrir  fora de coragem, resignao e esperana; a 
cabea no pode estar alegre quando os ps queimam. Somos todos membros de um s corpo e o homem 
que procura suplantar e destruir outro homem  como a mo direita que, por inveja, procuraria 
cortar a mo esquerda. Aquele que mata, se mata, aquele que injuria, se injuria, aquele que 
rouba, se rouba, aquele que fere, se fere, porque os outros esto em ns e ns estamos neles. Os 
ricos se enfadam, odeiam-se uns aos outros e se desgostam da vida; sua prpria riqueza os 
tortura e os abate porque h pobres que carecem de po. Os aborrecimentos dos ricos so as 
angstias dos pobres que sofrem neles. Deus exerce justia por intermdio da natureza e 
misericrdia pela interveno de seus eleitos. Se puseres tua mo no fogo, a natureza te 
queimar sem piedade; mas um homem caridoso poder tratar e curar tua queimadura. A lei  
inflexvel, mas a caridade  sem limites. A lei condena, mas a caridade perdoa. Por si mesmo, o 
inferno nunca rende sua presa, mas pode-se lanar uma corda quele que se deixou cair. 

CAPTULO 2
A transio dos espritos ou o mistrio da morte. Quando o homem adormece em seu ltimo sono, 
cai primeiramente numa espcie de sonho, antes de acordar do outro lado da vida. Cada um v 
ento, numa bonita fantasia ou num terrvel pesadelo, o paraso ou o inferno nos quais acreditou 
durante sua existncia mortal.
 por esse motivo que muitas vezes a alma atemorizada se lana violentamente na vida que ela 
acaba de deixar e que mortos, bem mortos quando os sepultamos, acordam vivos sob o tmulo. A 
alma ento, no mais ousando morrer, consome-se em esforos inteis para conservar a vida 
leguminosa, por assim dizer, de seu cadver. Ela aspira durante seu sono o vigor fludico dos 
vivos e o transmite ao corpo enterrado cujos cabelos crescem como uma erva daninha e cujo sangue 
vermelho colore os lbios. Esses mortos tornam-se vampiros; vivem conservados por uma doena 
pstuma que tem sua crise, como as outras, e que termina por convulses horrveis durante as 
quais o vampiro, procurando destruir a si prprio, devora os braos e as mos. As pessoas 
sujeitas a pesadelos podem fazer uma idia do horror das vises infernais. Essas vises so o 
castigo de uma crena atroz e perseguem sobretudo as crenas supersticiosas e os ascetas 
fanticos: a imaginao est povoada de atormentadores, e esses monstros, no delrio que se 
segue  morte, aparecem  alma com uma espantosa realidade, cercando-a, atacando-a e 
dilacerando-a procurando devor-la. O sbio, ao contrrio,  acolhido por vises felizes, 
acredita ver seus amigos de outrora virem a seu encontro e lhe sorrirem. Mas tudo isso, 
dissemos,  apenas um sonho, e a alma no tarda a acordar. Ento ela mudou de meio, est acima 
da atmosfera que se solidificou sob os ps de seu envoltrio, agora mais leve. Este envoltrio  
mais ou menos pesado; h os que no conseguem se erguer de seu novo solo; h outros que, ao 
contrrio, sobem e pairam livremente no espao, como guias. Mas os liames de simpatia os ligam 
sempre  terra na qual viveram e sobre a qual se sentem viver mais do que nunca, porque estando 
destrudo o corpo que os separava, tm conscincia da vida universal e participam das alegrias e 
dos sofrimentos de todos os homens. Eles vem Deus como ele , isto , presente em toda parte na 
preciso infinita das leis da Natureza, na justia que triunfa sempre atravs de tudo o que 
acontece, e na caridade infinita que  a comunho dos eleitos. Eles sofrem, dissemos, mas tm 
esperana porque amam e esto felizes por sofrer. Eles saboreiam pacificamente a doce amargura 
do sacrifcio e so os membros gloriosos, mas que sangram sempre, da grande vtima eterna. Os 
espritos criados  imagem e semelhana de Deus so criaturas como ele, mas, como ele, s podem 
criar suas imagens. As vontades audaciosas e desregradas produzem larvas e fantasmas, a 
imaginao tem o poder de formar coagulaes areas e eletromagnticas que refletem num instante 
os pensamentos e sobretudo os erros do homem ou do crculo dos homens que os coloca no mundo. 
Essas criaes de abortos excntricos esgotam a razo e a vida daqueles que os fazem nascer, e 
tm por caracterstica geral a estupidez e o malefcio, porque so os tristes frutos da vontade 
desregrada. Aqueles que no cultivaram sua inteligncia durante sua existncia ficam, aps a 
morte, num estado de torpor e de estupor cheio de angstias e de inquietude; tm dificuldade em 
retomar a conscincia de si mesmos, esto no vazio e na noite, no podem nem subir, nem descer, 
e so incapazes de se corresponder seja com o cu, seja com a terra. So tirados pouco a pouco 
desse estado pelos eleitos que os instruem, os consolam e os esclarecem; depois conseguem ser 
admitidos para novas provaes cuja natureza nos  desconhecida, porque  impossvel que o mesmo 
homem renasa duas vezes na mesma terra. Uma folha de rvore, depois que cai, no se liga mais 
ao galho. A lagarta torna-se borboleta, mas a borboleta nunca uma lagarta. A natureza fecha as 
portas atrs de tudo o que passa e impele a vida para adiante. O mesmo pedao de po no poderia 
ser comido e digerido duas vezes. As formas passam, o pensamento fica e no mais retorna o que 
se usou uma vez.

CAPTULO 3
Da hierarquia e da classificao dos espritos. Existem espritos elevados, espritos inferiores 
e existem tambm espritos medocres. Entre os espritos elevados podem-se distinguir tambm os 
mais elevados, os menos elevados e aqueles que ficam entre os dois. A mesma distino pode ser 
feita em relao aos espritos medocres e aos espritos inferiores. Assim temos trs classes e 
nove categorias de espritos. Essa hierarquia natural dos homens levou a supor, por analogia, as 
trs classes e as nove ordens dos anjos, e depois, por inverso, os trs crculos e os nove 
degraus do inferno. Eis o que lemos em uma antiga Clavcula de Salomo, traduzida pela primeira 
vez do hebreu: "Eu te darei agora a chave do reino dos espritos. Esta chave  a mesma que a dos 
nmeros misteriosos de Yetsirah. Os espritos so regidos pela hierarquia natural e universal 
das coisas. Trs comandam trs, por meio de trs. Existem os espritos do alto, os de baixo e os 
do meio; em seguida, se voltares  escada santa, se escavares ao invs de subir, encontrars a 
contra-hierarquia das cascas ou dos espritos mortos. Sabe somente que os principados do cu, as 
virtudes e as potncias no so pessoas, mas dignidades. So os degraus da escada santa ao longo 
da qual sobem e descem os espritos. Miguel, Gabriel, Rafael e os outros no so nomes, mas 
ttulos. O primeiro dos nmeros  um.A primeira das concepes divinas denominada Sefirote  
Kethev ou a coroa.
A primeira categoria dos espritos  a de Haioth Haccadosch ou as inteligncias do tetragrama 
divino cujas letras esto representadas na profecia de Ezequiel por animais misteriosos.
Seu imprio  o da unidade e da sntese.
Eles correspondem  inteligncia.
Eles tm por adversrios os Thamiel ou bicfalos, demnios da revolta e da anarquia cujos dois 
chefes, sempre em guerra um com o outro, so Sat e Moloch.
O segundo nmero  dois, a segunda Sefira  Chocmah ou a sabedoria.
Os espritos de sabedoria so os Ophanim, nome que significa as rodas, porque tudo funciona no 
cu como imensas rodas semeadas de estrelas. Seu imprio  o da harmonia. Eles correspondem  
razo.
Eles tm por adversrios os Chaigidel ou as cascas que se prendem s aparncias materiais e 
ilusrias. Seu chefe, ou antes, seu guia, porque os maus espritos no obedecem a ningum,  
Belzebu, cujo nome significa o Deus das moscas, porque as moscas abundam sobre os cadveres em 
putrefao.
O terceiro nmero  trs.
A terceira Sefira  BINAH ou a inteligncia.
Os espritos de Binah so os Aralim ou os fortes.
Seu imprio  a criao das idias; correspondem  atividade e  energia do pensamento.
Eles tm por adversrios os Satariel ou veladores, demnios do absurdo, da inrcia intelectual e 
do mistrio.
O chefe dos Satariel  Lucifuge, chamado, erroneamente e por antfrase, de Lcifer, assim como 
Eumnides, que so as frias, so denominadas em grego as Graciosas.
O quarto nmero  quatro; a quarta Sefira  GEDULAH ou Chesed, a magnificncia ou a bondade.
Os espritos de Gedulah so os Haschmalin ou os lcidos.
Seu imprio  o da beneficncia e correspondem  imaginao.
Tm por adversrios os Gamchicoth ou os perturbadores das almas.
O chefe ou o guia desses demnios  Astaroth ou Astarte, a Vnus impura dos srios que 
representamos com cabea de asno ou de touro e mamilos de mulher.
O quinto nmero  cinco; a quinta Sefira  GEBURAH ou a justia.
Os espritos de Geburah so os Seraphim ou os espritos ardentes de zelo.
Seu imprio  o da punio dos crimes.
Eles correspondem  faculdade de comparar e de escolher.
Tm por adversrios os Galab ou incendirios, gnios da clera e das sedues, cujo chefe  
Asmodeu, que chamamos tambm de Samael negro.
O sexto nmero  seis; a sexta Sefira  TIPHERETH, a suprema beleza.
Os espritos de Tiphereth so os Malachim ou os reis.
Seu imprio  o da harmonia universal e correspondem ao julgamento.
Tm por adversrios os Tagagririm ou os disputadores cujo chefe  Belphegor.
O stimo nmero  sete; a stima Sefira  NETZAH ou a vitria; os espritos de Netzah so os 
Eloim ou os deuses, isto , os representantes de Deus.
Seu imprio  o do progresso e da vida; correspondem ao sensorium ou  sensibilidade.
Tm por adversrios os Harab-Serapel ou os corvos da morte, cujo chefe  Baal.
O oitavo nmero  oito; a oitava Sefira  HOD ou a ordem eterna; os espritos de Hod so os 
Beni-Eloim ou os filhos dos deuses.
Seu imprio  o da ordem; correspondem ao sentido ntimo; tm por adversrios os Samael ou os 
batalhadores, cujo chefe  Adramelech.
O nono nmero  nove; a nona Sefira  IESOD ou o princpio fundamental.
Os espritos de Iesod so os Querubes ou os anjos, foras que fecundam a terra e que 
representamos no simbolismo hebreu sob a aparncia de touros.
Seu imprio  o da fecundidade e correspondem s idias verdadeiras.
Tm por adversrios os Gamaliel ou os obscenos, cuja rainha Lilith  o demnio dos abortos.
O dcimo nmero  dez; a dcima Sefira  MALCHUTH ou o reino das formas.
Os espritos de Malchuth so os Ischim ou os viris, so as almas dos santos, cujo chefe  
Moiss.
Tm por adversrios os maus que obedecem a Nahema, o demnio da impureza.
Os maus so representados pelos cinco povos malditos que Josu devia destruir.
Josu ou Jehosua, o salvador,  a figura do Messias.
Seu nome se compe das letras do tetragrama divino transformado em pentagrama pela adio da 
letra Schinn
Cada letra desse pentagrama representa uma potncia do bem atacada por um dos cinco povos 
malditos.
Porque a histria real do povo de Deus  a lenda alegrica da humanidade.
Os cinco povos malditos so os Amalecites ou os agressores, os Geburim ou os violentos, - os 
Raphaim ou os lassos, - os Nephilim ou os voluptuosos, - e os Anacim ou os anarquistas.
Os anarquistas so vencidos por Iod, que  o cetro do pai.
Os violentos so vencidos pelo He, que  a doura da me.
Os lassos so vencidos pelo Vau, que  o gldio de Miguel e a gerao pelo trabalho e a dor.
Os voluptuosos so vencidos pelo segundo He, que  o parto doloroso da me.
Os agressores finalmente so vencidos pelo Schin, que  o fogo do Senhor e a lei equilibradora 
da justia.
Os prncipes dos espritos perversos so os falsos deuses que eles adoram.
O inferno no tem, pois, outra direo seno a lei fatal que pune a perversidade e que corrige o 
erro, porque os falsos deuses s existem na falsa opinio de seus adoradores.
Baal, Belphegor, Moloch, Adramelech foram dolos dos srios; dolos sem alma, dolos agora 
aniquilados e dos quais s ficou o nome. O verdadeiro Deus venceu todos esses demnios como a 
verdade vence o erro. Isso se passou na opinio dos homens e as guerras de Miguel contra Sat 
so representaes do movimento e do progresso dos espritos. O diabo  sempre um deus de 
refugo. As idolatrias creditadas so religies no seu tempo. As idolatrias antiquadas so 
supersties e sacrilgios. O panteo dos fantasmas da moda  o cu dos ignorantes. O bordel dos 
fantasmas que nem a loucura quer mais  o inferno. Mas tudo isso s existe na imaginao do 
vulgo. Para os sbios, o cu  a suprema razo e o inferno  a loucura. Compreende-se que 
empregamos aqui a palavra cu no sentido mstico que lhe damos ao op-la  palavra inferno. Para 
evocar os fantasmas  suficiente embriagar-se ou tornar-se louco. Os fantasmas so os 
companheiros da embriaguez e da vertigem. O fsforo da imaginao abandonada a todos os 
caprichos dos nervos superexcitados e doentes se enche de monstros e de vises absurdas. Chega-
se tambm  alucinao misturando a viglia ao sono pelo uso graduado dos excitantes e 
narcticos; mas tais obras so crimes contra a natureza. A sabedoria afasta os fantasmas e nos 
faz comunicar com os espritos superiores pela contemplao das leis da natureza e o estudo dos 
nmeros sagrados."
Aqui o rei Schlomoh dirige-se a seu filho Roboam. "Lembra-te, meu filho Roboam, que o temor de 
Adonai  apenas o comeo da sabedoria. Mantm e conserva aqueles que no tm inteligncia no 
temor de Adonai, que te dar e conservar minha coroa. Mas aprendes, tu, a vencer o temor pela 
sabedoria, e os espritos descero do cu para te servir. Eu, Salomo, teu pai, rei de Israel e 
de Palmira, procurei e obtive em diviso a santa Chocmah que  a sabedoria de Adonai. E tornei-
me o rei dos espritos tanto do cu como da terra, o mestre dos habitantes do ar e das almas 
vivas do mar, porque possua a chave das portas ocultas da luz. Realizei grandes coisas pela 
virtude do Schema Hamphorasch e pelas trinta e duas vias de Yetsirah. O nmero, o peso e a 
medida determinam a forma das coisas: a substncia  uma, e Deus criou-a eternamente. Feliz 
daquele que conhece as letras e os nmeros. As letras so nmeros, e os nmeros idias e as 
idias foras, e as foras os Eloim. A sntese dos Eloim  o Schema. O Schema  um, suas colunas 
so dois, sua potncia  trs, sua forma  quatro, seu reflexo d oito, que multiplicado por 
trs vos d os vinte e quatro tronos da sabedoria. Sobre cada trono repousa uma coroa com trs 
flores, cada floro tem um nome, cada nome  uma idia absoluta. H setenta e dois nomes sobre 
as vinte e quatro coroas do Schema. Tu escrevers esses nomes em trinta e seis talisms, dois em 
cada talism, um em cada lado. Tu dividirs esses talisms em quatro sries de nove cada uma, 
segundo o nmero de letras do Schema. Na primeira srie gravars a letra Iod representada pelo 
basto florido de Aaron, na segunda letra He, representada pela taa de Jos. Na terceira, o Vau 
representado pela espada de Davi, meu pai. E na quarta, o He final, representado pelo ciclo de 
ouro. Os trinta e seis talisms sero um livro que conter todos os segredos da natureza. E por 
suas diversas combinaes tu fars falar os gnios e os anjos." (Aqui termina o fragmento da 
Clavcula de Salomo.)

CAPTULO 4
Os dogmas cabalsticos. (Extrados da coleo dos Cabalistas de Pistorius)
1 Novem sunt hierarchioe. Nove  o nmero hierrquico.  o que explicamos no captulo 
precedente.
2 Schema misericordiam dicit, sed et jtidicium. O nome divino significa misericrdia porque quer 
dizer julgamento. O infinito, exercendo seu poder sobre o finito, deve necessariamente punir 
para corrigir, e no para se vingar. As foras do pecado no excedem as do pecador, e se o 
castigo era maior que a ofensa, o punidor tornado algoz seria o verdadeiro criminoso, 
completamente indesculpvel e ele mesmo digno apenas de um eterno suplcio. O desmedidamente 
torturado, engrandecido pelo infinito da pena, tornar-se-ia Deus, e  o que os antigos 
representaram por Prometeu, que, imortalizando as mordeduras de seu abutre, deve destronar 
Jpiter.
3 Peccatum Adoe fuit truncatio Malchub ab arbore sephirotica. O pecado de Ado  Malchuth cado 
da rvore sefirtica. Para ter uma existncia pessoal e independente, o homem teve que se 
separar de Deus.  o que acontece no nascimento. Uma criana que vem ao mundo  um esprito que 
se separa do seio de Deus para vir gozar o fruto da rvore da cincia e desfrutar da liberdade. 
 por isso que Deus lhe d uma tnica de carne. Ela  condenada  morte pelo prprio nascimento, 
que  seu pecado; mas, por esse pecado que a emancipa, ela fora Deus a resgat-la e se torna o 
conquistador da verdadeira vida que no existe sem a liberdade.
4 Cum arbore peccati Deus creavit seculum. A rvore do pecado foi o instrumento da criao do 
mundo. As paixes do homem o estimulam ao combate da vida; mas o arrastariam  sua runa se ele 
no tivesse razo para venc-las e domin-las.  dessa forma que se criou nele a virtude que  a 
fora moral, e as tentaes so necessrias para isso. Porque a fora s se produz em razo da 
resistncia.  assim que, segundo o Zohar, Deus para criar o relativo abriu um buraco no 
absoluto. O tempo parece uma lacuna na eternidade e est dito na Bblia que Deus arrependeu-se 
de ter feito o homem. Ora, s nos arrependemos de um erro, e a criao , por assim dizer, o 
pecado do prprio Deus.
5 Magnus aquilo fons est animarum. O grande aquilo  a fonte das almas. A vida tem necessidade 
de calor. Os povos emigram do norte para o sul e as almas inertes tm sede de atividade.  para 
encontrar essa atividade que vm ao mundo. Elas tm frio em sua inao primitiva, porque sua 
criao est inacabada. O homem deve cooperar com sua criao. Deus o inicia, mas ele prprio 
deve se terminar. Se no tivesse que nascer e nem morrer, ele dormiria absorvido na eternidade 
de Deus e jamais seria o conquistador de sua prpria imortalidade.
6 Coelum est Keter. O cu  Kether (a Coroa). Os cabalistas no tm nome para designar o monarca 
supremo, s falam da coroa que prova a existncia do rei e dizem aqui que esta coroa  o cu.
7 Animoe e tertio lumine ad quartam descendunt, inde ad quintam ascendunt. Dies unus. Post 
mortem noctem subintrant. As almas filhas da terceira luz descem at a quarta, depois se elevam 
at a quinta, e  um dia. Quando a morte chega  a noite. Em Deus, como na humanidade, o nmero 
trs exprime a gerao, o amor;  a terceira pessoa ou concepo divina,  o que o cabalista 
pretende exprimir por essa terceira luz, de onde descem as almas para chegar  quarta, que  a 
vida natural e elementar. De l elas devem se elevar  quinta, que  a estrela pentagramtica, o 
smbolo da quintessncia, o smbolo da vontade que dirige os elementos. Em seguida ele compara 
uma existncia a um dia seguido de uma noite para fazer pressentir um despertar seguido de uma 
existncia nova.
8 Sex dies geneseos sunt sex litteroe Bereschith. Os seis dias da Gnese so as seis letras da 
palavra. t y c a d b
9 Paradisus est arbor Sephiricus. In medio magnus Adam est Tiphereth. O paraso  a rvore 
Sefirtica; o grande Ado que est no meio  Tiphereth.
10 Quatuor flumina ex uno fonte. In medio unius sunt sex et dat decem. As quatro fontes do den 
saem de uma fonte no meio da qual h seis, e ao todo somam dez. Esses trs artigos significam 
que a histria do paraso terrestre  uma alegoria. O paraso terrestre  a verdade sobre a 
terra. A descrio que a Bblia faz desse jardim contm os nmeros sagrados da Cabala. A 
histria da criao de mundo, que precede a descrio do den,  menos uma narrao do que um 
smbolo que exprime as leis eternas da criao, cujo resumo est contido nas seis letras 
hieroglficas da palavra t y c a d b 
11 Factum fatum quia fatum verbum est. Um fato  uma fatalidade porque uma fatalidade  uma 
razo. Uma razo suprema dirige tudo e no h fatalidade: tudo o que  devia ser. Tudo o que 
acontece deve acontecer. Um fato concludo  irrevogvel como o destino; mas o destino  a razo 
da inteligncia suprema.
12 Portoe jubiloeum sunt. As portas so um jubileu. H cinqenta portas da cincia segundo os 
cabalistas, isto , uma classificao geral em cinco sries de dez cincias particulares que 
formam juntas a cincia geral e universal. Depois de percorrer todas essas sries, entra-se na 
jubilao do verdadeiro saber, representada pelo grande jubileu que ocorre a cada cinqenta 
anos.
13 Abraham semper vertitur ad austrum. Abrao volta-se sempre em direo ao vento do sul. Isto 
, em direo ao vento que traz a chuva. As doutrinas de Abrao, ou seja, da Cabala, so 
doutrinas sempre fecundas. Israel  o povo das idias reais e do trabalho produtivo. Conservando 
o depsito da verdade sofrida com uma admirvel pacincia, trabalhando com uma rara sagacidade e 
uma incansvel atividade, o povo de Deus deve conquistar o mundo.
14 Per additionem He Abraham genuit.  pela adio de He que Abrao tornou-se pai. Abrao se 
chamava primeiramente Abram. Deus acrescenta, diz a Bblia, um He a seu nome anunciando-lhe que 
ele seria pai da multido. O He  a letra feminina do tetragrama divino. Representa o verbo e 
sua fecundidade,  o signo hieroglfico da realizao. O dogma de Abrao  absoluto e seu 
princpio  essencialmente realizador. Os judeus em religio no sonham, eles pensam, e sua ao 
tende sempre  multiplicao, tanto da famlia como de riquezas que mantm a famlia e lhe 
permitem crescer.
15 Omnes ante Mosem per unicornem prophetaverunt. Todos os profetas que antecederam Moiss s 
juraram pelo unicrnio. Entende-se por isso que s viram um lado da verdade. O chifre, no 
simbolismo hebreu, significa o poder, e sobretudo o poder do pensamento. O unicrnio, animal 
fabuloso que s tem um chifre no meio da fronte,  a figura do ideal; o touro ao contrrio ou o 
querube  o smbolo da fora que est na realidade.  por isso que Jpiter, Ammon, Osris, sis, 
so representados com dois chifres na fronte;  por esse motivo que Moiss tambm  representado 
com dois chifres, dos quais um  a trombeta do Verbo e o outro o chifre da abundncia.
16 Mas et foemina sunt Tiphereth et Malchuth. O homem e a mulher so a beleza de Deus e seu 
reino. A beleza revela Deus. A natureza se mostra filha de Deus porque  bela. Diz-se que o belo 
 o esplendor da verdade e esse esplendor ilumina o mundo, ele tem sua razo de ser. Esse belo  
o ideal, mas esse ideal s  verdadeiro quando se realiza. O ideal divino  como o marido da 
natureza,  ele que a torna amorosa e que a faz tornar-se me.
17 Copula cum Tiphereth et generatio tua benedicetur. Despose a suprema beleza e tua gerao 
ser abenoada. Se o casamento  santo, a posteridade ser santa. Os filhos nascem viciosos 
quando so concebidos no pecado.  necessrio apurar e enobrecer o amor para santificar o 
casamento, Se os seres humanos ao se aproximarem cederem a um instinto que tm em comum com os 
animais geraro animais em forma humana. O verdadeiro casamento une ao mesmo tempo as almas, os 
espritos e os corpos, e os filhos que provm sero abenoados.
18 Doemon est Deus inversus. O diabo  Deus invertido. O diabo no  seno a anttese de Deus, e 
se pudesse ter uma existncia real, Deus certamente no existiria. O diabo  mentiroso como seu 
pai, disse Jesus. Ora, qual  o pai do diabo? O pai do diabo  a mentira. O diabo nega o que 
Deus afirma. A conseqncia disso  que Deus nega o que o diabo ousa afirmar. O diabo afirma sua 
prpria existncia, e Deus, fazendo sempre triunfar o bem, d a Sat um desmentido eterno.
19 Duo erunt unum. Quod intra est fiet extra e nox sicut dies illuminabitur. Dois faro apenas 
um. O que est dentro se produzir fora e a noite ser iluminada como o dia. Deus e a natureza, 
a autoridade e a liberdade, a f e a razo, a religio e a cincia, so princpios eternos que 
ainda no esto conciliados. Eles existem, no entanto, e como no se podem destruir mutuamente, 
 necessrio que se conciliem. O modo de concili-los  tentar distingui-los bem e equilibrar um 
pelo outro. A sombra  necessria  luz. So as noites que marcam e medem os dias. Que a mulher 
no procure mais se fazer homem e que o homem jamais usurpe o imprio da mulher, mas que ambos 
se unam para se completar. Quanto mais a mulher  mulher, mais ela merece o amor do homem; 
quanto mais o homem  homem, mais ele inspira confiana  mulher. A razo  o homem; a f  a 
mulher. O homem deve deixar  mulher seus mistrios, a mulher deve deixar ao homem essa 
independncia que ele ama a ponto de sacrificar-se por ela. Que o pai jamais discuta os direitos 
da me no seu domnio maternal; mas que a me jamais atente  soberania paternal do homem. 
Quanto mais se respeitarem um ao outro, mais estreitamente se uniro. Eis a soluo do problema.
20 Poenitentia non est verbum. Arrepender-se no  agir. A verdadeira penitncia no consiste 
nem nos lamentos nem nas lgrimas. Quando se percebe que se faz mal  preciso voltar-se 
imediatamente a fazer bem. De que adianta, se me coloquei num caminho errado, bater no peito e 
comear a chorar como uma criana ou como um covarde?  preciso voltar sobre meus passos e 
correr para recuperar o tempo perdido.
21 Excelsi sunt aqua australis et ignis septemtrionalis et proefecti eorum. Sile. A gua  a 
rainha no Sul e o fogo no Norte. Guarda silncio sobre esse arcano. Guardemos silncio, visto 
que os mestres o ordenam. Acrescentemos somente  sua frmula estas palavras que podem servir 
para explic-la: A harmonia resulta da analogia dos contrrios; Os contrrios so governados 
pelos contrrios atravs da harmonia; O rei das harmonias  o mestre da natureza.
22 In principio, id est in Chocmah. No comeo, isto , pela sabedoria. A sabedoria  o princpio 
de tudo o que existe eternamente, tudo comea e termina por ela, e quando a Escritura sagrada 
fala de um comeo, designa a sabedoria eterna. No comeo era o Verbo, isto , na sabedoria 
eterna estava o Verbo. Supor que Deus decidiu criar aps uma eternidade de inrcia,  supor dois 
enormes absurdos: 1. uma eternidade que acaba; 2. um Deus que muda. A palavra Bereschit que 
comea a Gnese significa literalmente na cabea, ou pela cabea, isto , no pensamento, que em 
Deus est a sabedoria eterna.
23 Vioe oeternitatis sunt triginta duo. H trinta e duas vias que conduzem ao Eterno. As trinta 
e duas vias so os dez nmeros e as vinte e duas letras. Aos dez nmeros se unem idias 
absolutas, como a unidade ao ser; a dois, o equilbrio; a trs, a gerao, etc. As letras 
representam os nmeros em hebreu, e as combinaes de letras do combinaes de nmeros e tambm 
de idias que seguem com exatido as evolues dos nmeros; isso faz da filosofia oculta uma 
cincia exata que se poderia chamar a aritmtica do pensamento. O livro oculto que serve a essas 
combinaes  o Tar, composto de vinte e duas figuras alegricas das letras e dos nmeros e de 
quatro sries de dez contendo os smbolos anlogos s quatro letras do nome divino, o Schema 
tetragramtico. Essas sries podem reduzir-se cada uma a nove, visto que s h, com efeito, nove 
algarismos, e que o nmero dez  a repetio da unidade. Quatro vezes nove so trinta e seis, 
nmero dos talisms de Salomo, e sobre cada talism havia dez nomes misteriosos, o que d os 
setenta e dois nomes do Schema hamphorasch. Mirville pergunta a quem persuadiremos dizendo que o 
Tar com suas figuras pags  o Schema hamphorasch dos rabinos. No queremos persuadir ningum. 
Estamos em condies de prov-lo a quem quiser ter o trabalho de estud-lo conosco.  verdade 
que as figuras pags, egpcias, etc., no pertencem ao judasmo ortodoxo. O Tar existia na 
ndia, no Egito e mesmo na China, no mesmo tempo que entre os hebreus. Aquele que chegou at ns 
 o Tar samaritano. As idias so judaicas, mas os smbolos so profanos e se aproximam muito 
dos hierglifos do Egito e do misticismo da ndia.
24 Justi aquoe, Deus mare. Os justos so as guas. Deus  o mar. Todas as guas vo para o mar e 
todas voltam, mas todas as guas no so o mar. Assim, os espritos vm de Deus e retornam a 
Deus, mas no so Deus. O esprito universal, o universo vivo, o dolo do pantesmo, no  Deus. 
O ser infinito animado de uma vida infinita revela Deus e no  Deus. Como princpio do ser e 
dos seres, Deus no poderia ser assimilado nem a um ser nem a nenhum dos seres. O que  ento 
Deus?  o incompreensvel sem o qual no se compreende nada.  aquele que a f afirma sem v-lo 
para dar uma base  cincia.  a luz invisvel da qual toda luz visvel  a sombra.  aquilo com 
que o gnio humano sonha eternamente sentindo que ele prprio no  seno o sonho de seu sonho. 
O homem faz Deus  sua imagem e semelhana e exclama:  assim que Deus me fez.  assim que Deus 
se fez homem.  assim que Deus se fez Deus. Procuremos Deus na humanidade e encontraremos a 
humanidade em Deus.
25 Angeli apparentiarum sunt volatiles coeli et animantia. Os pssaros do cu e os animais da 
terra so os anjos da forma exterior. Os animais so inocentes e vivem de uma vida fatal; so os 
escravos da natureza exterior e inferior, como os anjos so os servos da natureza divina e 
superior; portam as figuras analticas do pensamento que se sintetiza no homem; representam as 
foras especficas da natureza; vieram ao mundo antes do homem para anunciar ao mundo a vinda 
prxima do homem e so os auxiliares de seu corpo como os anjos do cu so os auxiliares de sua 
alma. O que est em cima  como o que est embaixo e o que est embaixo  como o que est em 
cima. A srie distribui a harmonia e a harmonia resulta da analogia dos contrrios.
26 Litteroe nominis sunt Danielis regna. As letras do tetragrama so os reinos de Daniel. Os 
animais de Ezequiel representam as foras celestes e os de Daniel representam os poderes da 
terra. H quatro animais, segundo o nmero de elementos e de pontos cardiais. O den de Moiss, 
jardim circular dividido em quatro por quatro rios que correm de uma fonte central, o plano 
circular de Ezequiel (circum duxit me in gyro) vivificado pelos quatro ventos e o oceano de 
Daniel cujo horizonte circular  dividido por quatro animais, so smbolos anlogos uns aos 
outros e esto contidos nas quatro letras hieroglficas que compem o nome de Jeovah.
27 Angelus sex alas habens non ttransformatur. O anjo que tem seis asas jamais se transforma. O 
esprito perfeitamente equilibrado no muda. Os cus simblicos so em nmero de trs: o cu 
divino, o cu filosfico e o cu natural. As asas da verdadeira contemplao, as do pensamento 
iluminado e as da cincia conforme o ser, eis as seis asas que do a estabilidade aos espritos 
e que os impedem de se transformar.
28 Litteroe sunt hieroglyphicoe in omnibus. As letras sagradas so hierglifos completos que 
exprimem todas as idias. De modo que pelas combinaes dessas letras, que so tambm nmeros, 
obtm-se combinaes de idias sempre novas e rigorosamente exatas como operaes aritmticas, o 
que  a maior maravilha e a suprema potncia da cincia cabalstica.
29 Absconde faciem tuam et ora. Cobre tua face para orar.  costume dos judeus, para orar com 
mais recolhimento, envolver suas cabeas com um vu, a que chamam thalith. Esse vu  originrio 
do Egito e assemelha-se ao de sis. Ele significa que as coisas santas devem ser ocultas aos 
profanos e que cada um deve contar somente a Deus pensamentos secretos de seu corao.
30 Nulla res spiritualis descendit sine indumento. O esprito jamais desce sem vestimenta. As 
vestimentas do esprito tm relao com os meios que ele atravessa. Como a beleza ou o peso dos 
corpos os faz subir ou descer, assim o esprito veste-se para descer e se despe para subir. No 
saberamos viver na gua e os espritos desvencilhados dos corpos terrestres no saberiam viver 
na nossa atmosfera, como dissemos e repetimos em outro lugar.
31 Extrinsecus timor est inferior amore, sed intrinsecus superior. Exteriormente o medo  
inferior ao amor, mas interiormente  superior. H dois temores, o temor interessado e o temor 
desinteressado, o temor do castigo e o do mal. Ora, o temor do mal, sendo o amor da justia 
totalmente puro e desinteressado,  mais nobre que o amor interessado daqueles que s fazem o 
bem atrados pelas recompensas.
32 Nasus discernit proprietates. O nariz discerne as propriedades. No simbolismo do Zohar, a 
generosidade divina est representada pelo comprimento do nariz que se atribui  imagem 
alegrica de Deus. A humanidade, ao contrrio,  representada com um nariz curto, porque ela 
compreende pouco e se irrita facilmente. Em estilo vulgar, ter nariz significa ter sutileza no 
julgamento e tato na conduo da vida. O olfato do co  um modo de adivinhao. Pressentir , 
de alguma maneira, adivinhar.
33 Anima bona, anima nova filia Orientis. A alma boa  uma alma nova que vem do Oriente. H duas 
bondades: a bondade original que  a inocncia e a bondade adquirida que  a virtude. A alma 
nova, filha do Oriente,  pura como o dia que se levanta, mas ela tem que passar pela prova em 
que sua candura se apagar e depois ela ter que se purificar pelo sacrifcio. Tudo isso ser 
feito em uma s ou em vrias encarnaes?  isso que nos  difcil de saber. Dissemos por que as 
encarnaes sucessivas nos parecem impossveis; acrescentamos que os cabalistas da primeira 
ordem nunca as admitiram. Ao invs de reencarnao, admitem o embrionato, isto , a unio ntima 
de duas almas, uma j falecida e a outra ainda viva sobre a terra; aquele que morreu, tendo 
ainda deveres a cumprir sobre a terra, cumpre-os por intermdio do vivo. Desta maneira as 
personalidades ficam intactas e Elias, sem deixar de ser Elias, pode reviver em Joo, o 
batizador.  assim que Moiss e Elias aparecem no Thabor como assessores de Jesus Cristo; mas 
dizer que Jesus Cristo era uma reencarnao de Moiss, isso seria destruir ou a personalidade de 
Moiss ou a de Jesus.
34 Anima plena superiori conjungitur. Quando uma alma est completa ela se une a uma alma 
superior. As almas se unem pelo pensamento e pelo amor sem levar em conta espaos. De sol a sol, 
de universo a universo, elas podem no somente corresponder, mas tornar-se presentes umas para 
as outras.  dessa forma que se unem, segundo os rabinos, os dois fenmenos, e do embrionato e o 
do protetorado. Dissemos o que eles entendem por embrionato; o protetorado  a assistncia de 
uma alma ivre que auxilia uma alma em castigo, a assuno de um esprito militante por um 
esprito glorioso e triunfante; em outros termos, assistncia de um santo que se fez o anjo 
guardio de um justo. Essas hipteses so consoladoras e belas;  tudo o que podemos dizer; elas 
se deduzem do dogma da solidariedade das almas resultante de sua criao e de sua existncia 
coletivas.
35 Post deos rex verus regnabit super terram. Quando no houver mais falsos deuses, um 
verdadeiro rei reinar sobre a terra. A idolatria  o culto do despotismo arbitrrio, e os reis 
desse mundo so feitos  imagem dos deuses que a terra adora. Um deus que pune infinitamente 
seres finitos aps t-los criado frgeis e lhes ter imposto uma lei que contraria todas as 
inclinaes de sua natureza, sem que essa mesma lei seja claramente promulgada por todos, esse 
Deus autoriza todas as barbaridades dos autocratas. Quando os homens conceberam um Deus justo 
tero reis equitativos. As crenas fazem a opinio e  a opinio que consagra os poderes. O 
direito divino de Lus XI estava bem em relao com o Deus de Mominique e de Pio V.  ao Deus de 
Fenelon e de So Vicente de Paula que devemos a filantropia e a civilizao moderna. Quando o 
homem progride, Deus caminha; quando ele se levanta, Deus se engrandece; alm disso, o ideal que 
o homem deseja atua sobre o mundo. O esplendor do pensamento humano detendo-se sobre o objetivo 
divino reflete-se sobre a humanidade, porque esse objetivo no  outra coisa seno um espelho. 
Esse reflexo do mundo ideal torna-se a luz do mundo real. Os costumes formam-se segundo as 
crenas e a poltica  o resultado dos costumes.
36 Linea viridis gyrat universa. A linha verde circula em torno de todas as coisas. Os 
cabalistas, em seus pantculos, representam a coroa divina por uma linha verde que cerca as 
outras figuras. O verde  a aliana das duas cores principais do prisma, o amarelo e o azul: 
figuras do Eloim ou grandes potncias que se resumem e se unem em Deus.
37 Amen est influxus numerationum. Amm  a influncia dos nmeros. A palavra amm, que termina 
as preces,  uma afirmao do esprito e uma adeso do corao.  necessrio pois, para que essa 
palavra no seja uma blasfmia, que a prece tenha sido razovel. Essa palavra  como uma 
assinatura mental; por essa plavra o crente se afirma e se faz ele prprio  semelhana de sua 
prece. Amm  a aceitao de uma conta aberta entre Deus e o homem. Infeliz daquele que conta 
mal, porque ele ser tratado como um falsrio! Dizer amm aps ter formulado o erro  consagrar 
sua alma  mentira personificada por Sat. Dizer amm aps haver formulado a verdade,  fazer 
aliana com Deus.

Terceira parte

PRETENSOS ESPIRITOS OU FANTASMAS
Vises, evocaes, fenmenos de necromancia 
Da antigidade at nossos dias
CAPTULO 1
os espritos na Bblia. O esprito de Eliphas e a sombra de Samuel evocada pela pitonisa de 
Endor. Um dia compreender-se- a Bblia, saber-se- que tesouros de cincia primitiva esto 
ocultos sob tantos smbolos e figuras, saber-se- que a Gnese, por exemplo, no  somente a 
histria da formao de um mundo, mas a exposio de leis eternas que presidem  criao 
incessante e sempre renovada dos seres; decifrar-se- esses hierglifos, que tanto fazem rir 
Voltaire; saber-se- como um querube, isto , um touro (o da Europa e de Mitra), pode velar com 
o gldio em punho  porta do jardim da cincia. Agora essas alegorias esto ocultas, e os 
grandes monumentos da antigidade hiertica permanecem em p, envoltos em sua solido e seu 
silncio, como as grandes pirmides que se mostram aos olhos sem dizer nada de preciso ao 
pensamento, das quais no se sabe positivamente se so monumentos cientficos ou tmulos. Entre 
os livros da Bblia existe um que nos surpreende sobretudo pela magnificncia da forma potica e 
por sua melanclica profundidade; estamos falando do livro de J, a mais antiga talvez, mas com 
toda certeza a mais notvel sntese que nos ficou do dogma filosfico e mgico da antiga 
iniciao. Esse livro explica a origem e a razo de ser do mal, indica o fim da vida humana e de 
seus sofrimentos.  a lenda do aflito. A alegoria  transparente, os prprios nomes dos 
personagens revelam no indivduos, mas tipos. J, cujo nome significa "o aflito",  visitado em 
sua aflio por trs falsos amigos, que, sob pretexto de consol-lo, s fazem atorment-lo e 
afligi-lo mais ainda. Um  Eliphas, o zelador de Deus ou o puritano daquele tempo. O segundo  
Baldad, o amante das velhas idias. O terceiro  Sophar, o filsofo tenebroso e malvolo. Eles 
foram visitar J na terra de Hus, cujo nome significa "conselho", e, com toda a inocncia feroz 
da parvoice, renem seus esforos para impeli-lo ao desespero. O primeiro que fala  Eliphas, e 
como representa a autoridade altaneira, traz como prova do que fala o testemunho de um esprito. 
Algum, disse ele, lhe falou, algum desconhecido do qual no viu o rosto, mas ele tremeu de 
pavor, os plos de sua carne ficaram eriados e ele sentiu passar diante de seu rosto como que 
um pequeno sopro que murmurava palavras incertas. Ele esticou avidamente o ouvido e captou o 
melhor possvel os fios rompidos desse murmrio de uma sombra. Eis um mdium dos velhos tempos e 
vemos, lendo essa passagem, que o autor do livro de J conhecia muito bem o gnio dos 
visionrios e o carter distintivo das vises. Atribui-se o livro de J a Moiss, e no  sem 
razo, porque a beleza desse poema no deixa nada a desejar em relao aos hinos do grande 
profeta dos hebreus;  a mesma inspirao,  a mesma grandeza nas imagens. Mas, seja ou no de 
Moiss, esse livro sagrado  a obra de um grande hierofante, e a mais alta cincia a se 
encontra unida s mais sublimes aspiraes da f.  necessrio pois estudar e pesar com cuidado 
as palavras dessa obra. Observemos primeiramente que o homem com vises, o mdium, como se diria 
em nossos dias, , dos trs amigos de J, o mais triste e o mais desesperado. Suas doutrinas 
fazem duvidar da virtude e conduzem ao nada ou ao inferno a grande maioria dos homens. Ora, quem 
lhe sugeriu esses dogmas de desesperana? Um esprito que ele no conhecia, mas cujas palavras 
seus terrores noturnos recolhiam e comentavam; eis o que ele conta: "Uma palavra misteriosa me 
foi dita e, furtivamente, de alguma forma, meu ouvido captou os fios rompidos de seu murmrio. 
"No horror da viso noturna, no momento em que o sono se apodera comumente dos homens,  "Fiquei 
tomado pelo medo e tremia; e todos os meus ossos ficaram gelados de pavor. E como um esprito 
passava diante de mim, todos os plos de minha carne se eriaram. "Algum estava l, algum de 
quem no distinguia o rosto, e ouvi como que um pequeno sopro que me falava." Observemos bem 
todas as circunstncias:  o momento em que a noite  mais profunda, a hora em que o silncio da 
natureza prepara as almas para o temor, e o momento em que a viglia torna-se duvidosa, em que a 
alma flutua nos primeiros vapores do sono, quando a razo j est acorrentada. Um temor sem 
causa aparente apodera-se ento do visionrio, seu sangue se agita e se retira em direo ao 
corao, as extremidades ficam frias, ele treme como se estivesse com febre, o calafrio percorre 
sua epiderme, seus cabelos e sua barba se eriam e  nesse estado precursor das alucinaes que 
ele acredita ver ou sentir um esprito passar. Um fantasma se desenha vagamente na sombra, ele 
procura e no encontra o rosto dessa figura e ouve, como que no fundo de si mesmo, uma voz que 
parece uma respirao fraca; eis o fenmeno natural perfeitamente caracterizado:  um pesadelo 
do primeiro sono,  a alma do sonhador que amedronta a si mesma. Ele escuta com pavor o eco 
noturno e enfraquecido de seus prprios pensamentos e os formula com uma penosa ateno, com 
palavras de desespero. O homem, diz ele, tentaria inutilmente ser justo perante Deus; Deus 
encontra a perversidade at no corao de seus anjos. Rebanho sem inteligncia, a humanidade se 
espreme em volta do abismo e todos devem cair para sempre na noite escancarada da morte. A 
criatura mancha o cu e Deus se apressa em limp-lo; todos passam e morrem sem ter encontrado a 
sabedoria.  assim que a noite exorta a noite e que a morte anuncia a morte. O pesadelo 
desconhecido revela apenas a ignorncia e consagra seu crente a um pesadelo eterno. Preserva-
nos, Senhor, diz Davi no livro dos Salmos, da coisa assustadora que passeia na noite. Esse sopro 
leve, essa agonia que mal se ouve, esse espectro sem rosto caracterizando de uma maneira 
surpreendente a iluso e o erro:  quase o nada e o silncio,  o vento que parece falar em voz 
baixa roando as dobras rgidas da mortalha,  a reminiscncia que se apaga na onda mvel e 
invasora do sonho; e o homem que o sonho arrebata j no sabe se dorme ou se est acordado; 
raciocina durante o sono, e, ao despertar no dia seguinte, falar como se ainda sonhasse. Nunca 
seria demais admirar a arte com que o autor do livro de J desenha o carter do supersticioso 
representado por Eliphas; sua cincia comeou por um terror noturno; tambm ela  apenas 
esmorecimento e terror. Ela  negra como a noite, cega e sem rosto como o fantasma.  o orgulho 
de um alienado que se compraz em sua demncia e que se consola em desesperar dando-se a amarga 
alegria de empurrar os outros para o desespero. Todos os criminosos por religio mal 
compreendida foram visionrios; Jacques Clment e Ravaillac eram perseguidos por sombras 
desconhecidas e ouviam durante sua insnia o pequeno sopro de Eliphas. A voz que diz: "Mata" e a 
que diz: "Desespera e morre", saem igualmente do tmulo.
Mas esse tmulo  o da nossa razo, e os mortos voltam apenas em nossos sonhos; tambm o estado 
de mediunidade  uma extenso do sonho,  o sonambulismo com toda a variedade de seus xtases. 
Aprofundemos os fenmenos do sono, e dominaremos todos os mistrios do espiritismo. Eis por que 
a lei mosaica, assim como a lei crist, condenava os espritos de Python e os que advinham por 
Ob. Explicamos essas expresses: Python  uma palavra que os intrpretes hebreus empregaram para 
expressar a grande serpente astral, o fogo vital ininteligente, o turbilho fatal da vida 
fsica, o que cerca a terra mordendo a cauda e que o sol atravessa por todos os lados com suas 
flechas, isto , com seus raios; a serpente que tentou Eva e que esmagou sua cabea sob o p da 
mulher regenerada procurando sempre lhe morder o calcanhar. Ob  a luz passiva, porque os 
cabalistas hebreus do trs nomes a esta substncia universal, agente da criao que toma todas 
as formas ao equilibrar-se pela balana de duas foras. Ativa, ela se chama Od; passiva se chama 
Ob; equilibrada se chama Aour. Od se escreve com "vau daleth", que significa hieroglificamente 
amor e poder; Ob, com "vau beth", significa amor e fraqueza ou atrativo fatal; Aour, com "aleph-
vau-resch", significa princpio de amor regenerador. (Veja em nosso Dogma e Ritual da Alta Magia 
as concordncias das letras hebraicas com os hierglifos e os nmeros das grandes chaves do Tar 
samaritano.) Os que adivinham por Ob so pois os intrpretes da fatalidade. Ora, consentimos a 
fatalidade quando a consultamos; abandonamo-nos a ela procurando-a atravs de orculos. Damos 
assim arras  morte, enfraquecemos seu livre arbtrio. Os que cooperam com essa adivinhao 
assemelham-se aos empricos que venderiam veneno publicamente, e Moiss, segundo os costumes de 
seu pas e de seu tempo, no era muito severo quando os condenava  morte. O cavaleiro de 
Richemback, ao chamar de Od a luz astral, reencontrou um dos verdadeiros nomes cabalsticos da 
luz universal, mas no o aplicou com exatido ao generaliz-lo. Od  a luz dirigida ou mesmo 
diretriz;  a luz astral elevada ao estado de luz de glria. Quanto ao fludo do sonambulismo,  
necessrio cham-lo de Ob, porque  seu verdadeiro nome, e somos forados a reconhecer que os 
verdadeiros sonmbulos, quando no so dirigidos por um magnetizador poderoso em Od, so 
advinhas por Ob ou pelo esprito de Python do qual fala a Escritura Santa. Os que os consultam 
cometem pois aquela imprudncia ou aquela impiedade que empurrou Saul, abandonado por Deus, para 
o antro da pitonisa de Endor. Alguns comentadores, entre os quais se deve mencionar So 
Methodius, denominado Eubulius, bispo de Tiro no incio do sculo IV, viram a pitonisa de Endor 
como uma hbil intrigante que enganou a credulidade do rei de Israel. Primeiro ela finge no 
reconhecer o rei, e depois, repentinamente, como se o seu demnio lhe revelasse a verdade, cai 
aos ps de Saul. Essa encenao d certo. O prncipe manaco tranqiliza-a e se mostra disposto 
a acreditar nela; ele lhe ordena que evoque Samuel. A ptia ento faz mil contores e se deixa 
cair pesadamente por terra. O que vs? grita-lhe Saul, todo trmulo. - Vejo deuses que saem da 
terra onde vejo subir os poderes da terra. - O que mais vs? - Vejo um velho envolto em um 
manto. -  Samuel, diz o crdulo monarca. Ento a feiticeira, sem dvida secretamente devotada a 
Davi, faz sair de seu ventre uma voz lgubre.  Samuel que explode em censuras e ameaas. Saul, 
mais morto do que vivo, j no pode beber nem comer; ele  vencido de antemo; caminha para a 
batalha como que para o suplcio; os filisteus rodeiam-no na montanha de Gelboe, e ele se deixa 
cair sobre seu gldio ao invs de se defender. Ele no deixou com a adivinha seu livre arbtrio 
e sua razo? Rei cado e doravante incapaz de reinar, homem indigno de conduzir homens, ele que 
havia pronunciado a pena de morte contra os feiticeiros e contra aqueles que os consultavam, 
mostra-se rei pelo menos morrendo, e o faz ao matar-se em ltimo ato de justia. Ao sbio bispo 
de Tiro repugnava, com razo, pensar que a paz de uma tumba como a de Samuel pudesse ser 
perturbada pelas evocaes sacrlegas de uma mulher condenada; lembrava-se alis dessa palavra 
to decisiva do Evangelho na parbola do mau rico: CHAOS MAGNUM FIRMATUM EST. O grande caos 
consolidou-se, de sorte que aqueles que esto em cima j no podem descer; e sobre esse assunto 
nosso sbio amigo, o saudoso Louis Lucas, fazia uma observao muito judiciosa. A natureza, 
dizia ele, abre  vida todas as suas portas, tendo o cuidado de fech-las atrs dela para que 
ela jamais retroceda. Vede a seiva nas plantas, vede os sumos alimentadores no alambique das 
entranhas, vede o sangue nas veias; um movimento regular os faz avanar sempre, e depois que 
eles passam, os canais estreitam-se e se estrangulam. Os vivos de uma esfera superior, 
acrescentou ele, no podem mais recair na nossa esfera, do mesmo modo como a criana j nascida 
no pode voltar para dentro de sua me; pensamos como ele e no cremos que a alma de Samuel 
tenha podido vir de outro mundo maldizer mais uma vez o infeliz Saul. Para ns, a pitonisa de 
Endor era uma vidente  maneira dos estticos de Cahagnet; pelo sonambulismo, ela se ps em 
comunicao com a alma sombria do rei de Israel e evocou os seus fantasmas.  do fundo da 
conscincia dos assassinos de padres e profetas e no do vazio da terra que se levanta o 
espectro sangrento de Samuel, e quando a sibila repetia com uma voz de ventrloqua antemas e 
ameaas, ela os lia escritos pelo remorso do prprio pensamento de Saul.

CAPTULO 2
(Continuao do anterior)
Os mortos ressuscitados - O filho da Sunamita - O tmulo de Eliseu Os antigos hebreus 
acreditavam como os modernos na imortalidade da alma. Moiss no entanto no fez nenhuma meno 
sobre o assunto no Pentateuco. Esse dogma, com efeito, era reservado aos iniciados, e para 
reencontr-lo em todo seu esplendor  necessrio penetrar nos santurios da Cabala. Moiss, cuja 
grande obra era afastar seu povo da idolatria, sabia que a f mal esclarecida na imortalidade da 
alma conduzia ao culto dos antepassados e no queria que os hebreus fossem chineses. No queria 
que o povo de Abrao e de Jac levasse do Egito o fetichismo dos cadveres, no queria dar ao 
templo do Deus vivo um subsolo povoado de mmias. A conservao dos cadveres, com efeito,  um 
ultraje  natureza, porque  um prolongamento artificial da morte. Moiss temia tambm encorajar 
a necromancia e parecia prever de longe a epidemia das mesas falantes e dos espritos 
espancadores.  perigoso superexcitar a imaginao das multides, e o cristianismo mais tarde 
no escapou desse perigo. O sonho do cu fez negligenciar muito a terra , e nunca  demais 
lembrar que, segundo a palavra do Mestre, a vontade de Deus deve ser feita assim na terra como 
no cu. O que est embaixo  como o que est em cima, diz Hemes Trismegisto, e o que est em 
cima  como o que est embaixo: quando a barbrie est na terra, est tambm no cu que os 
homens representam. Tomo por testemunha o fanatismo da Idade Mdia e o deus dos inquisidores. A 
religio de Moiss  uma razo sem ternura, e o cristianismo foi de incio uma ternura sem 
razo.  necessrio perdoar queles que amaram muito. Adorar os mortos que nos so caros  um 
erro, sem dvida, mas  um crime imperdovel? No h mortos para ns, alis, tudo  vivo. Nossas 
prprias relquias, esses restos de ossadas que causam tanto horror ao puritanismo judaico, j 
no so fragmentos de cadveres. Reanimadas pela f comum, regadas por doces lgrimas de 
esperana, reaquecidas pela caridade de todos, so sementes de ressurreio e garantias de vida 
eterna. Israelitas, concedei alguma coisa  santa loucura do amor e nos reconduzireis mais 
facilmente  severidade do dogma pela indulgncia da razo! Crer na ressurreio dos mortos  
crer na imortalidade da alma. Ora, os hebreus acreditavam na ressurreio dos mortos. Elias 
ressuscitou o filho da viva de Sarepta, Eliseu, o da Sunamita, e um morto que lanaram por 
acaso no sepulcro desse profeta ressuscitou ao contato de suas ossadas. As duas ressurreies, a 
do filho da viva e a do filho da Sunamita, parecem muito calcadas uma na outra. Seja o que for, 
a narrao da ltima contm detalhes de operaes magnticas dignas de serem notadas. O filho da 
Sunamita morreu de uma congesto cerebral em conseqncia de uma insolao. Eliseu primeiro 
enviou seu servidor Giezi confiando-lhe seu prprio basto: Tu o voltars, disse-lhe ele, na 
direo do rosto da criana, e tu o fars toc-lo. Giezi parte com a bengala; mas seja por 
inpcia, seja por falta de f, sua operao no produz nada e ele volta sem ter tido xito. 
Ento, o prprio Eliseu dirige-se ao leito da criana e toma a resoluo de reaquec-lo por 
incubao e insuflao. Coloca o rosto sobre o rosto da criana, as mos sobre as mos dela, os 
ps sob seus ps; depois, sem dvida para retomar foras, interrompe e passeia pelo quarto; 
enfim recomea sua incubao magntica e a criana retorna  vida.  o que lemos no quarto livro 
dos Reis. Dissemos, em nosso Dogma e Ritual da Alta Magia, que uma ressurreio no nos parece 
impossvel enquanto o organismo vital no for destruido. A natureza, com efeito, no realiza 
nada de repente, e a morte natural  sempre precedida de um estado que se parece um pouco com a 
letargia.  um torpor que uma grande sacudida ou o magnetismo de uma poderosa vontade podem 
vencer, e isso explica a ressurreio do morto jogado sobre os ossos de Eliseu. O homem estava 
provavelmente nesta letargia que comumente precede a morte. Os que o carregavam assustaram-se 
vendo chegar uma borda de salteadores do deserto e atiraram ao acaso o cadver no sepulcro 
aberto do profeta para ocult-lo dos infiis. A alma do morto sem dvida pairava pelas regies 
baixas da atmosfera, ainda mal separada de seus despojos mortais; o pavor de sua famlia 
comunicou-se simpaticamente com esta alma; ela teve medo de que seus restos fossem profanados 
pelos incircuncisos e entrou violentamente em seu corpo para elev-lo e salv-lo. Sua 
ressurreio  atribuda ao contato com as ossadas de Eliseu, e o culto das relquias data 
logicamente dessa poca.  certo que os hebreus, que consideram sagrado o livro onde  narrada 
essa histria, no devem achar ruim o culto que os catlicos prestam s ossadas e aos outros 
restos de seus santos. Por que, por exemplo, o sangue de So Janurio teria menos virtude que o 
esqueleto de Eliseu?
CAPTULO 3
Os espritos no evangelho: demnios, possessos e aparies. Jesus chama Sat de "prncipe desse 
mundo";  pois um poder que exerce seu imprio sobre a terra. No  um poder espiritual, porque 
ento excluiria o poder de Deus. Jesus diz que o viu cair do cu como o raio ou sob a forma de 
raio.  pois um poder material anlogo  eletricidade. Jesus diz que Sat  mentiroso como seu 
pai, porque o pai de Sat  o esprito de mentira que d personalidade ao erro. Utilizar mal as 
foras da natureza  engendrar Sat. Conceber tudo sem Deus  conceber Sat. O diabo  um 
pantesmo sem cabea.
 o homem com cabea de bode.
 o instinto animal colocado no lugar da razo reguladora.
 a sombra que nega o corpo.
 o pote que nega o oleiro.
 o pesadelo,  o absurdo da razo negando o absurdo da f.
 o acaso afirmando-se contra a regra;  a careta insultando a beleza;  o nada que diz: Sou 
Deus.
Sat  a loucura, e os possudos pelo demnio so os loucos.
Um  mudo, o outro rasga suas roupas e se esconde nas tumbas; um outro lana-se ora no fogo, ora 
na gua, e parece afetado pela monomania do suicdio. O que  tudo isso? Doenas mentais, e 
Jesus, atribuindo a Sat, isto ,  eletricidade desviada, a maior parte das outras doenas, diz 
a respeito de uma mulher disforme e dobrada em dois: Vede esta filha de Abrao que foi ligada 
por Sat! V-se que Sat  aqui a personificao do prprio mal fsico. Ligada por Sat quer 
dizer aqui, evidentemente, ligada por uma afeco nervosa ou reumtica. Alis, a serpente da 
Gnese no poderia ser o Sat de Milton. Era o mais insinuante e o mais astucioso dos animais, 
diz o texto sagrado, e Deus, para puni-lo, condenou-o a rastejar sobre seu ventre e a comer a 
terra; suplcio que no se parece em nada com as chamas tradicionais do inferno.  verdade 
tambm que a serpente real e no alegrica rastejava antes do pecado de Eva e jamais comeu 
terra, trata-se pois, aqui, de uma alegoria; trata-se desse fogo astral que rasteja e que 
atormenta, desse fogo terrestre que alimenta a vida fsica ao dar a morte.  tambm o mesmo Sat 
que pode tornar doentes ou paralticos as antigas filhas de Abrao. O que pensar tambm dessa 
legio de demnios que, expulsos do corpo de um possesso, pedem como uma graa que se possam 
refugiar num rebanho de porcos que tornam furiosos e correm a se afogar no lago de Tiberade? 
No  esta evidentemente uma parbola judaica, cujo fim  mostrar o quanto o porco  um animal 
impuro? Se devemos tomar ao p da letra semelhantes histrias, Voltaire tem mil vezes razo de 
caoar disso. Mas sabe-se que a letra mata e que s o esprito vivifica. No queremos dizer com 
isso que o fato em si seja impossvel. A raiva dos ces comunica-se aos homens; por que a raiva 
dos homens ou certas loucuras furiosas no se comunicariam aos animais? Mas quantos anjos 
decados, quantos espritos puros condenados ao inferno encontram alvio ao se afogarem sob 
formas de porcos; que o Salvador do mundo, a razo suprema encarnada, consinta nessa maldade 
horrenda e ridcula,  isso que o mais vulgar bom senso no pode admitir. H, evidentemente, 
alguma coisa oculta sob essa narrao aparentemente revoltante. Quando um esprito imundo  
expulso do corpo de um homem, diz o Salvador, ele vai percorrendo lugares ridos e procurando o 
repouso que no pode encontrar; ento diz: Retornarei  casa que deixei. Ento ele vai e, 
reencontrando essa casa limpa e enfeitada, vai tomar sete outros espritos mais maldosos que 
ele; eles entram todos juntos, estabelecem-se e o estado do doente torna-se pior do que estava 
antes. Se fosse para entender esse discurso simblico no sentido dos demonlogos, o prprio 
Jesus, ao curar os possessos, teria feito ms aes, visto que segundo sua prpria doutrina ele 
os expunha a uma obsesso sete vezes mais cruel. Mas trata-se aqui de doenas mentais, que 
freqentemente agravamos ao querer cur-las. Se expulsarmos uma iluso da cabea de um louco, 
ele logo ter outras sete mais insensatas que a primeira.  por isso que Jesus ocultava da 
multido as altas verdades de sua doutrina e s as revelava ao pequeno crculo de iniciados 
disfarando-as em parbolas. Ele temia o esprito impuro que se chama legio ou multido. Quero, 
dizia ele, que essas pessoas ouam sem compreender, que vejam sem ver, porque tenho medo de que 
no se convertam. Ai! ele pressentia as guerras religiosas, os massacres e as fogueiras; via de 
longe o Imprio Romano desabando no sangue das perseguies, e o fanatismo rancoroso condenando 
 morte a piedade que ora e que perdoa. Ele expulsava um demnio mudo, era o culto dos dolos, e 
via chegar sete demnios tagarelas, os sete pecados capitais erigidos em doutores da Igreja.  
por isso que se empenhava em calar-se, quando ele mesmo, talvez, j tivesse dito demais. Tambm, 
quando  trado e renegado pelos seus, caluniado e amaldioado pelos padres, acusado diante dos 
juzes, entregue aos clamores da vil multido que pede sua morte, ele se encerra no mais 
absoluto silncio, no responde nada a Pilatos, no quer dizer nada a Herodes; o que lhes diria 
ele, e por qu? Eles so indignos e incapazes de entend-lo. Enfim, quando esgotou at a lia a 
taa da ingratido, quando se sente morrer num suplcio atroz sem ter podido fazer outra coisa 
pelos homens que tanto amou seno torn-los mais culpados e mais maldosos, seu corao se 
dilacera, ele parece duvidar de si mesmo, e d esse grito terrvel: Meu Deus! Meu Deus! Por que 
me abandonaste? Quando expirou, diz o Evangelho, a terra tremeu, o sol se obscureceu, o vu do 
templo se rasgou de cima at embaixo, as pedras racharam, os tmulos abriram-se, os mortos 
saram e apareceram a vrias pessoas. Se fosse para tomar essas coisas ao p da letra, a 
histria faria certamente uma meno qualquer a esse acontecimento formidvel. O tremor da terra 
teria sido universal, e o obscurecimento do sol outra coisa que no um simples eclipse. Quais 
so as pedras que racharam? Todas as pedras. As cidades ento deveriam ter desabado. Algumas 
pedras? Quais? E por que estas e no aquelas? Os mortos saram de seus tmulos? Em que estado? 
Tal como eram? No estado de putrefao e de esqueletos, ou com corpos novos? Foi ento uma 
verdadeira ressurreio. Mas a Escritura chama Jesus Cristo de o primeiro-nascido dentre os 
mortos, isto , o primeiro dos ressuscitados, e nesse momento Jesus apenas acabava de morrer. A 
letra aqui no resiste um s instante ao exame;  necessrio recorrer ao esprito, isto ,  
alegoria. Jesus Cristo morreu de fato e o velho mundo tremeu; ele no se recuperar desse abalo, 
e o colosso romano cair pedao por pedao. O vu do templo se rasgou, isto , os mais secretos 
mistrios da religio judaica so desvendados,  a humanidade divina ou a divindade humana. O 
sol se obscureceu, isto , os antigos cultos do Oriente que tomavam o sol pela mais perfeita 
imagem de Deus perderam sua virtude. Um sol vivo acaba de aparecer sobre a terra, ele desaparece 
para renascer, os dias da alma encontraram sua chama. As pedras se racham, isto , os mais duros 
coraes no podem resistir  doce violncia do grande sacrifcio. Os tmulos abrem-se por si 
mesmos, porque a morte acaba de deixar escapar as chaves das portas eternas. Os mortos levantam-
se e parecem ressuscitar de antemo, porque a morte triunfante da maior das vtimas acaba de dar 
um golpe mortal na prpria morte, e a imortalidade da alma torna-se visvel, de certo modo, 
sobre a terra. Esse  o sentido, o verdadeiro sentido, o nico sentido possvel e lgico das 
palavras sagradas tomadas ao p da letra por tantas crianas entre as quais  preciso colocar as 
teologias imbecis da Idade Mdia. Quanto s aparies do prprio Jesus Cristo, no falaremos 
nelas, porque so domnio exclusivo da f. Diremos apenas que no favorecem em nada as idias do 
espiritismo, porque Jesus Cristo aparece no como morto, mas como vivo. No  em esprito,  em 
carne e osso que ele se encontra no meio de seus discpulos, convida-os a toc-lo, pede-lhes o 
que comer; come, com efeito, e bebe no meio deles. So Toms o toca e encontra um corpo real e 
palpvel. No entanto esse corpo passa atravs de portas fechadas. So coisas do outro mundo que 
nada, certamente, neste mundo poderia explicar. Esse corpo palpvel e real, esse corpo que tem 
carne e osso, esse corpo que se alimenta de po e de mel, aparece e desaparece como uma 
fantasmagoria. H a evidentemente algum mistrio. Os primeiros cristos, forados a se 
esconder, tinham suas parbolas e seu ocultismo. Escreviam para serem compreendidos apenas pelos 
iniciados. A histria da apario aos viajantes de Emas pode lanar alguma luz nessas sombras. 
Dois viajantes passavam no longe do burgo de Emas, eram discpulos de Jesus, e conversavam 
tristemente sobre a morte violenta de seu mestre. Um viajante desconhecido os aborda e lhes 
censura a tristeza; explica-lhes as escrituras, relembra-os sobretudo das palavras do mestre 
antes de morrer: "Fareis comigo apenas um, como fao apenas um com meu Pai. Aquele que me v, v 
meu Pai, e aquele que vos vir, ver a mim. Aquele que vos escuta me escuta, e quando fordes dois 
ou trs reunidos em meu nome, estarei l no meio de vs." Assim falando chegam  hospedaria, o 
viajante toma o po, benze-o e o reparte, como Jesus Cristo fizera antes da Ceia; ento os olhos 
dos dois discpulos abrem-se, reconhecem que, segundo sua palavra, Jesus Cristo estava realmente 
presente entre eles; compreendem-no ressuscitado e sempre visvel entre os seus, sempre presente 
em sua Igreja. Comungaram pois da prpria mo de Jesus Cristo, e aps a comunho no o viram 
mais. Est expresso aqui com reservas e de uma maneira velada todo o mistrio do sacerdcio. O 
sacerdote que reza a missa  realmente Jesus Cristo pela f dos espectadores, e a prova disso  
que o sacerdote, ao pronunciar as palavras sacramentais, no diz: Este  o corpo do Cristo, mas, 
como diz o Mestre: Este  meu corpo. O devoto ento no mais v o sacerdote, v Jesus Cristo 
dando-lhe seu corpo e recebe realmente o corpo sagrado de Jesus Cristo; mas, aps o sacrifcio, 
Jesus desapareceu, e no mais nos ocupamos do bravo proco, que, recitando baixinho os versetes 
de seu Te Deum, retorna  sacristia. Na igreja de So Gervsio em Paris v-se uma pintura mural 
de Gigouse, que representa muito bem, na nossa opinio, o mistrio da ressurreio do Salvador. 
No  um trovo, no  um sepulcro que rebenta no meio dos soldados desvairados,  uma tumba que 
se abre por si mesma,  uma luz que desabrocha como uma flor matinal, doce ainda como o 
crepsculo, mas suficientemente potente para esclarecer vivamente os espectadores dessa cena. 
Cristo no desaparece; caminha para frente com a placidez da calma eterna. Seu gesto  o do 
ensinamento das coisas divinas; cremos ver sua aurola crescer lentamente com nuances irisadas, 
e em torno dele comea a se criar um cu novo. Os guardas no esto nem fulminados, nem 
aterrorizados; esto tomados e como que paralisados por um estupor, que no  sem admirao e 
talvez nem sem uma vaga esperana, pois no  por eles, pobres mercenrios do mundo romano, que 
o Redentor acaba de vencer a morte? Tudo  calmo nesse quadro, e o pintor chegou aos mais 
sublimes efeitos atravs da maior simplicidade. Depois que vemos esse quadro, ns o revemos 
sempre em nossa lembrana, e involuntariamente o contemplamos com uma emoo incansvel. O 
sentimento que experimentamos  como que um arrebatamento para o pensamento, como um xtase para 
o corao.  principalmente s artes que se deve perguntar as revelaes do progresso. O que o 
filsofo ainda no sabe dizer, ou no ousa dizer, o artista adivinha, e nos faz sonhar 
antecipadamente o que um dia deveremos saber.
CAPTULO 4
Histria do Santo Espirido e de sua filha Irene. Em meados do sculo IV, em Tremithonte, na 
ilha de Chipre, vivia o santo bispo Espiridio, um dos pais do conclio de Nicia. Era um velho 
dcil e venervel, pobre como Jesus, penitente como um asceta, e caridoso como um apstolo. 
Havia sido casado, e sua esposa ao morrer lhe deixara uma filha chamada Irene, que consagrou sua 
alma  prece e seu corpo  virgindade. Morava com ela numa choupana cercada por um pequeno 
jardim que ele prprio cultivava. Ele era o conselheiro de toda a regio e Irene era a 
providncia: tratava dos doentes e visitava os pobres, enriquecendo-os de coragem e dando-lhes a 
esmola de todos os tesouros de seu corao. Depois ela orava, jejuava, fazia viglia, tanto que 
sua sade declinava ao mesmo tempo que sua alma desligava-se cada vez mais da terra. Mal tendo 
sado das catacumbas, a Igreja crist, que Constantino acabava de cobrir com sua prpura, 
parecia ento ter sido atingida pelo mal que consumia Hrcules quando tocou o vestido sangrento 
de Djanira; ela rasgava suas entranhas, o arianismo agressivo e uma ortodoxia turbulenta 
disputavam seus farrapos. O astucioso e cruel Constncio acabava de refrescar com o sangue de 
sua famlia a prpura do manto de Constantino. Juliano estudava filosofia em Atenas, e em meio 
ao miservel conflito das teologias e das retricas, pressentindo, sem querer resignar-se a ele, 
o vasto desmoronamento do imprio, sonhava com as virtudes de uma outra poca, e, na solido dos 
velhos templos abandonados, chorava pensando na glria dos antigos deuses. O cristianismo, com 
efeito, consagrou o velho mundo  morte, e fazia santos sem melhorar os costumes pblicos; muito 
pelo contrrio, a putrefao tinha pressa em fazer lugar para a vida nova. A igreja temporal j 
tinha horrveis bispos, como Jorge da Capadcia, os santos acreditavam mais do que nunca no fim 
prximo do mundo e fugiam para o deserto. Espiridio e sua filha eram ascetas como So Paulo o 
Ermito e como Santo Antnio, mas haviam compreendido que toda a vida divina est no esprito de 
caridade. Espiridio continuara pois sendo bispo, e para fazer compreender a nossos leitores 
como entendia a caridade, narraremos uma passagem de sua vida. Era no final de uma quaresma, de 
uma quaresma tal como as fazia Espiridio; os magros alimentos da santa quarentena se haviam 
esgotado, era o dia da Sexta-feira Santa. Espiridio deveria passar esse dia e o dia seguinte 
sem ingerir nenhum alimento, portanto no havia nada em sua casa, nada alm de um pedao de 
carne de porco suspenso sobre a fumaa da lareira, reservado para as festas de Pscoa; nisso vem 
bater  sua porta um viajante extenuado de cansao e de necessidade. O bispo de Tremithonte 
recebe-o com diligncia cercando-o de cuidados paternais; mas percebe logo que seu hspede vai 
desmaiar de inanio. Que fazer?  tarde, no h casas por perto, a cidade fica bem longe. 
Espiridio no hesita. Corta um pedao da carne salgada, manda cozinh-la e a apresenta ao 
viajante. Este a rejeita com espanto e assombro: Sou cristo, meu pai, diz ele ao bispo, como 
ento me ofereces hoje carne para comer! Crs que eu seria capaz de insultar dessa forma, por 
minha intemperana, a morte do Cristo, nosso mestre? - Sou cristo como tu, meu filho, responde-
lhe docemente Espiridio, e, alm do mais, sou bispo, isto , pastor e mdico.  como mdico que 
te apresentei esses alimentos, os nicos que tinha em meu poder para te oferecer. Ests 
esgotado, e amanh talvez seja muito tarde para te salvar a vida; come pois esses alimentos que 
abeno, e vive. - Nunca, replica o viajante, porque me aconselhas o que nem tu mesmo farias.
- O que no faria por mim talvez, diz o velho, mas o que faria certamente por ti, como fars por 
mim o que te rogo. Pega, queres que coloque em minha boca um pouco dessa carne para encorajar-te 
a fazer uso dela sem escrpulos? E Santo Espiridio pega e come um pouco da carne de porco para 
encorajar seu hspede a fazer o mesmo; porque a caridade, segundo ele, era uma lei mais 
imperiosa do que a da abstinncia e do jejum. Eis como era Santo Espiridio de Tremithonte, eis 
sem dvida como era tambm sua filha Irene. Esses dois anjos da terra tinham um s corao e uma 
s alma. Quando Espiridio ia visitar sua diocese, Irene guardava o eremitrio e ali recebia os 
pobres, os peregrinos e os que buscavam bons conselhos; tudo o que ela fazia ou dizia estava 
aprovado de antemo por seu pai, e Irene, por seu lado, s dizia coisas que o prprio Espiridio 
dissera, e fazia com um maravilhoso vaticnio as boas obras que ele fizera. Esses dois santos 
foram momentaneamente separados por esse trabalho de renascimento que costumamos chamar de 
morte. A mais jovem foi chamada antes  libertao. Irene apagou-se docemente, como uma lmpada 
cujo leo se acaba. Espiridio lhe rendeu os ltimos deveres, mas no chorou, porque ela no o 
havia deixado; ele a sentia mais do que nunca ligada a seu pensamento e a seu corao. Parecia-
lhe que tinha uma dupla memria e um duplo pensamento, Irene havia encontrado, talvez, seu 
paraso na alma feliz de Espiridio. Esses detalhes eram necessrios para explicar a passagem 
que se segue. Durante uma ausncia de Espiridio, um cristo, partindo para uma longa viagem, 
colocara entre as mos de Irene uma soma em dinheiro que era toda a sua fortuna. Irene enterrara 
o depsito sem falar sobre isso com ningum. Quando o cristo voltou, Irene estava morta, e 
grande foi o espanto do santo bispo ao ouvi-lo reclamar um depsito de que ele no tinha 
conhecimento. Foi ento at o tmulo de Irene e a chamou trs vezes em voz alta. Irene ento 
respondeu do fundo da tumba e disse: Meu pai, meu pai, que queres de mim? Pelo menos  o que 
contam os legendrios. - Que fizeste do dinheiro que nosso irmo te havia confiado? pergunta 
Espiridio. - Meu pai, enterrei-o em tal e tal lugar. O pai cavou e encontrou o depsito intato. 
Evidentemente essa histria  controvertida quanto aos detalhes, mas pode ser verdadeira quanto 
ao fundo. Ningum ir supor que a alma dos mortos, sobretudo a dos justos, esteja enterrada na 
tumba para ali sentir a lenta corrupo da carne e das ossadas. Irene no estava pois na terra. 
Que o santo homem tenha ido at o tmulo de sua filha para evocar lembranas e obter por 
simpatia magntica uma intuio de segunda viso, no h nada nisso que nos parea impossvel. 
Acreditamos na unio ntima das almas santas que a morte no saberia separar. Deus preenche a 
distncia que separa o cu da terra e no a deixa vazia entre os coraes. As lembranas de 
Irene puderam pois comunicar-se com Espiridio; e, alis, quem sabe se a santa filha no havia 
outrora falado a seu pai desse depsito? Sua idade avanada e as inmeras ocupaes em seu 
episcopado talvez o tivessem feito esquecer essa confidncia. No nos acontece freqentemente de 
admirar como sendo um pensamento novo o que j dissemos ou at mesmo escrevemos antes? Por 
quantas reminiscncias vagas no somos perseguidos, e quem poder dizer qual o lugar que ocupam 
as lembranas j apagadas nos devaneios de nossa viglia e nos sonhos de nosso sono? 
Relacionaremos essa revelao de Irene a Espiridio, seu pai, com uma aventura mais recente e 
menos conhecida. Trata-se de Sylvain Marchal, um homem excntrico do sculo XVIII que se 
acreditava decididamente ateu. Sylvain Marchal no admitia pois a existncia de Deus, e, para 
ser lgico, negava igualmente a imortalidade da alma; havia feito versos ruins para defender 
essa causa m. Era, alis, um homem honrado, amado por sua mulher e estimado por seus amigos. 
Quando lhe falavam da morte, dizia geralmente que era o grande sono, e acrescentava 
sentenciosamente esse dstico, um de seus pecados contra Apolo: Durmamos at o bom tempo, 
Dormiremos longo tempo. Ele, que o progresso de seu sculo s havia conduzido ao atesmo, 
duvidava um pouco do progresso e no acreditava no que se v, na chegada de um tempo melhor, o 
atesmo sendo geralmente apenas o desespero de uma crena desencorajada. As pessoas que no 
crem na imortalidade da alma morrem, ai! como as outras. Sylvain Marchal viu chegar a hora do 
grande sono. Sua mulher e uma amiga chamada Mme. Dufour velavam perto dele; a agonia havia 
comeado. De repente, o moribundo, como se lembrasse de alguma coisa, fez um grande esforo para 
falar, As duas senhoras inclinaram-se para perto dele... Ento, com uma voz to fraca que mal se 
ouvia, disse essas palavras: H quinze... e a voz expirou. Ele tentou retomar e murmurou mais 
uma vez: Quinze, mas foi impossvel compreender o resto. Seus lbios moviam-se novamente um 
pouco, e depois, dando um grande suspiro, ele morreu. Na noite seguinte, Mme. Dufour, que 
acabava de se deitar, no havia ainda apagado a lmpada quando ouviu a porta abrir-se docemente. 
Colocou a mo diante da luz e observou. Sylvian Marchal estava no meio do quarto, vestido como 
quando era vivo, nem mais triste nem mais alegre. - Cara senhora, disse-lhe, vim lhe dizer o que 
no pude terminar ontem: h mil e quinhentos francos em ouro escondidos numa gaveta secreta da 
minha escrivaninha; cuide para que esta soma no caia em outras mos que no as de minha mulher. 
Mme. Dufour, mais espantada do que assustada com essa apario pacfica, disse ento  alma do 
outro mundo: - Bem, meu querido ateu, acho que acreditas agora na imortalidade da alma. Sylvain 
Marchal sorriu tristemente, acenando ligeiramente a cabea, e replicou apenas repetindo pela 
ltima vez seu dstico: Durmamos at o bom tempo, Dormiremos longo tempo. Depois ele foi embora. 
O pavor, a, tomou conta de Mme. Dufour, o que prova que s ento ela acordou completamente; 
precipitou-se para fora da cama, e correu ao quarto da amiga, madame Marchal, que, por sua vez, 
vinha vindo ao seu encontro, plida e sobressaltada. - Acabo de ver M. Marchal, disseram ao 
mesmo tempo as duas mulheres; e contaram uma para a outra os detalhes quase idnticos da viso 
que cada uma acabara de ter. Os mil e quinhentos francos em ouro foram encontrados numa gaveta 
secreta da escrivaninha. Soubemos dessa histria atravs de uma amiga comum das duas senhoras, 
que ouviu delas essa narrao vrias vezes. Ns acreditamos que seja verdadeira, mas achamos que 
as senhoras, quando viram o fantasma, j estavam em estado de letargia. Preocupadas com as 
ltimas palavras de Marchal, elas as ligaram, na lucidez prpria, aos sonhos das pessoas 
aflitas, a mil pequenas circunstncias que conheciam sem darem conta, e que estavam gravadas em 
sua memria involuntria; o moribundo, alis, havia projetado sua vontade com fora nessas duas 
almas simpticas, o que ele queria lhes dizer, ele lhes comunicou atravs da fora. Elas o 
reviram, certamente, como se v em sonho, com seus hbitos de todos os dias e sua mania de 
recitar versos ruins; elas o viram como sempre se vem os mortos, numa espcie de espelho 
retrospectivo; elas o viram como um sonmbulo o teria visto, assim como o segredo de seu 
esconderijo e de seu ouro. H a um fenmeno notvel de alucinao coletiva e simultnea, com 
identidade de segunda viso; mas no h nada que possa provar alguma coisa em favor das 
evocaes e da volta dos mortos. Qualquer que seja o fantasma de Sylvain Marchal, sua 
incredulidade pstuma nos lembra um pensamento muito singular de Swedenborg. Diz ele que sendo a 
f uma graa que  necessrio merecer, Deus nunca a impe a ningum, mesmo aps a morte. Tambm 
no  raro encontrar, no mundo dos espritos, incrdulos que negam mais do que nunca o que 
sempre negaram, e que escapam  evidncia da imortalidade supondo que no esto mortos, mas 
somente acometidos de alguma doena mental que mudou o lugar de suas sensaes. Vivem sempre 
como viveram na terra, s se lastimam por no mais verem o que viam, por no mais ouvirem o que 
ouviam, por no mais saborearem o que saboreavam, por no mais possurem o que possuam; vivem 
assim uma falsa existncia, protestando contra a verdadeira vida, e sempre iludidos em seus 
tdios pela esperana da morte. Essas imaginaes do mstico sueco so to engenhosas quanto 
espantosas, e bastariam para nos explicar, se no o sono leve de Irene em seu tmulo de 
Tremithonte, pelo menos a dupla visita noturna de Sylvain Marchal, no dia seguinte ao da sua 
morte, por interesses materiais e mesquinhos, se, s suposies tiradas da imaginao dos 
msticos, no preferssemos mil vezes as simples hipteses da cincia e da razo.
CAPTULO 5
Mistrio das iniciaes antigas - As evocaes pelo sangue - Os ritos da teurgia - O 
cristianismo inimigo do sangue. Os mistrios da loucura so os mistrios do sangue. So os 
movimentos desregrados do sangue que perturbam a razo das pessoas excitadas, assim como 
produzem, durante a noite, o desregramento dos sonhos. A loucura e certos vcios so 
hereditrios porque residem no sangue: o sangue  o grande agente simptico da vida;  o motor 
da imaginao,  o substratum animado da luz magntica ou da luz astral polarizada nos seres 
vivos;  a primeira encarnao do fludo universal,  a luz vital materializada. Ele  feito  
imagem e  semelhana do infinito;  uma substncia negativa na qual nadam e se agitam milhares 
de glbulos vivos e imantados, glbulos plenos de vida e completamente vermelhos dessa 
insacivel plenitude. Seu nascimento  a maior de todas as maravilhas da natureza. Ele no vive 
seno para se transformar;  o Proteu universal: ele sai dos princpios onde no estava contido, 
torna-se carne, ossos, cabelos, tecidos particulares e delicados, unhas, suor, lgrimas. Ele no 
se alia nem  corrupo nem  morte: quando a vida cessa, ele se decompe; se conseguirmos 
reanim-lo, refaz-lo por uma imantao nova de seus glbulos, a vida recomear. A substncia 
universal, com seu duplo movimento,  o grande arcano do ser; o sangue  o grande arcano da 
vida. Igualmente, todos os mistrios religiosos so tambm mistrios do sangue. No h cultos 
sem sacrifcios, e o sacrifcio no sangrento s poderia existir como transubstanciao de um 
sangue verdadeiro, sempre ardente, sempre falando, sempre gritando, na sua virtude divinamente 
expiatria, tanto sobre o altar como sobre o Calvrio. Os deuses da antigidade amavam o sangue, 
e os demnios tinham sede.  o que fez o conde Joseph de Maistre pensar que o suplcio castiga, 
que o cadafalso  um suplemento do altar, e que o algoz  um apndice do sacerdote.  no vapor 
do sangue, diz Paracelso, que a imaginao recebe todos os fantasmas que cria. As vises so o 
delrio do sangue: agente secreto das simpatias, ele propaga a alucinao como um vrus sutil; 
quando ele se evapora, seu soro se dilata, seus glbulos aumentam, deformam-se e do corpo s 
mais bizarras fantasias; quando sobe ao crebro exaltado de Santo Antnio ou de Santa Tereza, 
aparece-lhes realizando para eles quimeras mais estranhas que as de Callot, de Salvator ou de 
Goya. Ningum inventaria os monstros que sua superexcitao faz eclodir:  o poeta dos sonhos;  
o grande hierofante do delrio. Igualmente, tanto na antigidade como na Idade Mdia, evocavam-
se os mortos pela efuso do sangue. Escavava-se uma fossa, derramavam-se nela vinho, perfumes 
embriagantes e o sangue de uma ovelha negra; as horrveis feiticeiras da Tesslia juntavam ali o 
sangue de uma criana. Os hierofantes de Baal ou de Nisroch, numa exaltao furiosa, faziam-se 
incises por todo corpo e solicitavam aparies ou milagres aos vapores de seu prprio sangue: 
ento tudo comeava a girar diante de seus olhos perturbados e doentes; a lua adquiria a cor do 
sangue espalhado, e eles acreditavam v-la cair do cu; em seguida comeavam a sair da terra, a 
esvoaar, a se arrastar, coisas hediondas e informes: viam-se formar larvas e lmures; rostos 
plidos e srdidos como os velhos sudrios, com barbas formadas pelo mofo da tumba, vinham 
inclinar-se sobre a fossa e esticavam suas lnguas secas para beber o sangue espalhado. O mago, 
completamente debilitado e ferido, defendia-se contra eles com a espada at a apario da forma 
esperada e do orculo. Era geralmente o ltimo sonho do esgotamento, o paroxismo da demncia; 
ento o evocador muitas vezes caa como que fulminado, e, se estava s, se no lhe era 
administrado socorro imediato, se uma poderosa voz cordial no o chamasse  vida, no dia 
seguinte seria encontrado morto, e diriam que os espritos se tinham vingado. Os mistrios do 
velho mundo eram de dois tipos. Os pequenos mistrios estavam ligados  iniciao do sacerdote; 
os grandes eram a iniciao  grande obra sacerdotal, isto , a teurgia. Teurgia, palavra 
terrvel, palavra com sentido duplo, quer dizer criao de Deus. Sim, na teurgia ensinava-se ao 
padre como deveria criar os deuses  sua imagem e semelhana, tirando-os de sua prpria carne e 
animando-os com seu prprio sangue. Era a cincia das evocaes pelo gldio e a teoria dos 
fantasmas sangrentos.  l que o iniciado devia matar o iniciador;  l que dipo tornou-se rei 
de Tebas matando Laio. Tentaremos explicar o que essas expresses alegricas tm de obscuro. O 
que j se pode entrever  que no havia iniciao aos grandes mistrios sem efuso de sangue e 
sem efuso mesmo do sangue mais nobre e mais puro.  na cripta dos grandes mistrios que Ninyas 
teve que vingar sobre sua prpria me o assassnio de Ninus. Os furores e os espectros de 
Orestes foram obra da teurgia. Os grandes mistrios eram a santa vema da antigidade, onde os 
franco-juzes do sacerdcio moldavam novos deuses com a cinza dos velhos reis dissolvidas no 
sangue dos usurpadores ou dos assassinos. Seriam, portanto, eles prprios assassinos, ou pelo 
menos algozes? No, porque o direito ao sacrifcio lhes era atribudo pelo consentimento 
universal das naes. O sacerdote no assassina, no executa, ele sacrifica; e  por isso que 
Moiss, nutrido pelo dogma dos grandes mistrios, escolheu por tribo sacerdotal aquela que 
melhor soubera, segundo a prpria expresso da Bblia, consagrar suas mos no sangue. No eram 
s Baal e Nisroch que pediam ento vtimas humanas; o Deus dos judeus tambm tinha sede do 
sangue dos reis, e Josu lhe oferecia hecatombes de monarcas vencidos. Jepht sacrificava sua 
filha; Samuel cortava em pedaos o rei Agag sobre a pedra sagrada do Galgar. Moiss, como os 
antigos iniciadores nos grandes mistrios, fora com Josu, seu sucessor, at as cavernas do 
monte Nbo, e Josu voltara s. Nunca se encontrou o cadver, porque, nos grandes mistrios, 
possua-se o segredo do fogo devorador. Nadab e Abiu, Cor e Abiron, Dathan sofreram a triste 
experincia. Quando Saul foi rejeitado por Deus, isto , condenado como usurpador do sacerdcio 
e profanador dos mistrios, tornou-se joguete das alucinaes, porque os grandes hierofontes 
possuam o segredo dos fantasmas. Foi ento que Achitophel lhe aconselhou o massacre de todos os 
sacerdotes, como se pudessem massacrar a todos. O sangue dos sacrificadores  uma semente de 
novos sacrifcios. Fazeis o 2 de setembro, e a noite de So Bartolomeu est justificada. 
Acreditais punir Torquemada, e preparais altas obras em Trestaillon. O padre que conduziu Lus 
XVI ao cadafalso, e que lhe disse como a autoridade suprema do pontfice: "Filho de So Lus, 
subi ao cu!" parece realizar, s com a Conveno pelo ministro subalterno, o grande sacrifcio 
da Revoluo. A prpria vtima, caindo, revela e consagra o padre. Colocarei sobre ti um signo, 
diz Adonai a Caim, para tornar-te inviolvel e para que ningum ouse colocar a mo sobre ti. 
Abel foi a primeira vtima, Caim foi o primeiro sacerdote do mundo. Abel no entanto exercera, 
antes de Caim, uma espcie de sacerdcio, e derramara primeiro o sangue das criaturas de Deus. 
Ele oferecia ao Senhor, diz a Bblia, as primcias de seu rebanho; Caim, ao contrrio, s 
presenteava Deus com frutas. Deus recusou as frutas e preferiu o sangue; mas no tornou Abel 
inviolvel, porque o sangue dos animais  antes a representao do que a realizao do 
verdadeiro sacrifcio. Foi ento que o ambicioso Caim consagrou suas mos no sangue de Abel; 
depois construiu cidades e fez reis, porque tornou-se soberano pontfice. Se, mais tarde, Judas 
Iscariotes fez penitncia ao invs de suicidar-se, fez uma rude concorrncia a So Pedro. So 
Pedro, com efeito, era, depois de Judas apenas, o mais sanginrio dos apstolos. Era s por 
isso que merecia ser o primeiro papa? Longe de ns a idia de uma sacrlega ironia! Revelamos a 
grande lei sacerdotal e no insultamos, por isso, o papado. Queremos dizer que o sacrificador 
assume e resume em si todos os crimes do povo e que ele  o primeiro a ser purificado pelo 
sangue todo-poderoso da vtima.  isso, pelo menos, o que pensavam os hierofantes do velho 
mundo, quando, na cripta dos grandes mistrios, vinham oferecer-se, a cabea coberta por um vu, 
ao gldio de seus sucessores. dipo matara Laio sem conhec-lo, e todos os grandes iniciados na 
cincia de dipo expiavam por sua vez a morte simblica de Laio.  assim que, na Maonaria, que 
guarda ainda em nossos dias a tradio simblica dos antigos mistrios, fala-se sempre em vingar 
a morte do fabuloso Hiram. O homem que se sente infeliz sem ter a conscincia de ser justo, 
sente-se facilmente punido por um erro involuntrio; acredita ter matado sua prpria felicidade: 
a necessidade de expiao o faz sonhar com o sacrifcio, e  o sacrifcio que faz os sacerdotes, 
ao consagrar o altar sanguinrio dos deuses. Jesus, o nico iniciador que no matou ningum, 
morre para a abolio dos sacrifcios sangrentos.  ento maior que todos os pontfices; e que 
seria ele, ento, se no fosse Deus? Ele se fez Deus no Calvrio, mas seus discpulos, 
renegando-o e o vendendo, fizeram-se sacerdotes e continuaram o velho mundo, que durar enquanto 
o sacerdote tiver necessidade de viver do altar, isto , de comer a carne das vtimas. E h 
pretensos sbios que vos dizem que o cristianismo est expirando e que o mundo de Jesus Cristo 
est morrendo!  o velho mundo que est morrendo,  a idolatria que est morrendo. O Evangelho 
foi apenas anunciado; no reinou sobre a terra. A catolicidade, isto , a universalidade de uma 
s religio,  ainda apenas um princpio que muitas pessoas encaram como uma utopia. Mas os 
princpios no so utopias; so mais fortes que os povos e os reis, mais durveis que os 
imprios, mais estveis que os mundos. O cu e a terra podem passar, diz o Cristo; minhas 
palavras no passaro. Lemos nos Atos dos apstolos que So Pedro teve uma viso. Ele viu uma 
grande toalha coberta de animais puros e impuros, e uma voz lhe dizia: Mate e coma! Assim 
revelou-se pela primeira vez o mistrio do papado temporal. Desde ento os soberanos pontfices 
acreditaram poder matar para comer. Jesus Cristo jejuava e no matava; at mesmo dissera a So 
Pedro: Guarda tua espada na bainha, porque aquele que fere pela espada perecer pela espada. Mas 
a est uma das parbolas que no poderiam ser compreendidas antes da vinda do esprito de 
inteligncia e de amor que, como se v, no estabeleceu ainda seu reino definitivo neste mundo. 
Os soberanos pontfices dos antigos cultos eram todos portanto sacrificadores de homens, e todos 
os deuses do sacerdcio amaram a carne e o sangue. Moloch s difere de Jehovah pela falta de 
ortodoxia, e o Deus de Jepht tinha mistrios semelhantes aos de Belus. Os monges da Idade Mdia 
tiravam regularmente seu prprio sangue, como os sacerdotes de Baal; pois a abstinncia 
perptua, essa divindade estril,  um dolo que quer sangue: a fora vital que se quer subtrair 
 natureza, deve-se derram-la sobre o altar da morte. Dissemos que o sangue  o pai dos 
fantasmas e  pelos fantasmas do sangue que os sacerdotes de Babel e de Argos perpetuam a razo 
de Ninyas e de Orestes. Semramis e Clitemnestra tinham sido destinadas aos deuses infernais; e 
suas lendas se parecem tanto, que se poderia acreditar que fossem calcadas uma sobre a outra. 
Ninus era o rei dos sacerdotes; Semramis quis ser a rainha dos povos, e garantiu para si, por 
um crime, a posse da coroa de Ninus. O mundo poltico no tinha ento tribunal que pudesse 
julgar essa mulher, tanto ela se justificava por grandes coisas. Ela semeava o mundo de 
prodgios. Os que a invejavam agitavam contra ela as multides: ela vinha s e as revoltas se 
apaziguavam. Mas ela tinha um filho que os sacerdotes guardavam como refm: Ninyas era iniciado 
nos grandes mistrios; jurou vingar Ninus, cujo assassino ainda no conhecia. Semramis, por seu 
lado, era obcecada por fantasmas e remorsos. Nela, a mulher superava secretamente a rainha, e 
freqentemente descia s  necrpole para chorar e se comover sobre as cinzas de Ninus. Foi l 
que encontrou Ninyas, levado pelos hierofantes: entre o filho e a me ergue-se o espectro do rei 
assassinado. Semramis estava coberta por um vu; o fantasma manda bater. O jovem iniciado se 
adianta: Semramis solta um grito e levanta o vu; reconheceu Ninyas: No, tu no s mais 
Ninyas, diz o espectro, tu s eu mesmo, tu s Ninus sado da tumba! E pareceu absorver o jovem 
nele mesmo e se confundir com ele de tal modo, que a rainha viu diante dela apenas o espectro de 
Ninus, plido e com o gldio sagrado na mo. Ela ento tirou o vu da cabea e mostrou seu 
flanco, como faria mais tarde Agripina. Quando Ninyas voltou a si, estava coberto com o sangue 
de sua me: Fui eu quem a matou? gritou alucinado. - No, respondeu Semramis beijando-o pela 
ltima vez, somos duas vtimas; e o sacrificador, no s tu: eu morri assassinada pelo grande 
sacerdote de Belus! Assim eram os sacerdotes da Babilnia, assim foram os de Micenas e de Argos: 
Calchas pede o sangue de Efignia; Clitemnestra amaldioa os sacerdotes e vinga sua filha 
matando Agamenon; Orestes, levado pelos orculos, mata sua me e vai procurar at o fundo da 
Chersoneso Taurico o dolo sangrento da Diana vingadora. Por que ficamos espantados com esses 
atentados contra a famlia, se, sculos mais tarde e em pleno cristianismo, vemos um sacerdote 
romano, o terrvel Jernimo, escrever a seu discpulo Heliodoro: "Se teu pai se deita na soleira 
da porta, se tua me descobre a teus olhos o seio que te amamentou, pisoteia o corpo de teu pai, 
pisa no seio de tua me e, com os olhos secos, acode ao Senhor que te chama!" Tais so os 
sacrifcios da carne e do sangue que consomem a grande obra da teurgia. O Deus pelo qual se 
pisou no seio da me deve ser visto daqui por diante com o inferno sob os ps e o gldio 
exterminador na mo. Ele perseguir o asceta com remorso, saborear na solido os terrores do 
inferno e os desesperos do pensamento. Meloch s queimava crianas durante alguns segundos; 
pertencia aos discpulos do Deus que morre para livrar o mundo de criar um Moloch novo cujo fogo 
 eterno! Renan, cuja desastrosa obra no gostaramos de ter escrito, ali colocou entretanto uma 
boa palavra, que compensa, a nossos olhos, muitos defeitos.  esta a palavra: "Ningum foi menos 
sacerdote do que Jesus." Ressaltemos, todavia, que se trata do sacerdote da antigidade, que 
ainda se encontra, infelizmente, nos tempos modernos. So Jernimo era, sem o saber, um 
hierofante dos grandes mistrios; So Vicente de Paula  o tipo do novo sacerdote, do verdadeiro 
sacerdote cristo, essa reencarnao perptua de Jesus Cristo. A IGREJA TEM HORROR DO SANGUE. 
Nesta mxima indelvel resume-se todo o esprito do cristianismo. A Igreja tem horror do sangue 
e repele para longe de seu seio todos aqueles que gostam de derram-lo. O sacerdote cristo no 
pode exercer as funes de acusador pblico, ou de juiz, sem se tornar irregular, isto , 
incapaz de exercer as funes santas. Assim, pois, os inquisidores mortos no eram sacerdotes 
cristos, eram sacrificadores do velho mundo que mentiam ao cristianismo. Um papa no pode 
condenar ningum  morte. O bom pastor d sua vida por suas ovelhas, mas no sabe degol-las. Um 
papa no saberia fazer a guerra. Quando Jlio II fazia-se de surdo, no mais agia como papa, era 
ainda um tirano do Baixo Imprio. O bom Pio IX, que, segundo se diz, tem vises, deve estar 
obcecado pelos espectros de Perouse e de Castelfidardo; ento deve ter horror de suas prprias 
mos, ele que  o chefe supremo da Igreja, porque a Igreja tem horror do sangue. Sacrificar os 
outros por si, eis o velho mundo, o mundo de Jpiter e de Saturno, o mundo dos Csares e dos 
pressgios. Sacrificar-se pelos outros, eis o mundo novo, o mundo do Cristo, o mundo do futuro. 
Matar para viver, eis a grande fatalidade dos grandes mistrios. Morrer para que os outros 
vivam, eis o direito divino e a liberdade da iniciao humana ao triunfo da razo. A divindade e 
a humanidade esto estreitamente unidas em Jesus Cristo, e quem bate em uma fere a outra. Juzes 
da terra, atentai para isso: todo homem daqui por diante pertence a Cristo; ele pagou com seu 
sangue inocente toda a humanidade culpada. Todo culpado  chamado a se arrepender, e todo homem 
que pode ainda arrepender-se deve ser sagrado como Caim. Sabeis por que Deus guardava to 
preciosamente o sangue de Caim?  que cada gota desse sangue valia por uma gota de sangue 
redentor, e, para que o resgate fosse eficaz, era preciso que nem uma nica parcela da coisa 
resgatvel se extraviasse. O sangue de Abel protestava contra Deus, diz a Bblia. Quem pois 
podia faz-lo calar? Para abafar essa voz era preciso uma voz mais possante, a de Jesus Cristo. 
O sangue de Abel pedia justia: Abel era apenas um homem e o sangue de Jesus tinha apenas a 
fora suficiente para gritar que a justia, para Deus,  o perdo. Quem pois poderia dizer-lhe 
isto? Jesus Cristo sabia-o apenas para dizer ao mundo, e, se o sabia,  porque era Deus! Tambm 
somente ele poderia abolir o sacerdcio de sangue e instituir o sacerdcio do sacrifcio 
voluntrio. Foi o que fez, foi o que os mrtires compreenderam, foi o que os santos como Vicente 
de Paula experimentaram, no em vo, mas ainda de modo to difcil na terra, e ousais dizer que 
o cristianismo est morrendo! Eu vos pergunto se ele chegou ao mundo de outra forma seno como 
uma palavra incompreendida e um prodgio contestado. Eu vos pergunto se o sangue de Abel deixou 
de correr e se o sacerdcio escapou definitivamente das mos sangrentas dos filhos de Caim. Diz-
se que todos os anos, em Npoles, o sangue do mrtir Janurio se liqefaz e borbulha, como se 
ele no pudesse descansar; diz-se que em muitos lugares da Frana o vinho dos clices torna-se 
sangue e que as hstias consagradas tingem-se de um suor semelhante ao da agonia no Jardim das 
Oliveiras.  que os mrtires so solidrios uns com os outros;  que o sangue no expiado 
protesta contra as efuses do sangue novo. O sangue de So Janurio protesta contra a inquisio 
ainda viva no triste crebro dos Gaume e dos Veuillot. O vinho da Eucaristia torna-se sangue 
para impedir os indignos sacerdotes de beb-lo e as hstias se injetam de nuances da morte, como 
se Cristo desanimado renunciasse a transubstanciao e se tornasse um cadver. Quando o Cristo 
torna-se um cadver,  porque se prepara para ressuscitar, e acreditamos que a ressurreio do 
cristianismo est prxima; mas no  isso que temos a comprovar aqui. Permaneamos no nosso tema 
e constatemos apenas que o reino dos deuses de sangue terminou. No mais derramemos pois o 
sangue, no mais o agitemos, mesmo para fazer sair deuses. Deixemos em paz os mortos, porque os 
orculos do sangue derramado so irmos dos orculos da tumba. A mesa gira porque o sangue se 
agita; deixai o sangue acalmar-se e os pretensos espritos calar-se-o. Sim, espritas, os 
espritos que falam nas mesas so espritos de vosso sangue. Vs vos esgotais para animar a 
madeira, como os sacerdotes do Mxico, que acreditavam dar alma a seus dolos ao suj-los de 
sangue fresco. O que fazeis, fazia-se antes da vinda de Jesus Cristo; fez-se e ainda se faz, 
talvez na ndia; faz-se sobretudo entre os selvagens, onde os charlates cercam de cabeleiras 
sangrentas o altar de seus manitus, que conjuram e fazem falar. O magnetismo  a projeo dos 
espritos do sangue e vs magnetizais vossos mveis empobrecendo vosso crebro e vosso corao.

CAPTULO 6
Os ltimos iniciados do velho mundo: Apolnio de Tiana, Mximo de feso e Juliano. Os pagos da 
revoluo - um hierofante de ceres no sculo dezoito. O sacrifcio de si mesmo pelos outros tem 
algo de aparentemente to insensato, mas to sublime em realidade, que esse antagonismo que se 
encontra entre a razo egosta e o entusiasmo do devotamento justifica totalmente o Credo quia 
absurdum do paradoxal Tertuliano. A f, como a antiga Minerva, nasceu armada e se apresenta 
inicialmente como triunfante. A prpria natureza, a santa e imortal natureza, parecia vencida 
por um instante, porque estava superada. No dia em que o homem morreu voluntariamente para 
salvar os outros, o sobrenatural foi provado. Ento os sbios deste mundo e os raciocinadores se 
espantaram; procuraram no Evangelho o segredo do poder do cristianismo e no o encontraram. 
Viram apenas uma compilao mstica de parbolas judaicas e de alegorias egpcias; resolveram 
opor um livro a esse livro e um homem a Jesus Cristo, e assim foi escrita a vida de Apolnio de 
Tiana. Esse monumento contemporneo dos Evangelhos no foi suficientemente estudado: encontram-
se a histrias e smbolos; a fbula a obscurece a verdade, mas esta fbula  sempre uma 
doutrina apresentada sob o vu da alegoria.  dessa forma que a viagem de Apolnio  ndia e sua 
visita ao rei Hiarchas no pas dos Sbios representam todo o dogma de Hermes e contm todos os 
signos convencionados, todo o segredo dos antigos santurios, isto , a grande obra da cincia e 
da natureza. Os drages da montanha so os metalides gneos que contm o mercrio filosfico; o 
poo onde se encontram os reservatrios da chuva e do vento  a adega onde fermenta o fogo 
eletromagntico alimentado pelo ar e excitado pela gua. O mesmo acontece com outros smbolos. O 
rei Hiarchas parece enganar-se quanto ao fabuloso Hiram, do qual Salomo obtinha os cedros do 
Lbano e o ouro de Ophir. Notemos que Jesus no pedia nada aos reis de seu tempo e que quando 
Herodes o interroga ele no se d ao trabalho de responder. Apolnio  sbrio;  casto como 
Jesus e como ele se devota a uma vida errante e austera. A diferena essencial entre um e outro 
 que Apolnio favorecia as supersties e Jesus as destrua. Apolnio incita a derramar o 
sangue e Jesus maldiz as obras do gldio. Uma cidade est afligida pela peste; Apolnio chega, o 
povo, que o v como um taumaturgo, precipita-se em torno dele e o conjura a fazer cessar o 
flagelo. A peste que vos aflige, ei-la! exclama o falso profeta mostrando um velho mendigo. 
Apedrejai este homem e o contgio cessar. Sabe-se do que  capaz uma multido furiosa, cheia de 
superstio e de medo. O velho desapareceu sob um monte de pedras. Filostrato acrescenta que 
depois desentulharam o lugar do assassnio e que l s encontraram o cadver de um grande co 
negro; e aqui o absurdo no chega a justificar a atrocidade. Jesus no fazia apedrejar ningum, 
nem mesmo a mulher adltera; rejeitava os flagelos pblicos sobre a cabea do pobre Lzaro, que 
o mau rico repelia de sua porta e do qual os ces tinham piedade. Para curar a misria, esta 
peste aos olhos dos afortunados, oferecia o paraso e no o ltimo suplcio. Apolnio aqui no  
seno um miservel feiticeiro, e Jesus  o filho de Deus. Apolnio tem vises; assiste em 
esprito a morte do tirano de Roma e solta gritos de alegria. Coragem! diz ele dirigindo-se aos 
assassinos; batei, imolai esse monstro! Jesus no tem uma palavra de maldio contra Herodes e 
contra Pilatos e ora mesmo por eles ao mesmo tempo que por seus algozes, quando diz esta palavra 
sublime: Pai, perdoai-lhes; porque no sabem o que fazem! O gnio de Apolnio  uma brilhante 
loucura que se revolta e protesta, o de Jesus  uma razo modesta que aceita e se submete. Com 
Apolnio de Tiana o velho mundo parecia ter dito sua ltima palavra; mas a Providncia, que  
boa jogadora, deu-lhe ainda Juliano, para que ele pudesse, mais uma vez, tomar sua desforra. 
Juliano era um filsofo como Apolnio e um imperador como Marco Aurlio. Mas tambm era um 
sofista  maneira de Libnio, e concedia toda sua confiana a charlates como Jmblico e Mximo 
de feso. Jamais este esprito inflexvel e elevado pde compreender os doces mistrios da 
manjedoura. Juliano no amava as mulheres e no tinha filhos, era casto menos por sacrifcio que 
por menosprezo ao prazer; sua rudeza filosfica o fazia negligenciar at os mais comuns cuidados 
de limpeza. Ele confessa, no Misopogon, que seus cabelos e sua barba eram freqentados pelos 
mais srdidos insetos e o diz quase como se fosse um mrito. Aqui o Csar pediculosus torna-se 
verdadeiramente grotesco. Oh! o belo queixo de bode! oh! o barbudo mal penteado!, cantavam os 
habitantes de Antiquia. Juliano acredita responder exprobando aos cantores sua debilidade e 
seus desregramentos. Como se os vcios de uns pudessem autorizar a imundcie de outros. Esse 
heri sujo, que, apesar de tudo, havia recebido do cristianismo uma nuance indelvel de 
filantropia, era, por religio, amante dos sacrifcios e do sangue. Que vtima foi esse grande 
filsofo! que aougueiro esse excelente prncipe! diziam os antepassados de Pasquino. Tambm o 
vemos sempre com as roupas arregaadas e as mos repletas de vsceras fumegantes. No estvamos 
mais no tempo em que os prncipes gregos, cantados por Homero, estrangulavam e despedaavam, 
eles prprios, as vtimas. Juliano no compreendia nem sua poca nem a dignidade de sua classe. 
Nero pudera fazer-se histrio porque, segundo a bela expresso de Tcito, o terror era razo do 
menosprezo; mas Juliano, bom demais para se fazer temer, muito desagradvel para se fazer amar, 
no podia escapar ao ridculo ao exercer as funes repugnantes dos sacrificadores antigos. 
Sacrifica-se enfim ele prprio, e o mundo cristo aplaude. Afirma-se que aps sua morte foram 
abertas as portas de um pequeno templo que ele havia feito emparedar antes de partir para sua 
expedio  Prsia, e que l foi encontrado o cadver de uma mulher nua pendurada pelos cabelos 
e com o ventre aberto.  uma inveno do dio ou a revelao de um mistrio? Seria essa mulher 
um mrtir ou uma vtima voluntria? Pendemos para essa ltima idia. Talvez se tenha encontrado 
uma jovem fantica que quisera opor seu sacrifcio ao do Cristo para a prosperidade do reino de 
Juliano e o retorno aos velhos deuses. O imperador fechara os olhos e s o grande pontfice 
assistira ao holocausto. O templo murado, a vtima sangrenta suspensa entre o cu e a terra como 
uma prece palpitante, tudo isso parece uma pardia da crucificao. Sabe-se que numa poca 
bastante prxima da nossa havia moas que se faziam crucificar assim pelo triunfo do protesto 
jansenista, e, se pensarmos nos ritos brbaros que desonravam a religio de Juliano, no 
rejeitaremos imediatamente como uma calnia pstuma a histria da mulher sangrenta e do templo 
emparedado. Juliano havia sido iniciado nos grandes mistrios por Mximo de feso e acreditava 
na virtude onipotente do sangue. Com efeito, fora atravs de um batismo de sangue que Mximo de 
feso o havia consagrado aos antigos deuses. Juliano, conduzido  cripta do templo de Diana, 
seminu e com os olhos vendados, recebeu das mos de Mximo um cutelo, e uma voz misteriosa lhe 
ordenou que batesse numa plida figura humana que ele podia apenas entrever; a venda foi 
recolocada nos olhos do nefito, conduziram sua mo e o fizeram tocar numa carne quente e viva; 
nela ele cravou o gldio sagrado, e depois foi forado a se prosternar sob a fonte que acabara 
de abrir. Uma asperso quente e nauseabunda o fez estremecer, mas guardou silncio e recebeu at 
o fim a consagrao do sangue vertido. Por esse sangue, dizia Mximo, eu te lavo da impureza do 
batismo. Tu s o filho de Mitra e cravaste o gldio no flanco do touro sagrado. Que a 
purificao do tauroblio te purifique! Juliano acabava de sacrificar um homem? no havia ele 
imolado apenas um touro?  o que ele prprio ento devia ignorar; mas que esses ritos foram 
aqueles dos grandes mistrios, disso no poderamos duvidar, visto que os encontramos ainda nas 
tradies do iluminismo e nos antigos rituais da maonaria, herdeira, como sabem todos os 
eruditos desta especializao, das doturinas e das cerimnias da antiga iniciao. Segundo o uso 
dos historiadores antigos, Ammien Marcellin comps um belo discurso que coloca na boca de 
Juliano agonizante, como se um homem com o fgado atravessado por um dardo pudesse sonhar em 
fazer discursos. Aqui achamos melhor acreditar na tradio crist do que na histria sofstica. 
Ora, eis o que diz essa tradio: Quando foi retirado o dardo de trs gumes da ferida de 
Juliano, quando seu sangue corria em abundncia e ele se sentia desfalecer, ele encheu as duas 
mos com esse sangue que perdia e os ergueu em direo ao cu pronunciando estas misteriosas 
palavras: Tu venceste, Galileu! Tomam-se essas palavras por uma blasfmia, mas no seriam antes 
uma retratao tardia? O iniciado do tauroblio compreendia tarde demais que o sacrifcio de si 
mesmo triunfa sobre o sacrifcio dos outros. Ele sentia que dando seu prprio sangue pelos 
homens, o Cristo derrogou para sempre os sacrifcios sangrentos do velho mundo. O soberano 
pontfice de Jpiter concedia sua demisso oferecendo ao cu, por um lado, seu prprio sangue ao 
invs daquele dos bodes e dos touros. Sim, ele parecia dizer, tu que por desprezo eu chamava de 
Galileu, tu s maior que eu e tu me venceste! Toma, eis meu sangue que te dou como tu deste o 
teu. Eu morro e reconheo que tu s meu mestre! Tu venceste, Galileu! As mos do infeliz 
imperador enfraqueceram, o sangue voltou  sua cabea, e acredita-se que ele as quis acenar em 
direo ao cu. Talvez assim ele se tenha purificado das mculas do tauroblio e renovado os 
traos apagados de seu batismo. Seu ato de arrependimento no foi reconhecido e deixou pesar o 
antema sobre sua memria. Mas ele fora bom e justo e Deus no deixa perecer para sempre os que 
amaram e procuraram o bem, mesmo nas sombras do erro. Com base na f nos fantasmas evocados por 
Mximo de feso Juliano havia acreditado na existncia real de seus deuses, e esses fantasmas 
eram alucinaes do sangue. Afirma-se que Juliano, esgotado pelos jejuns preparatrios e morno 
ainda de seu batismo de sangue, viu passar diante dele todas as divindades do velho Olimpo. Ele 
no as viu tais como so representadas pelos poetas da antigidade, mas tais como existem na 
imaginao desencantada das multides: velhos, decrpitos, miserveis e abandonados. No eram 
mais as grandes divindades de Homero, eram os deuses grotescos de Luciano, tanto  verdade que 
os pretensos espritos que se evocam so miragens ou reflexos de uma imaginao coletiva. O 
espiritismo visionrio  a fotografia dos sonhos. As fotografias mentais so, alis, mais 
duradouras que as fotografias solares, porque se as primeiras se apagam podemos renov-las 
sempre lanando o esprito nas mesmas aberraes. Vimos em 93 os ltimos iniciados nos grandes 
mistrios, os filantropos da escola de Juliano, perseguirem atravs de uma nuvem de sangue o 
fantasma da liberdade. Vimos de alguma forma escapar da tumba Brutus grotescos e Publcolas 
srdidas que juravam pela santa guilhotina invocando deuses. So Justo sonhava com um mundo 
governado por velhos laboriosos e vitoriosos ornados por um cinto branco. Robespierre fez de si 
prprio grande pontfice, e, segundo a lei sangrenta dos antigos mistrios, teve que perecer sob 
a faca daqueles que havia iniciado; todos os filsofos e apstatas como Juliano pereceram, como 
ele, desesperados em relao ao futuro. Mas, menos generosos que ele, talvez menos sinceros, 
pereceram sem presentear o cu com a oferenda de seu prprio sangue e sem confessar que mais uma 
vez Galileu havia vencido. Eis onde levam os sonhos, eis o que produz a evocao dos mortos. Se 
os houvessem deixado dormir em suas tumbas, os Brutus e os Cassius, se os espectros do arepago 
e do frum no se tivessem erigido nos crebros excitados desses homens cuja razo era to bem 
representada por uma mulher devassa, no se teriam lanado aos milhares os filhos da Frana na 
goela devoradora do Moloch revolucionrio. Mas as larvas que nos vm do alm-tmulo so sempre 
frias e alteradas; os fantasmas pedem sangue, e quando as cabeas se desorganizam a ponto de 
criar vises, as mos esto bem perto de cometer crimes. - Dai-me flechas!, exclamava Quanctius 
Aucler, que um dbil hierofante de Ceres vinga a natureza ultrajada! Trata-se de matar os 
sacerdotes; mas nosso homem, que a alucinao revolucionria havia tornado completamente louco, 
queria mat-los a golpes de flechas, para dar a seu suplcio uma cor mais antiga. Esse Quanctius 
Aucler, que se dizia hierofante de Ceres, deixou um livro curioso intitulado a Treicie, onde 
pede seriamente a volta do culto a Jpiter, visto que no seria possvel aderir-se ao reino de 
Saturno. Mas a Revoluo no quis adorar nem Saturno nem Jpiter; ela prpria foi Saturno, e, 
segundo a sombria profecia de Vergniaud, ela devorou todos os seus filhos.

CAPTULO 7
Os espritos na Idade Mdia - O diabo desempenha sempre o papel principal na comdia dos 
prodgios - O arcebispo Udon de Magdeburgo - O dicono Raimundo - Os vampiros - As casas mal-
assombradas. Enquanto dura essa infncia da razo moderna que chamamos de Idade Mdia, as foras 
secretas da natureza, os fenmenos de magnetismo, sobretudo as alucinaes cujos claustros so 
abundantes viveiros, fazem crer na influncia quase contnua dos espritos. Os fantasmas areos 
que a imaginao cria e que realimenta nas nuvens, tornam-se silfos, os vapores da gua so 
ondinas, as vertigens do fogo so salamandras, as emanaes embriagadoras da terra so gnomos, 
os duendes danam com as fadas ao luar. Todo o sabat desencadeou-se. A razo dorme, a crtica 
est ausente, a cincia est muda, Abelardo expia cruelmente suas homenagens prematuras  
inteligncia e ao amor. Os mortos movem-se, os sepulcros falam, sem que se suspeite que vivos 
tenham sido enterrados. Somente o Evangelho brilha no meio dessas trevas profundas, como uma 
lmpada sempre acesa numa igreja cheia de terrores e mistrios. Ora, o Evangelho declara que os 
mortos no podem e no devem jamais voltar; que a ordem da Providncia ope-se a isso. Eis o 
texto que nunca seria demais repetir integralmente para op-lo aos delrios dos espritas; ns o 
encontramos no final do sexto captulo de So Lucas: "Segundo a ordem de todas as coisas, entre 
vs e ns o grande caos consolidou-se, de modo que, daqui, NO SE PODE IR A VS, e que, de onde 
estais, NO SE PODE VIR AQUI" ( Abrao que fala ao mau rico). O mau rico responde: "Eu te rogo, 
pai, que envies Lzaro  casa de meu pai, porque tenho cinco irmos e Lzaro os advertir a fim 
de que no venham por seu turno a este lugar de tormentos." E Abrao lhe diz: "Eles tm Moiss e 
os profetas, que eles os escutem." E ele lhe diz: "No, pai Abrao; mas se algum entre os 
mortos for visit-los, eles faro penitncia." Abrao responde: "Se eles no escutam Moiss nem 
os profetas, no escutariam nem mesmo um morto que tivesse ressuscitado." Essa passagem  
infinitamente notvel e contm toda uma revelao sobre a ordem eterna e imutvel dos destinos 
do homem. Vemos aqui a fora da natureza que impele a vida para frente e fecha as portas atrs 
dela para que jamais recue. Os degraus da escada santa consolidam-se para sempre sob os ps 
daqueles que sobem e eles no podem mais, ouvis bem? ELES NO PODEM MAIS descer para voltar. 
Observemos ainda que Abrao s admite a possibilidade do retorno de Lzaro  terra pelo caminho 
da ressureio, e no pela obsesso esprita. Segundo um dos grandes dogmas da Cabala, o 
esprito despoja-se para subir e  necessrio que se revista para descer. S h aqui uma maneira 
possvel para que um esprito j liberto se manifeste novamente na terra:  necessrio que ele 
retome seu corpo e que ressuscite. Isso  bem diferente de esconder-se em uma mesa ou em um 
chapu. Eis por que a necromancia  horrvel.  que ela constitui um crime contra a natureza. O 
necromante no tem a temeridade de querer agitar a escada santa para fazer cair os espritos que 
sobem? Isto no  possvel, sem dvida, e o sacrlego evocador ser assaltado apenas por suas 
prprias vertigens. Igualmente, os melhores telogos da Idade Mdia diziam que os mortos ficavam 
irrevogavelmente l, para onde a justia, de Deus os havia enviado, e que o demnio responde ao 
apelo dos mgicos e toma a forma dos mortos que chamamos para enganar a conscincia humana e 
fazer crer aos feiticeiros que eles podem perturbar conforme sua vontade o imprio das almas e 
de Deus. Isto significa, em termos alegricos, precisamente o que dizemos na linguagem da razo 
e da cincia. O demnio  a loucura,  a vertigem,  o erro;  a personificao de tudo o que  
falso e insensato. Aqui estendemos a Mirville uma mo que ele certamente no segurar. Deixemos 
a ele seu diabo de papelo que ele faz jorrar de seus grossos livros como que de um brinquedo de 
surpresa: Mirville  uma crianca. Insistimos aqui na autoridade do Evangelho e dos telogos, 
porque se trata de coisas que so exclusivamente do domnio da f. A cincia no admite nada que 
no possa demonstrar: ora, a cincia no saberia demonstrar a continuao da vida humana aps a 
morte. Ela no admite pois os espritos; e o ttulo de nosso livro, A Cincia dos Espritos, 
seria um paradoxo se no significasse cincia das hipteses relativas aos espritos. A cincia  
puramente humana, e a f no poderia racionalmente afirmar-se divina se no fosse imensamente 
coletiva.  esta coletividade que d s crenas o nome de religio, isto , o liame moral que 
une os homens uns aos outros. A cincia no poderia negar a necessidade que os homens tm de 
religio assim como no poderia negar o fenmeno das grandes associaes religiosas. Ao mesmo 
tempo que a religio est na natureza do homem, ela pertence  cincia que estuda o homem; mas 
esta cincia deve limitar-se a constatar, sem se deixar influenciar por ele, o fenmeno da f. 
Uma crena isolada no merece o nome de f, porque f significa confiana: desconfiar de toda 
autoridade social e ter confiana apenas em si mesmo,  ser louco. O catlico cr na Igreja, 
porque a Igreja representa para ele a elite dos crentes. Eis o que justifica a f do carvoeiro. 
Ora, o carvoeiro no  crente apenas em matria de religio, deve s-lo tambm em matria de 
cincia: ir ele negar ou contestar o gnio de Newton porque no compreende seus teoremas? No 
sou especialista em pintura, mas me referiria de bom grado a Ingres, Paul Delaroche, Gigouse; e 
esses grandes artistas, que podem no ser especialistas em teologia, em exegese, em cabala, no 
estariam sendo sensatos se no se referissem queles que tm estudado de maneira especial essas 
altas cincias. Talvez nem sempre eu compreenda o que eles possam dizer sobre os arcanos da 
pintura; por que se zangariam eles se meus livros no lhes so totalmente claros? Basta-me que 
os homens de cincia especial e de julgamento os compreendam e seria muito razovel dirigir-me a 
eles. Tal  pois o fundamento da f.  a confiana daqueles que no sabem naqueles que sabem; 
como a frmula das crenas deve sempre buscar na cincia a base de suas hipteses, como no se 
pode crer racionalmente no que a cincia demonstra estar errado, como  necessrio que a cincia 
admita ao menos a possibilidade das hipteses, como as hipteses da f so aquelas que a cincia 
confessa jamais poder transformar em axiomas ou em teoremas, da resulta que em matria de f 
sobretudo a autoridade  necessria e que esta autoridade deve ser coletiva, hierrquica e 
universal, em outras palavras, catlica.  o que tnhamos a provar. Na Idade Mdia a f  cega 
porque no admite a crtica e no se apia na cincia, que  falha. Isso faz com que o 
raciocnio seja fraco e os delrios abundem. A medicina, por exemplo, no ousa ocupar-se da 
alma, e   alma que se atribui a debilidade do crebro. Os alucinados so ento inspirados, 
seja de Deus, seja do diabo, as mulheres histricas so possessas; os manacos so almas que 
Deus conduz por vias misteriosas. Tudo  possvel ento, tudo  permitido dentro da pretensa 
ordem sobrenatural, exceto, no entanto, as evocaes s quais somente o inferno pode obedecer, e 
que perturbam inutilmente a ordem imutvel da natureza e o silncio eterno dos sepulcros. O 
Evangelho afirma que as almas do cu no podem descer e que as almas do inferno no podem subir. 
Restam as do purgatrio. Mas essas, consagradas  expiao, no podem mais pecar e no tm, por 
conseguinte, o poder de atormentar os vivos e de induzi-los ao erro. O purgatrio, dizem os 
telogos,  um inferno resignado, porque l fica a esperana. L sofre-se, ama-se, ora-se, mas 
no se pode sair antes do tempo marcado pela justia eterna. O que podem ter em comum esses 
reclusos da expiao e da prece com as divagaes, ora estpidas, ora astuciosas, das mesas 
falantes? Como o prprio demnio, esta personificao selvagem e grandiosa do incurvel orgulho 
e do desespero irremedivel, desceria s graas do arlequim ou s moralidades do Sr. Prud'homme? 
O diabo da Idade Mdia  quase sempre malicioso, quanto a isso estamos de acordo; mas quem no 
v aqui, atrs dos chifres do bode, passar as orelhas da me demente, dessa stira gaulesa que 
s vezes coloca no prprio Deus tolices de seus ministros e faz o romance cmico de Belzebu como 
fez o romance de Renard? O diabo, alis, jamais deixou de morar na conscincia dos maus 
sacerdotes, e os embustes dos antigos santurios reproduziam-se freqentemente com os antigos 
vcios nos templos do Deus novo. Se os rudos inexplicados quebravam o silncio dos campos, eram 
almas que pediam preces, e as preces, para o sacerdote, so o dinheiro. Outras vezes, tambm 
narrativas inverossmeis denunciavam apenas um milagre e serviam para ocultar um crime; 
citaremos como exemplo apenas a terrvel lenda de Eudes ou Udo, arcebispo de Magdeburgo. Era um 
prelado muito sbio para seu sculo e parecia querer, antes da poca marcada pela Providncia, 
comecar a revoluo religiosa reservada ao gnio medocre, mas opinitico, de Lutero. Udo de 
Magdeburgo era declaradamente contra o celibato dos padres; tirara do claustro uma abadessa da 
qual fazia quase publicamente sua concubina, esperando que pudesse cham-la de sua mulher. O 
jovem clrigo comeava a se desviar para o caminho do escndalo; os antigos padres estavam 
sombrios e aguardavam. Eis que, certa manh, o arcebispo foi encontrado sem vida no coro de sua 
catedral; a cabea, separada do tronco, estava, num esgar, em meio a um charco de sangue; o 
corpo estava nu. Evidentemente o arcebispo fora arrancado de seu leito e arrastado pela igreja, 
onde o haviam decapitado. Quais eram pois os algozes, ou, melhor dizendo, os assassinos? A 
mulher que repartia o quarto com Udo contou tremendo que uma voz terrvel se fizera ouvir. Ela 
dizia, em um tom de salmodia: Cessa de ludo, Lusisti satis Udo;  rimas brbaras que podem ser 
traduziras como: Repousa pois, Basta de prazer Udon. Depois uma porta secreta do apartamento se 
abriu, e homens negros lanaram-se sobre o arcebispo, arrancando-o do leito e o levando com 
eles. A mulher no vira mais nada e no ouvira mais nada, pois desfalecera de pavor. Ora, havia 
no captulo da catedral de Magdeburgo um cnego chamado Frederico, que passava por santo e 
levava vida de asceta. Esse cnego velava aquela noite na igreja e orava a Deus para que 
cessassem os escndalos do arcebispo. A grande nave estava silenciosa; o cu no tinha lua, e o 
velho sacerdote tremia na profundeza da noite quando repentinamente a porta da sacristia abriu-
se com um baque e ouviram-se uivos estranhos misturados com gritos abafados. Um personagem 
vestido de branco, tendo nos ombros grandes asas, veio iluminar os crios do altar-mor. 
Frederico ento pde ver um homem que espcies de demnios mantinham completamente subjugado; em 
seguida sua atenco voltou-se novamente para a porta da sacristia: uma procisso singular 
entrava na igreja. Na frente caminhavam, fceis de serem reconhecidos por sua roupa tradicional 
e suas insgnias legendrias, os santos protetores da igreja de Magdeburgo, em seguida os anjos 
vestidos de branco, procedendo uma mulher de estatura alta com um manto azul e uma coroa de 
ouro, que se podia tomar pela Virgem; depois dela vinham outros anjos vestidos de preto e 
vermelho, entre os quais aparecia So Miguel, armado de um longo cutelo; finalmente, cercado de 
ceroferrios portando tochas iluminadas, caminhava um homem coroado de espinhos e segurando uma 
grande cruz  mo. Todo esse clero do outro mundo tomou lugar no coro. O Cristo, ou pelo menos 
aquele que fazia o personagem, sentava no prprio lugar e no trono do arcebispo, e os demnios 
comearam a acusar Udo, que seguravam entre eles, amarrado e provavelmente amordaado. O culpado 
no tinha nada a responder. A Me de Deus fez menco de orar por ele; depois, quando o demnio 
falou de escndalos do prelado e da religiosa seduzida, a Virgem baixou seu vu e se retirou 
fazendo um gesto de desgosto. O juiz fez sinal a So Miguel; o cutelo resplandeceu e desceu; os 
crios e as tochas apagaram-se e tudo desapareceu na sombra. O cnego Frederico perguntou-se se 
no estaria sonhando e caminhou trmulo para o coro. Chegando ao p do altar sentiu que a laje 
estava mida e se chocou contra uma massa inerte. A prpria lmpada do altar estava apagada e 
Frederico teve que retornar  sua casa para buscar luz, mas a emoo e o pavor o impediram de 
voltar  igreja; foi s pela manh que os servos da catedral, abrindo as portas, viram o cadver 
decapitado. O corpo do maldito no foi enterrado em terra santa; as manchas de seu sangue sobre 
as lajes do coro no foram lavadas: cobriram-na somente com um tapete, e quando se instalou um 
novo arcebispo de Magdeburgo, o captulo e o clero conduziram-no solenemente a esse lugar; 
levantaram o tapete e fizeram com que o prelado visse o sangue do sacrlego Udo. Nada nas 
sombrias lendas da Idade Mdia nos parece mais aterrorizador do que esse assassinato atribudo a 
Jesus Cristo; e, certamente, se a separao dos dois mundos no era intransponvel para aqueles 
que subiram mais alto; se o prprio Salvador podia, sem perturbar a ordem eterna da Providncia, 
fazer-se ainda presente entre ns de forma que no em seu Evangelho e sua Eucaristia, no teria 
ele prprio vindo paralisar e derrubar os atos dessa tragdia infame? No teria ele vindo 
absolver e salvar o infeliz Udo dizendo-lhe, como  mulher adltera: - Vai, e no peques mais? 
Se os espritos do outro mundo pudessem armar-se de um gldio material para esperar os culpados 
da terra, teria Torquemada podido finalizar tranqilamente seus autos-de-f? Ser que Alexandre 
VI, que envenenava as hstias e praticava publicamente incestos, no mereceria, bem mais do que 
Udo de Magdeburgo, ser decapitado pelos anjos, no  noite e no segredo de uma igreja deserta, 
mas em pleno sol, urbi et orbi, diante de Roma inteira e diante do universo inteiro? Mas s cabe 
aos homens, aos flagelos,  velhice e  doena proferir a morte. Deus  o pai da vida; ele no 
encarrega seus anjos de serem valetes de nossos cadafalsos e no encarregou seus sacerdotes de 
serem fornecedores do inferno. Embuste interessado de uma parte, ignorncia de outra, fenmenos 
inexplicados mas no inexplicveis, eis o que justifica a pretensa interveno dos espritos 
durante todo o curso da Idade Mdia. O estudo da natureza estava ento abandonado por uma 
escolstica brbara; jurava-se em nome de Aristteles e do mestre das sentenas; o medo do 
inferno impedia que se ocupassem do mundo, e o pensamento da morte fazia negligenciar a vida. 
Sabe-se da histria de um certo dicono Raimundo, a quem o terror do inferno causou um pesadelo 
pstumo cujo resultado foi a fundao do Grande Convento por So Bruno; contgio do medo, 
transmisso epidmica do delrio. Se a santidade, naquele tempo, consistia no maior pavor do 
inferno, que homem foi mais santo que o infeliz dicono Raimundo? Tomado por uma letargia de 
pavor que todo mundo tem pela morte, ele se enrolou trs vezes em seu sudrio e levantou-se do 
tmulo gritando: Sou acusado! - sou julgado! - sou condenado! Depois caiu, dessa vez vencido e 
verdadeiramente morto pelo terror. A cerimnia fnebre foi ento cessada, apagaram-se os crios 
e seu corpo foi lanado em algum buraco escavado s pressas. Quem sabe se dessa vez era 
definitivamente a morte e se o infeliz no acordou uma quarta vez sob a terra para se sentir 
enterrado vivo e roer os punhos de desespero! Admitimos nas nossas obras precedentes a 
possibilidade do vampirismo e temos mesmo procurado explic-lo. Os fenmenos que se produzem 
atualmente na Amrica e na Europa pertencem certamente a essa horrvel doena. Denominam-se 
vampiros, impropriamente, certos monomanacos que, como o sargento Beltro, so impelidos 
fatalmente a se alimentarem da carne dos mortos; mas os verdadeiros vampiros so mortos que 
aspiram e sugam o sangue dos vivos. Os mdiuns no comem,  verdade, a carne dos mortos, mas 
aspiram por todo o seu organismo nervoso o fsforo cadavrico ou a luz espectral. Eles no so 
vampiros, mas evocam vampiros. Tambm so todos dbeis e doentes, fracos de esprito e de corpo 
e fatalmente inclinados s alucinaes e  loucura. As prticas enervantes da evocao os 
esgotam depressa, e eles caem num enfraquecimento lento comparvel ao que o doutor Tissot 
descreve como uma conseqncia dos hbitos solitrios. O espiritismo  o onanismo das almas. A 
lei de Moiss quer que se coloque  morte aqueles que consultam os oboth, isto , os fantasmas 
de ob ou da luz passiva. O grande legislador queria, atravs de rigorosos exemplos, preservar 
seu povo do contgio do vampirismo e dos abismos da alucinao espectral. No acreditamos 
realmente que o simples sonambulismo magntico tenha merecido considerao a seus olhos. No 
estamos mais no tempo de Moiss, e o Cdigo Penal do profeta hebreu  felizmente derrogado, como 
o de Dracon. Certamente no queremos que se matem os sonmbulos e os espritas, mas se nossos 
procedimentos, fundamentados na cincia e na religio, pudessem persuadir alguns a se matarem, 
no teramos perdido nossas pesquisas e nosso trabalho. Abordemos agora os lugares fatdicos e 
as casas mal-assombradas e reconheamos, antes de tudo, a existncia e a realidade de um grande 
nmero de fenmenos, que, sobretudo na Idade Mdia, favoreciam a crena nesse tipo de 
superstio. Mirville cita muito isso: remetemos nossos leitores s suas obras e nos contentamos 
com uma citao que ele extrai de um autor que se estima que seja do sculo quinze, Alexander ab 
Alexandro. Eis como fala este autor: ", diz ele, coisa bem notria e conhecida de Roma inteira 
que no tive medo de morar em diversas casas que todo mundo se recusava a alugar em razo das 
espantosas manifestaes de fantasmas que ali passeavam todas as noites. L, alm das 
algazarras, de tremores e de vozes estridentes que vinham perturbar nosso silncio e nosso 
repouso, vamos ainda um espectro horrendo e completamente preto, de aspecto ameaador, que 
parecia implorar nossa assistncia; e para que algum no me acuse de ter forjado alguma fbula, 
peo desculpas por solicitar o testemunho de Nicolas Tuba, homem de mrito e de grande 
autoridade, que me pediu que viesse com vrios jovens de suas relaes para assegurar-se da 
realidade das coisas. Eles velaram pois conosco, e ainda que as luzes estivessem acesas, viram 
subitamente, e ao mesmo tempo que ns, aparecer esse mesmo fantasma com suas mil evolues, seus 
clamores, seus pavores, que fizeram muitas e muitas vezes com que nossos companheiros 
acreditassem, apesar de toda sua coragem, que iriam ser as vtimas. Por toda a casa retumbavam 
gemidos desse espectro, todos os quartos estavam infestados ao mesmo tempo; mas quando nos 
aproximvamos dele, ele parecia recuar, sobretudo para fugir da luz que tnhamos na mo. Enfim, 
aps um alvoroo indescritvel, durante muitas horas, e quando a noite chegava ao fim, toda a 
viso se desvaneceu. "De todas as experincias que tive ento, principalmente uma merece ser 
citada, porque, a meus olhos, foi a maior desses prodgios e a mais espantosa... A noite havia 
chegado, e, depois de ter fechado minha porta com corda forte de seda, deitei-me. Ainda no 
tinha adormecido, e minha luz ainda no estava apagada, quando ouvi meu fantasma fazer sua 
algazarra costumeira  porta; pouco tempo depois, permanecendo a porta fechada e amarrada, eu o 
vi, coisa inacreditvel!, introduzir-se em meu quarto pelas fendas e fechaduras. Mal havia 
entrado, ele entrou sob minha cama, e tendo Marc, meu aluno, percebido toda essa manobra, gelado 
de terror, comeou a soltar gritos terrveis e pedir socorro. Eu, vendo sempre a porta fechada, 
persistia em no acreditar no que vira; vi ento o terrvel fantasma tirar de baixo da minha 
cama um brao e uma mo com que apagou minha luz. Ento ele comeou a desarrumar no somente 
todos os meus livros, mas tudo o que se encontrava em meu quarto, proferindo sons que nos 
gelavam os sentidos. Todo esse barulho despertou a casa e percebemos luzes no quarto anterior ao 
meu, e ao mesmo tempo vimos o fantasma abrir a porta e escapar por ela. Mas eis o que  mais 
assombroso: ele no foi de modo algum visto por todos aqueles que traziam luz!..." Mirville, que 
tambm cita esse fato, acrescenta: "Sente-se o quanto  fcil explicar precariamente os 
fenmenos que se relatam em quatro linhas, mas vemos o quanto cada um vem acrescentar  
dificuldade da soluo. Alexandre estava louco nesse momento, seja; mas acreditam nele seu 
aluno, seu empregado, e Tuba, e os jovens, e todas as pessoas da casa, e toda a cidade de Roma 
que no queria mais essa casa... havia ento nessa casa uma causa que alucinava todo mundo? Qual 
era esta causa?... Uma causa que, no podendo abrir a porta por fora, passava pelas fendas, mas 
abria muito bem as portas por dentro." O que caracteriza principalmente essa histria, e o que 
Mirville no podia ver,  a falta absoluta de lgica e de verossimilhana que caracteriza as 
alucinaes e os sonhos. Uma porta fechada por um simples cordo de seda  mais fcil de abrir 
por fora do que por dentro, empurrando-se de maneira a romper o cordo, mas aconteceu o 
contrrio; o Esprito que entrou pelo buraco da fechadura no tinha necessidade de abrir a porta 
para sair, e ele se deu a esse trabalho intil. No  visvel para todo mundo, como disse 
Mirville, que aqui, seguindo um mtodo que  o seu, parece no ter nem mesmo lido a citao da 
qual faz uso. O ar desse quarto devia estar viciado, visto que a luz se apagou. O brao do 
fantasma era uma viso da asfixia; ao ser aberta a porta e havendo corrente de ar, o espectro 
desapareceu. Poderamos comparar com essa histria um fato recente que h alguns anos lemos nos 
jornais. Havia em determinado lugar, e entre pessoas cujos nomes seriam citados  medida que 
necessrio, um quarto mal-assombrado. Um sbio resolveu l deitar, e deitou. Por volta de meia-
noite ele sentiu uma opresso horrvel, uma dor de estmago cheia de clicas e de angstia, e 
viu, em um claro fosforescente, um abominvel demnio verde-ma, que estava de ccoras sobre 
seu peito e que lhe remexia as entranhas com as unhas. Ele soltou um grito agonizante que foi 
ouvido; vieram socorr-lo, ventilaram o quarto, e o sbio, voltando a si, sentiu-se doente e 
reconheceu os sintomas do envenenamento pelo arsnico. Tiraram-no do quarto fatal, 
administraram-lhe reativos, ele se restabeleceu e pde entregar-se a um exame srio e atento do 
quarto mal-assombrado. Reconheceu que o quarto era revestido com papel verde-ma, tingido com 
um preparado  base de arsnico. Ento tudo se explicou para ele. Com efeito, o papel do quarto 
foi trocado e o fantasma homicida nunca mais voltou.  estudando de perto os prodgios que se 
descobrem as leis secretas da natureza. Existe, por exemplo, uma casa que atrai as pedras como 
um ferro imantado atrai a limalha de ferro.  estranho, no? Mas  o que tambm se deveria dizer 
quando se observa, pela primeira vez, os fenmenos da imantao. Descobre-se logo que existem 
ms especiais nos trs reinos da natureza, e que a casa lapidada atraa as pedras como o mdium 
escocs Home ou a jovem camponesa Anglica Cotin atraam os mveis. A vida do homem se estende 
para as coisas que so do seu uso, e as prescries da Bblia provam que a lepra contagia tanto 
as casas como os homens. Por que no haveria ento casas com doenas de imantao desregulada 
como havia casas leprosas? O certo  que a natureza  harmoniosa e regular e obedece a leis 
rigorosamente exatas quanto ao resultado de sua aco, jamais contradizendo nem seu autor, nem 
ela prpria. Seu milagre permanente  a ordem eterna. Os prodgios passageiros so acidentes 
previstos pela harmonia universal e no provam a interveno dos espritos, assim como os 
meteoros no provam a existncia dos astros. A razo suprema  como o sol: insensato quem no a 
v!

FENMENOS MODERNOS
CAPTULO 1
As mesas giratrias e falantes. A existncia do m universal especializado nos metais, nas 
plantas, nos animais, nos homens, era conhecida pelos antigos hierofantes.  essa fora 
misteriosa que se denominava Od, Ob e Aour, entre os hebreus.  a dupla vibrao da luz 
universal e vital. Luz astral nos astros, luz magntica nas pedras e nos metais, magnetismo 
animal nos animais e no homem. Tudo, na natureza, revela sua existncia. As experincias de 
Mesmer e de seus sucessores provaram que o magnetismo animal pode comunicar aos objetos inertes 
a vida e a vontade do homem. No haveria pois motivo para espanto no fenmeno das mesas 
giratrias e falantes, to difundido em nossos dias; mas a ignorncia gosta de se espantar, 
porque espantando-se ela fica maravilhada, e quando fica maravilhada se encanta, depois no quer 
mais ser desencantada, e no ouve os simples que falam a verdade. Quase toda a verdade sobre as 
mesas giratrias encontra-se muito simples e clara em uma carta de um sbio annimo que cita M. 
A. Morin. "Crede, diz o sbio, que no existem nas mesas nem espritos, nem fantasmas, nem 
anjos, nem demnios; mas h tudo isso se quiserdes, quando quiserdes, e como quiserdes, j que 
isso depende de vossa fora de imaginao, de vosso temperamento, de vossas crenas ntimas, 
antigas ou novas. A Mensambulance no  seno um fenmeno mal observado pelos antigos, 
incompreendido pelos modernos, mas perfeitamente natural, que toca a parte fsica de um lado e a 
psquica de outro; mas era incompreensvel antes da descoberta da eletricidade e da heliografia, 
porque, para explicar um fato da ordem espiritual, somos obrigados a nos apoiar no fato 
correspondente da ordem material, como os antigos poetas o faziam pelas comparaes e os 
profetas pelas parbolas. "Ora, sabeis que o daguerretipo tem a faculdade de ser impressionado 
no s pelos objetos, mas tambm pela imagem dos objetos. Ora! o fenmeno em questo, que se 
deveria denominar fotografia mental, no produzia somente as realidades, mas tambm os sonhos de 
nossa imaginao, com uma fidelidade tal, que nos enganamos, no podendo distinguir uma cpia 
feita ao vivo de uma outra feita a partir da imagem. "Essa fotografia mental, direis,  algo 
muito extraordinrio, muito maravilhoso. - A mesma coisa se disse da fotografia comum e depois 
ela se tornou familiar. Acontecer o mesmo em relao  nova descoberta: habituar-nos-emos, e 
cada um verificar, fazendo mesas como se fazem daguerretipos, uns bem, outros mal, porque  
preciso estabelecer um conjunto de precaues e de condies indispensveis para se obter 
sucesso. O primeiro inepto, o primeiro irrefletido que aparece, no est em condies de obter 
uma boa prova, tanto para um lado como para o outro. "A magnetizao de uma mesa e de uma pessoa 
 absolutamente a mesma coisa, e os resultados so idnticos;  a invaso de um corpo estranho 
pela eletricidade vital inteligente ou o pensamento do magnetizador e dos assistentes. "Nada 
pode dar uma idia mais justa e mais fcil de se compreender do que a mquina eltrica 
acumulando o fludo sobre seu condutor, para obter dele uma fora bruta que se manifesta por 
lampejos da luz, etc. Tambm a eletricidade acumulada sobre um corpo isolado adquire um poder de 
reaco igual  ao, seja para imantar, para decompor, para inflamar ou para enviar suas 
vibraes para longe. Esto a os efeitos sensveis da eletricidade bruta produzida pelos 
elementos brutos; mas h, evidentemente, uma eletricidade correspondente produzida pela pilha 
cerebral do homem: essa eletricidade da alma, esse ter espiritual e universal, que  o meio 
ambiente do universo metafsico ou incorpreo, deve ser estudada antes de ser admitida pela 
cincia, que no conhecer nada do grande fenmeno da vida antes disso. "A eletricidade 
cerebral, que j no , para mim e meus colaboradores, uma hiptese, parece precisar, para 
manifestar-se a nossos sentidos, do auxlio da eletricidade esttica comum; assim, se esta 
ltima falta na atmosfera, quando o ar est muito mido por exemplo, no se pode obter nenhum 
movimento das mesas, que vos dizem claramente no dia seguinte o que lhe faltava na vspera. "A 
inteligncia de uma mesa acionada  o resumo ou, se preferirdes, o reflexo da inteligncia das 
pessoas que a acionam; pode-se o mesmo dizer de um salo onde haja ateno e harmonia de 
sentimentos e de crenas. Outras vezes,  apenas a repercusso das idias de uma s pessoa mais 
influente por sua vontade que pode at paralisar ou ativar a mesa  distncia e lhe impor 
qualquer ordem de idias que lhe agradar. "No  preciso, de modo algum, que as idias estejam 
claras no crebro das pessoas: a mesa as descobre e as formula ela prpria, em prosa ou em 
verso, e sempre em termos prprios; freqentemente pede tempo para encher certas rimas foradas; 
comea um verso, risca-o, corrige-o ou o inverte  nossa maneira; ela joga, brinca e ri conosco, 
como faria um interlocutor bem educado. Se os personagens so simpticos e afveis uns com os 
outros ela se coloca no tom geral da conversa,  o esprito da famlia; mas se lhe pedem um 
epigrama de uma pessoa ausente, ela se apodera da pea. Quanto s coisas do mundo exterior, faz 
conjeturas como ns; compe seus pequenos sistemas filosficos, discute-os e os sustenta como um 
mestre dos mais retricos. Em uma palavra, ela faz uma conscincia e uma razo dela, com os 
materiais que encontra em ns. "Tudo isso vos parecer bastante bizarro, bastante incrvel; mas, 
depois de verificar, chegareis l como ns. "Os americanos esto persuadidos de que so os 
mortos que voltam; outros, de que so espritos; outros, anjos; outros, demnios; e acontece 
precisamente, a cada grupo, o reflexo de sua crena, de sua convico preconcebida: igualmente 
os iniciados dos templos de Srapis, de Delfos, de Branchides, e outros estabelecimentos 
tergicos-mdicos desse gnero, estavam convencidos de antemo de que iriam entrar em 
comunicao com os deuses adorados em cada santurio, o que no deixava de ocorrer. "A ns, que 
sabemos o valor do fenmeno, nada acontece que no possamos explicar, sem dificuldade, conforme 
nossos princpios; estamos perfeitamente seguros de que depois de termos carregado uma mesa com 
nosso influxo magntico, criamos uma inteligncia anloga  nossa, que se serve como ns de seu 
livre arbtrio, e pode conversar conosco, discutir conosco, com um grau de lucidez superior, 
visto que a resultante  mais forte do que o indivduo, ou o todo maior que a parte. "A melhor 
condio  ter como colaboradores apenas crianas, quase sem influncia mental; , grosso modo, 
como se estivssemos ss em presena de nossa conscincia e em conversa ntima conosco mesmos, 
s que o argumentador efmero formula o que era apenas o estado de caos ou de nebulosa em nossa 
conscincia. "No h uma resposta dos antigos orculos que no encontre sua explicao natural 
segundo a teoria da qual temos a chave. No mais acusamos Herdoto de ter dito disparates em 
suas mais estranhas narraes, que temos tambm por verdadeiras e sinceras, como todos os fatos 
histricos consignados nas narraes de todos os escritores do paganismo. "O cristianismo, que 
se havia esforado para livrar o mundo dessas crenas supersticiosas das quais havia reconhecido 
a inutilidade e os perigos sem descobrir as causas, teve que travar os maiores combates para 
destruir os orculos e o sibilismo; teve que empregar mais do que a persuaso, e o 
estabelecimento da inquisio no teve outra finalidade; lede Ammien Marcellin e as violncias 
dos primeiros imperadores cristos contra os consultantes das mesas, e os sermes de Tertuliano 
contra aqueles que interrogavam Capellas et Mensas (Cabras e Mesas). "O Cristianismo precisou de 
nada menos do que dezessete sculos e meio para julgar os feiticeiros a ferro e fogo; os ltimos 
sobreviventes foram Urbano Grandier e Cagliostro; mas, sendo o fenmeno natural, renascia tanto 
sob a forma dos tremores de So Mdard, como sob as alucinaes de So Paris, das quais 
Talleyrand constatou a realidade na sua juventude, crucificando uma sibila com o abade de 
Lavauguillon, sem lhe fazer mal. Mesmer ressuscitou o fato. "Esse fenmeno  to antigo quanto o 
homem, visto que lhe  inerente. Os sacerdotes da ndia e da China praticaram-no antes dos 
egpcios e dos gregos. Os selvagens e os esquims o conheciam;  o fenmeno da F, origem de 
todos os prodgios; quando a f enfraquece, os milagres desaparecem. Aquele que disse "com a f 
transportam-se montanhas" no se espantaria com o fato de se erguer uma mesa. Com a f, o 
magnetismo trata um reumatismo, e os pastores do campo obtinham do p de suas cabras, como 
obtemos do p de nossas mesas, respostas anlogas s crenas ntimas dos interrogadores, 
igualmente atnitos por ver formulados seus pensamentos, seus instintos e seus sentimentos, como 
o selvagem se espanta ao ver refletir sua imagem num espelho. Os mais mal dotados so aqueles 
que acreditam conversar com o demnio, o qual repercute seus sonhos e algumas vezes o estado de 
suas conscincias. O homem, ao se observar no espelho da mesa, Ali se v s vezes to disforme, 
que  tomado pelo diabo. "Quanto mais houver crentes reunidos por uma f qualquer em torno de 
uma mesa, mais a pilha ficar carregada, mais os resultados sero poderosos e maravilhosos. "Os 
primeiros cristos reunidos em torno da santa mesa para comungar com Deus viam Deus, como 
aqueles que tm f na magia e na feitiaria vm encantamentos e feitiaria em tudo. Os hspedes 
do festim de Baltazar viram nas muralhas a ameaa nascida em sua conscincia contra o autor de 
semelhantes orgias, e nada mais. Aqueles que crem nas aparies, em ndoas fosforescentes, em 
barulhos estranhos, so tambm servidos segundo suas idias; porque  dado a cada um segundo sua 
f. Aquele que pronunciou essas profundas palavras era realmente o Verbo encarnado; no se 
enganava e no queria enganar os outros; dizia a verdade, que apenas repetimos aqui j sem 
esperar que a aceitem. "O homem  um microcosmo ou um pequeno mundo; tem em si um fragmento do 
grande Todo em estado catico. A tarefa de nossos semidei  de deslindar a parte que lhe cabe 
num trabalho mental e material incessante. Eles tm que cumprir sua corvia pela inveno 
perptua de novos produtos, de novas moralidades e a ordenao dos materiais brutos e informes 
concedidos pelo Criador, que os cria  sua imagem para criar por sua vez e completar a obra da 
criao, obra imensa que s findar quando o todo estiver to perfeito, que ele se ter tornado 
semelhante a Deus e capaz de sobreviver a si mesmo. Estamos bem longe desse momento final, 
porque se pode dizer que tudo est ainda por fazer, refazer e aperfeioar aqui. instituies, 
mquinas e produtos. Mens non solum agitat sed creat molem. "Vivemos na vida, esse meio ambiente 
intelectual que conserva nos homens e nas coisas uma solidariedade necessria e perptua; cada 
crebro  um gnglio, uma estao do telgrafo nevrlgico universal em relao constante com a 
estao central e com todas as outras, pelas vibraes do pensamento. "O sol espiritual ilumina 
as almas como o sol material ilumina os corpos, porque o universo  duplo e segue a lei dos 
pares. O estacionrio ignorante interpreta mal as mensagens divinas e as toma freqentemente de 
um modo falso e ridculo. Portanto, s a instruo e a verdadeira cincia poderia destruir as 
supersties e os disparates espalhados pelos ignaros tradutores localizados nas estaes do 
ensinamento entre todos os povos da terra. Esses cegos intrpretes do Verbo tm sempre desejado 
impor a seus alunos a obrigao de jurar sem averiguao, in verba magistri. "No pediramos 
mais, infelizmente! se traduzissem exatamente as vozes interiores que s enganam os espritos 
falsos.  a ns, dizem eles, que cabe desvendar os orculos, temos a misso exclusiva, spiritus 
flat ubi vult, e ele s sopra em ns, dizem eles. "Ele sopra em toda parte, e os raios da luz 
espiritual iluminam todas as conscincias; mas como h corujas que fogem da luz, h tambm 
corpos refringentes e muitos que esto despidos da faculdade reflexiva.  a maioria; e quando 
todos os corpos e todos os espritos refletirem igualmente esta dupla luz ver-se- muito mais 
claro do que hoje."  Acreditamos, como o sbio Morin, que os fenmenos atuais nos colocam na 
senda das maiores e mais importantes descobertas. Esta fotografia mental das idias correntes  
algo imenso que nos revela a grande comunicao da vida. Uma alma nica, com efeito, mantm a 
vida em toda a natureza, mens agitat molem. Essa alma  ativa entre os seres inteligentes e 
passiva entre os outros. Ora, o que  ativo age sobre o que  passivo e lhe empresta mesmo sua 
fora. O homem pode tomar do leo seu vigor, do macaco sua agilidade e sua destreza, pode tambm 
impor ao leo e ao macaco seu prprio pensamento e servir-se deles como de instrumentos: tudo 
isto  uma questo de magnetismo. Credes que o grande pintor, por exemplo, encontra entre os 
comerciantes as cores das quais faz irradiar sua tela? No, seu pensamento comanda o sol que lhe 
confia seus reflexos. Todo poder intelectual  uma magia, e a matria colocada a servio do 
esprito torna-se inteligente. O dia, para manifestar-se, tem necessidade da luz, e, como diz A. 
Morin em alguns versos bastante felizes dos quais completamos o pensamento: O tempo de abdicar 
chegou para Apolo: Sabemos agora qual gnio invocar. Sua fora : TODO O MUNDO; Ele se denomina: 
NINGUM; Aquele que no a possui  aquele que a d, Assim como no m o plo negativo  o 
constante agente do efeito positivo. A natureza muda inspira a palavra, A ignorncia pblica 
criou o smbolo, E o homem de gnio  talvez, em duas palavras, Aquele que tira para si o 
esprito de todos os tolos. La Fontaine ia mais longe: tirava para si o gnio dos animais, ou 
antes, emprestava-lhes o seu, e os fazia falar bem melhor que os nossos mdiuns faziam falar as 
mesas. O mundo pertence ao gnio. Ele diz  sua pedra: seja viva! e a pedra levanta-se e se 
anima, O escultor faz os deuses; depois vem a f, e os deuses falam, as esttuas movem os olhos, 
o mrmore chora. Pura imaginao, direis: sim, geralmente, mas nem sempre; e a prova est em que 
as mesas movem-se e falam realmente. No se sabe ainda de quais foras pode dispor a imantao 
humana; e quando os prodgios da f tornarem-se conquistas da cincia, o homem, elevado acima de 
todas supersties, ter tomado seu lugar no universo; compreender que nasceu para comandar a 
natureza, e que  aqui o plenipotencirio de Deus, A fotografia , certamente, uma das mais 
belas e mais curiosas descobertas desse sculo: mas, naquele bom tempo de outrora, que lastimam 
to sinceramente Veuillot e Mirville, no foi o inventor dessa bela coisa acusado de magia, e 
no foram as massas ignorantes persuadidas de que essas pinturas instantneas e maravilhosas 
eram obra de espritos malignos? O que teriam pensado ento do estereoscpio, essa luneta dupla 
que d relevo a um reflexo e muda um fantasma em esttua? Um viajante leva os Alpes em seu 
bolso; coloca-se a cpula de So Pedro de Roma num estojo. Juntai o microscpio ao estereoscpio 
e vereis erguerem-se entre vossas mos, em toda sua espantosa altura, as colossais Pirmides, 
que podereis contemplar comodamente atravs do buraco de uma agulha! Ento, nosso caro Mirville, 
ser que vosso diabo no est nisso nem um pouco? No, no ? Mas, quanto  fotografia mental 
das mesas falantes,  realmente outra coisa: sim, e outra coisa completamente anloga  
primeira. Da mesma forma que a fotografia solar reproduz com uma fidelidade desesperadora os 
sinais e as verrugas de um rosto, a fotografia astral reproduz o nada das frvolas comunicaes, 
a temeridade das conjeturas e os erros dos pensamentos tolos. Conhecemos as pretensas revelaes 
de Victor Hennequin; o mdium Rose afirma-nos que Escousse e Lebras foram Romeu e Julieta, e 
encontra em Saturno o infortunado Lesurques, que se tornou jardineiro. Isso nos lembra uma 
cantiga ininteligvel de Vad: A rainha Clepatra Assava em seu lar Castanhas Que Caron Jogava 
s galinhas. Enquanto Zorobabel, Fazia cozinhar, em Israel, Mariscos.  o sonho em toda a sua 
incoerncia. Depois ele evoca Mme. Lafarge, e a faz confessar que ela fora culpada: ultraje 
mpio ao tmulo de uma infeliz, cuja memria, protegida por uma dvida ante a opinio pblica, 
toca na honra de uma famlia honrada da qual alguns membros ainda vivem e crem na inocncia de 
Maria. Um outro mdium, outrora sbio, depois girador de mesas e alucinado, acredita receber os 
beijos de uma mulher que amou; logo depois sua amante do outro mundo fica enciumada, outros 
lbios pstumos tocam a boca murcha e sem vigor do velho Girard. E a nova Diana desse grotesco 
Endimio (ousamos apenas repeti-lo, porque no nos atrevemos a escrev-lo),  a prpria me de 
Deus. Ao lado dessas atrocidades, vemos sair do lpis dos mdiuns pginas que podem no estar 
ainda escritas em nenhuma parte, mas que reconhecemos j ter lido em todo lugar, tanto esses 
palavrrios so conhecidos e se parecem. Algumas vezes o pretenso Esprito copia ingenuamente um 
autor que acredita, sem dvida, ser pouco conhecido. Aquele que escreve esse livro ficou 
espantado, certo dia, ao reler, sob a assinatura de Plato, em um nmero de Verit, jornal 
esprita de Lyon, uma pgina de sua introduo  Histria da Magia. O lpis faz canes rasas, 
que assina Beranger, e atribui capucinades a Lacenaire:  uma confuso de asneiras pretensiosas 
e reminiscncias truncadas;  uma lanterna mgica sem luz,  o sabat dos mais pobres diabos que 
se possam imaginar;  o caos das extravagncias. Em seguida, ao lado disso, pareceres cheios de 
mistrio, hipteses ousadas e fragmentos de verdadeira cincia, cosidos com os velhos cordes de 
Tabarin ou de Jocrisse. Apolnio de Tiana escreve passagens saint-simonianas e as assina "Santo 
Agostinho"; Santo Agostinho clama contra a Igreja Catlica, So Luis fala como Jean Journet, So 
Vicente de Paula faz frases, e o grande Santo Eloi j nem mesmo possui o bom esprito de querer 
colocar no lugar as ceroulas do rei Dagoberto.  o rudo anrquico dos loucos,  o equvoco das 
balbrdias,  a confuso das massas fotografadas enquanto se movem;  o esprito impessoal e 
mltiplo que afoga estupidamente os animais nos quais se refugia, o esprito que afasta de tudo 
a doce influncia do Verbo de verdade, e que se denomina legio.
CAPTULO 2
A ltima palavra sobre o espiritismo. Alguma coisa de estranho e inaudito est acontecendo no 
mundo, neste momento. O Cristianismo, colocando todas as nossas esperanas na morte, havia feito 
os homens se desgostarem da vida: e eis que uma crena nova parece querer nos ligar  vida 
aniquilando a morte. Para a seita esprita, com efeito, a morte no existe mais. A vida presente 
e a vida futura, separadas apenas por uma barreira insignificante que os espritos podem 
atravessar, so agora apenas uma nica e mesma vida. Estamos cercados daqueles que amamos, eles 
nos vem, tocam-nos, fazem-nos sinal, escrevem-nos, caminham conosco e carregam metade de nossos 
fardos. Algumas vezes, suas mos tornam-se visveis e palpveis para se unirem s nossas. O 
milagre se vulgariza e podemos reproduzi-lo  vontade. Quanto mais lgrimas correm sobre as 
tumbas, mais luto, mais coroas funerrias em memria daqueles que no esto mais, porque, em 
verdade, longe de ter deixado de ser, aqueles esto mais vivos que ns. O bero da criancinha 
eleva-se sozinho balanando-se e diz  pobre desolada que seu pobre anjo ficou sempre perto de 
seu corao. A antiga barreira desabada que separava outrora, para sempre, as duas existncias 
do homem  como a diviso que separava as moradas de Pramo e Tisbe: deixa passar as palavras, 
no detm nem mesmo os beijos. Que sonho divino, que doce loucura! Tambm  aos milhares que  
preciso contar os adeptos da nova cincia. No seria muito cruel desengan-los se todavia eles 
se enganam, porque se apiam em raciocnios aos quais nada se pode responder e caminham cercados 
de prodgios. Sua moral aparentemente  pura e sua doutrina s contradiz o dogma catlico por 
opor humildes esperanas a to excessivos rigores. Tudo isso  to precioso, to surpreendente, 
to belo, que facilmente nos deixamos invadir por uma credulidade lisonjeira, e no refletimos o 
suficiente para ver que a pretensa nova religio aniquila o culto e a hierarquia, torna o 
sacerdote intil, destri o templo em proveito da tumba, substitui os sacramentos dos vivos pelo 
contato duvidoso e problemtico dos mortos. Nessas evocaes multiplicadas, a razo se cansa, a 
f se materializa, os poderes austeros da teologia transformam-se em pequenezas romanescas e 
sentimentais, fala-se de um Cristo quase to ridculo quanto o de Renan e de uma Virgem Maria 
que vem todas as noites beijar a boca do velho Girard de Caudemberg. Por outro lado, esse mau 
Mirville, que no nos perdoa por lhe termos chamado de bom, emboca a trompa infernal e proclama 
o reino de Sat. Seu sacristo, M. Gougenot Desmousseaux, apresenta-lhe o hissope para exorcizar 
o prncipe das trevas. As injrias caem ao invs da gua benta. Os prudhommes volterianos negar 
estupidamente os fatos por no se preocuparem com as causas. O respeitvel Velpeau explica por 
um leve estalido dos msculos da barriga da perna pancadas que quebram as mesas e parecem 
demolir muralhas. Para muitas pessoas, o americano Home  apenas um hbil malabarista; so em 
maior nmero ainda as que riem, do de ombros e no querem nem mesmo ouvir falar disso, e no 
meio desse caos a verdadeira cincia, grave, silenciosa e triste, estuda, observa e espera. Ela 
no saberia todavia guardar um silncio eterno, pois seno ela seria a morte.  chegado o tempo 
em que  preciso, obrigatoriamente, que ela fale para tomar a defesa dessa eterna razo que  a 
base de toda justia.  necessrio que ela fale para anunciar ao mundo a maior e a mais 
necessria de suas revolues, aquela que deve derrubar o despotismo da loucura para fundar o 
imprio da sabedoria, aquela que deve reconciliar para sempre a inteligncia com a f. A adeso 
firme do esprito s hipteses necessrias e razoveis  a f; pode-se tambm dizer que essa f 
 a razo. A adeso obstinada do esprito s hipteses impossveis e irracionais  a 
superstio, o fanatismo, a loucura. O Deus dos sbios  a razo viva e universal; o Deus dos 
fanticos e dos supersticiosos  a loucura absoluta. Mas a loucura absoluta  a mentira 
absoluta,  o mal,  o diabo: os supersticiosos adoram o diabo. A religio dos supersticiosos 
pode pois ser rejeitada sem exame. Quando se diz que o verdadeiro cristo deve sacrificar a 
razo  f, no se fala de uma maneira exata. Sacrificar a razo  f  submeter, em matria de 
religio, seu prprio julgamento  autoridade universal, o que  mais sbio e mais racional. So 
Paulo no pede uma obedincia racional? Todo mundo sabe disso, mas ningum quer compreender, e 
em todos os tempos os homens de m f, para terem o pretexto de lutar entre eles, cultivam o 
mal-entendido. A f sem razo  a loucura. Um certo pensionista de Bictre cr firme e 
obstinadamente que  o rei da Frana. Por que ele  louco por acreditar nisso? Porque no tem 
razo em acreditar, ou porque acredita sem razo. Vintras cr firmemente que  o profeta Elias e 
que o arcanjo So Miguel, disfarado em velho mendigo, conversa familiarmente com ele. Seus 
discpulos sustentam que ele tem razo em acreditar nisso; e se valem de provas de pretensas 
profecias e de pretensos milagres. Ora, reconhecemos que as profecias so divagaes e 
declamaes confusas, e os milagres, fenmenos fastidiosos e de natureza a ridicularizar as 
coisas santas. Aqui a razo pblica corrige a razo privada e julgamos que Vintras e seus 
discpulos so, no direi sectrios que  preciso combater, mas doentes que  preciso curar. A 
f  a confiana da alma humana em uma razo maior que sua prpria razo. A f eleva pois a 
razo do homem, ao invs de diminui-la; o abismo do cu comea para ns onde termina a altura 
das montanhas, a f comea necessariamente onde a cincia acaba. No posso acreditar no 
contrrio do que sei, e no posso saber o contrrio do que acredito sem renunciar imediatamente 
seja  minha cincia, seja  minha f. O objetivo da f  pois, necessariamente, a hiptese; mas 
o objetivo da f racional  a hiptese necessria. No nos digam que a f  uma graa e no uma 
deduo filosfica: o bom senso tambm  uma graa, e uma graa infelizmente muito mais rara do 
que a f. Nossas paixes funestas corrompem nosso julgamento. Um mau no  nunca razovel, e o 
cu s concede a verdadeira razo aos homens de boa vontade. Crede, e sereis inteligentes, dizia 
o Cristo aos pobres de esprito e aos humildes, chamando-os  salvao pela f. Sejai 
verdadeiramente inteligente, e ireis crer, podemos dizer agora aos sbios e pensadores. Isto 
significa: crede sabiamente, ao invs de crer insensatamente, porque, por bem ou por mal,  
necessrio sempre que o homem creia. Providncia ou fatalidade, existe uma causa primeira. Ordem 
ou caos, existe alguma coisa no infinito. Mas a ordem em uma s parte do universo  a negao do 
caos. A vida essencialmente diretriz e dirigida em todos os seus fenmenos  a negao da 
fatalidade. O verdadeiro credo quia absurdum  aquele do homem que nega. Em face do ser, com 
efeito,  preciso ser louco para chegar a afirmar o nada. O ser, sendo infinito, pode ser 
conhecido em suas manifestaes finitas. O conhecido conduz, pela hiptese - seja necessria, 
seja somente racional -,  divinizao do desconhecido relativo; mas alm de toda hiptese 
possvel, resta sempre o desconhecido infinito, do qual no se pode pensar nada e nem dizer 
nada.  nesse desconhecido insondvel, indeterminado, indizvel, que os antigos cabalistas 
adoravam Deus sem jamais procurar compreend-lo. Onde a cincia termina, a f comea, e a f 
coloca suas revelaes hipotticas nas aspiraes do corao sempre mais insacivel e mais 
corajoso que o esprito. Ora, o corao humano pode se apoiar numa fora ou se deixar perder por 
uma fraqueza. - A fora  o sentimento herico do sacrifcio. - A fraqueza  o sonho debilitante 
do egosmo satisfeito. Para suprir a insuficincia da cincia, pode-se apelar ou  exaltao dos 
sentimentos generosos, ou  superexcitao dos instintos fracos. A exaltao dos sentimentos 
generosos leva  f no sacrifcio e, por conseguinte, no trabalho regular, na obedincia, na 
hierarquia, na abnegao do prprio sentido, para se submeter ao sentido comum. A Igreja ento 
se eleva, a sociedade  uma milcia, com sua hierarquia e sua disciplina obrigatria para todos. 
A mais poderosa inteligncia manifesta-se ento pela maior docilidade. Nada h de mais 
perspicaz, com efeito, do que a obedincia cega, nada de mais digno da liberdade do que o 
sacrifcio da prpria liberdade. Um soldado que j no pode obedecer j no pode viver, e quando 
seu general lhe ordena algo que conscientemente no poderia fazer, ele no deserta, morre. O 
sentimento exaltado, mas justo, que cr na obedincia  bandeira, chama-se honra. O sentimento 
exaltado, mas justo, que cr na obedincia  Igreja, chama-se f. O sonho egosta oposta  f  
a heresia.  o soldado que quer vencer se isolando,  o crente excntrico que quer guardar s 
para si as vantagens da sociedade.  o homem que se quer comunicar com Deus sem intermedirio e 
quer uma revelao s para si. Como se o Deus da humanidade pudesse ser excomungado, como se a 
base da religio no fosse o esprito de caridade, e como se o esprito de caridade no 
estivesse em outro lugar que no a associao dos sacrifcios e o concurso hierrquico  criao 
e  conservao social e eclesistica da f! Esta razo elevada a que chamamos Igreja absorve e 
deixa absorver todos os raciocnios individuais. O Cristo, ao revelar-se ao mundo, fez calar os 
orculos, porque os orculos no so a razo. Que importa, com efeito, um fenmeno que a cincia 
ainda no explica, e que pode ele contra uma razo? Se eu visse um absurdo ser escrito em letras 
de fogo no cu, admiraria o fenmeno, mas no seria suficientemente louco para admitir o 
absurdo. Agora que a voz do Cristo no  mais ouvida, ressuscitam-se os orculos. As mesas 
falam, as canetas escrevem por si mesmas, as pedras gritam, e o que gritam? que dizem as mesas? 
o que escrevem os lpis dos mdiuns? Tudo isso repete em todos os tons e em todas as lnguas que 
os homens esto loucos quando tm por base a sabedoria de Deus, que est no esprito de 
caridade. Lutero, certo dia, recebeu a visita de um esprito; era branco ou era preto? E o que o 
reformador no poderia dizer; no entanto ele tende a pensar que o esprito era o diabo. E eis o 
diabo que argumenta contra o monge, e eis o monge convencido pelos argumentos do diabo, e foi 
assim que a reforma chegou ao mundo. Espritos e giradores de mesa, eis toda a vossa histria. 
Uma voz vos fala, no sabeis qual voz. Mais de uma vez vossas pretensas revelaes pululam de 
contradies e de mentiras. Mas eis-vos livres da hierarquia, sois mais astutos que vosso cura e 
que o papa. O outro mundo revela-se a vs diretamente ou por intermdio de seres inferiores a 
vs, de seres ignorantes e doentes, de pobres alienados que dormem ou no sabem o que escrevem, 
e eis-vos como Israel fortes contra Deus. Arranjais  vossa maneira o dogma eterno. Negais isso, 
admitis aquilo, fazeis parasos de fantasia e de infernos suportveis; com isso podeis vender a 
moral, isso sempre faz bom efeito e sabe-se, como vs, que isso no obriga a nada. Porque: a 
conseqncia de uma proposio absurda no poderia ser examinada, porque no existe. Dizeis: 
Deus desaprova a razo e encoraja a loucura.  como se disssseis: o diabo desaprova a loucura e 
encoraja a razo; ora, o pecado  a loucura, e a virtude  a razo. Virtude louca e pecado sbio 
so termos que no combinam. Como pois no vedes que tomais Deus pelo diabo e o diabo por Deus? 
E Deus seria o demnio da loucura! Entrai em vs mesmos e refleti. Assim, depois dos raios dos 
profetas, depois da aurola dos apstolos, depois dos esplendores dos padres, depois da 
pacincia laboriosa mas razo incompleta dos escolsticos, depois dos corajosos desesperos da 
reforma e da filosofia, Deus, como ltimo recurso, envia mesas falantes para soletrar em 
cambalhotas a palavra pouco decente de Cambronne, tempero obrigatrio de uma doutrina idiota, 
estmulo a prticas a que se poderia chamar o onanismo do pensamento. E  Deus, no,  vosso 
Deus que est reduzido a semelhantes expedientes! E passais diante de Bictre sem erguer o 
chapu e sem cantarolar o refro de Branger: Salve minha ptria! A f em Deus  a firme adeso 
do esprito s hipteses necessrias da inteligncia. So Paulo as formula nestes termos: 
Accedentem ad Deum oportet credere, quia est et inquirentibus se remunerator sit. Que Deus , e 
que recompensa aqueles que o procuram. A f em Jesus Cristo e em sua Igreja  a firme adeso da 
alma s hipteses necessrias do corao. Se Deus , ele  bom; se ele  bom, ele nos ama; se 
nos ama, deve remediar eficazmente nossos males. Ele deve vir a ns que no podemos ir a ele. A 
encarnao, a redeno, os sacramentos, o dogma imutvel, a hierarquia infalvel, tornam-se 
ento necessrias, e tudo isso se prova ainda pela existncia real e sempre presente na Igreja 
de um poder evidentemente divino que transforma os ignorantes em sbios, os fracos em heris, as 
mulheres mais simples e at as crianas pobres, em verdadeiros anjos da terra. Esse poder, 
desgraa a quem o desconhece, vergonha a quem lhe resiste e o nega: 
 o esprito de caridade!
A f da inteligncia que afirma s Deus  a f de Moiss.
A f do corao que afirma a Igreja  a f de Jesus Cristo.
A f de Moiss,  Deus inacessvel ao homem.
A f de Jesus Cristo  Deus presente na humanidade.
Inacessvel ao pensamento, mas sempre presente ao amor, eis, com efeito, Deus por inteiro.
O mosasmo e o cristianismo so inseparveis como o esprito e o corao, como a inteligncia e 
o amor.
A Igreja  a humanidade crist, conseqncia necessria e complemento forado do judasmo 
mosaico.
Ao lado dessa f razovel, sempre tentou elevar-se a f louca e imaginria, anrquica como a 
loucura, caprichosa como os sonhos.  a f dos visionrios que tomam por revelaes divinas os 
fantasmas de sua imaginao; Dos que pedem sabedoria ao xtase,  embriaguez, ao sono,  
catalepsia, a todos os estados, enfim, que suprimem o livre arbtrio do homem e o tornam mais ou 
menos alienado. E eles no vem que a alienao  a decadncia do homem. E no compreendem que o 
esprito de vertigem  o esprito da mentira e do mal. E no sentem que ao abandonarem-se aos 
desfalecimentos automticos do sonambulismo ou do hipnotismo, s impulses fatais e duvidosas do 
esprito das mesas giratrias, abandonam ao desconhecido tenebroso a direo de seu pensamento, 
e tornam-se, o que  horrvel e completamente contra a natureza, alienados voluntrios. Tornam-
se, ento, os profetas do turbilho, os videntes da vertigem, os orculos do grande caos, os 
intrpretes da fatalidade. Eles se olham num espelho despedaado e crem perceber a multido dos 
espritos celestes que j serviam de alimento a seu esprito, e seus sonhos de doutrina 
assemelham-se aos pesadelos de uma digesto difcil. Em que diferem essencialmente nossos 
hipnotizados modernos dos antigos gnsticos da ndia, que, com os olhos fixos nos seus umbigos, 
esperavam a apario da luz incriada? Muito tempo antes de ns, os brmanes magnetizavam as 
mesas e as suspendiam da terra colocando nelas somente as mos. A pitonisa de Endor era o que 
chamaramos hoje de um poderoso mdium e ela evocava os mortos; ora, a evocao dos mortos, 
estou cansado de vos dizer,  a necromancia, a mais negra das cincias do abismo, a mais maldita 
das operaes sacrlegas. A necromancia substituindo o cristianismo, a luz dos mortos 
substituindo a palavra do Deus vivo, o fludo espectral descendo sobre ns ao invs da graa, a 
comunicao eucarstica esquecida por no sei quais banquetes, onde a alma se asfixia aspirando 
o fsforo dos cadveres; eis, pobres insensatos, o que tomais por uma renovao religiosa; eis 
vossa f e vosso culto, eis enfim o Deus negro que adorais! Mirville no est completamente 
errado ao atribuir ao diabo as divagaes espritas.
Mas, se Deus envia o diabo em misso, o diabo  forado ento a obedecer a Deus? O diabo , 
ento, o servidor de Deus? O diabo  o missionrio de Deus?
Ento  Deus que responde pelo diabo.
Ento tudo o que atribus ao diabo  Deus que faz.
O diabo j no tem livre arbtrio, e faz contra a vontade tudo o que Deus o faz fazer.
Ento o diabo mentiroso  Deus mentiroso;
O diabo algoz  Deus algoz; o diabo grotesco  Deus grotesco.
Blasfemadores que sois! e no estremeceis! No   imaginao doente do homem, no   sua 
loucura nem a seus sonhos,   sua inteligncia e  sua razo que Deus se revela. Se um padre da 
Igreja escreve o famoso Credo quia absurdum,  porque queria indicar por esse paradoxo o domnio 
real da f que comea nos limites extremos da cincia. Ora, nesses limites extremos a cincia 
cai no absurdo se quer ir adiante; a alma racional, ento, s pode encontrar um refgio na f.  
pois, de certa forma, o absurdo que torna a f necessria: Credo quia absurdum, creio porque 
seria absurdo raciocinar sobre o que posso saber, creio sobretudo porque seria ainda mais 
absurdo no crer. A alma adere invencivelmente a suas hipteses quando elas so rigorosamente 
necessrias, pode am-las e ligar-se a elas quando so racionais; mas as almas insensatas 
apaixonam-se facilmente pelas hipteses ridculas e impossveis. Creio na vida eterna, eis a 
hiptese necessria; a vida eterna no permite que nossas almas se apaguem quando morremos, eis 
a hiptese racional. Mas no que se transformam essas almas desprendidas de nossos corpos? Vs me 
respondeis que elas ficam na nossa espessa atmosfera todas arrepiadas e nuas, ou ainda que se 
ocultam nos madeiramentos que elas fazem estalar, nas mesas que elas fazem girar, nos lpis que 
parecem traar sozinhos lugares-comuns de moral vulgar, dignos quando muito do gnio de Mme. 
Prudhomme, e das divagaes e injrias: eis a hiptese ridcula e, por conseguinte, impossvel. 
Produz-se um fato nexplicvel para vs. Vossa imaginao prevenida explica-o  sua maneira. 
Fizestes ato de f? No, fizestes ato de temeridade, ou, se quiserdes mesmo, de puerilidade. Uma 
voz sai do muro e nos fala: no sabemos de onde vem.  So Miguel, diz o pobre Vintras;  o 
diabo! exclama o mau Mirville, que se indigna por ser chamado de bom, e ambos escrevem livros 
volumosos. Mas, afinal, o que dizia essa voz? Pobrezas, ento no  So Miguel; vulgaridades, 
ento no  o diabo. Mas, afinal, algum falou, porque ouvimos a voz e sabemos que as paredes 
no falam. Muito bem, mas o que conclumos? Simplesmente isso: que no foi a parede que falou; 
mas ento o que foi? Eu vos diria se soubesse: mas se vos digo no o sabendo, sou um mentiroso 
ou um imbecil. , simples bom senso, como s raro! Mas aqui algum me interromper. Moiss, dir-
me-o, ouviu uma voz no Sinai; como pde ele saber se era a voz de Deus, do diabo, ou de um 
sonho? Era talvez a alma fsica da terra; era talvez o gnio irritado do Egito que queria, 
enganando os hebreus, vingar os desastres do Mar Vermelho. Moiss acreditou que era Deus. Mas 
que razo infalvel tinha para acreditar nisso? Por que, ao afirmar que era Deus, no estava 
sendo nem mentiroso nem imbecil? Por qu? Eu vos direi:  que as leis do Sinai so a expresso 
da mais alta e pura razo;  que o Declogo era gravado na conscincia dos homens antes de ser 
esculpido na pedra pelos dedos de Deus, que, como se sabe, no tinha dedos;  que os relmpagos 
e os troves dos quais rugia e se desgrenhava a montanha eram, nesta primeira cena do grande 
drama da revelao positiva, apenas decoraes e acessrios. Eu vos pergunto que diferena pode 
fazer, na proclamao do dogma da unidade de Deus, uma trombeta a mais ou a menos? Quando Jesus, 
pelo herosmo divino de sua morte, prova ao mundo a imortalidade da alma, quando, vitorioso da 
agonia, solta um grito de triunfo, e depois inclina a cabea docemente e morre, o que me importa 
que as pedras se partam e que os tmulos se abram? Deixai-me ignorar esses prodgios; no 
disponho de toda a minha alma para admirar o ltimo suspiro do justo. Tirai-me esses fantasmas, 
no tenho tempo de v-los; meu pensamento est inteiramente absorvido numa sublime realidade! 
No procuro mais, como certos escritores modernos, explicar ridiculamente os milagres do 
Evangelho, no me esforo para supor, por exemplo, que Lzaro, doente, foi amortalhado vivo e 
abandonado durante quatro dias no tmulo por suas irms, para atrair para essa armadilha 
estranha a vaidade cmplice ou ingnua de algum taumaturgo duvidoso. Histria ou lenda, a 
narraco evanglica impe-me a venerao, lembro-me do magnfico quadro do profeta Ezequiel, em 
p no meio das ossaturas. Pensas tu,  profeta, que esses restos poderiam reviver? E eis no 
entanto que  palavra do homem obedecendo a Deus, a vida estremece e se move em todo esse campo 
de morte. O esprito do Verbo soprou, e a humanidade renascer. O mesmo acontecer a Lzaro. 
Lzaro, o grande leproso humano, o doente da terra, morreu depois de quatro dias, isto , aps 
quatro mil anos, porque, diante de Deus, diz alis a Escritura, mil anos so como um dia. J 
est em putrefao, esse gnero humano que o imperador de Capri governa. Salvador do mundo, 
chegaste muito tarde. Se estivesses estado l, Lzaro no estaria morto. Jesus no responde 
nada, mas chora, e dizemos: Vede como ele o amava! Depois ele faz remover a pedra, chama o morto 
 vida, e o morto levanta-se, ainda preso em seu sudrio. Eis as origens do cristianismo. 
Desatai-o, diz o Salvador, e deixai-o ir em liberdade; eis a o cumprimento e o fim. Esta no  
a histria de um homem,  a lenda proftica do mundo,  o complemento e a explicao da viso de 
Ezequiel. Respira-se nessa narrao o sopro divino em pleno peito. Chora-se com Jesus, 
estremece-se e levanta-se com Lzaro; estendem-se em direo ao cu as mos ainda cativas. 
Lzaro so os escravos da Amrica, so os oprimidos da Irlanda, so os mrtires da Polnia. 
Dizei, oh! dizei, Senhor, que os libertem e que os deixem caminhar! Preciso procurar outra coisa 
nessa pgina que me impressione to vivamente? Sinto que ela  verdadeira, cedo  emoo que ela 
me inspira; mas  simplesmente uma parbola,  a narrao de um acontecimento? Nada sei, e, por 
conseguinte, seria temerrio afirmar a esse respeito alguma coisa contrria ao ensinamento da 
Igreja. Aqui a tradio dos primeiros padres da Igreja  como a minha concepo; eles 
compreenderam o smbolo como eu os compreendo e se reservam o direito de negar a histria que 
serve de base a esse smbolo. Devo imitar sua sabedoria, mas a pobre crtica de Renan inspira-me 
uma profunda piedade. A fora do Evangelho no est nos milagres que se relatam nesse livro 
sagrado, mas na razo suprema, no LOGOS, que  a luz de todo homem vindo no mundo, como diz So 
Joo. "No me pergunteis quem sou, dizia Jesus, sou o princpio que fala." Estando oposto s 
leis comuns da natureza, o milagre parece um erro; mas a verdade, sempre a mesma, faz 
empalidecer o brilho efmero de todos os prodgios diante dos esplendores da ordem eterna! No 
se poderia encerrar a verdade numa tumba, e por conseguinte ela no poderia de l sair.  a vida 
que irradia sobre a morte, e no  a morte que pode irradiar sobre a vida. O esprito dos 
grandes homens no tem necessidade de voltar para perto de ns do alm-tmulo; ele fica sempre 
sobre a terra. Consultadores de orculos fnebres, vs vos assemelhais a homens que passariam a 
existncia a olhar o fundo de um poo para perceber o sol. Sacrificar a vida presente a uma 
existncia futura  o esprito do Cristianismo, definido por todos os ascetas. Encontrar nesse 
sacrifcio a maior felicidade da vida presente  o gnio do cristianismo, no menos argutamente 
pressentido do que magnificamente sonhado pela alma de Chateaubriand: mas o corao do 
cristianismo, sua essncia, sua lei fundamental,  a hierarquia diretamente oposta  anarquia. 
Pela hierarquia, com efeito, a sociedade se constitui e se eleva; pela anarquia, divide-se e se 
destri. A hierarquia  a comunho; a anarquia  a excomunho voluntria. A hierarquia  o homem 
devotado  sociedade e protegido por ela; a anarquia  o homem proscrito pela sociedade e 
conspirando contra ela. A hierarquia, enfim,  o homem onipotente porque  mltiplo; a anarquia 
 o homem impotente porque est s. "Se Deus falou, diz Rousseau, por que no ouvi nada?"  a 
tua conscincia que  preciso perguntar, tu que queres caminhar s, e que te fazes de surdo 
quando a sociedade fala. Deus deveria ter uma redeno para a humanidade e uma outra redeno 
para Rousseau? Rousseau  mais, ou menos, que um homem? Se  mais, onde esto seus ttulos? Se  
menos, onde esto seus direitos?
Mas, direis vs, se a sociedade quer impor  minha f absurdos que revoltam minha razo, posso 
abjurr minha razo para nela acreditar? No, a sociedade no te comanda pela f, mas te probe 
de perturbar a paz das crenas comuns pelas revoltas de teu esprito ou de teus sonhos; duvida, 
se  tua desgraa, mas cala-te, porque  teu dever. As inspiraes sociais. O homem de gnio  
aquele que pensa melhor que ningum o que todo mundo pensa ou gostaria de pensar. O pensador 
excntrico, que no encontra a simpatia de ningum, no  um homem de gnio; e, se ele se 
obstina,  um louco. Nem Lutero e nem mesmo Savonarola podero reformar a Igreja, enquanto ela 
queimar Savonarola e excomungar Lutero: separar-se de um doente no  cur-lo; e o Conclio de 
Trento nada tem a esperar e a receber dos fantasistas da Confisso de Augsburgo. A mesma lei que 
obriga o fiel a caminhar com a Igreja, obriga a Igreja a caminhar com a humanidade, sob pena de 
no mais ser Igreja.  assim que a Igreja judaica no foi mais do que a sinagoga, quando se 
deixou ultrapassar pelo progresso cristo. Deus no muda; mas o ideal divino pode mudar, e ele 
muda necessariamente com o gnio das naes: "Quando o homem cresce, Deus eleva-se", disse o 
salmista; e quando Deus eleva-se, sua Igreja transfigura-se; mas est sempre se aproximando da 
razo suprema. Admitindo o que no admitimos, que o Cristianismo j cumpriu seu tempo, 
compreendo o desmo de Voltaire, mas no compreendo a teurgia de Mximo de feso e de Juliano. O 
que prova, com efeito, uma viso, seno a existncia de visionrios? Vs me dizeis que Jesus 
Cristo est ultrapassado: - e por quem? grande Deus! Vs me mostrais Allan Kardec. Ora! 
decididamente estais gracejando. No admitimos, dizemos, que o cristianismo j cumpriu seu tempo 
e que seja uma rvore morta, porque no deu ainda seus frutos. O Evangelho no foi compreendido, 
a verdade no foi totalmente ensinada; crianas soletraram a letra, mas o esprito ficou no 
fundo do texto, como a esperana no fundo da caixa de Pandora. Acreditamos pois que no se trata 
de ensinar alguma coisa de novo, mas de explicar melhor o que foi ensinado. Esse melhor 
ensinamento,  somente da Igreja que o esperamos; e  por isso que depositamos a seus ps o 
resultado de nossas buscas e de nossos estudos, para que ela leia e julgue. Aprovados ou no 
pela Igreja, nossos trabalhos sero teis ao mundo; porque, se a Igreja pode proibir o crente 
excntrico de dogmatizar, no pode impedir o sbio de ensinar. Ora, no  sobre a religio, mas 
sobre a cincia dos espritos que chamamos hoje a ateno dos pensadores. Nosso objetivo, ao 
escrever esta obra, no  unicamente colocar um obstculo  epidemia do espiritismo. No somos, 
de antemo, adversrios de ningum: amamos os que procuram, porque muito tempo temos procurado, 
e  a eles sobretudo que queremos levar o conhecimento de nossas curiosas descobertas. A grande 
hiptese necessria dos destinos futuros foi trabalhada e conduzida, de deduo em deduo, 
pelos sbios do velho mundo. A pneumtica cabalstica  verdadeiramente uma cincia, porque 
procede metdica e exatamente, indo do conhecimento ao desconhecido pelo caminho das analogias 
menos duvidosas, porque os fatos lhe revelam leis, e sobre essas leis ela fixa solidamente a 
base de suas hipteses sempre prudentes.  pois a pneumtica cabalstica que revelamos a nossos 
leitores. Juntamos a isso a anlise do profundo tratado de Isaac de Loria sobre o progresso 
circular das almas (De Revolutionibus animarum); a do Sepher Druschim pelo mesmo doutor. Tiramos 
das trevas do ocultismo esses livros prodigiosos dos quais o mundo moderno no tem mais a chave, 
e acreditamos ter prestado servios relevantes  cincia e  razo. Atravs do auxlio dessas 
luzes poderosas explicamos os fenmenos estranhos que os semi-sbios julgam to cmodo negar, e 
que no entanto os aniquilam por sua evidncia. Sim, as esttuas estremecem, os mrmores choram, 
os pes sagrados se injetam de sangue; sim, uma mo pde sair da muralha para aterrorizar com 
uma inscrio ameaadora o banquete mpio de Baltazar. Vimos, ouvimos e tocamos prodgios como 
esses; tambm no diremos que acreditamos nisso, visto que sabemos de cincia segura que isso 
acontece. O milagre no  um fato contrrio s leis da natureza, pois seno ele no poderia 
acontecer sem que a natureza sofresse uma reviravolta. Mas  um fato excepcional e fora dos 
hbitos da natureza, se nos podemos permitir falar desse modo. O milagre, em uma palavra, como 
tudo o que existe, no pode existir sem razo; ele no prova pois nada contra a razo, e  isso 
que nosso livro deve estabelecer claramente, assim como nossas outras obras. Uma vez reconhecida 
essa verdade, a superstio torna-se impossvel; o fanatismo se vai, a verdadeira religio 
empresta todo seu brilho  razo suprema e menospreza prodgios vos. A f no mais perturba as 
almas; ela as sustenta e as consola, enquanto a cincia as esclarece. A humanidade sai da 
infncia; e rejeita sorrindo e faz mergulhar nas trevas os fantasmas e os vampiros. As foras 
secretas da natureza tornam-se as conquistas da inteligncia; o simbolismo ilumina-se por ele 
mesmo, as alegorias falam, a histria emerge das nuvens da fbula.  dessa forma, dizem nossos 
profetas, que um dia o Filho do Homem, abaixando as nuvens do cu, aparecer em toda a glria e 
em toda a simplicidade de sua humanidade santa, e, abrindo o livro das conscincias, julgar os 
vivos e os mortos. O autor deste livro no teme confessar que ele prprio teve as mais 
assombrosas e as mais formidveis vises: viu e tocou os demnios e os anjos como faziam seus 
adeptos v-los e toc-los Mximo de feso e Schroepfer e Leipsick. Ele pde comparar as 
alucinaes da viglia com as iluses dos sonhos, e de tudo isso concluiu que a razo dirigindo 
a f e a f sustentando a razo so as nicas luzes verdadeiras de nossas almas, que tudo o mais 
 apenas cansao intil do crebro, aberrao dos sentidos e delrios do pensamento. Ele no 
escreve pois somente o que supe, ensina ousadamente o que sabe. Tambm seu livro  intitulado A 
Cincia dos Espritos, e no Conjeturas ou Ensaios sobre os espritos. Foi depois de ter 
descido, de abismo em abismo e de terror em terror, at o fundo do stimo crculo do abismo, e 
depois de ter atravessado em toda a sua extenso a sombra da cidade lastimosa, que Dante, 
voltando e tomando, por assim dizer, o diabo despropositadamente, volta vitorioso e consolado em 
direo  luz. Fizemos a mesma viagem, e nos apresentamos ao mundo com a segurana no rosto e a 
paz no corao. Acabamos de dizer aos homens que o inferno, que o demnio, que o abismo sem 
esperana, que as quimeras, as stiras, as gulas, os pecados personificados, o drago de trs 
cabeas e todo o resto da fantasmagoria tenebrosa so apenas um pesadelo da loucura, mas que s 
Deus vivo, real, presente em tudo, preenche sem deixar vazios, preenche, repetindo, a imensido 
sem limites dos esplendores e das consolaes eternas da razo soberana.
O Leitor
Mas o senhor ser perseguido.
O Autor
J estou acostumado com isso.
O Leitor
Mirville dir ainda que os livros do senhor so abominveis.
O Autor
Sou muito educado para responder-lhe que os dele so lastimveis.
O Leitor
Mais do que nunca organizaro contra o senhor a conspirao do silncio.
O Autor
Tratar-me-o ento como Alexandre diante de quem a terra se calava: siluit terra in conspectu 
ejus.
O Leitor
Adeus, pois vejo que o senhor  incorrigvel.
O Autor
At breve, porque espero sempre que voc queira corrigir-se.
O Leitor
Mas afinal o senhor afirma uma espcie de catolicidade universal que excluiria somente a Igreja 
romana.
O Autor
Disse positivamente o contrrio: seria to absurdo colocar Roma fora do universo como pretender 
fechar o universo em Roma.
O Leitor
Permita-me preferir as crenas de minha av a todas as suas razes.
O Autor
Voc tem liberdade de pensar como as avs, ou mesmo de no pensar nada. Mas o mundo sofre por 
estar sem religio, e eu gostaria, mesmo correndo riscos e perigos, de mostrar a conciliao 
possvel entre a razo e a f. Deixe-me esperar que algum dia eu tenha netos que pensaro como o 
av.
O Leitor
Mas o senhor acha que Roma o aprovar?
O Autor
Aprovou ela Galileu? No entanto, a terra gira.
O Leitor
Agora ela j no o condena.
O Autor
Era uma questo de tempo. Voc v que tenho alguma razo em esperar.
O Leitor
O senhor rejeita o diabo e o inferno de Mirville; no so eles matrias de f?
O Autor
O Credo de Mirville poderia ser este:
Creio no diabo, o destruidor onipotente, perturbador do cu e da terra, e no anticristo, seu 
filho nico, nosso perseguidor, que ser concebido do mau esprito, nascer de uma virgem 
sacrlega, ser glorificado, reinar e se sentar no altar de Deus, o pai onipotente, de onde 
insultar os vivos e os mortos. Creio no esprito do mal, na sinagoga satnica, na unio dos 
maus, na persistncia dos pecados, na perdio da carne e na morte eterna.
Quem ousar dizer assim seja? Quem no v que o Credo negro  totalmente oposto quele da 
Igreja, e que o crente que afirma um deve necessariamente negar o outro?
O Leitor
Entretanto o Evangelho e a Igreja no falam do diabo e do inferno?
O Autor
Sim, simbolicamente, e so esses smbolos que venho explicar pela cincia e pela razo.
O Leitor
Mas, afinal, a f da Igreja...
O Autor
A Igreja jamais tomou o diabo por objeto de sua f.

Dilogo entre o leitor e o autor
O Leitor
Assim, o que fica bem entendido, o senhor rejeita a autoridade da Igreja catlica romana?
O Autor
Eu disse isso? Pelo contrrio, eu a respeito, e creio que  preciso retornar a ela como ao 
princpio nico de hierarquia e de unidade.
O Leitor
Seu ensinamento difere, no entanto, do ensinamento da Igreja. O senhor acha que sabe mais do que 
ela?
O Autor
Em matria de cincia, sim. Porque a Igreja s  infalvel em matria de f.
Suplemento
Poder da idia catlica Unida ao esprito e no  letra dos livros santos, e como  preciso op-
la s fantasias dos inovadores modernos As doutrinas espritas cometem o erro imenso, depois 
daquele de ser o resultado da vertigem e do xtase, de romper a cadeia de ouro da tradio, de 
suprimir o sacerdcio e a hierarquia, e de separar da moral sua sano eterna. Para ns, que 
admiramos a Cabala e seus dogmas secretos to plenos de consolao e de esperana, no cremos 
que uma Igreja nova possa fazer deles o objeto de um ensinamento novo. Eles pertencem 
essencialmente  filosofia oculta, e tornam-se condenveis desde que divulgados. Se detestamos 
de todo o corao a imundcie farisaica que os sculos deixaram estender-se e se acumular sobre 
o ouro puro do santurio, no somos menos partidrios devotados da autoridade e da hierarquia; e 
se nosso messianismo fosse apenas um ensaio de seita nova, se no fosse o prprio fundo da 
cincia judaica e do dogma cristo, se no o submetssemos sem restrio ao julgamento da 
autoridade legtima em tudo o que concerne  compreenso e ao modo dos ensinamentos que ele 
contm, teramos somente acrescentado um sonho quele dos saint-simonianos e dos furieristas; 
no teramos encontrado a verdadeira cincia e a eterna verdade. Que este livro seja pois o que 
deve ser, uma compilao de pesquisas curiosas destinadas a esclarecer os espritos 
suficientemente fortes para pensarem livremente e continuarem submissos. Que os espritos 
vulgares o ignorem, que os homens preconceituosos o condenem,  o que desejamos. Os 
revolucionrios do pensamento so como aqueles da poltica: avanam correndo riscos; deixam-nos 
perecer, negam-nos, e a reao que os mata emerge do fruto de seus trabalhos. So os bodes 
expiatrios do progresso, so os prias da conquista; seus corpos servem de entulho para 
preencher o abismo que separa o passado do futuro; as soberanias legtimas voltam triunfantes 
pelo caminho que abriram, mas voltam transformadas. Os condenados trabalharam para os santos, e 
chega enfim um dia tardio em que nos aventuramos a supor que esses condenados, por tanto tempo 
desdenhados ou amaldioados, talvez fossem mrtires. Sem dvida, no so essas minhas 
pretenses; mas se ouso tudo,  porque reconheo uma inabalvel autoridade, e porque no creio 
que ela se perca, mesmo me condenando. A autoridade absoluta, com efeito,  necessria para 
deter as divagaes do erro. Uma autoridade  uma razo coletiva; os sonhos nada representam 
diante dela, e uma razo particular no pode ter uma pretenso mais alta do que a de se fazer 
adotar. Tnhamos pensado em continuar nossas ousadas revelaes sobre o dogma oculto dos 
antigos, com uma ampla e completa apologia da catolicidade no sentido do conde Joseph de 
Maistre; mas esse trabalho no  feito para ns, e no nos julgamos nem suficientemente dignos, 
nem suficientemente autorizados, para empreend-la. Ser-nos- suficiente dar o seu plano e os 
seus principais pensamentos. Algum dia, outros o faro, disso no duvidamos. A cada um sua obra: 
a nossa  a de um pioneiro e no de um construtor. Eis pois algumas pedras nossas e nossos 
esboos de arquitetura.
DA VERDADE CATLICA
Contra os cticos, os espritas e os herticos modernos Plano e materiais Prefcio
O nico modo de unir para sempre a filosofia e a religio  reconhecer que elas so opostas uma 
 outra, mas opostas como os dois plos que sustentam o eixo da terra. Desde que uma religio  
explicada, ela deixa de existir como religio e torna-se um sistema de filosofia. O Credo quia 
absurdum ,eterno. Primeira palavra da revelao
1. Deus  - lei natural; o ser  o ser.
Segunda palavra da revelao
2. Deus  esprito - lei de Moiss; o ser vivo  pensante.
Terceira palavra da revelao
3. Deus  esprito de caridade - lei do Salvador; o ser bom.
Existncia do mal. - Existncia relativa, mas real, o mal s existe como abuso do bem;  uma 
perverso voluntria do ser real como a liberdade do homem - irrevogvel como ela. O pecado 
mortal  a negao formal, prtica e confirmada do esprito de caridade. Esta negao, tornada 
eterna pelo suicdio da liberdade,  o inferno. O orgulho, ou o desejo injusto da dominao e da 
estima; a luxria, ou o desejo injusto dos prazeres da carne; a cupidez, ou o desejo injusto dos 
bens desse mundo, so os trs inimigos do homem. O esprito de caridade vence os trs. A moral 
no  uma conveno entre os homens;  uma lei fatal que vos dirige para a direita ou para a 
esquerda, segundo vossa opo, em todos os instantes de vossa vida. O mal  uma fora de 
inrcia, o bem uma fora de ao. - O exerccio, ou antes, o hbito do mal, paralisa a alma; o 
exerccio do bem, ao contrrio, torna-a capaz de um bem cada vez mais sublime e mais elevado. 
Para aquele que gosta de cumprir os deveres de um homem honesto, os deveres de um cristo so 
antes uma consolao que uma sobrecarga. O pecado original tem por pena a morte e a excluso do 
paraso terrestre. Deus no ameaou Ado das penas do inferno - no se pode ento dizer que as 
crianas mortas sem batismo pertencem ao inferno. - Elas no poderiam entrar nesse estado no 
reino dos cus, eis o que pertence  f segundo a Escritura. Seu destino  o segredo da 
misericrdia de Deus; mas, se  permitido disso pensar em alguma coisa,  no esprito de 
caridade. O esprito de caridade ordena a doura para consigo mesmo, e  preciso ter, mesmo na 
penitncia, um esprito pacfico e benevolente oposto aos temores exagerados, aos escrpulos, s 
maceraes imprudentes. Nada h de mais sbio, mais harmonioso, mais moderado, mais amvel que o 
esprito de caridade. Charitas patiens est, benigna est, non inflatur, non oemulatur, non agit 
perperam, non quoerit quoe sua sunt, non cogitat malum, non gaudet super iniquitatem, congaudet 
autem veritati. Esse esprito existe na Igreja catlica? - Sim, sem dvida alguma; e os 
escndalos contrrios s podem fazer sobressair esta verdade. - O esprito de caridade  de tal 
modo a base das instituies catlicas, que sem esse esprito elas no subsistiriam um dia. 
Observam-se e registram-se as coisas pouco caritativas da Igreja.  uma profisso de f no 
esprito de caridade que lhe deve ser essencial, e sem o qual no a conhecemos. Para salvar o 
mundo,  necessrio despertar o esprito de caridade;  preciso espalhar esse esprito,  
preciso torn-lo universal. Para isso, no so necessrios nem os livros nem os discursos, mas 
esforos de caridade, sacrifcios hericos, boas obras e preces incessantes. Alguns pensamentos 
do Conde de Maistre Seria, parece-me, uma bela idia fazer sentar Baco e Minerva  mesma mesa, 
para impedir um de ser libertino, e outro de ser pedante. (Soires de Saint-Ptersbourg, p.10) 
Se algumas vezes a superstio acredita crer como a acusam, com maior freqncia o orgulho cr 
no crer. (p.14) Com efeito, a incredulidade  uma crena negativa, e a credulidade exclui a f. 
"No sabeis o que dizeis",  o cumprimento que um homem sensato teria direito de fazer  
multido que se pe a dissertar sobre as questes espinhosas da filosofia. Credes que  preciso 
ser como Descartes para ter o direito de zombar de seus turbilhes? (p.19)


IDIA DOMINANTE DA OBRA

A maior quantidade de felicidade, mesmo 
temporal, pertence, no ao homem virtuoso, 
mas  virtude.


O gldio da justia no tem bainha: sempre deve ameaar ou bater. (p.45)
Nossos filhos carregaro a pena de nossas faltas. Nossos pais os vingaram de antemo. (p.61)
O que  IOVI, seno IOVA?
O selvagem no  o homem primitivo,  um homem degradado. (p.82)
A guia acorrentada pede uma mongolfieira para elevar-se nos ares? No, ela pede somente que os 
liames sejam rompidos. (p.104)
Sou, como job, repleto de discursos: plenus sum sermonibus. (p.104)
O estado da natureza  a civilizao. (p.108)
Somos para o homem primitivo o que o selvagem  para ns. (p.123)
No existe virtude propriamente dita sem vitria sobre ns mesmos, e o que no nos custa nada 
no vale nada.
1. Repartio.
2. Decadncia.
3. Providncia.
4. Prece.
5. Hierarquia dos seres, relativamente ao mal. A matria no  mais do que a prova do esprito.
6. Eficcia da prece; liberdade humana.
Jamais temamos elevar-nos demais e enfraquecermos as idias que devemos ter da imensidade 
divina. Para colocar o infinito entre dois termos, no  necessrio abaixar um,  suficiente 
elevar o outro ilimitadamente.  preciso acreditar no que sempre se acreditou, em toda parte e 
por todos. (Vcente de Lrins) Mercrio tem o poder de arrancar os nervos de Tifon, para com 
eles fazer as cordas de lira divina. (Plutarco de Isis et Osris, p.314). O anjo exterminador 
gira como o sol ao redor desse globo desafortunado, e s deixa respirar uma nao para 
surpreender outras. Entre a blasfmia humana que nega Deus e o pretenso paradoxo divino que nega 
o homem, o Evangelho nos d um meio ao mesmo tempo divino e humano, que nos faz evitar um e 
outro dos dois escolhos:  a afirmao do Deus feito homem;  o Verbo divino revelado na 
humanidade. Por que nos mostrar sempre o algoz quando temos necessidade de encontrar sobretudo o 
mdico? Todos os grandes homens foram intolerantes, e  preciso s-lo. (Citao de Grimm, 
epgrafe das Cartas sobre a Inquisio.) Os grandes males polticos, sobretudo os ataques 
violentos contra o corpo do Estado, nunca podero ser evitados e rechaados seno por meios 
igualmente violentos. (Primeira Carta sobre a Inquisio) Reverencio a sabedoria que prope um 
novo rgo, da mesma forma que aquela que propusesse uma nova perna. (Filosofia de Bacon, p.9) 
Bacon, Induo; Condillac, Anlise; Kant, Crtica. No pode haver uma nova cincia da 
inteligncia, e nem, sobretudo, um novo mtodo de descoberta. O orgulho somente pode dar novos 
nomes a antigas noes, e a ignorncia e a inaplicao podem tomar esses nomes por coisas. 
(Ibid., p.12) Foi em vo que o Criador colocou em nossas mos o archote da analogia; Bacon vem 
colocar seu apagador potico sobre essa luz divina. (p.33) H uma grande analogia entre a graa 
e o gnio porque o gnio  uma graa. O verdadeiro homem de gnio  aquele que age por movimento 
ou por impulso, sem jamais contemplar-se e sem jamais dizer a si mesmo: Sim,  pelo movimento 
que ajo. O que Haller no viu em uma gema de ovo? A raiva do fogo (Bacon). Horror do vazio! 
Cabeas estpidas,  o amor do mbolo! - O corao do macaco est para o corao do homem assim 
como os sonhos da poesia humana esto para a providncia de Deus. 
AS QUATRO CARACTERSTICAS DO ABSOLUTO APLICADAS  RELIGIO
Verdade - Realidade - Razo - Justia
Demonstrao preliminar
Verdade - identidade do ser com a idia.
Realidade - identidade do ser com a cincia.
Razo - identidade do ser com o verbo.
Justia - identidade do ser com a ao.
Primeira demonstrao
Identidade do ser absoluto com Deus, tal como a define a f catlica.
1. A idia de Deus  um fato psicolgico, real, universal, incontestvel.
2. Desenvolvimentos realistas dessa idia.
3. Influncias da hierarquia ou da anarquia sobre essa idia.
4. Catolicidade da idia divina.
Segunda Demonstrao
Identidade do ser religioso com a cincia catlica.
1. Como a verdadeira religio natural deve ser uma religio divinamente revelada.
2. Que no h religio onde existe apenas cincia.
3. Acordo necessrio da religio e da cincia resultante de seu prprio antagonismo.
4. Cincia religiosa catlica, ou teologia.
Terceira Demonstrao
Razo
1. A afirmao religiosa s  racional na ordem catlica e hierrquica.
2. Razo profunda de pretensos absurdos religiosos.
3. Despropsito evidente de todos os dissidentes.
4. Razo da f catlica demonstrada pela esperana e pela caridade.
Indiferena em matria de religio significa indiferena em matria de moral. Irreligioso quer 
dizer imoral. Os catlicos romanos so uma famlia de muitos pais, e por conseguinte de muitas 
mes, a menos que sua igreja no seja adltera.  uma famlia sem unidade. Os protestantes so 
uma famlia sem pai nem me, so rfos para no ter que obedecer a seus pais.

O ISLAMISMO 
Religio de quietismo e de morte; fatalidade e resignao. 
O BUDISMO 
Sombra do catolicismo esboado com as trevas dos antigos 
smbolos da ndia. 
O BRAMANISMO 
 para o budismo o que a Igreja grega  para a Igreja latina. 
O JUDAISMO 
 um tronco vivo, mas cortado, que s pode reviver unindo-se a 
seu ramo vivo - a catolicidade. 
O SAINT-SIMONISMO 
Egosmo sensual, temperado pelos h bitos polidos e permutas 
industriais. 
O FURIERISMO 
Produzir a ordem atravs da desordem, o prazer atravs da pena, 
a verdade atravs do vcio, o bem atravs do mal, a harmonia 
atravs da anarquia; abolir o sofrimento e por conseguinte o 
prazer; destruir as noes de bem e mal; embrutecimento e 
bestialidade. 
O CETICISMO 
Nada - nada - nada. 

A crtica de Voltaire  uma crtica ardilosa e pedante. Trata-se de um texto ou de uma palavra 
que ele no compreende e que seu proco compreende mal! Trata-se do esprito de caridade, que 
no era seguramente o esprito de Voltaire. A verdadeira religio natural  a religio revelada; 
 da natureza de uma religio o ser revelada, seno como ela nos ligaria a uma ordem superior?
Os milagres Os milagres so efeitos naturais da interveno de uma causa superior sobre aquelas 
que produzem os efeitos comuns. Eles no poderiam ser absurdos, e sup-los como tal  ultrajar a 
sabedoria de Deus. O aparentemente mais absurdo, o parto da Virgem, s choca nosso entendimento 
por causa de nossos raciocnios indecentes e temerrios. A me de Deus  imaculada, ela  virgem 
e me sem exprobao. Eis o dogma. Nunca se atentou contra sua virgindade; e por essa razo ela 
 imaculada. Como pde ela ento tornar-se me?  o segredo de Deus. Aquele que examina e 
discute semelhante coisa j no  cristo e no o ser jamais. Aquele que procura explicar  
temerrio.  o como que  absurdo, no o fato. O esprito deixa-se enganar pelo corao, segundo 
se diz, e  sempre verdade. As objees insolveis do esprito vm das atraes do corao pelas 
facilidades da vida. O verdadeiro homem de bem, tendo tudo a ganhar se a religio for 
verdadeira, cr facilmente na religio. A inquisio e as guerras religiosas foram obras 
humanas. - A Igreja tem horror ao sangue, eis o princpio. Quando os fatos esto em contradio 
com os princpios, deve-se buscar as razes nas paixes humanas. A humanidade tambm tem horror 
ao sangue, e  em nome da humanidade que a revoluo tem feito perecer tantas vtimas! A pena de 
morte  contrria ao gnio da Igreja, que espera sempre a converso do pecador e considera o 
tempo que lhe  deixado como um inestimvel benefcio do cu. Ela no esfacela a vara quebrada, 
e no pisoteia a mecha que ainda arde. A moral catlica no  especial a esta comunho:  a 
moral universal, rigorosamente aplicada e sancionada pelas leis positivas. O desapego catlico 
no repele nada de belo, de bom, nem de amvel, s condena e previne o abuso disso. A castidade 
no  o menosprezo, mas a santificao do amor. O que se reprova mais na religio, isto , em 
seus ministros, so os atos de irreligio. Isso se assemelha bastante  lgica daqueles que 
desprezam Deus por no ser suficientemente Deus, para depois conden-lo a no mais ser Deus. A 
religio no  mais difcil de praticar que a verdadeira filosofia: trata-se de ser ou no ser, 
de viver como homem racional ou como bruto, no existe meio-termo. Uma vida racional exige os 
maiores sacrifcios, e a religio s oferece facilidades. Os Catos do cristianismo no se 
arrancam as entranhas; deixam triunfar Csar e adoram somente Deus. A multido dos cpidos e dos 
preguiosos, o que ? Ser que pensa? E ser que vive?  corrupo que fervilha. Viver  vencer. 
A religio de Jesus Cristo sofreu sua ltima prova, a mais terrvel de todas, a mais decisiva: a 
crtica e a indiferena. Mas as multides sofredoras no riram com Voltaire; elas gostariam mais 
que o Salvador viesse outra vez chorar com elas. Elas no raciocinam como Strauss; mais vale 
orar com os mais humildes fiis. Ningum falou no esprito de caridade. Ele no  criticado, e 
diante dele no se poderia ficar indiferente. Credes com seriedade na vida, no rigor dos 
deveres, na dignidade da f conjugal, na pureza dos costumes, no dever da sobriedade e da 
temperana? Se a resposta  no, no vos falarei da religio; no credes nela. Se a resposta  
sim, s vos tenho que cumprimentar; vs credes e crereis na religio. Ns nos dizemos: No quero 
atolar-me no vcio, mas no quero mais viver como um Cato; no quero levar uma existncia 
honesta e cmoda. Isto  uma iluso: no se pode ser metade homem e metade animal; um destruir 
o outro mais cedo ou mais tarde. Um momento vir em que tereis de optar, e, quanto mais tarde o 
fizerdes, mais a vitria ser duvidosa e penosa. A vil multido, a massa condenada,  a massa 
dos tpidos, pessoas que no sabem fazer nem o bem nem o mal. Viver  agir,  pensar,  querer, 
 fazer. A graa pode fulminar o mau e lhe converter o corao, mas que pode ela fazer de um 
tpido? Tambm o Salvador declara aos tpidos que ele os vomita. Em que se transformaro os 
tpidos aps a morte? Eles sero aquecidos no fogo do purgatrio.  para eles e em seu benefcio 
que o purgatrio foi feito. O que faltou a Jean Huss e a Lutero para se submeterem  Igreja, 
apesar de seus prprios raciocnios? - O esprito de caridade. O que faltava para conciliar e 
reconciliar Lamennais com a Igreja? - O esprito de caridade. O que  afinal o esprito de 
obedincia? - O esprito de caridade. Existe um lado de vulgarizao popular e ridcula dos 
dogmas que se simula tomar pelo prprio dogma. So Paulo recomenda que nos guardemos contra as 
lendas absurdas e os contos de mulher velha; mas os inimigos da religio no levam isso em 
conta; ficam muito desgostosos por perderem essa boa oportunidade de rir das coisas que no 
compreendem.
No existe Deus sem Jesus Cristo.
No existe Jesus Cristo sem a Igreja.
No existe Igreja sem um chefe visvel.
O anticristo  o esprito de cisma e de diviso, spiritus qui solvit Christum.
 o oposto do esprito de caridade.
O anticristo  o homem individual dos tempos modernos que se diz Deus, que se faz o centro de 
todas as coisas, s vive para o direito sem reconhecer o dever, e no conhece outra associao 
que no a cumplicidade ou o jogo de interesses. A dissenso prognosticada por So Paulo comeou 
no sculo XVI, continuou durante os sculos XVII e XVIII; terminar com o sculo XIX; depois 
haver o retorno durante o sculo XX, e o grande triunfo da religio acontecer por volta do ano 
2000. Suponhamos que o furierismo, ou qualquer fantasia que se denomina religiosa e social, 
tenha podido prevalecer no mundo; que o Evangelho seja esquecido, e que um dia um homem de gnio 
o encontre e o pregue. Que luz! que progresso! que revoluo dos costumes! Quando os homens se 
cansam da verdade, por um momento o falso lhes parece verdade; mas, quando  a mentira que os 
desgosta e os fatiga, com que arrebatamento se lanam em direo  verdade! Dificuldades do 
prprio dogma O dogma, formulado e definido pelo esprito de caridade, deve ser interpretado 
igualmente como esprito de caridade.


O PECADO ORIGINAL 
Injustia aparente. - Os inocentes condenados pelo 
culpado. 
A ENCARNAO E SUAS 
CONSEQUNCIAS 
Deus apazigua-se ao sacrificar a si mesmo; virgindade 
material de Maria. 
A CONDENAO ETERNA 
Da maior parte dos homens, tornando quase intil toda 
a economia da salvao. 


DUPLO MISTRIO


MISTRIO DO AMOR
MISTRIO DE JUSTIA 
Explicados e conciliados pelo mistrio de caridade.


O dogma formulado e definido pelo esprito de caridade deve ser interpretado igualmente como 
esprito de caridade.
I. O pecado original no nos seria imputado se fssemos inocentes.
II. Se explicarmos Deus comparando-o com o homem, seja quanto s suas misericrdias, seja quanto 
s suas cleras, cairemos necessariamente no absurdo.
III. A condenao eterna baseia-se num fato, e no num nmero. Todos os homens podem evit-la, 
eis o fato, e o nmero daqueles que no a querem  inestimvel para os outros que no Deus, que 
s conhece e julga o fundo dos coraes. Fazemos uma idia falsa da condenao fazendo Deus 
intervir como vingador ativo, enquanto Deus deixa vingar suas leis pela prpria fora de suas 
leis, e os pecadores sofrem pela privao dos bens de que se tornaram indignos. Mostrar aqui 
como qualquer comentrio, seja para carregar, seja para suavizar o dogma rigoroso e terrvel, 
seria despropositado e ridculo. 
OUTRA OBJEO O abandono em que se encontra a igreja. Abandono profetizado - discessio que deve 
preceder a poca do retorno dos judeus e do grande triunfo da f. 
QUESTO Ento, segundo a doutrina da Igreja, a maioria dos homens devem ser condenados? No;  
verdade que os verdadeiros justos so em pequeno nmero; mas cada um desses eleitos, dessas 
almas de elite, arrastam multides de fracos ao cu. As preces da Igreja, a comunho dos santos, 
tm uma imensa eficcia. O purgatrio aperfeioa o que  imperfeito na terra. O esprito de 
caridade quer salvar todo mundo e salva a multido dos fiis. O sofrimento s enfraquece os 
covardes; torna a virtude mais forte. O corpo  uma mquina cuja alma deve ser o maquinista, sob 
pena dela prpria tornar-se a mquina do corpo, e este  o sentido dessa profunda mxima do 
Mestre: "Se o cego conduz o cego, ambos cairo no fosso." O imperador Juliano no adorava 
dolos; acreditava na luz suprema. Mas sua luz era sem calor; ele no tinha compreendido o 
esprito de caridade. A caridade no deseja a igualdade entre homens; ela quer, ao contrrio, 
que eles tenham necessidade uns dos outros. A caridade pertence tanto ao cristianismo catlico, 
que fora dessa comunho a prpria palavra muda de sentido  Os sonhadores so sempre dorminhocos, 
e o infortnio lhes vem dormindo. No  preciso fazer da vida um sonho, se no se quer fazer da 
morte um triste despertar.


O que  Deus, revelado e explicado pela doutrina e os exemplos de Jesus Cristo?
Qual deve ser o objetivo de todos os nossos esforos e o fim de todos os nossos 
sacrifcios?
Qual  a prova da verdadeira f?
O que  a catolicidade, em sentido mais amplo?
Qual  o preservativo de todos os erros do esprito e de todas as desordens do 
corao?
Qual  a marca distintiva e eterna da verdadeira Igreja?
Qual  a maior fora irresistvel, a maior verdade irrecusvel, a maior divindade 
evidente do cristianismo?
O que  o dever e o que pode torn-lo mais necessrio  nossa alma que o direito?
Qual  o acordo da autoridade e da liberdade?
Qual  a paz religiosa?
Qual  o acordo da cincia e da f?
Qual deve ser o fim de todas as heresias?
Qual  a marca da predestinao?
O que  a vida eterna?
Qual  a razo da infalibilidade da Santa S?
Qual  a conciliao das contradies aparentes?
Que fora vencer as zombarias de Voltaire e os argumentos da Escola?

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O ESPRITO DE CARIDADE - PLANO DE UM TRATADO A FAZER
INTRODUO
A sabedoria humana e a loucura da cruz. 
Primeira parte


LIVRO I.
A CINCIA E A F 
Noes essenciais e absolutas
Distino necessria
O esprito e o corao
A rvore da cincia e a rvore da vida 
LIVRO II.
O DIREITO E O DEVER 
Caim e Abel
Esa e Jac
Saul e Davi
A parbola do filho prdigo 
LIVRO III.
ECONOMIA DAS IDADES 
Lei natural, beleza e bondade de Deus
Lei antiga, unidade e fora de Deus

Lei 
Crist 
poca de 
Conquista 
Autoridade hierrquica. Liberdade dos 
filhos de Deus. 


poca de 
Triunfo 
Esprito de Caridade 
LIVRO IV.
O ESPRITO DE CARIDADE 
O Esprito de caridade atravessando as pocas
Respostas a todas as objees contra a f
Explicao clara e universal dos pontos essenciais da doutrina
A catolicidade necessria
Recapitulao e sntese universal em duas palavras que fazem 
apenas uma, o esprito de caridade.


Vencer a rudeza na procura das satisfaes naturais  a obra de uma boa educao. Vencer os 
atrativos do prazer e sacrific-lo ao dever  todo o mrito da honra. Vencer a apreenso da dor 
e mesmo da morte para obedecer  honra  o herosmo,  a perfeio humana. Chega-se a esta 
perfeio por uma educao progressiva da vontade. O ascetismo era o aprendizado do martrio: 
no se morre como Curtius quando se viveu como Natta. - Para inclinar-se assim  perfeio,  
preciso am-la, - O amor da perfeio  o esprito de caridade. As expiaes so as retomadas de 
uma educao defeituosa; feliz aquele que sabe reconhec-las e aceit-las! Expiar  comer depois 
da sobremesa o sal que no se havia misturado aos alimentos. Um homem bem educado no  nem 
corrupto, nem bbado, nem gluto. Um homem de honra pratica severamente a moral humana; um 
cristo s professa o desprendimento e a caridade que  o herosmo de todas as virtudes. O homem 
saindo das mos da natureza no  bom, como pretedeu Rousseau ele tem o instinto do egosmo, e 
suas paixes ao se desenvolverem logo faro dele um animal feroz. A sociedade, fazendo-o temer 
suas punies, ensinar-lhe- antes a hipocrisia e a vileza, e no conseguir formar-lhe a 
virtude se a religio no intervier; e  o que acontece com todos os homens verdadeiramente 
virtuosos. O sentimento de honra e de dever  um sentimento religioso. Sem uma f real no 
prprio princpio da honra e do dever seria suficiente parecer honesto e iludir a lei para viver 
tranqilo, e no haveria outros virtuosos alm dos tolos.  nesse sentido que no existe 
realmente probidade sem religio. O amor ao belo, ao bom, ao honesto,  natural;  um dom que 
deve ser desenvolvido pela educao e vivificado pela f religiosa. Tudo  confuso de palavras. 
Produzimos um Deus de fantasia que achamos absurdo, e acabamos por declarar que Deus no . 
Chamam-se catlicos os fariseus modernos, e conclui-se da que o catolicismo  apenas ostentao 
e hipocrisia. Tomam-se os hipcritas por devotos e confundem-se depois facilmente os verdadeiros 
devotos com os hipcritas. - Encontra-se por acaso um mau sacerdote, e rompe-se por isso com 
todo o clero.  justo tudo isso, h nisso tudo uma sombra de lgica e de razo? Ningum ataca a 
verdadeira religio, a verdadeira piedade, o verdadeiro Deus, mas todo mundo luta contra moinhos 
de vento. S conhecemos Deus pelo esprito de Jesus Cristo que  o esprito de caridade 
manifestado pelos seus ensinamentos e por suas obras; nisso consiste toda a revelao, 
evidentemente divina, assim como a caridade  divina. A cincia contesta os milagres e discute 
as profecias, mas h alguma coisa mais forte que a cincia e mais maravilhosa que os milagres:  
a caridade. (Ver o texto de So Paulo.) O esprito de Jesus Cristo est sempre vivo na terra, 
seno tudo morreria; e onde se encontra o esprito de Jesus Cristo, Deus est presente, 
diligente, e de algum modo visvel. Aquele que, sem crer em Jesus Cristo, pronuncia a palavra 
Deus, no sabe certamente o que diz. No h nenhum artigo de f referente ao diabo. Tudo o que 
se diz sobre ele  da crena e da tradio. O diabo  o esprito oposto ao de Deus, eis o 
princpio. Que esse infeliz esprito existe, os erros e os crimes dos homens o demonstram bem. 
Representa-se o diabo disforme, ainda que um esprito no tenha formas, para fazer compreender 
que  o esprito de desordem. Ele  eternamente acusado porque o mal  sempre inconcilivel com 
o bem. Dizer que Deus  impessoal,  tirar toda idia possvel da inteligncia. Faz-lo 
impessoal seria fazer algo de limitado e de incompleto. - Ele  formado por trs pessoas, para 
ser um em muitos e tudo em todos. O arianismo procurava fazer de Jesus Cristo um dolo vivo, uma 
espcie de subdeus; - o monotesmo aniquilava nele a humanidade. Duas naturezas distintas em 
Jesus Cristo, mas no duas pessoas; duas naturezas so em todos ns, espiritual e corporal; - 
duas pessoas seria um conflito. A religio  um conjunto de assistncias organizadas para ajudar 
os homens a viver segundo a sabedoria. A unidade de religio s se pode estabelecer pelo 
esprito de caridade. Isso ser a comunho universal dos homens, e no momento em que o esprito 
de caridade tiver triunfado, no seio da prpria Igreja, sobre todos os vcios que lhe fazem 
guerra, ele se espalhar no mundo inteiro que o chama e que tem sede dele. Os mrtires dos 
primeiros sculos manifestaram o esprito de caridade pela coragem nos suplcios; as testemunhas 
da renovao da f devero por sua vez passar pela sua prova, pela abnegao, pela pobreza, pela 
resignao s calnias, ao desprezo, aos abandonos, e freqentemente pelas mais imerecidas e 
cruis perseguies. Se podemos conhecer o bem e pratic-lo ao fazer uma idia justa de Deus, se 
s podemos conhecer Deus por Jesus Cristo, e Jesus Cristo por sua Igreja,  rigorosamente 
correto dizer: fora da Igreja no h salvao. Mas a Igreja  universal, isto , estende a 
influncia de suas graas e o poder de suas preces sobre todos aqueles que lhe pertencem pela 
boa vontade, pela retido do corao e dos desejos. Sobre todos aqueles que seriam dela, se 
pudessem conhec-la, no h um batismo de desejo? e a luz da verdade tem sempre um longo caminho 
a fazer para iluminar uma alma e tocar um corao? Antes da vinda de Jesus Cristo, todos aqueles 
que desejavam a verdadeira luz acreditavam implicitamente nele. A alma da Igreja  mais extensa 
que seu corpo, ela preenche o mundo e atrai sobre ela tudo o que  de boa f e de bons costumes. 
Rousseau riu dos anjos missionrios de So Toms, porque no era digno de sentir tudo o que h 
de f e de caridade nesse pensamento;  belo pensar que se mais de quatrocentos ou quinhentos 
milhes de nossos irmos ignoram a verdadeira religio, um nmero incalculvel entra moribundo 
no seio da verdadeira Igreja, institudo e batizado pelos anjos! Os protestantes no tm mais 
razo de ser, nem mesmo aparente. Contra o que de fato eles protestam? Contra abusos que jamais 
existiram ou que no existem mais? Contra perseguies que cessaram? - No, mas protestam contra 
a unidade hierrquica que sanciona as leis da Igreja. - Protestam sem o saber contra o esprito 
de caridade.
O esprito nacional dos judeus os censura muito por essa unio que  a alma da Igreja, e eles 
sero a fora do santurio quando tiverem compreendido: 
Que os cristos no adoram trs deuses;
Que no atribuem  natureza humana as honras divinas;
Que no destroem a lei de Moiss, mas que a cumprem;
Que o Messias chegou, e que  nosso Senhor Jesus Cristo,
Jesus Cristo, mostrando-se a ns, mostrou-nos tambm seu pai; Deus tornou-se visvel, evidente, 
palpvel. A Igreja, mostrando-se a ns, deve tambm nos mostrar seu chefe visivelmente sucessor 
de Jesus Cristo, e animado do mesmo esprito. (Objeo dos maus papas fcil de resolver: houve 
maus homens no trono de So Pedro, nunca houve maus papas.) O esprito de caridade  uma 
verdade, porque  uma luz, um calor e uma fora. O sobrenatural visvel  o esprito de 
caridade; os verdadeiros milagres, os milagres incontestveis, so aqueles do esprito de 
caridade. O esprito de caridade d  vida uma plenitude e um jbilo bem superiores a todos os 
prazeres da vida. Assim, Deus  visvel aos homens, a verdadeira religio  evidente e no tem 
mesmo necessidade de ser demonstrada. O dever  claramente traado, e fcil de seguir em todas 
as condies da vida. No  verdade que o mundo esteja sem religio; a sociedade  mais catlica 
do que se pensa: todo mundo adora, deseja e espera o esprito de caridade. Quanto maiores so as 
misrias, mais a renovao por esse esprito est prxima. Ningum amou o sofrimento pelo 
prprio sofrimento, nem mesmo Jesus Cristo; ama-se o sofrimento pela caridade, cujos mritos e 
jbilos obtm-se a esse preo. Se querem tomar tua veste, abandona tambm teu manto. O Mestre 
disse isso aos indivduos, no  sociedade; a propriedade  um princpio, e as sociedades so 
guardis dos princpios sob pena de morte. O cristo Mastai deve se deixar despojar, mas o papa 
Pio IX no deve permitir que se despoje a Igreja. - Fazei concesses, ou vos tomaro tudo, diz-
se ao soberano pontfice. Non possumus, responde o papa, e dizendo isso  um princpio que ele 
defende; ele sabe que se expe a perder tudo e persiste. No  correto sacrificar o espiritual 
pelo temporal. A justia  eterna, e o papa defende a justia. Teria sido mais proveitoso morrer 
no seu trono dizendo non possumus do que deixar correr o sangue (para no dizer mais) de Perouse 
e de Castelfidardo. Mas todos os homens cometem faltas, e os papas tambm so homens. Certas 
parbolas do Evangelho no parecem concludas, a do filho prdigo, por exemplo. Ei-lo de volta  
casa de seu pai, e matam o novilho gordo para festej-lo; mas ele no tem mais nada, e seu pai, 
que dividiu bens entre os dois filhos, no tem mais nada para dar ao prdigo. O que acontecer? 
O irmo sbio emprestar ao prdigo arrependido; este ltimo trabalhar e far por merecer, 
voltar a ser rico graas a seu irmo e a seu prprio esforo; eis o que Jesus Cristo no quis 
dizer, sem dvida porque ainda no era tempo. Um homem  retirado da sala do festim porque no 
tem veste nupcial; mas se um dos convidados sai e lhe d a sua, no poderia ele entrar? E o pai 
de famlia deixar  porta aquele que ter sido generoso? Creio, ao contrrio, que ele prprio 
dar uma de suas vestes ao convidado caridoso. Eis uma dessas coisas que se podem esperar, mas 
que no se devem ensinar. Se os espritos do outro mundo podem se comunicar com os homens deste 
mundo, por que no o tm feito sempre? Por que um Cristo? Por que uma Igreja? Por que conclios? 
Por que nossos trabalhos? Por que nossas cincias? Por que nossa razo? Mas sabemos que houve em 
todos os tempos visionrios e impostores; todos os heresiarcas acreditavam-se inspirados. Lutero 
conversava familiarmente com o diabo, e esse diabo de Lutero era um telogo manhoso e brutal 
como seu mestre. O que resultou de tudo isso? Confuso, anarquia e definitivamente ceticismo ou 
demncia. As mesmas causas produziro sempre os mesmos efeitos. Reconhece-se a rvore pelos seus 
frutos. Se um anjo de Deus, dizia So Paulo, vos anunciar um outro evangelho que no aquele que 
vos foi anunciado, que seja excomungado! No se reflete suficientemente sobre a profundidade 
dessa parbola. Se o prprio Deus, com efeito, pudesse perturbar a ordem que ele mesmo 
estabeleceu, tudo recairia numa confuso, e o prprio Deus no seria mais Deus. Enquanto houver 
abusos na Igreja legtima, os protestantes tero uma razo para existir; mas se os abusos forem 
suprimidos, o protesto cair por si mesmo. Quando os judeus puderem compreender que adoramos 
Deus em Jesus Cristo, e no Jesus Cristo no lugar de Deus, lembraro que Jesus Cristo foi o mais 
santo dos judeus, e sero cristos como ns, e seremos judeus como eles. Quando os filhos forem 
to experientes como os pais, quando os homens nascerem todos sbios e todos formados, quando 
no houver mais espritos fracos e incompletos, a hierarquia, no mais existindo na natureza, 
deixar de ser necessria na Igreja. A liberdade de conscincia ser ento somente uma verdade, 
e poder-se- dispensar os padres e o papa. Mas qual  pois o pai de famlia que, sem ser um 
monstro, permitiria que seus filhos se envenenassem sob pretexto de serem livres? No, no  
livre aquele que, entregue a si mesmo, faz necessariamente o mal. No impedir, mesmo pela fora, 
um louco de suicidar-se,  ser mesmo um assassino. Sabeis qual  o crime dos cristos de nossos 
dias?  o de no serem suficientemente cristos. O dos catlicos  igualmente o de no serem 
suficientemente catlicos. Os verdadeiros protestantes devem julgar-se mais cristos e mais 
catlicos que o papa. Eles so ento arquipapistas, ou no so nada. O homem no pode abster-se 
da autoridade, e quem julga abaixo da razo fraca consultar a Igreja, ir seriamente consultar 
sua mesa ou seu chapu. O espiritismo  uma fotografia das idias correntes. Os livros de Allan 
Kardec esto repletos de saint-simonismo, de swedenborgismo e de mormonismo; mas  menos sbio 
que Saint-Simon, menos elevado que Swedenborg, menos lgico que Jo Smith. Teramos ento que 
acreditar que ainda se envelhece aps a morte e que se lanam sobre a terra as caducidades do 
alm-tmulo. Que triste perspectiva para os grandes homens! Que infelicidade para os vivos! Bela 
e santa monarquia do cu, Jesus homem-Deus, e Maria me de Deus! Anjos de frei Anglico, santos 
da lenda dourada, virgens do paraso de Dante, quanto sois superiores, mais poticos, mais belos 
que os espectros de Cahaguet e as larvas errantes de Allan Kardec! Dogma severo e incorruptvel, 
bela e santa caridade que distribuem os eleitos na escala de ouro da hierarquia, doutrina 
profunda cheia de luz para a doura do esprito e cheia de trevas para o orgulho, sol de glria 
e de justia, os homens no mais vos vem porque tm os olhos doentes. Que eles voltem  razo, 
e retomaro  f, porque a f e a verdadeira razo so irms, e ambas so filhas queridas de 
Deus. Infeliz aquele que no as distingue, mas trs vezes pior aquele que as quer separar! 
Estamos s vsperas de uma transformao religiosa, disse o conde de Maistre e todos o sabem; 
mas qual seria esta transformao? A cincia e a f bem nos dizem que ser a passagem da anlise 
 sntese, do cristianismo ao messianismo, do catolicismo cego ao catolicismo esclarecido. Ser 
a reconciliao da razo judaica com a f crist: o retorno aos estudos cabalsticos preparar o 
grande acontecimento profetizado pelos apstolos e esperado universalmente por todos os pais da 
Igreja. Os mais esclarecidos judeus, os que conheciam e que estudaram o Zohar, esperam essa 
reconciliao. Franck, em seu livro sobre a Cabala, fala de uma escola de Zoharistas em que 
quase todos se fizeram cristos, mas, acrescenta ele, consideravam o cristianismo atual apenas 
como uma transio necessria do antigo dogma de Moiss a uma sntese religiosa universal. Esta 
sntese, todas as inteligncias elevadas de nosso tempo a pressentiram. Goethe a sonhou 
magnificamente; Lamennais queria torn-la aceita pela Igreja oficial; Chateaubriand a deixa 
adivinhar sob os vus de poesia com os quais cobre a sacerdotisa de Homero, a crist Cymodoce. 
Michelet a canta em prosa ritmada na Bblia da humanidade, mas sente-se nele o filho de Voltaire 
indisposto contra o cristianismo pelas barbaridades teolgicas da Idade Mdia. De qualquer 
maneira, a sntese se faz. Michelet explica os smbolos da ndia, da Prsia e da Grcia, mas 
compreende menos os da Roma crist, talvez porque a prpria Roma crist tinha acabado por no 
mais compreend-los. O esprito que inspirava os evangelhos apcrifos perderam-se com os 
mistrios do gnosticismo, e a crtica eclesistica moderna, tiranizada pela fria e rigorosa 
razo protestante, preferiu mutilar as lendas ou apag-las a procurar o seu significado 
alegrico. Encontramos uma entre os pequenos livros da biblioteca azul, e esta lenda, 
evidentemente antiga, parece remontar  poca dos evangelhos gnsticos; ela  repleta de 
alegorias comoventes e de nomes que vm do grego.  a lenda de Santa Ana, me da santa Virgem; 
Ana, cujo nome significa a graciosa ou a graa. Seu nascimento  anunciado por um ancio chamado 
Archos, nome que significa o princpio ou o comeo; ela nasceu de uma senhora chamada 
Emerantiana, ou a dama de nossos dias. Sua lenda  uma verdadeira epopia alegrica, e a 
colocamos aqui como complemento de nosso trabalho sobre os evangelhos apcrifos, e como uma pea 
justificativa em favor de nossa opinio sobre o gnio das primeiras pocas crists e sobre a 
significao filosfica de nossos livros sagrados.
A VIDA DE SANTA ANA
Me da Santa Virgem De que pais nasceu Santa Ana
Outrora, no pas da Judia, numa cidade chamada Zphor, situada a duas lguas de Nazar, havia 
uma moa chamada Emerantiana, descendente da raa de Davi e devota de Nosso Senhor. Esta moa 
consagrou seu corao a viver apenas no temor de Deus com pureza corporal, e sozinha por toda a 
vida, se isso fosse do agrado de Nosso Senhor. Ela tinha o hbito de visitar as pessoas devotas, 
os profetas Elias e Eliseu, que moravam no monte Carmelo, e conversava com eles sobre a vida 
espiritual e coisas prodigiosas que Nosso Senhor fazia no tempo passado, a doze lguas de 
Israel; tambm conversavam sobre os diversos profetas a quem Nosso Senhor fez muitas promessas, 
da mesma forma como o Filho de Deus, para remediar a natureza humana, devia nascer de uma jovem 
Virgem, e porque demorava tanto tempo para realizar isso. Como Emerantiana assim conversasse com 
os discpulos de Elias e de Eliseu, aconteceu que um dia falou a um desses discpulos, chamado 
Archos, com cento e trinta e trs anos:  venervel Pai! apelo  tua paternidade para pedir-te 
uma coisa com a qual meu corao est em dvida e inquieto. Ele respondeu: Emerantiana, minha 
doce filha, pede corajosamente e no me ocultes nada, porque tua doce palavra me apraz muito e 
me alegra. Ento ela lhe disse: Pai venervel, meu corao no pode compreender porque jamais 
nesse mundo transitrio foi encontrada uma mulher em condies de se casar, da qual ser gerada 
a santa virgem que merecer conceber o Filho de Deus, que o cu e a terra no podem cingir, e 
como ela o carregar em corpo no seu seio e terno corpo. Ora, como se pode compreender isso? 
Porque ao que me parece, segundo meu entendimento, se  possvel que a santidade de todos 
aqueles que existiram desde o comeo do mundo, e existiro ainda at o fim dele, fosse acumulada 
em uma s pessoa, que esta no se poderia comparar a tal mulher, da qual proceder a futura Me 
do Filho de Deus.  meu querido pai, quando refleti sobre tudo isso, fiquei perplexa: no posso 
todavia compreender por que nosso Redentor teria esperado mais de quatro mil anos para vir. E 
enquanto as lgrimas caam dos olhos dessa jovem, ela falou repentinamente, e disse: Ai! temo 
que muitos anos ainda se passem antes que possa acontecer um casamento to santo sobre a terra. 
O santo pai Archos, ouvindo essas palavras, considerando o profundo pensamento dessa santa 
jovem, maravilhou-se; e, por longo tempo, observou-a como que extasiado, e de to grande 
admirao no pde proferir nenhuma palavra. Pouco depois a palavra lhe voltou, e ele disse:  
Emerantiana! muito nobre senhora, jovem de idade, mas madura no senso e no entendimento, tu me 
pareces a raiz do dito leito santo e incontaminado de casamento do qual falaste, santa menina, 
futura me, da qual deve nascer o Filho de Deus. Antes de partirmos deste mundo isso acontecer; 
porque em verdade te digo que dentre as jovens de Jerusalm no existiu ningum semelhante a ti, 
com uma convico to profunda como tiveste, pela qual te deves rejubilar; porque o Esprito 
Santo repousa em ti; em ti sero abenoados todos os poderes acima da terra. Emerantiana, 
ouvindo esse ancio falar, ficou consolada, e, chorando, ajoelhou-se e disse:  Deus de Israel! 
quanto ser para ns vossa face oculta, e para nossos padres colocados nos limbos, clamando por 
vs incessantemente em grande tdio, esperando de vs o que nos foi prometido pelos profetas e 
pelas Santas Escrituras. Contramos a mancha do pecado; quem nos absolver, exceto vs, Virgem 
profetizada? Quando poderemos transpor as portas das trevas livremente?  meu Deus! quando vir 
o cordeiro imaculado que apagar os pecados dos homens e pagar as dvidas de nossos primeiros 
pais, esse forte leo que dilacerar as portas de metal e romper as portas do inferno? Quando 
cantaremos com jbilo: Nosso Senhor chegou, e todas as escurides tenebrosas se iluminaram? Sou 
uma pobre donzela, segura de que necessitaremos descer at nossos pais nos limbos, os quais 
sempre foram mais perfeitos durante suas vidas que eu; entretanto algo me alegra, porque tenho 
confiana de que aqueles que de minha linhagem forem procriados, no se aproximaro do lugar das 
trevas do inferno, visto que depois de mim uma luz infalvel se elevar e iluminar toda a 
escurido. Quando os discpulos de Elias e de Eliseu, com o ancio pai Archos, ouviram as 
palavras da jovem Emerantiana, ficaram muito felizes com ela em Jesus Cristo, rendendo-lhe 
louvores, dos quais se faz meno no livro dos milagres. Dos hbitos e exerccios de 
Emerantiana. Emerantiana era de grande beleza e bem formada de corpo; era tambm muito rica em 
bens temporais, de descendncia nobre, mas mais nobre de virtudes; porque com penitncia ela 
punia seu corpo, e guardava tal silncio, que, desde a hora de vspera at o dia seguinte  hora 
de noa, no queria falar uma nica palavra; trs dias por semana abstinha-se de carne, e s 
bebia e comia seno duras e amargas razes de ervas que cresciam nos desertos; no visitava 
nenhuma pessoa viciosa; s procurava pessoas virtuosas e espirituais, homens ou mulheres 
devotos; visitava igualmente os profetas Elias e Eliseu, que residiam austeramente no Monte 
Carmelo.
Freqentemente servia e orava a Deus, no quarto fechado, e fugia de qualquer ociosidade, 
persistindo no servio divino; assistia aos pobres cuidadosamente, desde tenra idade, quando 
comeou a ter entendimento, at o tempo em que, a conselho de seus pais, casou-se e jamais olhou 
nenhum homem no rosto, a no ser que fossem pessoas piedosas e devotas, s quais falava com os 
olhos voltados para o cho.  por isso que a fama de sua santidade espalhou-se por toda a 
Judia. No  nenhum prodgio que de boa rvore e de boa raiz proceda um bom fruto; porque  o 
que est escrito no Evangelho, que uma boa rvore no pode produzir mau fruto. Como Emerantiana 
casou-se. Quando a jovem Emerantiana estava com dezoito anos, seus pais e amigos reuniram-se e 
deliberaram quanto a cas-la com um homem honesto, coisa que no quis prometer. Antes de 
consentir, quis, atravs dos servidores de Deus, saber sua vontade; porque antes se propusera a 
permanecer casta por toda a vida; e porque no sabia que estado Deus queria que ela aceitasse; 
foi ao Monte Carmelo consultar os santos personagens, para que suplicassem a Deus que 
manifestasse por alguns sinais sua divina vontade. No mesmo instante os santos padres oraram a 
Deus, persistindo em oraes contnuas. No final do terceiro dia, apareceu para eles um grande 
galho de rvore com apenas um fruto, e no momento em que o fruto foi colhido, o galho secou. 
Imediatamente depois, um fruto muito bonito de se ver foi colocado no galho seco e envolvido por 
uma grande claridade divina. Esse fruto era to resplandecente, que a vista humana no o podia 
olhar. Os santos padres ficaram emocionados e admirados por tal viso; pois esses sinais 
miraculosos no puderam interpretar o querer divino; por isso fizeram suas oraes rogando a 
Deus que lhes manifestasse o que representava esse signo. Aconteceu ainda, no terceiro dia que 
estavam em prece, que uma voz foi ouvida do cu, esclarecendo o significado do signo, dizendo: O 
galho verde significa o casamento que ser consumado em Emerantiana; o fruto mostra a criana 
que em breve dela nascer; a secura do galho denota a esterilidade; a luz pela qual o fruto 
uniu-se ao galho significa o poder divino, pelo qual Emerantiana, em sua velhice infecunda, 
acima do curso da natureza, conceber e produzir um fruto, o qual trar a salvao ao mundo 
universal, cujo nome expulsar os espritos maus; os bons anjos o reverenciaro, ele ser 
anunciado e manifestado por todo mundo. E quando os santos padres ouviram essa voz miraculosa, 
renderam louvor e graas a Deus, o Criador, chorando de alegria, e deram a conhecer a 
Emerantiana que em pouco tempo, pela vontade divina e conselho de seus amigos, ela se casaria, e 
como, atravs de seu casamento, poderia mostrar ao mundo sua grande misericrdia. Emerantiana, 
vendo isso, rendeu graas a Deus, rogando-lhe muito humildemente que tivesse a bondade de uni-la 
em matrimnio a um marido bom, justo e leal, que fosse temente a Deus; pedia apenas aquilo que 
no estado de matrimnio pertence ao louvor de Deus, para multiplicar a famlia em honra do 
Criador. Enfim, rendeu-se a todas essas apuradas solicitaes. Da famlia de Santa Ana. Naquele 
tempo, havia um jovem rico e de boa estima, chamado Estolano, descendente de sangue real, nobre 
desde o comeo de sua infncia, educado na crena de Deus, que foi dado, pelos amigos de 
Emerantiana, a ela, em legtimo matrimnio, do qual teve uma filha que foi chamada Ysmaria. 
Quando ela tinha quinze anos, casou-se com lnne, e teve uma filha chamada Elisabeth, que teve 
por marido Zacvarias, o soberano sacerdote do qual descendeu Joo Batista. Ysmaria concebeu 
tambm uma outra filha que foi chamada Enim, me do santo bispo Servais. Em suma, quando 
Emerantiana tinha sessenta e um anos, pensava que certamente, segundo o curso da natureza, no 
teria mais filhos; no entanto ela estava esperando, segundo a promessa que lhe havia sido feita 
pelo santo padre Archos. Alguns dias depois, quando estava orando no quarto, foi cercada por uma 
grande claridade, e ouviu uma voz que lhe disse: Emerantiana, anuncio-te hoje uma grande alegria 
que vir neste mundo; porque Deus todo-poderoso quer mostrar sua bondade infinita aos filhos do 
gnero humano; o tempo que prometeu aos profetas est prximo; porque a raiz de Jess florir e 
a semente de Abrao receber beno, o trono de Davi ter quem nele se sente. Por isso, querida 
amiga, escuta-me, porque o esprito de Deus vivo est em mim. Da maravilhosa natividade de Santa 
Ana. Assim que Emerantiana viu a grande claridade, ficou muito assustada, e ouviu uma Voz que 
lhe dizia assim: Emerantiana, no tenhas medo nem temor, mas honra teu Criador com todo teu 
poder; porque por sua graa concebers acima do curso natural, de Estolano teu marido, e ters 
uma menina, da qual nascer uma menina que foi predestinada antes da criao do mundo, preciosa 
e acima de todas as criaturas humanas; porque Deus quer operar nela coisas incompreensveis 
excedendo os entendimentos anglicos e humanos acima da obra natural. Ento Emerantiana 
respondeu: Sou filha de Ado, velha em idade, o fruto do casamento falta em mim;  porque 
naturalmente no posso conceber: todavia sei bem e confesso que a Deus nada  impossvel. Fazei 
de mim segundo vossa vontade e segundo vossas grandes misericrdias; porque nossos pais e eu vos 
temos ofendido gravemente e nada merecemos. Ento ela ouviu repentinamente a voz lhe dizendo: 
Filha, fica em paz, porque  preciso que eu faa saber o poder e a vontade divina tambm a 
Estolano, teu marido. Naquela hora, Estolano sara para ver seu gado pastar nos campos; da mesma 
forma quando estava em sua orao, subitamente foi envolvido por uma luz, e ouviu uma voz que 
lhe disse: Estolano, que a paz esteja contigo, levanta-te e vai para tua casa, deita-te com tua 
mulher Emerantiana, cujo nome ser manifestado pelo mundo universal. Quando Estolano ouviu essa 
voz, ficou muito assustado e surpreendeu-se muito; porque tinha setenta anos, e porque ambos 
estavam incapacitados para gerar segundo o curso da natureza. Ouviu ento subitamente a voz 
dizendo: Estolano, no queiras duvidar, porque nada  impossvel a Deus, e como sinal do que 
estou dizendo, quando entrares em teu quarto, onde deves deitar, observa na cabeceira do leito, 
e encontrars impressas quatro letras de ouro que ningum escreveu. Tendo dito isso, a claridade 
desapareceu. Depois disso, Estolano levantou-se de sua cela, louvando a Deus, e foi at sua 
mulher Emerantiana; contaram um ao outro o que tinham visto e ouvido; no quarto, encontraram o 
sinal de quatro letras de ouro escritas na cabeceira do leito, dois A e dois N, que unidos fazem 
Anna, que Emerantiana conceberia em breve e daria  luz. Ento louvaram e agradeceram a Deus, 
esperando a promessa do Criador feita a eles. Pouco tempo depois, Emerantiana concebia de 
Estolano seu marido, um fruto pela graa especial de Deus, e com grande desejo aguardava a hora 
de dar  luz. Quando a hora se aproximava, ela foi ter com os discpulos, pedindo muito 
humildemente que orassem a Deus por ela, para que ele pudesse preservar do inimigo o fruto que 
trazia, e que na hora e lugar pudesse dar  luz salutarmente. Nesse tempo havia um discpulo 
chamado Francisco; ao ver Emerantiana, ajoelhou-se, gritando em voz alta, e dizendo: Quem  esta 
santa matrona que est junto a mim? Emerantiana lhe respondeu: Muito venervel padre, no me 
conheces? Sou a velha Emerantiana, tua humilde serva. Ele lhe disse: Emerantiana, vejo em ti 
grande mistrio acima do curso da natureza. Em verdade te digo que, como um crio ou uma lmpada 
clareiam as trevas, tambm percebo em teu seio uma menina resplandecente em luz, da qual no 
posso maravilhar-me suficientemente, porque excede o entendimento humano. Emerantiana lhe disse: 
Reverendo Pai, as obras de Deus so incompreensveis, e suas misericrdias so impenetrveis,  
isso que ele quer mostrar brevemente a seu povo. Por favor, ora por mim; porque a bondade divina 
quer manifestar-se e foi prometida h muito. Quando o bom padre Francisco e seus companheiros 
compreenderam isso, oraram com fervor por ela e disseram-lhe: Emerantiana, rejubila-te, porque 
tua prece ser ouvida; retorna  tua casa e prepara-te para dar  luz. Em que poca Santa Ana 
nasceu. Quando chegou a hora em que Emerantiana, segundo a promessa do anjo, daria a luz  uma 
menina, isso aconteceu como havia sido profetizado; e apareceram sobre o peito da criana quatro 
letras de ouro, formando o nome de Anna. Esse nome resplandecia como pedras preciosas. Fez-se um 
milagre por causa desse nome. Quando o belo milagre desse nome foi visto pelas mulheres que 
haviam assistido o parto, a notcia desse milagre espalhou-se por toda parte, e grande nmero de 
pessoas l foram para ver esse prodgio; entre outros foi l um cavalheiro cego, e como seus 
olhos no podiam ver o nome de Santa Ana, ele pediu para toc-lo com suas mos, o que lhe foi 
permitido. Emerantiana, considerando que ele era um dos bons personagens de Jerusalm, no lhe 
ousou recusar, e permitiu. Quando tocou seu nome, e em grande devoo o beijava, aconteceu que a 
mo de Ana tocou seus olhos, que se abriram subitamente, e l recuperara a viso de que estava 
privado antes, tendo nascido cego. Quando ele viu o nome de Santa Ana em to grande luz, 
exclamou com grande alegria: Bendito seja o Deus de Israel. Emerantiana ficou comovida com esse 
milagre, temendo que, se o povo comum fosse informado disso, viesse como louco ver sua filha, e 
com isso a criana pudesse adoecer gravemente por causa do incmodo de tantas pessoas; rogou ao 
cavalheiro que no divulgasse o que acontecera. Quando o cavalheiro ouviu isso, e vendo 
Emerantiana em to grande inquietao, prometeu-lhe no dizer nada a ningum, e a beijou em 
grande reverncia, conservando os olhos fechados como se estivesse ainda cego; e se fez conduzir 
por seu servo a Jerusalm, lugar onde morava. Como Santa Ana foi durante cinco anos serva no 
templo de Jerusalm com as outras jovens. Depois que Emerantiana e sua filha Ana foram morar em 
Belm, vieram nove sacerdotes ao templo de Jerusalm, que receberam Santa Ana de sua me com 
grandes honras; ela s tinha trs anos e conduziram-na com grande reverncia ao templo de 
Jerusalm, para servir os outros devotos que ali moravam, entre os quais Ana desenvolvia-se e 
crescia no amor e em todas as espcies de virtude; dia e noite devota em todas suas preces, era 
igualmente diligente nos trabalhos manuais que lhe eram ordenados, porque as jovens que serviam 
no templo tinham que lavar, costurar e limpar os ornamentos do templo. Quando se encontrava s, 
lanava-se de joelhos para orar a Deus em grande devoo; um dos sacerdotes do templo percebeu 
isso e se espantou com a grande devoo da moa. Para informar-se melhor, ele se escondeu 
secretamente no quarto em que ela costumava fazer essa devoo, para ver e ouvir a maneira como 
fazia suas preces. Quando chegou meia-noite, Ana levantou de seu leito, como estava habituada, 
orando com as mos juntas, os joelhos ao cho, os olhos fixos na direo do cu dizendo:  Deus 
de Israel! minha conscincia me d testemunho de que vos temos ofendido grandemente, por causa 
disso estais afastado de ns; certamente, Senhor, quanto tempo passar ainda at a libertao de 
nossa dura escravido? Vivemos na esperana, segundo as promessas que fizestes a nosso pai 
Abrao, de nos dar um libertador. Senhor, no recordeis nossos erros passados; mas permiti que 
vossa misericrdia nos venha consolar. Lembrai-vos de nossos pais Abrao, Isaac e Jac, e da 
misericrdia que lhes prometesses. Rogo-vos, Senhor, que acolhais a prece de meu delicado 
corao, e no rejeiteis minha orao, porque sois meu Pai e me criastes;  por isso que meus 
lbios vos louvaro na minha juventude, e quando tiver mais idade, dar-vos-ei maiores louvores, 
confessando-me a vs, e lembrar-me-ei de vossa misericrdia, e preg-la-ei queles que no crem 
em vs. Quando Ana acabou de rezar, prosternou-se no cho, e repousou um pouco. O sacerdote, que 
estava escondido para ver e ouvir as ferventes preces dessa jovem, ficou extasiado de admirao 
diante de to grande devoo; dizia a si mesmo: Se todos os sbios de Jerusalm vissem a prece 
dessa donzela, no ficariam menos admirados que eu. E porque o dia se aproximava, esse sacerdote 
no ousou ficar por mais tempo, com medo de ser percebido, e secretamente se retirou. A 
premncia que ele tinha em saber quem era essa moa fez com que ali fosse muitas vezes, at que 
fitou Ana no rosto, juntando as mos, dizendo:  Deus todo-poderoso! eu no podia viver 
tranqilo enquanto no tivesse conhecido esta santa donzela, e creio que  esta a donzela de 
quem est escrito que chegar a um grau eminente de santidade. Ana continuou seus exerccios de 
devoo e tornou-se cada vez mais agradvel a Deus, Como morreu Emerantiana e foi colocada na 
sepultura perto de Estolano, seu marido. Quando Emerantiana, me de Santa Ana, tinha setenta e 
oito anos, disse a sua filha Ana: Olha, meus dias passaram, e est na hora de descansar com meus 
pais e ser sepultada junto de Estolano, teu pai.  minha filha muito querida! Lembra da 
misericrdia que Deus nos mostrou e espera ainda pacientemente o tempo de graa que Deus nos 
prometeu. Guarda os mandamentos de Deus, tem compaixo dos pobres, consola os desolados, pede 
conselhos s pessoas piedosas e sbias, l a Santa Escritura, rende graas ao Criador de todos 
os bens que ele te fez, e com todas as pessoas s humilde, e no esquece o ltimo dia de tua 
vida, mas est sempre pronta. No momento em que Emerantiana instrua Ana dessa forma, a morte 
veio lhe tirar a vida. Ana chorou amargamente a morte de sua me, orando devotamente a Deus por 
ela. Quando Ana reuniu todos seus parentes, eles cercaram Emerantiana em grande reverncia, e 
enterraram-na junto de seu marido, como ela havia pedido. Ana chorou sua me tantos dias quantos 
anos ela tinha. Como Santa Ana, com a idade de dezoito anos, casou-se. Quando Ana tinha dezoito 
anos, por conselho de seus amigos, casou-se com um homem crente em Deus, nobre de sangue, como 
da linha do rei Davi, chamado Joaquim, que vivia santamente na crena de Deus, observava seus 
mandamentos e era misericordioso para com os pobres; porque se diz dele que quando tinha quinze 
anos, repartiu seus bens em trs partes, dando uma aos pobres, outra ao templo, e conservando a 
terceira para prover as necessidades de sua casa. Quando ele tinha vinte e um anos desposou Ana, 
que era muito caridosa, fazendo bem aos pobres e mesmo aos doentes e aflitos; ela morava em 
Nazar, pequena cidade da Galilia, na qual o anjo Gabriel anunciou  Maria, sua filha, que ela 
conceberia e daria  luz o filho de Deus; dessa forma, pois, Ana levava uma vida muito pura. 
Aconteceu-lhe certa vez que lia como Tobias instrua seu filho, no caso de Deus destinar-lhe 
bens temporais, que ele desse livremente aos pobres, palavras que a assustaram, pensando em seu 
corao:  Deus! como tenho bens e possuo todas as coisas necessrias! Oh! fui ingrata e no 
cumpri meu dever como este escrito ordena. Enquanto estava assim pensativa, chegou Joaquim, seu 
marido, e a vendo triste lhe disse:  minha querida amada! por que ests triste? Ela respondeu: 
Porque faz muito tempo que no obedecemos s ordens da Santa Escritura, e o fez ler o que havia 
lido de Tobias. Quando terminou de ler, ele lhe disse: O que te parece que devemos fazer? Ela 
lhe respondeu: Parece-me que, como Deus nos conferiu bens, devemos reparti-los em trs partes, 
que as duas primeiras partes sejam distribudas  honra de Deus, e a terceira parte a 
guardaremos para nossas necessidades. Ele lhe respondeu que assim faria porque j desejava fazer 
algo semelhante antes de estarem juntos. Quando Ana ouviu isso ficou alegre e mandou preparar 
uma mula, montou nela e foi com seus criados aos campos e aos lugares onde estava o gado 
pastando, para reconduzi-los para casa. O gado era de duas mil e duzentas cabeas. Aps o 
reconduzirem, dividiram-no em trs partes iguais; uma das partes foi dada ao templo, outra aos 
pobres e a terceira eles a conservaram para se alimentar, e com essa parte Ana ajudava ainda os 
pobres, vivas e rfos, onde os encontrasse, e o fazia com consentimento de seu marido Joaquim, 
porque ele era igualmente misericordioso para com eles; desse modo viviam na crena de Deus, em 
paz e amor conjuntamente, observando os mandamentos de Deus cuidadosamente. Oh! como  preciso 
hoje que as pessoas unidas em matrimnio caminhem desse modo! Deus o conceda. Assim seja. Como 
Ana ficou casada com Joaquim vinte anos sem ter fruto e como foi censurada pelo soberano 
sacerdote a oferta de Joaquim. Quando Joaquim completou com Ana o tempo de 20 anos de casados, 
vivendo segundo Deus, no tinham nenhum fruto, o que era grande desonra diante das pessoas, 
porque, naquele tempo, zombava-se daqueles que eram infrutuosos e que no aumentavam o povo, e, 
por esse motivo, foram menosprezados por muitos. Por isso faziam suas oraes a Deus com fervor 
para que ele olhasse essa exprobao e lhes enviasse um fruto, que lhe ofereceriam para servi-lo 
no templo de Jerusalm. Um dia em que Joaquim foi a uma grande festa com outros de sua linhagem 
em Jerusalm para fazer oferenda segundo a lei, ao se aproximar do altar, colocou a oferenda em 
cima. O sacerdote o interpretou mal, jogando a oferenda para fora do altar em presena de todo o 
povo, repreendendo sua infrutuosidade, dizendo: Que no era decente receber sua oferenda como 
daqueles que eram frutuosos, porque seu casamento no multiplicava a descendncia do povo de 
Israel. Diante dessas palavras Joaquim ficou triste e aborrecido; inclinando a cabea, no 
ousava, de vergonha, olhar ningum no rosto. Como Joaquim vai ver seus pastores guardando seu 
gado, e como o anjo o conforta. Como Joaquim na presena de seus amigos e de todo o povo havia 
sido rejeitado, porque era sua culpa, e de desgosto no ousava retornar a Nazar, temendo que 
seus vizinhos lhe lanassem no rosto o que lhe havia acontecido no templo, ficou com seus 
pastores e resolveu morar com eles sem ir a Nazar, como fez, esperando que Deus o consolasse e 
lhe desse a entender o que deveria fazer. E quando l estava h algum tempo, aconteceu-lhe uma 
vez que, estando s, o anjo de Deus, com uma grande luz, veio visit-lo, consolando-o e 
exortando-o a no ficar espantado, e lhe disse: Sou o anjo de Deus, por ele enviado para te 
anunciar que tua orao foi ouvida por Deus e que tuas esmolas subiram ao cu; ele viu a 
vergonha e a exprobao de tua infrutuosidade; porque Deus  o vingador dos pecados, e no da 
natureza. E quando ele torna uma mulher infecunda, faz isso a fim de mais milagrosamente dar-lhe 
a fecundidade quando ela lhe implora, como fez com Sara, a mulher de Abrao, que em sua velhice 
deu  luz Isaac. Igualmente Raquel foi infecunda, e em sua velhice deu  luz Jos, que se tornou 
grande Senhor do Egito. Depois h Sanso e Samuel, que eram ambos de mes que foram por muito 
tempo estreis; assim  preciso crer que os nascimentos postergados so tanto mais maravilhosos 
quanto mais forem postergados. Sabe que tua mulher conceber uma menina que se chamar Maria. 
Essa menina consagrada a Deus, e ao ventre materno, ser iluminada pelo Esprito Santo;  a 
razo pela qual ela no morar entre o povo comum, mas no templo, para que ningum suspeite 
dela, e igualmente nascer de uma me infrtil; dessa forma dela nascer o Filho de Deus, que se 
chamar Jesus, e por ele toda criatura receber a salvao. Para sinal de verdade, tua mulher 
Ana te encontrar em Jerusalm na porta dourada, porque ela deseja que retornes. Quando o anjo 
assim falou a Joaquim, ele se alegrou; e como Ana, sua mulher, estava desgostosa, esperando sua 
vinda, esse anjo apareceu para ela, e a consolou, dizendo-lhe o que havia anunciado a Joaquim, e 
que ela fosse a Jerusalm, na porta dourada, onde o encontraria, o que ela fez. Quando se 
encontraram ficaram cheios de alegria pela promessa do anjo, em razo da filha que deveriam ter. 
Depois de estarem no templo servindo a Deus devotamente, retornaram juntos a Nazar, onde 
esperaram com alegria a promessa divina. Imediatamente depois Ana concebeu, e nove meses depois 
deu  luz uma menina, que foi chamada Maria, como o anjo havia ordenado. Ora, que alegria foi no 
cu e na terra esse nascimento Quem poderia explicar a felicidade recebida pelos humanos! Do 
nascimento de Maria. No dia em que Ana deveria dar  luz a bem-aventurada criana que o anjo 
havia anunciado a Joaquim, seu marido foi procurar parteiras para assistir Ana em seu parto; do 
mesmo modo foi  montanha procurar Elizabeth, a mulher de Zacarias, e Ysmaria, irm de Ana que 
tinha oitenta e um anos. Quando chegaram ao quarto de Ana parecia-lhes que sentiam uma grande 
alegria no corao, e quanto mais se aproximavam de Ana, mais sentiam alegria e perfumes. Quando 
chegou a hora de Ana dar  luz, ela foi envolvida subitamente por uma grande claridade e deu  
luz uma linda menina, resplandecente como o sol, e imediatamente veio uma multido de espritos 
celestes cantando melodiosamente: Vedes aqui a rainha dos cus e a futura me do Filho de Deus. 
Enquanto as parteiras estiveram reunidas no quarto de Ana, l ficando por seis dias, viram 
coisas maravilhosas e renderam louvor a Deus. Um milagre. No mesmo instante em que Maria nasceu, 
surgiu uma guia voando sobre a casa onde Ana estava dando  luz, segurando no bico muitos 
ramos, e fez um ninho em cima dessa casa, o qual durou muitos anos, mesmo depois da ressurreio 
de Jesus Cristo.
Outro milagre. Ao mesmo tempo, num deserto, perto dali, havia um unicrnio muito grande, como 
jamais se havia visto igual, e que freqentemente fora perseguido em caa pelos reis, mas eles 
no puderam peg-lo; quando Maria nasceu, ele veio  sua porta e ningum conseguiu ca-lo. 
Ento um cavalheiro chamado Adrianes, que morava perto de Nazar, trepassou-o com uma lana e o 
matou, oferecendo-o ao soberano sacerdote de Jerusalm, que lhe agradeceu muito. Outro milagre. 
Naquele tempo, todos aqueles dos arredores de Jerusalm e do pas da Judia estavam oprimidos 
por maus espritos e soltavam gritos to horrveis, que o povo ficou muito apavorado, temendo 
que Deus quisesse confundir todo o pas. Havia em Jerusalm um santo homem, que conjurou um dos 
oprimidos a dizer-lhe por que se fazia esse tumulto. Ento o mau esprito disse pela boca de um 
demonaco que nesse dia havia nascido em Nazar uma menina, os anjos estavam muito felizes e 
eles no mais podiam manter-se em possesso dos corpos, e seriam obrigados a sair dali para 
serem colocados nas profundezas do inferno pela virtude dessa divina criatura. Outro milagre. 
Nessa poca foram libertados do inimigo duzentas e cinqenta pessoas demonacas no pas da 
Judia e em Samaria. Como o Anjo anunciou a Joaquim o nascimento de Maria. Quando Ana deu  luz 
Maria, Joaquim estava fora de casa, esperando as novas alegrias do parto. No instante em que a 
criana chegou, o anjo veio a ele, dizendo: Anuncio-te grande alegria, porque hoje nasceu o 
fruto que te havia prometido, e ordeno-te que durante dezesseis dias no entres onde Ana deu  
luz, para que as parteiras que ali esto reunidas no sejam perturbadas no lugar de regozijo; 
esse dia ser tua alegria e a de todo mundo. Dito isso, o anjo desapareceu, e Joaquim 
prosternou-se imediatamente por terra, agradecendo a Deus, depois levantou-se e chegou em sua 
casa, cheio de alegria, e ordenou a todos aqueles de sua famlia que durante dezesseis dias 
ningum entrasse onde sua mulher estava deitada. Depois disso, Joaquim vestiu-se com suas 
melhores roupas, pegou donativos e oferendas e foi com sua famlia a Jerusalm entregar a Deus 
sua oferenda. Quando os sacerdotes do templo souberam que Deus lhes havia enviado uma filha 
ficaram muito felizes louvando a Deus atravs de cnticos e dando a Joaquim e sua famlia honra 
e reverncia. Joaquim permaneceu no templo com sua famlia por oito dias, para solenizar o 
nascimento da menina recm-nascida; depois retornaram  hospedaria. E quando os dezesseis dias 
se passaram, Joaquim enviou uma de suas criadas ao quarto de Ana, onde estavam ainda as 
parteiras, e lhes fez saber que os dezesseis dias haviam passado; elas no podiam crer, porque 
no lhes parecia que ali tivessem ficado nem por meio dia; tambm no haviam percebido as 
noites, de modo que no podiam crer no que a criada lhes dizia; mas para ficarem mais seguras, 
perguntaram a Joaquim, que lhes disse que os dezesseis dias haviam passado. Ento saram e cada 
uma retornou  sua casa. Como Joaquim visitou Ana, sua mulher, que dera  luz e beijou com 
grande alegria sua filha recm-nascida. Depois da permanncia das parteiras na casa de Ana 
durante dezesseis dias, elas retornaram s suas casas. Neste momento, Joaquim foi para junto de 
Ana, sua mulher, e a cumprimentou. Imediatamente ela lhe deu entre os braos sua filha, que ele 
recebeu alegremente agradecendo a Deus; de to grande alegria comeou a chorar vendo a beleza 
dessa criana, depois a entregou a Ana e a chamou de Maria, como o anjo lhe havia ordenado. 
Quando lhe impuseram esse nome, vieram nove anjos que se prosternaram nove vezes de joelhos 
dizendo: Bendito  o doce nome de Maria; hoje nos  manifestado o nome de nossa rainha;  por 
isso que nos congratulamos esperando esse doce nome. Ento desapareceram cantando 
melodiosamente. Quando Maria ouviu o melodioso canto dos anjos, olhou-os sorridente, e seus pais 
se alegraram muito, admirando as coisas maravilhosas que Deus fazia na terra, e ento ouviram 
uma voz do cu, dizendo: Joaquim e Ana, no fiqueis surpresos do que vistes e olvistes, como se 
fosse algo novo, porque isso foi previsto pela Santa Trindade, e agora chega conforme a vontade 
de Deus, para ser manifestado a todas as criaturas sobre a terra. Joaquim e Ana surpreenderam-se 
do que fora dito; colocaram-se de joelhos rendendo bno e louvor a Deus todo-poderoso. Como 
Maria est representada no antigo testamento. So Jernimo dizia num sermo da Assuno de 
Maria: Ela foi retratada aos patriarcas, anunciada pelos profetas, mostrada aos evangelistas; 
Maria  essa senhora de quem se faz meno no primeiro livro do Antigo Testamento, diz a Gnese, 
que esfacelou a cabea da serpente, que  o inimigo que coloca a concupiscncia carnal e o 
orgulho do corao;  tambm a luz que Deus ordena que se faa e da qual ele saiu.
Ela  a cpia fiel de Jesus na plenitude das graas de Deus; o homem que ela gerou quando 
concebeu do Esprito Santo e deu  luz sem dor e permaneceu Virgem imaculada.  por isso que  
chamada apenas de Eva me dos mortos, amiga dos moribundos, tanto da morte da alma como do 
corpo; mas Maria a ns todos libertou dessas duas mortes, porque Jesus, seu Filho,  a 
verdadeira vida da alma e do corpo dos fiis, que por ele foram salvos e sero daqui por diante; 
mas ela  tambm a arca de No, que  feita de uma maneira ncorruptvel, do verdadeiro No 
Jesus Cristo, que s se fez justo no seu nascimento; ela  esta Rebeca, cujo filho Jac lutou 
contra o anjo que pediu e obteve a bno paterna para todos aqueles que lutaram contra o mau 
inimigo. Ela  tambm a escada que Jac, o bom patriarca, viu em viso, e pela qual os anjos 
subiam e desciam. Ela  igualmente a bela Raquel, que Deus amou como Jac amou, e desceu do cu 
para tornar-se carne humana, e humilhou-se sofrendo grande dor por amor a ela. Ela  tambm a 
bela Raquel tendo dado  luz o verdadeiro Jos, que no foi somente senhor de seus irmos, mas 
de todo o Egito, e tambm  o prncipe dos anjos, Senhor de todas as criaturas, Jesus Cristo 
sempre abenoado. Ela  tambm figurada pela rvore ardente de Moiss que parecia queimar, mas 
no queimava, porque concebeu um Filho e permaneceu Virgem imaculada. Ela  ainda representada 
pelo basto florido de Aro com humildade, porque gerou Jesus Cristo.  igualmente figurada pelo 
toso de Gedeo, do qual desceu o orvalho da noite sem umedecer a terra; porque o Filho de Deus 
desceu nele sem nenhuma quebra nem mcula de sua pureza.  ainda representada pela vara de 
Moiss que separa o mar em duas partes, por onde os filhos de Israel passaram com os ps secos, 
e de onde Moiss tirou a pedra que deu grande abundncia de gua, da qual o povo e todo o gado 
beberam e se saciaram.  tambm representada pelo verdadeiro escudo de Josu, com o qual venceu 
os inimigos de Deus; porque s ela exterminou todas as heresias. Maria  tambm o trono do 
verdadeiro rei Salomo e uma cadeira de marfim; porque sua pura virgindade preparou para Jesus 
Cristo um trono e uma cadeira em seu ventre virginal, onde repousou pelo espao de nove meses. 
Ela  ainda o renome do templo de Jerusalm, que se edificou sem instrumentos, machados nem 
martelos, porque deu  luz Jesus Cristo sem dor. Maria  tambm a bem-aventurada Virgem, que 
profetizaram Isaas e Jeremias; o primeiro disse: Ele sair de uma virgem da origem de Jess, e 
uma jovem dar  luz um filho; e o outro disse que o Senhor faria coisa nova sobre a terra, 
porque uma mulher envolvia um homem. Se ele tivesse dito uma criana, isso no seria algo novo a 
se admirar, se era Jesus Cristo um homem no seio de sua me, no em idade, mas em sabedoria; no 
em fora corporal, mas em fora espiritual, tanto colocado na manjedoura, como com a idade de 
trinta e trs anos, que pregou e que est agora onde est, sentado  direita de seu pai eterno; 
mas ele no usou essa sabedoria por um tempo, como de sabedoria mundana, para fazer ver que 
realmente ele havia tomado forma humana. Ela  tambm a montanha da alta perfeio, da qual foi 
cortada uma pedra sem mos de homens, e por essa pedra entendemos Jesus Cristo, que nasceu pela 
Virgem sem obra viril.  tambm a porta fechada em que s o Senhor passou e tornou a passar; 
porque Maria permaneceu Virgem concebendo e dando  luz, e permanecer sempre. Maria  tambm o 
candelabro de ouro, que, diz o profeta Zacarias, tinha sete lmpadas ardentes no templo de 
Jerusalm, que significam as sete obras de misericrdia em Maria, e o exemplo luminoso de sua 
vida santa e de bons costumes. Ela  tambm a arca do Testamento onde foram colocados os 
mandamentos da lei, e as duas tbuas de Moiss onde foram escritos pela mo de Deus os doze 
mandamentos que Maria guarda cuidadosamente, vivendo segundo eles: nessa arca estava tambm o 
basto de Aro, que, florido, produziu o fruto de vida, Jesus Cristo, que nos nutre de sua 
divina carne e precioso sangue no santo sacramento do altar; essa arca continha tambm man, que 
os filhos de Israel receberam no deserto, e Maria carregou o verdadeiro man do cu durante nove 
meses, o verdadeiro po dos anjos, e a carne dos doentes; essa arca possua tambm madeira 
imputrescvel; assim foi Maria, sem corrupo, transferida ao cu em corpo e alma; a arca tinha 
quatro argolas de ouro dos lados, pelos quais a seguravam; Maria tinha nela as quatro virtudes 
fundamentais, que so as origens de todas as virtudes. A arca tinha dois fustes, que se prendiam 
entre as quatro argolas de ouro quando as seguravam; estes so figurados pela caridade que 
estava em Maria, isto , o amor de Deus e de seu prximo. A arca era dourada por dentro e por 
fora; Maria  ornada igualmente, sendo resplandecente em todas as virtudes. Maria  representada 
pela filha do rei Astiages, que, como est contido na histria escolstica, via em viso como se 
uma videira crescesse do ventre dessa jovem, estendendo-se muito, envolvendo todo o seu reino, e 
lhe foi dito que de sua filha sairia um rei, e depois ela gerou o rei Ciro, que libertou os 
filhos de Israel do cativeiro da Babilnia; tambm o anjo disse a Joaquim e Ana que deles viria 
uma filha que nos livraria da paixo do diabo, tambm representada pela fonte saindo do jardim 
fechado; porque ela estava envolvida no ventre de sua me, ela foi santificada pelo Esprito 
Santo e pela Santa Trindade, prevenida de que nenhum pecado podia entrar nela; ela  ainda 
figurada pelo profeta Balao, que disse que da descendncia de Jac sairia uma estrela do grande 
mar desse mundo perigoso, e sem ajuda dessa estrela no se poderia passar sem naufrgio, nem 
chegar ao porto da salvao. A santa Igreja a sada diariamente pelo hino: Ave maris stella, 
isto , salve, estrela do mar, da qual tambm So Bernardo escreveu a homilia do anjo, dizendo: 
Maria  a estrela brilhante desse grande mar do mundo, resplandecente pelas virtudes, obras e 
exemplos de boa vida e de bons costumes. Maria  tambm figurada pelo templo de Salomo, 
edificado a Deus com pedra branca, de mrmore, dourada por cima; assim Maria  branca e santa na 
pureza, virgem no corpo e na alma, ornada de amor e caridade. Como Joaquim e Ana alimentavam 
Maria, sua filha. Depois do parto, Ana ofereceu Maria ao templo segundo a lei, e depois de t-la 
reconduzido  sua casa, Ana e Joaquim alimentaram-na cuidadosamente em grande reverncia e no a 
deixaram ser tocada por ningum alm deles e Fine, a irm de Ana. Quem poderia explicar a grande 
alegria que tinham ao olhar essa crianca bendita, ao beij-la e brincar com ela? Creio que nada 
o poderia exprimir. Joaquim e Ana olhavam-na com tanta admirao, que esqueciam s vezes de 
beber e comer, e parecia-lhes que esse tempo era apenas um instante. Haviam ordenado a sua 
famlia que, quando estivessem com a criana no quarto, ningum os interrompesse, o que foi 
atendido. Da apresentao de Maria ao templo. Quando Maria tinha a idade de trs anos, Joaquim 
disse a Ana: Minha querida Ana, lembra da promessa que fizemos, porque no podamos ter fruto 
juntos, quando rogamos a Deus que nos enviasse esse fruto, que o ofereceramos ao templo. Ento 
Ana lhe respondeu: Meu querido amigo, por mais duro que seja deixar nossa filha, ainda nos seria 
mais afrontoso no cumprir nossa promessa e ofender Deus. Por isso estou pronta a cumprir teu 
conselho e execut-lo. Ele se preparou e fez reunir seus amigos mais prximos e as honestas 
parteiras de sua famlia, levando com ele ricos presentes e uma rica veste cor-de-mel que era 
trabalhada em filetes de ouro brilhante como estrela do cu, e havia feito uma coroa de belas 
flores, que Maria levava na cabea, na qual foram colocadas cinco pedras preciosas, com 
esplendor superior ao de todas as pedras; e quando eles estavam todos preparados, ela com seu 
marido, sua filha e seus bons amigos, saram em direo a Jerusalm e foram trs dias de 
caminhada: de Nazar a Jerusalm h trinta e cinco lguas; fizeram esse caminho com grande 
alegria, porque estavam em companhia dos anjos. Quando chegaram a Jerusalm, Joaquim mandou 
dizer aos sacerdotes do templo que se preparassem para receber sua filha, do que se regozijaram; 
eles se prepararam, tomando ricos hbitos com os quais se vestiram. Como Maria foi recebida no 
templo. Quando Joaquim e Ana, com Maria sua filha, e seus amigos, vestiram-se com seus melhores 
hbitos e ajustaram em sua filha Maria o hbito e a coroa, foram juntos para diante do templo, 
porque o templo era edificado sobre uma montanha; havia ali quinze degraus a subir. Assim que 
comearam a subir e que pensavam carregar sua filha at o alto, ou lev-la pela mo, Maria subiu 
os degraus sozinha, to rapidamente como se tivesse doze anos, o que causou grande admirao aos 
sacerdotes, a seus pais e amigos, e a todos aqueles que a viram e que ouviram falar, porque ela 
tinha apenas trs anos. Quando se aproximaram do templo, tinham sua oferenda preparada, e 
entraram dirigindo-se ao sacerdote e apresentaram-lhe sua filha Maria com ricos presentes, como 
haviam prometido. Ento o sacerdote a recebeu com grande reverncia, com cantos e louvores, e a 
conduziram para a companhia das outras virgens que moravam no templo, servindo noite e dia. Como 
Maria foi apresentada ao templo trs vezes. Todavia, assim como dizem os santos bispos Epifnio, 
Carsio e Baslio, Maria foi apresentada ao templo trs vezes; mas Vicente,  luz da histria, e 
muitos outros, escrevem que quando ela tinha trs anos foi apresentada ao templo, onde morou um 
bom tempo, porque primeiramente foi apresentada ao templo por sua me oitenta dias depois do seu 
nascimento, como ddiva  purificao, porque, segundo o mandamento da lei, quando uma mulher 
tinha uma filha, ela moraria oitenta dias fora do templo, e se fosse um filho, deveria morar 
quarenta dias; o porqu de ser dessa maneira  que, os mestres da natureza assim escreviam, um 
filho recebe a vida no ventre de sua me, a metade do tempo mais cedo que uma menina. Quando Ana 
apresentou Maria ao templo, segundo o costume, ela a reconduziu imediatamente com ela  sua 
casa. A segunda apresentao foi feita no templo quando Maria tinha trs anos, como est dito 
acima. Pouco tempo depois, mais uma vez levada de volta  casa de seus pais, l ficou at 
completar sete anos; e pela terceira vez foi novamente apresentada ao templo, onde morou at os 
catorze anos, Como a apresentao de Maria ao templo foi representada primeiramente. A 
apresentao de Maria foi representada no templo pela tbua que foi encontrada em Sorbion, de 
que fala Scholastica Historia. Como os pescadores jogassem um dia suas redes ao mar, quando as 
trouxeram  tona, ali encontraram uma tbua de ouro, que ofertaram ao sol natural, porque tinham 
e adoravam o sol como seu Deus no templo do sol, que estava edificado s margens do mar. Por 
essa tbua Maria  plenamente representada; quanto  filha de Jepht, que est escrito na 
Bblia, no livro dos juzes, ela foi apresentada indiscretamente, e depois disso no podia mais 
servir a Deus; mas Maria foi apresentada com discrio, servindo a Deus todos os dias de sua 
vida.
Como Maria foi apresentada ao templo, e ali permaneceu at os catorze anos. Ento Maria foi 
apresentada ao templo; ela ali permaneceu at os catorze anos, e foi colocada com outras 
donzelas, que tambm eram agradveis a Deus; aprendeu a lei de Moiss, servidor de Deus. 
Deliberou em seu corao tomar Deus por seu pai, e poder dizer com Davi: Pai e me abandonaram-
me, mas o Senhor me recebeu. Ela se deixou iniciar pelos sacerdotes na lei mosaica, pensou em 
seu corao o que poderia fazer para ser mais agradvel a Deus, e nesse ano rogou 
incessantemente ao Senhor que lhe fizesse e desse a graa de poder fazer sua vontade, que ela 
pudesse guardar os mandamentos da lei, e que sua vontade fosse unida  sua, e pudesse amar tudo 
o que Deus amasse, e tambm odiar o que ele odiasse, e havia nela todas as virtudes para que 
pudesse agradar a Deus; prosseguia e crescia diariamente em todas as virtudes e em sabedoria, 
acima de todas as jovens virgens que l estavam; contemplava sempre a infinita bondade divina em 
relao  reparao do gnero humano. Orava a Deus freqentemente e s vezes lia a Santa 
Escritura, outras vezes costurava as vestimentas do templo, fazendo novos ornamentos e 
recompondo os velhos hbitos e os limpando, conforme os sacerdotes do templo ordenassem; porque 
era nessa obra que se exercitavam as donzelas do templo. Quando chegavam na idade de casar, aos 
catorze anos, conduziam-nas a seus pais para cas-las. Maria tambm costumava exercitar a 
leitura da Santa Escritura e da vinda de Nosso Senhor, e foi julgada a mais sbia de todas 
aquelas que estavam no templo, crescendo em humildade, mais ainda em caridade, mais servindo em 
castidade, e mais perfeita em todas virtudes; era tambm constante em todos benefcios e 
inamovvel em coragem. Jamais a viam com raiva, suas palavras eram cheias de doura; de modo que 
pela lngua podia-se reconhec-la como sendo de Deus. Era diligente com suas companheiras, 
evitando que ofendessem a Deus ou ao prximo, ou dando maus exemplos, ou provocando algum para 
dizer, ou fazendo injustia a algum. Louvava Deus sem cessar, e orava pela sade do gnero 
humano; e quando a saudavam, respondia: Deo gratias. Parece verdade que dela tenha vindo esse 
costume, de quando as pessoas de bem so cumprimentadas, responderem: Deo gratias. Maria 
consagrou tambm a Deus sua castidade, de que no tinha tido exemplo, porque nenhuma jovem, 
desde o incio do mundo, tinha feito isso, de modo que foi a primeira a consagrar a Deus sua 
castidade. Ela se comportava em todas as suas ocupaes to sabiamente, que sua vida era para 
todos um espelho de bons-costumes e virtudes, como escreve sobre ela Santo Ambrsio; crescia 
diariamente em santidade, e era todos os dias visitada pelos anjos, e tinha vises divinas. So 
Jernimo escreve numa epstola aos santos bispos Cramario e Heliodato, que Maria se organizara 
de tal modo que desde a manh at a prima estava em orao, e depois ficava fazendo algumas 
obras manuais at a hora da tera e da sexta, em que o anjo levava sua refeio; depois retomava 
 sua orao, de tal forma que jamais ficava ociosa, seja porque estivesse orando a Deus, ou 
meditando ou fazendo algumas boas obras; morou no templo nesse exerccio at catorze anos. 
Depois de apresentarem sua filha ao templo, Joaquim e Ana retornaram a Nazar. Depois que 
Joaquim e Ana apresentaram sua filha Maria a Deus, no templo, e ficaram um pouco perto dela, 
louvando e bendizendo o Senhor por suas bnos que lhes havia mostrado, retornaram a Nazar, e 
estiveram trs dias a caminho de Jerusalm, e igualmente trs noites, e foram para a mesma casa 
de antes; no caminho aconteceram muitos milagres, que pareciam ser contra o curso da natureza. 
Eu os deixarei passar em silncio. Como Joaquim morreu no mesmo ano em que Maria foi apresentada 
ao templo. Logo depois que Joaquim e Ana apresentaram sua filha Maria a Deus, no templo, e 
voltaram para casa, no mesmo ano Joaquim adoeceu, e rogou a Deus que o recebesse como havia 
feito com seus antepassados; quando estava doente no leito e sentiu aproximar-se a morte, chamou 
Ana, sua mulher, dizendo: Minha mulher Ana, a hora chegou em que repousarei com nossos pais. 
Rogo-te que me faas colocar no tmulo de meu pai Barphanter, e que caminhes o resto de tua vida 
segundo os mandamentos do Senhor. Tem sempre gratido para com Deus pelos benefcios que nos 
mostrou aqui embaixo; tem tambm lembrana da promessa de nosso fruto  salvao de todo mundo, 
porque irei aos limbos e anunciarei a nossos pais a misericrdia de nosso Deus, a fim de que 
sejam consolados, esperando sua liberdade, e quando tu anunciares minha morte a nossa filha 
Maria, dize-lhe que grave em seu corao minha memria como o sol no firmamento. E ao dizer 
isso, entregou seu esprito a Deus; Ana ento prosternou-se no cho chorando com a afeio e o 
amor cordial que lhe tinha. Ela ordenou que o untassem com preciosos ungentos e o colocassem 
junto de seu pai, segundo seu desejo, e ficou por algum tempo em sua sepultura, lamentando e 
lastimando sua morte; depois voltou para casa, onde continuou a chorar por quarenta dias. Como 
Ana, aps a morte de seu marido, por ordem do anjo, casou-se com outro homem chamado Clefas. Um 
ano aps a morte de Joaquim, Ana pegou seus hbitos solenes querendo destru-los e d-los aos 
pobres, dizendo: De hoje em diante no ser encontrado nenhum de meus hbitos solenes, assim 
vestirei roupas de viva e de luto, chorando a morte de meu marido por toda a minha vida. E 
quando pegou uma faca para cortar suas vestimentas, o anjo lhe apareceu dizendo: Ana, no 
destruas tuas vestimentas, mas lembra como Deus te tornou fecunda quando eras estril e enviou-
te um fruto muito saudvel, como no existe e jamais existir outro igual, do qual nascer o 
Filho de Deus eterno, para a salvao de todo mundo. Desse modo  preciso que sejas obediente a 
Deus e tomes como marido aquele que te nomearei, que diante de Deus parece justo, chamado 
Clefas; ters uma filha da qual nascero grandes homens que defendero a f crist e combatero 
at derramar seu sangue; depois recebero a coroa do martrio; deles ele quer fazer os iniciados 
de todo mundo; estaro sentados nos tronos, julgando as doze descendncias de Israel. Ana, 
acredita em mim, segue meu conselho, pois para isso Deus enviou-me a ti; tira teus hbitos de 
luto e te veste solenemente e cumprirs o querer de Deus. Quando Ana ouviu o que o anjo lhe 
disse, ajoelhou-se louvando a Deus, e desposou Clefas, do qual concebeu e deu  luz naquele 
mesmo ano uma menina, como o anjo lhe profetizara, que foi chamada Maria, para reverncia de sua 
primeira filha que teve com Joaquim; e antes que desse  luz, Clefas, seu segundo marido, 
morreu, deixando sua mulher grvida. Ana com esse evento ficou muito triste, dizendo: Como estou 
desolada! quando serei regozijada pelo fruto que carrego? Sobrevem-me grande aborrecimento, 
porque a filha que de mim nascer no conhecer e no ver jamais seu pai; e nesse tdio ficou 
Ana, esperando o dia de seu parto; a hora chegou e ela deu  luz uma menina que fez chamar-se 
Maria. Quando essa menina estava na idade de se casar, por conselho de sua me casou-se com um 
homem crente em Deus, chamado Alfeu, do qual so descendentes So Tiago, o Menor, Santo Alfeu, 
ou Judas, seu outro nome, e Jos, o Justo, que foram apstolos de Jesus Cristo. E igualmente Ana 
chorou a morte de seu marido Clefas, e um ano depois disse a si mesma: cumpri agora a vontade 
de Deus, e de agora em diante no quero estar na companhia de homem. E imediatamente o anjo veio 
a ela dizendo: Ana, sabes bem que teu testemunho est fixado em nmero ternrio; por isso  
necessrio que te cases com um terceiro marido, que foi reconhecido justo diante de Deus, 
chamado Salom, do qual concebers e dars  luz uma menina a que chamars Maria, como as 
outras; dela nascero dois prncipes que reinaro sobre as doze descendncias de Israel, e Deus 
far coisas maravilhosas por eles diante de todo mundo. Por isso Ana, regozija-te de teus 
filhos; porque Deus quer fazer coisas maravilhosas na terra atravs deles, e o que descender de 
ti receber bno eterna; pelo consentimento em minhas palavras, aps a morte do terceiro 
marido tu continuars viva como ele te ordenou. Como Ana casou-se com seu terceiro marido, 
chamado Salom, segundo a ordem do anjo. Quando Ana compreendeu a ordem do anjo, bendisse Deus, 
que em todas as suas obras  maravilhoso, casou-se com o terceiro marido, chamado Salom, e 
viveram juntos justamente e na crena de Deus, guardando seus mandamentos. Quando completaram um 
ano juntos, Ana concebeu e deu  luz uma menina, que fez chamar-se Maria, que em idade de casar 
fizeram casar-se com uma pessoa muito piedosa, chamada Zebedeu, do qual concebeu e deu  luz 
duas crianas, apstolos de Deus, Tiago, o Maior e So Joo, o Evangelista. Algum tempo depois, 
Salom morreu e Ana chorou-o como havia chorado seus outros maridos; aps a morte deste, Ana 
deixou todos os seus hbitos joviais e bonitos, propondo-se a viver o resto de sua vida em 
austera penitncia, o que fez. Como Maria foi dada em casamento a Jos. Maria estava na idade de 
treze anos, e at ento havia servido ao templo, ao qual fora ofertada; o soberano sacerdote 
ordenava que todas as jovens que atingissem essa idade se retirassem, o que em geral faziam, 
exceto Maria, filha de Ana. O soberano sacerdote perguntou-lhe por que no obedecia  sua ordem. 
Ela respondeu que havia consagrado sua virgindade e por isso no podia casar-se. O soberano 
sacerdote, ouvindo isso, ficou surpreso, porque sabia que a Escritura ordenava reservar para 
Deus os votos e promessas; mas no queria consentir, porque era algo novo;  por isso que estava 
em dvida sobre o que faria. Pediu a Ana, me de Maria, para lhe dar conselho, porque ele sabia 
ser ela mulher conforme Deus; e quando chegou diante dele, ela lhe deu a conhecer muitos fatos 
milagrosos que lhe haviam acontecido no ltimo retorno, quando ela ofereceu essa sua filha ao 
templo, o que deixou o sacerdote ainda mais em dvida sobre o que deveria fazer; enfim ele 
resolveu fazer vir os sacerdotes e foi com eles ao templo, prosternando-se ao cho, orando a 
Deus para que o inspirasse sobre o que deviam fazer. Surgiu, ento, uma voz vinda do grande 
altar chamado Sancta Sanctorum, dizendo: Sair uma flor sobre a qual repousar o Esprito Santo, 
assim como profetizou Isaas. Quando o sacerdote ouviu isso, fez reunir todos os homens da 
linhagem de Davi em idade de se casarem, ordenou que cada um deles levasse um basto ao templo, 
e aquele cujo basto florescesse e sobre o qual pousasse o Esprito Santo desposaria Maria; o 
que cada um fez, exceto Jos. E porque no houvesse ali nenhum basto que florescesse, foi dito 
a Jos que pegasse seu basto colocando-o como os outros sobre o altar; imediatamente dele 
nasceu uma flor sobre a qual desceu o Esprito Santo, em forma de pomba branca. Quando Ana soube 
que Jos tomaria sua filha Maria em casamento ficou muito feliz, porque sabia que ele era crente 
em Deus e que a queria honrar; freqentemente ele comia e bebia com ela; aps a morte de seu 
marido ele ia sempre aliviar sua perda, como se fosse seu filho; tinha ela tambm ainda uma 
filha viva e por isso a amizade entre Ana e Jos foi mais forte que anteriormente. Como Maria 
foi dada em casamento a Jos pelo soberano sacerdote. Jos, vendo que a divina Providncia 
queria que desposasse Maria, e sabendo que ela havia consagrado a Deus sua castidade, ficou 
regozijado, louvando a Deus que o havia unido a essa pessoa, que fora por seus pais ofertada e 
presenteada a Deus o criador, e lhe havia oferecido sua virgindade, a fim de viver em castidade, 
e que lhe havia tambm proposto permanecer e viver em castidade. Quando Maria viu que o soberano 
sacertode e os amigos de Jos falavam em fazer o casamento entre os dois, pensou no voto que 
havia feito e baixou os olhos. Quando Ana o percebeu, afastou-a das jovens do templo que 
desejavam ser suas companheiras, e foram juntas a Nazar onde ela permaneceu. Jos foi  sua 
casa para preparar o necessrio para as bodas. Alguns dias depois, o soberano sacerdote os 
casou. Quando Maria foi dada a Jos em matrimnio, foram com sua me Ana a Nazar, ali 
permanecendo por bom tempo, durante o qual deviam preparar-se para celebrar as bodas; Jos se 
retirou com diligncia, e preparou-se para receber Maria, sua esposa, em sua casa. Como o anjo 
Gabriel anunciou a Maria que ela conceberia o filho de Deus. Quando Jos se preparava com 
diligncia para receber Maria, sua esposa, em sua casa, o anjo Gabriel apareceu, como testemunha 
So Lucas, enviado de Deus a Nazar,  virgem desposada por um homem chamado da casa de Davi, e 
o nome da virgem era Maria. Parece, como escreve So Bernardo, que a virgem Maria estava 
encerrada em seu quarto e exercitava-se na leitura da Santa Escritura: o anjo Gabriel entrou 
dirigindo-se a ela e lhe disse: Eu te sado, Maria, cheia de graa, o Senhor est contigo: 
bendita s tu entre todas as mulheres. Quando ela ouviu isso, ficou perturbada, pensando o que 
representava essa saudao. O anjo lhe disse: No temas, Maria, tu encontraste graa diante de 
Deus, concebers e dars  luz um filho, que chamars Jesus; ele ser grande e se chamar o 
Filho do Altssimo; o Senhor Deus lhe dar o trono de Davi, seu pai, ele reinar na casa de Jac 
eternamente, e seu reino no ter fim. Maria disse ao anjo: Como isso acontecer se no conheo 
nenhum homem? O anjo lhe disse: O Esprito Santo vir a ti, e a virtude do Soberano te ocultar, 
e a criana que nascer de ti se chamar Filho de Deus; Elizabeth, tua prima, concebeu um filho 
em sua velhice, e eis o sexto ms de sua gravidez; nada  impossvel a Deus. Ento Maria disse 
ao anjo: Eis a serva do Senhor, que seja feito segundo tua palavra. Assim, com o consentimento 
de Maria, essa mensagem foi colocada em execuo pelo Esprito Santo, e ela concebeu o Filho de 
Deus. Como Maria visita sua prima Elizabeth. Pouco depois de Maria ter sido saudada pelo anjo 
Gabriel, ficando submissa  vontade do Senhor, foi, como escreve So Lucas, s pressas 
atravessar as montanhas para ir  casa de Zacarias, saudar sua prima. Ouvindo Elizabeth a 
saudao de Maria, o filho que estava em seu seio tremeu de alegria. Elizabeth foi tomada pelo 
Esprito Santo e exclamou em voz alta: Bendita s tu entre as mulheres, e bendito  o fruto de 
teu ventre, de onde me vem essa felicidade, de que a me de meu Salvador venha a mim?  tua 
vista, a criana que est em meu seio estremeceu de alegria; tu s muito feliz, porque as coisas 
profetizadas esto cumpridas. Logo Maria comps esse belo cntico, Magnificat. Maria l 
permaneceu quase trs meses, depois retornou  sua casa. Jos, vendo grvida Maria, sua esposa, 
queria secretamente abandon-la, e como o anjo o fez mudar de idia. Quando Maria foi dada a 
Jos como esposa, e quando ela voltou da casa de Elizabeth, como escreve So Mateus, Jos, 
percebendo que ela estava grvida, no a queria difamar, mas resolveu deix-la; e como tinha 
esse intento, o anjo lhe apareceu em sonho dizendo: Jos, filho de Davi, por favor no temas em 
receber Maria, tua esposa, porque o que nela est  do Esprito Santo; ela dar  luz um filho 
que se chamar Jesus, e ser aquele que salvar seu povo. Diante dessas palavras, Jos foi 
consolado pelo anjo, e recebeu sua esposa Maria em sua casa, guardando-a cuidadosamente. Por que 
Nosso Senhor queria que Maria, sua me futura, desposasse Jos.  necessrio saber, por muitas 
razes, que Nosso Senhor queria que sua me desposasse um marido. Primeiramente, como escreve 
Santo Ambrsio, para evitar toda suspeita maldosa por v-la grvida se ela no tivesse marido, 
Deus querendo que esse mistrio fosse coberto pelo sacramento do matrimnio, para impedir a 
calnia, porque se acreditaria que Maria estava grvida de seu marido Jos; de outro modo, sem 
esse casamento, os espritos maldosos haveriam de julg-la adltera, e tudo isso foi evitado 
atravs do casamento; foi tambm para que Jos fosse o esposo que socorreria Maria e o Menino 
Jesus como vemos na fuga ao Egito, e no seu retorno depois da perseguio de Herodes, como 
escrevem So Jernimo e Santo Ambrsio, para que este mistrio no fosse conhecido pelos 
espritos maus para que no soubessem ao certo que ele era o Filho de Deus. Ana alegrou-se 
sabendo que Maria, sua filha, concebera o filho de Deus. Quando Ana ouviu falar de Maria, sua 
filha, e tambm da saudao que o anjo lhe havia feito, e como ela havia concebido o Filho de 
Deus, regozijou-se, bendizendo o Senhor por todos os seus dons e graas, dizendo:  Deus! se 
tivesse tantas lnguas como tenho partes em meu corpo, eu as empregaria todas para louvar vossa 
infinita bondade, pelas grandes maravilhas que operais em minha filha pela salvao de todo 
mundo.  vs, cu e terra, e todas as criaturas que aqui esto, e aqueles que esto colocados 
nos limbos e trevas, regozijai-vos comigo, louvando e bendizendo Deus pela sua imensa 
misericrdia para conosco. Como Ana, na noite em que Jesus Cristo nasceu, procurou Maria, sua 
filha. Ana esperava com grande desejo a hora em que Maria, sua filha, daria  luz Jesus Cristo, 
e muito diligentemente preparava o que faltava. Ela preparou um rico leito para Maria e seu 
filho, fez tambm um bero de madeira de cedro, que lhe havia dado o Cavalheiro de Jerusalm, em 
reconhecimento por ter recobrado a viso por ocasio de seu nascimento, como j foi dito. Enfim, 
aproximando-se a hora em que Maria deveria dar  luz, Ana foi a Jerusalm para procurar tudo o 
que uma mulher tem necessidade quando est para dar  luz. Quando Ana estava em Jerusalm, 
chegou um decreto do imperador Augusto ordenando que todo mundo de seu vasto imprio fosse 
recenseado, como narra So Lucas; assim cada um se retirou para a cidade de onde era natural, 
para ser recenseado. Por esse motivo Jos foi para Belm; porque Ana no estava em sua casa, e 
ele no ousava deixar Maria, sua esposa, s, pois estava quase dando  luz; ele a colocou sobre 
um asno, porque ela no podia caminhar; pegou tambm um boi para vender, para saciar suas 
necessidades enquanto estivessem fora, porque no sabiam quando poderiam regressar; e assim foi 
Jos com Maria para Belm. Quando Ana voltou de Jerusalm  sua casa no mais encontrou Maria, o 
que no primeiro instante a afligiu. Seus vizinhos lhe disseram que ela estava com Jos em Belm, 
para cumprir a lei de Csar. Ana temia que o parto de sua filha acontecesse no caminho, ou antes 
de seu retorno a Nazar; por isso foi para Belm. Acontece que durante a caminhada surpreendeu-
se perdida do seu caminho; quando percebeu, sentou-se no cho para repousar; comeou a chorar 
amargamente, temendo que pudesse ocorrer algum inconveniente e ficou muito triste e aborrecida 
at meia-noite; ento ouviu um canto melodioso, ressoando no ar, e alm disso ouviu uma 
manifestao de grande alegria: Gloria in excelsis Deo, glria a Deus Altssimo, e paz na terra 
aos homens de boa vontade. Quando os anjos vieram consol-la, asseguraram-lhe que Maria, sua 
filha, havia se tornado me do Filho de Deus todo-poderoso. Com essas palavras, Ana ficou 
maravilhosamente consolada e regozijada, bendizendo Deus de todo o seu corao. Como Ana foi a 
Belm para procurar Maria, sua filha, com Jesus. Ana, tendo ouvido dos anjos esse canto 
melodioso e essas palavras de paz que anunciavam aos homens, retomou o caminho certo que havia 
perdido e foi em direo a Belm. L chegando, perguntou de casa em casa por Maria e Jos, mas 
ningum lhe pode informar; entretanto algum lhe disse que os havia visto e que procuravam 
alojamento, e que no encontraram e que no sabiam o que lhes iria acontecer. Ana, ouvindo isso, 
ficou muito triste, e retornou a Nazar, acreditando que eles tivessem voltado para l depois de 
ela ter partido; chegando l, no os encontrou e no sabia o que fazer de to aborrecida; foi a 
Jerusalm para procur-los, pensando que podiam ter sido devorados, ou que havia acontecido 
alguma coisa de extraordinrio. Quando Ana chegou em Jerusalm, procurou Maria e Jos pela 
cidade e no ouviu sobre eles nenhuma notcia, ps-se a se lamentar e a gemer, no sabendo o que 
fazer nem dizer. Como Ana encontrou os trs reis, e lhes perguntou se no haviam visto nem 
encontrado sua filha Maria e Jos. Ora, assim Ana ficou muito desconfortada, pois por tanto 
tempo longamente procurara sua filha e no encontrara; no podia ficar satisfeita sem procur-
los ainda, at que fossem encontrados; por isso foi imediatamente a Belm, procurando-os no 
outro extremo da cidade, onde j os havia procurado; encontrou os trs Reis aos quais perguntou 
chorando se no caminho no haviam encontrado um homem e uma mulher, descrevendo-lhes a figura e 
o modo como estavam; um deles considerando que Ana parecia uma mulher piedosa e virtuosa, de 
compaixo desceu de sua montaria, perguntando-lhe a causa de sua aflio. Ana, vendo que um 
grande personagem por compaixo a interrogava, contou-lhe toda a qualidade de Maria; disso 
imediatamente ele concluiu que Maria, de quem ela falava, era me do novo Rei nascido, o qual 
ele e os outros dois, seus companheiros, haviam visitado e a ele ofertado seus dons, e adorado, 
e estavam felizes por t-la visto e falado com ela; contaram-lhe que tinham vindo de um pas 
distante para adorar o Rei recm-nascido, e honr-lo com suas oferendas; disseram-lhe tambm que 
estavam reunidos os trs pela ordem de Deus. Ana, ouvindo narrar todas essas coisas, transformou 
sua tristeza em alegria, admirando-se de ouvir anunciar o nascimento desse grande Rei; e ele 
narrou que os trs tinham conhecimento de astronomia, e que viram uma estrela nova, na qual 
viram maravilhados uma criana recm-nascida, carregando uma cruz nos ombros; e lhes disseram 
que fossem ao pas da Judia, que l encontrariam a Criana. Quando chegamos orientamo-nos por 
nossa estrela-guia, que nos conduziu a Jerusalm; perguntamos onde estava aquele que nasceu Rei 
dos judeus, como narra So Mateus; ento, o dito Rei a colocou no caminho e lhe mostrou o 
estbulo onde havia nascido a Criana. Ento beijaram-se em grande reverncia e separaram-se um 
do outro, e Ana, muito admirada, esqueceu de perguntar ao Rei seu nome. Ana encontrou sua filha 
com Jesus e Jos. Quando Ana chegou a Belm foi ao estbulo onde Jesus havia nascido, e o viu 
deitado na manjedoura: e logo que Maria percebeu sua me, foi para junto dela e a recebeu com 
grande alegria, dizendo-lhe que fosse bem-vinda, o mesmo fez Jos, e de to grande alegria 
comearam a chorar. Maria e Jos levaram Ana para junto da manjedoura onde Jesus estava 
tranqilo, entre o asno e o boi. Assim que o viu, ela se prosternou a seus ps e o adorou 
dizendo:  meu Deus!  meu Salvador!  Filho de Deus todo-poderoso!  meu Deus, meu criador!  
Rei dos reis!  Senhor dos senhores! O qu! Esse estbulo  teu palcio? Esta manjedoura  o 
precioso bero que te havia preparado? Depois levantou os olhos para o cu, e chorando 
ternamente disse a Maria:  minha filha muito querida! O conforto de minha alma,  este o rico 
leito que te havia preparado? Olhando novamente ao seu redor, viu o estbulo aberto e demolido 
por todos lados, e disse, com lgrimas nos olhos:  minha criana! Corta-me o corao de grande 
tristeza ver esse precioso tesouro de todo mundo estar exposto nesse lugar aos maus tratos do 
tempo e desta rude estao. Ento Maria, sua filha, e Jos reconfortaram-na docemente, dizendo 
que era a vontade divina, e que Deus assim quisera; disseram-lhe ainda muitas outras razes 
consoladoras, de modo que ficou conformada. Ela tomou ento Jesus entre os braos beijando-o com 
grande devoo; Jesus abraou-a com seus pequenos braos, e lhe mostrou sinal de amor. Ela 
permaneceu com eles, ajudando-os no que podia, esperando o dia da Purificao, segundo a lei de 
Moiss, para que pudessem retirar-se para Nazar em sua casa, e pensava colocar o Menino Jesus 
no rico bero que havia mandado fazer, e Maria no belo leito que lhe preparara. Como Maria, Ana 
e Jos com Jesus foram ao templo de Jerusalm. E quando o dia da purificao de Maria chegou, 
quarenta dias aps o nascimento de Jesus, Maria, Ana e Jos foram juntos com Jesus a Jerusalm; 
quando chegaram, foram ao templo para ali fazerem suas preces e oferendas segundo o regulamento 
da lei; depois retornaram a Nazar; Ana estava muito feliz pelo fato de receber Jesus em sua 
casa, e foi na frente, deixando os outros com Maria, para que ficassem  vontade. Como o anjo 
apareceu para Jos, e o exortou a conduzir a criana e sua me ao Egito. Quando Ana retornou a 
Nazar para sua casa, e Maria, Jos e os outros ainda estavam a caminho, o anjo apareceu a Jos 
em sonho, dizendo que se levantasse, pegasse o filho com sua me e fosse ao Egito e que sasse 
de l apenas quando lhe dissesse; porque era certo que Herodes procuraria a criana para mat-
la. Jos levantou-se rapidamente, avisou Maria, que ficou triste pois no poderia avisar Ana, 
sua me, de sua partida. Jos colocou Maria sobre seu asno com o Menino Jesus, e Jos os 
conduziu com temor nessa perigosa viagem.  Milagre. Encontra-se escrito que quando Jesus chegou 
no Egito, todos os dolos que l estavam caram e desmoronaram. Da tristeza de Ana por sua filha 
ter ficado para trs. Quando Ana chegou a Nazar, em sua casa, preparou-a o melhor possvel para 
receber o Menino Jesus com sua me, e desejava muito sua chegada: ia sempre olhar para ver se os 
via; e no percebendo nada, foi ao encontro deles na direo de Jerusalm, temendo que lhes 
tivesse ocorrido algum inconveniente no caminho, tanto tempo demoravam; depois de ter caminhado 
muito, perguntou de casa em casa se os haviam visto, descrevendo como eram. Quando percebeu que 
no conseguia ter notcias, foi a Jerusalm, muito desolada, e perguntou em todo lugar se os 
haviam visto; fez a mesma coisa em Betnia, Belm, Jeric, na frica, na Sria, em Samaria, em 
Naim, e em todos os lugares onde era possvel ir, mas infelizmente no conseguia descobrir onde 
estavam. Depois de Ana ter procurado por um ano, e no os tendo encontrado, tomou o caminho de 
casa, dizendo: Ai, meu Deus! Como estou desolada! E que precioso tesouro perdi! Peo ao Senhor 
que me prive da vida, porque bem o mereo, visto que tambm deixei minha me Emerantiana 
procurar por mim durante dois anos, em todos os pases, com grande dor em seu corao; percebo 
agora que aborrecimento ela deve ter tido por amor a mim. Nessa tristeza, retornou a Belm, para 
mais uma vez antes de sua morte poder ver o lugar e a manjedoura onde Jesus havia deitado. A 
compaixo de Ana chegando a Belm, vendo o massacre dos pequenos inocentes. Quando Ana, cheia de 
dor, chegou perto de Belm, ouviu os gritos penetrantes dos Inocentes, e as lamentaes 
desesperadas das mes que choravam por sua sorte, e no somente as pessoas estavam tristes, mas 
tambm os animais, porque o barulho era to grande que toda a natureza estava consternada; os 
bois, as ovelhas e outros animais errantes pelos campos, manifestavam por essa situao a 
tristeza que sentiam: e quando Ana se aproximou mais da cidade de Belm, ouviu cada vez mais os 
clamores; entrando na cidade, viu os pequenos inocentes gemendo pelas ruas, inmeros mortos, e o 
sangue que corria pelas ruas. Viu tambm as crianas que os algozes desumanos haviam degolado 
entre os braos de suas mes.
Muitos pais e mes seguravam seus filhos, chorando e arrancando seus prprios cabelos; outros 
ofereciam seus bens para salvar a vida de seus filhos, mas nada era capaz de poup-los dessa 
crueldade; sua resistncia levava-os, algumas vezes, a perderem a vida junto com seus filhos; e 
em geral todo o mundo estava consternado nessas cidades aflitivas; havia at quem deixasse sua 
morada, para privar-se de ver semelhante desumanidade.  Deus todo-poderoso! Vejo agora que, 
desde que estou viva, jamais vi semelhante tirania. Senhor todo-misericordioso, consolai essas 
pobres mes desoladas, cujos pequenos filhos foram massacrados. Rogo-vos,  Deus muito bendito, 
que vingueis os autores dessa horrvel carnificina; porque o mundo universal no poderia reparar 
tal ofensa; no h ningum alm de vs, meu Deus, que o pudesse reparar. Ana faz juntar as 
crianinhas mortas que estavam nas ruas, mergulhadas em sangue, e as faz enterrar. Quando Ana 
viu que Herodes colocara  morte as criancinhas, e que o povo tomado de piedade fora retirado de 
Belm, foi tocada de compaixo por esses pobres inocentes jogados nas ruas; ela os colocou num 
lugar para fazer enterr-los com grande reverncia. Passados quatro dias, o povo que havia 
fugido retornou; cada um foi para sua casa, e vendo a grande caridade que Ana havia demonstrado 
para com seus filhos mortos, disseram uns aos outros: Ana j nos fez muito bem no passado, 
curando nossos cegos, coxos, paralticos e outros doentes, e a ns, dando sepultura a nossos 
filhos, e ns somos ingratos. Mesmo vendo sua filha grvida, no houve ningum entre ns que lhe 
tenha dado abrigo; assim precisou instalar-se nesse estbulo, onde deu  luz, e nenhum de ns a 
auxiliou; porque duvidamos e por causa de nossa ingratido, Deus nos enviou essa punio; e 
outros dizem: Ana, senhora piedosa de entre as filhas de Jerusalm, no se encontrou ningum 
semelhante a ti, ns te agradecemos por tuas obras; confessamos no sermos suficientemente 
capazes para te agradecer como seria preciso. Ana ento consolou os pais e as mes aflitos. Ana 
repousou onde Jesus Cristo havia nascido. Seis dias depois, Ana foi ao lugar que havia servido 
de abrigo a Maria para dar  luz o Filho de Deus; estava cansada e no havia comido nada; 
ajoelhou-se onde Jesus Cristo havia estado para repousar, fez sua orao diante da manjedoura, 
em seguida pegou um pouco de palha da manjedoura onde Jesus Cristo havia nascido e deitou-se em 
cima para descansar; estando adormecida, ficou extasiada em esprito e viu todas as penas que 
Jesus Cristo sofreria pela salvao de seu povo, e foi por essa razo que se fez homem e que era 
conveniente para a salvao do gnero humano; logo depois viu as dores que Maria sua filha, com 
suas duas irms e seus filhos, sofreriam, e que combateriam por Jesus Cristo at a morte. Ana 
despertou e disse:  doce Menino Jesus! s esse cordeiro inocente que ser imolado no Calvrio 
pela salvao do mundo:  pena salutar!  dor bem-aventurada! que todos aqueles que descendem de 
mim pudessem assim sofrer por teu nome, se assim est previsto ser conveniente, e meu pobre 
corpo permanece sem sofrer pena; e por isso, rogo-vos, meu Deus, que consintais em mostrar-me um 
lugar onde, por amor a vs, possa castigar meu corpo; quero reconciliar a rvore para que o 
fruto no morra, porque sei que o fruto  precioso e ser eterno. Ana partiu de Belm para se 
retirar ao deserto. Quando Ana resolveu ir para o deserto pelo amor de Deus, para l ter uma 
vida austera, foi sondar os pobres doentes que costumava auxiliar, e antes de partir os abenoou 
e tambm distribuiu entre eles o resto de seus bens. Feito isso, despediu-se deles e foi para os 
desertos. Quando os pobres souberam disso, correram atrs dela, chorando e dizendo: Nossa me e 
benfeitora nos deixou. Quem cuidar de ns? Quem nos auxiliar em nossas necessidades? Quem nos 
dar de beber e comer? Sol, ilumina-nos, a fim de que possamos encontrar Ana que tanto bem nos 
fez: lamentavam-se e corriam para o deserto para encontr-la; mas no a puderam encontrar e 
muitos morreram de desgosto. A vida austera de Santa Ana. Como se havia proposto a levar uma 
vida austera, levou-a com efeito; a partir dessa poca no dormiu mais em seu leito, mas no 
cho; e seu alimento era po e gua; visitou os doentes e tratou os pobres e ungiu os peregrinos 
com preciosos ungentos. Fazia a mesma coisa com os leprosos, ainda que fossem disformes; 
limpava e renovava suas vestes; de modo que a fama de sua vida santa espalhou-se por todo o 
pas; no entanto conservava sua humildade. Desejava que os ricos e os pobres imitassem sua santa 
vida. Com a idade de cinqenta anos, determinou-se viver ainda mais austeramente; para isso 
penetrou no mais secreto deserto que pde encontrar; parou num lugar onde havia uma caverna 
sobre uma colina e nela foi repousar, e s comia raizes; quando tinha sede ia procurar gua a 
duas lguas de l, e essa austeridade continuou por muitos anos. Ana estando no deserto foi 
tentada pelo inimigo. O inimigo, vendo que Ana vivia santamente no deserto, ficou com inveja; 
transformou-se num jovem, como se fosse um anjo enviado de Deus, e chegou a ela, dizendo: Ana, 
levanta-te prontamente e vem comigo; porque Deus enviou-me para te conduzir para onde esto tua 
filha e seu filho, e eles esto extraviados no deserto onde entraram atrs de ti, procurando-te. 
Ana levantou-se rapidamente e o seguiu, pensando que fosse um anjo enviado por Deus. Ele a 
conduziu ao p de uma montanha muito alta e reta, de modo que s poderia subir nela com muito 
esforo. Ento o esprito maligno disse-lhe: Ana, veremos agora se amas Deus; e se queres 
castigar tua carne pelo amor dele, segue-me. Ana respondeu: Subirei a montanha com aflio. Mas 
no olhes de modo algum atrs de ti. Ele subiu a primeira elevao, e ela depois dele. Quando 
haviam subido um pouco, ela encontrou pedras cortantes por onde deveria passar, de modo que os 
ps de Ana cortaram-se e o sangue saa por todo lado. Ana, vendo isso, disse lamentando-se:  
Maria, minha querida filha! se passares por aqui, considera este caminho, regado por meu sangue 
ao te procurar. Quando se esforou para subir ainda mais alto, encontrou pedras ainda mais 
afiadas, de sorte que seus ps foram dilacerados, o que a fez cair ao cho de fraqueza; nesse 
estado ela disse com uma voz lastimosa: O esprito est pronto, mas a carne  fraca. Ento o 
inimigo que estava sob a figura de um anjo lhe disse: Se no podes caminhar, permte-me que te 
arraste para o cume dessa montanha. Ela lhe permitiu. O esprito maligno puxou Ana para o alto 
da montanha e bateu seu corpo contra as pedras cortantes, de modo que todo o seu corpo ficou 
dilacerado. Ento Ana disse: Meu Deus, bendito sejais vs que me enviaste uma criatura que 
castiga meu corpo e prova minha pacincia; padeo com boa vontade por vosso amor. Um anjo 
consola Ana e a liberta da tirania do esprito maligno. Estando Ana em grande sofrimento e dor, 
o anjo de Deus veio a ela, dizendo: Eu te sado, alma generosa, sabe que Deus tem aprovado tudo 
o que sofreste por amor a ele, e recebers a recompensa; porque ensinaste a todo mundo que se 
deveria viver no amor de Deus e de seu prximo, e que  preciso procurar Deus para encontr-lo. 
Quando disse isso ele a levou at onde o inimigo a pegara, e subitamente todas as chagas ficaram 
curadas e ss como antes. Jesus e Maria com suas irms visitaram Ana no deserto. Ana continuou 
longamente sua vida austera no deserto, e estando ento com setenta e um anos, comeava a 
decair; vivia sempre em tristeza desde que se viu separada de Jesus e de Maria, no sabendo onde 
estavam. Mas Jesus, o Filho de Maria, que tudo conhecia conforme sua divindade, sabia bem onde 
ela estava; ele fora testemunha ocular de seus sofrimentos e de sua austera penitncia. Sabia 
tambm que ela estava perto de seu falecimento e que se preparava para a morte. Jesus disse a 
sua me: Todo o Antigo Testamento no nos forneceu um modelo mais perfeito de virtude que tua 
santa me, que incessantemente inflama-se do amor divino, e deve brevemente passar desta vida  
outra para l gozar do repouso eterno. Por isso, minha me, vamos juntos, tuas irms e seus 
filhos, para v-la, e consol-la antes de sua morte. Quando Maria ouviu essas palavras, ficou 
feliz porque mais uma vez poderia ver sua me e lhe falar; reuniu suas irms e seus filhos, e 
foram, Jesus com eles, ao deserto, onde So Joo Batista fazia penitncia junto ao rio Jordo, 
deserto esse pelo qual os filhos de Israel passaram com Josu indo para a Terra Prometida. E 
porque Elizabeth, me de So Joo, era irm de Ana, Jesus disse-lhe: Vem tambm ver uma santa 
senhora no deserto, que leva uma vida angelical em um corpo mortal; minha me repousou nove 
meses em seu seio, sua grande santidade atrai para ela as atenes do cu e da terra; e por 
isso,  conveniente, visto que estamos ainda na terra, que a visitemos. Quando So Joo Batista 
ouviu isso ficou feliz, desejando ver a rvore que havia carregado to preciosos frutos. Jesus 
visitou Santa Ana com seus amigos, e como foram recebidos. Quando Jesus e sua comitiva chegaram 
at Ana no deserto, ela ficou radiante; levantou-se, ps-se diante deles e os recebeu com grande 
reverncia; Jesus e Maria iam na frente dos outros. Quando Ana chegou perto de Jesus, 
prosternou-se a seus ps, e os beijou chorando, cantando depois o salmo In te, Domine, speravi, 
etc. Em vs, Senhor, depositei minha confiana, no ficarei confusa eternamente. Continuou esse 
salmo at o fim. Logo depois abraou sua boa filha com ternura e fez o mesmo com suas irms e 
com todos do squito. Depois disso, Jesus e Maria sentaram-se com Ana entre eles, e os da 
comitiva cercaram-nos com seus filhos. Os bons conselhos que Ana d queles que a visitam. 
Quando Ana se viu em meio a sua famlia, falou com ternura dizendo-lhes: Rogo-vos, meus filhos, 
que ouais o que vos vou dizer: Amai-vos uns aos outros, de modo que nenhuma adversidade ou 
castigo vos separe do amor fraternal; tende lembrana de que sois descendentes de uma raa tal 
qual vedes diante de vossos olhos: caminhai nas sendas do Senhor; sede misericordiosos; no 
condeneis ningum; sede caridosos com os pobres; levai uma vida pura e pacfica sobre a terra; 
no ambicionei os bens perecveis da terra, desejai somente os bens eternos. Rogo-vos que no 
tempo da paixo de Cristo, no o abandoneis; porque sabereis, depois dessa paixo, que ele  
verdadeiramente o Redentor dos homens. Depois de ter assim falado, Ana sentiu que a morte estava 
prxima, colocou sua cabea sobre o peito de Jesus, dizendo: Tende lembrana daquela que expira 
em vosso amor. Jesus visita Ana com sua comitiva, e como foram recebidos. Depois disso, Jesus 
viu uma grande claridade no cu onde os anjos estavam reunidos. Ento Jesus disse a Ana: Minha 
amada, aqueles que te honrarem na terra e me invocarem em teu nome sero atendidos. Essa Tera-
feira  o dia do teu nascimento.  tambm o dia de tua morte; por isso abeno esse dia, e o 
consagro em teu nome, e a todos queles que te invocarem nesse dia eu ouvirei, porque viveste 
santamente e glorificaste meu Pai. E mais, por causa da grande santidade daqueles que descendem 
de ti, estars sentada num dos tronos de meu Pai celeste, a fim de que possas ver toda a famlia 
reunida, e tambm todos aqueles que te serviro devotadamente. Ento Ana disse a So Joo, o 
Evangelista, que ainda era jovem: Meu querido filho, um tempo vir em que Maria, minha filha, 
ficar em grande aflio e poucas pessoas ento confessaro a divindade de Jesus Cristo; por 
isso eu a recomendo a ti, rogo-te que no a deixes nesse tempo de aflio, porque ela estar 
mergulhada em extrema tristeza; terminando de dizer essas palavras, sentiu aproximar-se seu 
ltimo momento. A morte de Santa Ana. Ana repousou sua cabea sobre o peito de Jesus, e Jesus 
colocou a sua contra o seio de Maria, falando docemente com ela. Nesse momento Ana estendeu seus 
braos, Maria os sustentou, regando-os com suas lgrimas. Percebeu-se ento uma claridade que 
descia do cu, envolvendo Ana. Ento ela pronunciou esse versculo do salmo de Davi, dizendo: 
Como o cervo cansado deseja as fontes refrescantes, igualmente minha alma suspira por vs,  meu 
Deus! que sois a fonte de vida; quando aparecerei diante da face do Pai celeste? Ela continuou 
esse, salmo at o fim; terminando, entregou seu esprito a Deus; e aqueles que estavam 
assistindo prosternaram-se ao cho, rendendo bno a Deus de diversas maneiras, por salmos e 
cnticos; mas por comum fragilidade verteram muitas lgrimas. O corpo de Santa Ana foi 
enterrado. Tendo Jesus e Maria, sua me, com sua comitiva ficado junto de Ana durante vinte 
dias, e tendo ela morrido, levaram seu corpo a Nazar; ungiram-no com ungentos preciosos, 
porque a me do Filho de Deus havia sado de suas entranhas; enterraram-na junto a Joaquim, seu 
marido: permaneceram ali at domingo  noite. Estando ela enterrada, eles a choraram durante 
quarenta dias. Concluso do autor para fortalecer o que foi escrito sobre a vida de Santa Ana. 
Como nada  impossvel para Deus, no  necessrio duvidar de modo algum das grandes maravilhas 
que Deus operou naqueles que viveram santamente na terra; por isso vemos, na vida dos santos e 
santas, que Deus lhes concedeu o dom de fazer uma infinidade de milagres, e coisas 
extraordinrias pela virtude de seu santo nome. Aqueles que solicitaram e solicitam 
devotadamente Santa Ana, sentiram os efeitos de sua poderosa interferncia junto a Deus. Assim, 
no principio (Archos), era a luz (a senhora dos dias, Emerantiana), e a luz gerou a graa, e a 
graa a beleza sem mcula, que foi chamada Maria. Assim comea essa lenda que se poderia chamar 
o Evangelho da Virgem. Ana, como sua filha Maria, santifica-se nas suas dores, porque o esprito 
do cristianismo  o sacrifcio. O inocente sacrificado pelo culpado! Que injustia! dir 
Michelet!  filsofo do amor! Podes chamar injusto um sacrifcio voluntrio? O cristianismo  a 
graa, porque  o sacrifcio.  o dever preferido ao direito, porque o homem, com efeito, no 
tem outro direito que no o de fazer seu dever. E o cristianismo lhe diz que seu dever  o de 
sacrificar-se pelos outros.  nesse aspecto que o cristianismo  sobre-humano.  por isso que as 
fbulas pags, justamente admiradas por Michelet, so a Bblia da humanidade, o Evangelho  e 
continuar sendo o Testamento da Divindade. Michelet, em seu livro, deseja dividir a graa e a 
lei e op-las uma  outra. Como no compreende que ao invs de dividi-las  preciso reuni-las, e 
que a graa sem lei, mas tambm a lei sem a graa, so duas soberanas injustias? Seu livro tem, 
entretanto, algo de grande e verdadeiro, que demonstra a grande e nica religio da humanidade, 
sempre revelada  f pelo gnio, e sempre a mesma sob os vus de todas as mitologias e de todos 
os smbolos. O prprio Mirville, esse diablico incorrigvel, rende homenagem a essa maravilhosa 
unidade do dogma universal, que  a catolicidade das naes. A alta filosofia da natureza, 
oculta sob os vus da alegoria, criou as mitologias que continuam e se completam em nossas 
lendas. A lenda de Santa Ana pertence a esse ciclo de engenhosas fbulas crists, que se chama 
lenda dourada. Essa lenda, onde o esprito simblico do cristianismo primitivo mistura-se s 
ingnuas crenas da Idade Mdia, pareceu-nos digna de ser reproduzida e conservada. Encontra-se 
a alguma coisa anloga  bela fbula de Psique. A graciosa, a filha da luz,  a alma humana, 
que gerou o mito sublime de Maria, me de Jesus. Ela perde seus filhos como Psique perdeu o 
Amor, e os procura atravs das mais rudes provas. Ela ficou  merc da maldade do anjo mau como 
Psique da clera de Vnus; mas o demnio que a arrasta atravs das pedras pontiagudas e 
cortantes a conduz no entanto ao seu alvo. Ela reencontra seus filhos aps muito cansao e 
adormece para a eternidade sobre o peito de Jesus. O sacrifcio: eis a grande palavra do 
cristianismo, e  o que os Renan e os Michelet no compreendem. O sacrifcio est acima de toda 
justia, e por isso  a razo suprema da graa. A natureza  bela sem dvida, mas est cheia de 
morte e de corrupo.  o sacrifcio que a transfigura e que a conserva; a natureza sacrificada 
eleva-se acima de si prpria e torna-se sobrenatural. Havamos dito que o sobrenaturalismo  
apenas o sobrenatural exaltado. Sim, exaltado e divinizado pelo sacrifcio. Sacrifcio do 
esprito pela f; sacrifcio da vontade pela obedincia; sacrifcio dos sentidos pela 
austeridade; sacrifcio da prpria vida pelo martrio. Cristos! eis vossos ttulos  
imortalidade. Os antigos o haviam compreendido quando inventaram o devotamento sublime, as 
peregrinaes, a virgindade e o martrio de Antgone. Psique s desposa o Amor depois de ter 
perseguido a obedincia at a morte. Hrcules s sobe glorioso ao cu depois de ter arrancado, 
pedao por pedao, com sua carne sangrenta, a tnica de Djanira.
Sofrer para ser forte, morrer para renascer imortal. Eis, segundo o simbolismo religioso 
universal, a nica chave dos grandes mistrios. Resumimos. O esprito de sacrifcio  o esprito 
de Jesus Cristo. O esprito de Jesus Cristo  o de Deus e da humanidade, e a cincia dos 
espritos , se a compreendemos bem, apenas a cincia do 

Evangelho. Eplogo
COMPOSTO  MANEIRA DAS LENDAS EVANGLICAS E RESUMINDO O ESPRiTO DESTA OBRA
I OS VIVOS E OS MORTOS
Naquele tempo, Cristo passou pelo campo das sepulturas, e ali encontrou um jovem ajoelhado que 
chorava diante de uma cruz. Vendo esse jovem, Jesus teve piedade de sua dor, e, aproximando-se, 
perguntou-lhe: Por que choras? O jovem que chorava voltou-se e respondeu, estendendo a mo: - 
Minha me a est h trs dias. Jesus lhe disse: Cr em mim, meu filho, tua me no est a. 
Colocaram a a ltima vestimenta que ela deixou; por que choras sobre esse despojo insensvel? 
Levanta-te e caminha; tua me te espera. O jovem balanou tristemente a cabea e disse: - No me 
levantarei e no caminharei para procurar a morte; eu a esperarei e ela vir; e ento, eu sei, 
reunir-me-ei  minha me. Ento o Cristo: - A morte espera a morte, e a vida procura a vida! No 
entristeas por uma dor egosta e estril a alma daquela que te precedeu; no retardes sua 
caminhada em direo a Deus por teu desespero e tua inrcia. Porque seu amor vive ainda em teu 
corao, e no o perders se a fizeres viver dignamente em ti. Ao invs de chorar tua me, 
ressuscita-a! No me olhes com admirao, e no penses que quero desmanchar tua dor! Aquela que 
lastimas est perto de ti; um dos vus que separavam vossas almas caiu; resta ainda um. E 
separados somente por esse vu, deveis viver um pelo outro; trabalhars para ela e ela orar por 
ti. 
- Como trabalharei por ela? pergunta o rfo: ela j no tem necessidade de nada, agora que est 
sob a terra.
- Enganas-te, meu filho, e confundes ainda o corpo com a vestimenta. Ela precisa mais do que 
nunca de inteligncia e de amor no mundo dos espritos. Ora, s a vida de seu corao e a 
preocupao de seu esprito, e ela te pede ajuda. Para isso passars a vida fazendo o bem, e com 
isso chegars junto dela com as mos plenas quando Deus vos reunir. Para ter o direito de 
repousar  preciso trabalhar. Ora, se no trabalhares para tua me, atormentars sua alma. Por 
isso te dizia: Levanta-te e caminha; porque a alma de tua me levantar-se- e caminhar contigo, 
e a ressuscitar em ti se fizeres frutificar seu pensamento e seu amor. Ela tem um corpo na 
terra,  o teu; tens uma alma no cu,  a sua. Que esta alma e esse corpo caminhem juntos e tua 
me reviver. Cr, meu filho, o pensamento e o amor jamais morrem, e aqueles que crs mortos 
vivem mais que tu, pensam e amam mais. Se o pensamento da morte te entristece e apavora, 
refugia-te no seio da vida;  l que encontrars todos aqueles que amas. Os mortos so aqueles 
que no pensam e no amam; porque trabalham pela corrupo, e a corrupo por sua vez os 
trabalha. Deixa pois os mortos chorarem sobre os mortos, e vive com os vivos! O amor  o elo das 
almas; e quando  puro, esse elo  indestrutvel. Tua me te precede, ela caminha para Deus; mas 
est ligada ainda a ti; e se adormeceres no torpor ou num triste egosmo, ela ser forada a te 
esperar e sofrer. Mas em verdade te digo que todo o bem que fizeres ser creditado  sua alma, 
e se fizeres o mal, ela sofrer voluntariamente o castigo. Por isso te digo: Se a amas, vive por 
ela. O jovem ento levantou-se, e suas lgrimas cessaram de correr, contemplava a face do Senhor 
com admirao, porque o rosto de Cristo irradiava inteligncia e amor, e a imortalidade 
resplandecia em seus olhos. Ento ele tomou o jovem pela mo e lhe disse: - Vem. Depois o 
conduziu para o alto de uma colina que dominava a cidade inteira, e lhe disse: - Eis o 
verdadeiro cemitrio. L embaixo, nesses palcios que magoam o horizonte, h mortos que  
preciso chorar bem mais do que aqueles que aqui esto, porque aqueles no descansam. Eles se 
agitam na corrupo e disputam com os vermes seus alimentos; assemelham-se ao homem que foi 
enterrado vivo. O ar do cu lhes falta ao peito, e a terra pesa sobre eles. Eles esto acuados 
nas estreitas e miserveis instituies que fizeram, como nas tbuas de um caixo. Jovem que 
chorava e pelas minhas palavras secou as lgrimas, chora agora e geme sobre os mortos que ainda 
sofrem! Chora sobre aqueles que se crem vivos e que so cadveres atormentados!  a eles que  
preciso gritar com uma voz forte: Sa de vossos tmulos! Oh! Quando ressoar o clarim do anjo? O 
anjo que deve despertar o mundo  o anjo da inteligncia; o anjo que deve salvar o mundo  o 
anjo do amor. A luz ser como o relmpago que se levanta no oriente e que  visto ao mesmo tempo 
no ocidente:  sua voz o corpo do cristo, que  o po fraternal, ser revelado a todos, e em 
torno do corpo que deve aliment-los as guias se reuniro! Ento o verbo humano, enfraquecido 
pelos interesses egostas, unir-se- ao Verbo divino. E a palavra unitria, ressoando no mundo 
inteiro, ser o clarim do anjo. Ento os vivos levantar-se-o, os vivos que se acreditavam 
mortos e que sofreram esperando a liberdade. Ento tudo o que no morreu caminhar e ir para 
diante do Senhor, enquanto as cinzas daqueles que j no existem sero dispersas pelo vento. 
Jovem, prepara-te, e acautela-te com a morte! Vive por aqueles que amas, ama aqueles que vivem, 
e no chores aqueles que subiram um degrau a mais na escada da vida; chora aqueles que esto 
mortos! Tua me te amava, ama-te por conseguinte ainda mais agora, que seu pensamento e seu amor 
libertaram-se do peso da terra. Chora aqueles que no pensam em ti e que no te amam. Porque em 
verdade te digo que a humanidade tem apenas um corpo e uma alma, e vive em tudo onde se faz 
sentir trabalho e sofrimento. Ora, um membro que j no  sensvel  existncia ou  dor dos 
outros membros, est morto e deve logo ser suprimido. Tendo dito essas coisas, o Cristo 
desaparece aos olhos do jovem que, aps ter ficado alguns instantes imvel e surpreendido com a 
lembrana de um sonho, retoma silenciosamente o caminho da cidade dizendo: - Vou procurar os 
vivos entre os mortos. E farei o bem a todos aqueles que sofrem, sofrendo com eles e os amando, 
para que a alma de minha me o saiba e me abenoe no cu. Porque compreendo agora que o cu no 
est longe de ns, e que a alma  para o corpo o que o cu material  para a terra. O cu que 
cerca e sustenta a terra embebe-se da imensido, como nossa alma embriaga-se do prprio Deus. E 
aqueles que vivem no mesmo pensamento e no mesmo amor jamais podem ser separados!
II - O FILSOFO DESANIMADO
Havia naquele tempo um homem que tinha estudado todas as cincias, meditado sobre todos os 
sistemas e que acabara por duvidar de todas as coisas. O prprio ser parecia-lhe um sonho, 
porque no encontrava nele motivo suficiente. Havia procurado a natureza de Deus e no a havia 
adivinhado, porque nunca tinha amado. E sua inteligncia estava obscurecida como o olho de quem 
fixa o sol. Por esse motivo estava triste e desanimado. Jesus, que se ocupa dos mortos e que 
deseja curar os cegos, teve piedade dessa pobre inteligncia doente e desse corao fraco; e 
entrou uma noite no quarto solitrio do filsofo. Era um homem plido e calvo, com os olhos 
fundos, a fronte enrugada e os lbios desdenhosos. Estava acordado, s, perto de uma pequena 
mesa coberta de papis e de livros; mas no lia e no escrevia mais. A dvida curvava sua cabea 
como uma mo de chumbo, seus olhos fixos no olhavam e sua boca sorria vagamente com uma 
profunda amargura. Sua lmpada consumia-se junto dele, e suas horas passavam em silncio; sem 
esperana e sem recordao. Jesus apareceu diante dele sem nada dizer, e levantando os olhos ao 
cu, orou. O sbio levantou a cabea, depois a balanou e a deixou cair novamente, murmurando 
baixinho: "Visionrio!" - Nosso Pai que est no cu, que teu nome seja santificado, disse Jesus. 
- Ele te deixou morrer sobre a cruz, critica o pensador, e tu chamaste inutilmente: "Meu Deus! 
Meu Deus! Por que me abandonaste?" - Que teu reino chegue, continua o Salvador. - Ns o 
esperamos h mil oitocentos e quarenta anos, diz o filsofo, e ele est mais longe do que nunca. 
- Como o sabes? pergunta-lhe ento o Mestre, lanando-lhe um olhar doce e grave. - Nem mesmo sei 
o que  o reino de Deus que deve vir, respondeu o filsofo. Se existe um Deus, ele reina ou no 
reinar nunca. Ora, como no vejo o reino de Deus, no o espero; e no procuro nem mesmo saber 
se h um Deus. - Duvidas tambm da existncia do bem e do mal? pergunta Jesus.
- Suas distines so arbitrrias, visto que varia conforme os tempos e os lugares.
- Coloca teu dedo sobre a chama de tua lmpada, diz o Salvador; por que pois retiras a mo com 
tanta vivacidade? No sabes que um pensador como tu disse que a dor no era um mal?
-  que no compartilho sua opinio, mas no sei se tenho mais razo que ele.
- Por que no compartilhas sua opinio?
- Porque sinto a dor e ela me repugna invencivelmente.
- A distino entre o bem e o mal no  pois arbitrria relativamente s tuas repugnncias e a 
tuas atraes? diz ento Jesus; e com efeito, o mal no poderia ser absoluto. O mal s existe 
para ti e para todos os seres ainda imperfeitos.  pois para esses que o reino de Deus deve vir, 
porque eles mesmos chegaro ao reino de Deus. Eu te convenci de uma repugnncia fsica e te 
convencerei tambm facilmente de uma repugnncia moral. O fogo te advertiu pela dor de que 
destruiria a vida de teu corpo, e a conscincia te advertiu por seus lamentos e seus remorsos de 
que o crime perderia a vida de tua alma. O mal para si  a destruio; o bem  a vida, e a vida 
 Deus! A terra mergulhada nas trevas espera agora que o sol chegue, e no entanto o sol 
conserva-se radioso no centro do universo, e  a terra que gravita em torno dele. Deus reina, 
mas tu no entraste ainda em seu reino; porque o reino de meu Pai  o reino da cincia e do 
amor, da sabedoria e da paz. O reino de Deus  o reino da luz, e essa luz fustiga teus olhos que 
no a vem, porque procuram sua claridade neles mesmos e s encontram obscuridades.
- Senhor, abri-me pois os olhos, disse o filsofo, e iluminai minhas trevas.
Jesus disse-lhe: - Se eu tivesse fechado teus olhos, deveria abri-los; mas se eu os abrir e tu 
desejares fech-los, como vers a luz?
No sabes que a vontade do homem age sobre as plpebras de seus olhos, e que se o forarmos a 
ficar com os olhos abertos ou fechados, ele perder a viso? Posso te persuadir a acender em ti 
o fogo que clareia, e  por isso que te fao ouvir minha palavra, e visto que j desejas que te 
abra os olhos no ests longe de ver. Que teu desejo torne-se uma vontade forte, e abrirs tu 
mesmo os olhos e vers.
- Qual  o fogo que ilumina? perguntou o sbio.
- Tu o sabers, disse-lhe o Cristo, quando tiveres amado muito.
Porque se a razo  como uma lmpada,  o amor que  a chama.
Se a razo  como o olho de nossa alma,  o amor que  o poder e a vida.
Uma grande razo sem amor  um belo olho morto, que  uma lmpada ricamente esculpida, mas fria 
e sem luz.
Quando o egosmo das paixes animais havia enfraquecido a filosofia humana, salvei o mundo pela 
f, porque a f  a filosofia do amor. Cremos naqueles que amam e naqueles que sabem ser amados: 
tambm havia dado por base da f uma caridade imensa, quando eu e meus apstolos provamos aos 
homens, por um martrio sangrento, a sinceridade de nosso amor. E enquanto a Igreja reinou pela 
caridade, triunfou pela f; mas a f espera a inteligncia, e aproxima-se o momento em que 
aqueles que acreditaram sem ver compreendero e vero.
Se pois desejas compreender, comea por amar, a fim de crer,
- Em que acreditarei, pois, Senhor?
- Em tudo o que ignoras: porque a f  a confiana da ignorncia racional. Cr em tudo o que 
Deus sabe e tua f abraar a imensido. Confia em teu pai celeste quanto a tudo de que ele se 
reserva o conhecimento, e no te inquietes com os destinos infinitos. Ama essa imensa sabedoria 
da qual s filho, ama os outros homens que passam ignorantes como tu na terra, e limita ainda 
agora tua cincia  realizao de teus deveres; tu a vers brevemente crescer por ela mesma e 
subir at Deus, porque Deus se deixa ver pelos coraes puros.
- Oh! ver Deus! exclamou o sbio entreabrindo os lbios trmulos, como um homem que tem sede e 
que espera a chuva no cu. Oh! reunir finalmente em meu pensamento todos os raios esparsos dessa 
verdade que tanto amei e que me escapava sempre!... Mas quem me dar esse amor imenso que faz 
comungar o homem com Deus, e o aproxima do centro de toda luz?
- Tu o merecers pelas tuas obras, disse-lhe o Cristo; porque se nos corrompemos nas obras da 
corrupo, se nos perdemos nas obras do dio, crescemos e salvamo-nos pelas obras do amor. Para 
se aproximar de Deus  preciso caminhar, e as aes santas so movimentos de vossa alma.
- Quais so as aes verdadeiramente santas? pergunta o doutor; a prece e o jejum?
- Ouve, diz o Cristo, e no julgues temerariamente teus irmos que passaram procurando e 
chorando. A humanidade est firmada no desejo pela prece e pelas lgrimas. E aqueles de seus 
filhos que primeiro tiveram sede das coisas do cu so privados das coisas da terra; mas tudo 
isso  apenas o comeo. Seria preciso saber abster-se, para aprender a usar bem. Seria preciso 
sacrificar primeiramente o corpo pelo pensamento, para emancipar o pensamento. Porque o cu 
moral  a liberdade da alma; mas a alma  chamada a reger o corpo e no a destru-lo, do mesmo 
modo que o cu fsico rege a terra e no a destri. O tempo da prece e das lgrimas deve dar 
lugar aos dias do trabalho e da esperana: porque a prece dos antigos era um trabalho, e  
necessrio que nosso trabalho, para ns, seja uma prece mais eficaz e mais ativa.
- Como trabalharei? perguntou o filsofo; no sei fazer nada de til.
- Perdeste com esforos vos o vigor de teu pensamento, respondeu o Cristo: e tu, que querias 
saber tudo, no aprendeste nem mesmo a viver. Torna-te novamente uma criana pequena e vai  
escola do amor. Aprende a amar e a fazer o bem, eis a verdadeira cincia da vida. Lembra-te da 
lenda de Cristvo. Era um gigante terrvel, mas como ignorava o uso de sua fora, era fraco 
como uma criana. Precisava pois de um tutor, e colocou-se a servio de um rei: mas o rei ficou 
doente e Cristvo o deixou. Ele procurou aquele que pode fazer sofrer os reis; e como no 
conhecia Deus, uniu-se primeiramente ao gnio do mal. Entretanto um dia uma cruz apareceu sobre 
um rochedo, e o gnio do mal caiu como que fulminado por um raio. Cristvo procurou ento 
aquele cujo signo  a cruz, e um velho lhe disse que o encontraria fazendo o bem. Cristvo no 
sabia nem orar nem trabalhar, mas era forte e alto, e comeou a carregar nos ombros os viajantes 
perdidos que queriam atravessar a torrente. Ora, uma noite, ele carregou uma criana pequena sob 
a qual se inclinou, como se estivesse segurando o mundo, porque na pessoa do pobre rfo perdido 
reconhecera o grande Deus que esperava.
Compreendeste essa parbola?
- Sim, Senhor, disse o filsofo tornado cristo.
- Pois, bem! vai e faz como Cristvo; carrega o Cristo quando ele cair de cansao, ou quando as 
torrentes do mundo se opuserem  sua passagem. O Cristo para ti ser a humanidade sofredora. S 
o olho do cego, o brao do fraco e o basto do velho; e Deus te dir o grande porqu da vida 
humana.
- Eu o farei, Senhor, e de hoje em diante sinto que j no estarei s no mundo. A qual de meus 
irmos estenderei primeiramente a mo?
- quele que  mais infeliz que tu, e que expira desconhecido de si mesmo no pequeno quarto 
vizinho ao teu. Vai pois em seu socorro, fala-lhe que espere, ama-o para que ele creia, faze com 
que ele te ame para que viva.
- Conduzi-me para perto dele, Senhor, e falai-lhe por mim.
- Vem e olha, diz o Salvador, e toca levemente a muralha que se entreabre como uma cortina 
dupla; e o sbio foi transportado em esprito ao quarto vizinho ao seu. Era o quarto de um jovem 
poeta que ia morrer abandonado.
III
O POETA MORIBUNDO
Havia naquele tempo um jovem que, em boa hora, havia escutado em sua alma o eco das harmonias 
universais.
Ora, essa msica interior havia distrado sua ateno de todas as coisas da vida mortal, porque 
ele vivia numa sociedade ainda sem harmonia. Criana, ele era o joguete das outras crianas, que 
o tinham por idiota; jovem, dificilmente encontrou uma mo para apertar sua mo, um corao para 
repousar seu corao. Seus dias passavam em longo silncio e em profundo delrio; contemplava 
com estranho xtase o cu, as guas, as rvores, os campos verdejantes; depois seu olhar 
tornava-se fixo, magnificncias interiores se desenrolavam em seu pensamento e o levavam ainda 
pelo espetculo da natureza. Lgrimas ento corriam sem querer pela face plida de emoo, e se 
algum vinha falar-lhe, ele no ouvia. Tambm falavam-lhe raramente, e consideravam-no 
geralmente como um louco. Ele vivia assim, s com Deus e a natureza, falando a Deus na lngua da 
harmonia, e deixando cair sobre a terra os cantos que ningum escutava. Mas as necessidades 
materiais da vida acabaram por priv-lo de seu inextricvel mundo; ele acordou na terra, 
ofuscado ainda por suas vises do cu; e quando quis caminhar, chocou-se contra os homens e 
contra as coisas, at que caiu ofegante e desesperado. Foi ento que se recolheu em sua pobre 
moradia e l esperou a morte. Foi ento que o Cristo o olhou e dele se apiedou. O quarto do 
poeta era triste, nu e frio; ele estava meio coberto com algumas roupas usadas; estendido sobre 
um triste leito de palha, estava agitado pela febre e seus olhos brilhavam com um fogo sombrio. 
O Cristo apareceu-lhe vestido com uma tnica branca, emblema da loucura, que havia recebido de 
Herodes, e a fronte totalmente coroada de espinhos sangrentos e de uma aurola de glria.
- Irmo, disse ao pobre doente olhando-o com um inefvel amor, por que queres morrer?
- Porque j no se pode viver na terra quando se viu o cu, suspirou o poeta.
- E eu, no entanto, para viver e sofrer na terra, desci do cu, retomou Jesus
- Sois o filho de Deus e sois forte.
- E quis ser o filho do homem para ter fome, para temer e para chorar. No desfaleci no Jardim 
das Oliveiras? No gemi sobre a cruz como se Deus me tivesse abandonado?
- Bem! eu, diz o doente, saio da vida como vs do Jardim das Oliveiras, e estou sobre o leito de 
dor como vs sobre a cruz.
- Se eu s tivesse feito rogar a meu Pai, nos vales, respirando o perfume das roseiras de Saron, 
se me tivesse silenciosamente embriagado com os xtases do Thabor, no teria merecido resgatar o 
mundo na cruz responde o Salvador. Mas procurei a ovelha extraviada, e para parar meus ps que 
corriam sem cessar atrs das misrias do povo, necessitava dos pregos dos carrascos. Houve 
necessidade de pregar minhas mos para impedi-las de cortar o po para as multides esfomeadas; 
e foi ento que, j no podendo dar outra coisa a meus irmos, deixei correr todo o meu sangue!
- Cantei, diz o poeta, e os homens no me ouviram.
-  que cantaste s para ti e desdenhaste demais os seus desdns. Era preciso, a exemplo do 
Verbo eterno, desceres suficientemente para te fazeres ouvir.
- Talvez ao invs de me esquecer eles me tivessem crucificado!
- S ento,  meu irmo! teria sido belo morrer para ressuscitar glorioso!
- Mestre, ao invs de consolar-me em minha ltima hora, vindes assustar-me e dirigir-me 
repreenses?
- Venho curar-te e inspirar-te a coragem de viver, para te fazer merecer uma morte tranqila e 
plena de imortalidade.
Por que queres viver somente no cu esses dias que Deus te d para passar na terra?
Por que deixas perder-se nas aspiraes vagas o imenso amor de teu corao?
Por que te isolas no orgulho de teus sonhos, quando as dores reais sangram e palpitam em torno 
de ti?
Deus no te deu o blsamo celeste para perfumares tua cabea; no te confiou o vinho de seu 
clice para embriagar tua boca e desgost-la das amarguras da terra. Deverias amenizar, erguer, 
consolar; deverias ser o mdico das almas, e eis que tu mesmo, por haveres ocultado os remdios 
de Deus, s mais doente que os outros. No te compreenderam, dizes; mas s tu, pobre jovem, que 
no compreendeste teus irmos. O qu! tua inteligncia era superior, e no soubeste falar aos 
pobres de esprito! Tu te acreditavas grande e tiveste medo de te abaixar para aproximar tua 
boca do ouvido dos pequenos! Amaste e ficaste desgostoso das enfermidades dos homens! Ergue-te, 
pobre anjo cado, e recomea tua misso! Sabe que o esprito da harmonia  o esprito do amor 
que eu anunciava ao mundo sob o nome do consolador. Se  o Esprito Santo que te anima, s de 
hoje em diante o consolador de teus irmos, e para ter o direito e o poder de consol-los, 
aprende a sofrer e a trabalhar com eles. Eu era maior que tu, e mais que tu elevei minha alma ao 
seio das harmonias eternas; e no entanto passei minha vida trabalhando com os carpinteiros e 
conversando com os pobres, iluminando seus espritos, movendo seus coraes e curando suas 
doenas. At agora s fizeste poesia em sonhos e em parbolas, mas chegou o tempo de fazer 
poesia em aes! Porque tudo o que se faz por amor  humanidade, tudo o que  devotamente, 
sacrifcio, pacincia, coragem e perseverana, tudo isso  sublime de harmonia,  a poesia dos 
mrtires! Ao invs de amar vagamente o infinito, procura amar infinitamente teus irmos que 
esto perto de ti. Eis um que te trago; ele sofria como tu e chegara ao nada do pensamento por 
ter isolado o trabalho de seu pensamento, como tu chegaste ao desespero do corao por ter 
isolado teu amor! De agora em diante ambos sabereis que no  bom para o homem ser s. O 
filsofo tornado cristo aproxima-se ento do leito do doente cuja febre havia baixado 
rapidamente diante das palavras doces e severas de Jesus e lhe diz: - Irmo, aceita meus 
cuidados e a metade do po que me resta; amanh trabalharemos juntos, e quando eu estiver doente 
tu me atenders e dars po para mim. - Irmo, porque viste o cu, no destri a escada que te 
far subir at l; d-me antes a mo e conduze-me, porque pensei e meditei muito, e sinto agora 
que no amei o suficiente. Tu, cuja voz  o eco vivo da harmonia eterna, s um filho do amor 
celeste, porque a boca fala da abundncia do corao. Mas o amor no poderia tornar-se egosta 
sem levar a si mesmo  morte, e ele s encontra a plenitude da vida dando-se inteiramente aos 
outros. Vive, pois, para que te ame, porque se eu amar, serei feliz; e se amas Deus, queres a 
felicidade daqueles que so os filhos de Deus como tu. A harmonia  ao mesmo tempo cincia e 
poesia, a exatido numrica  a grande lei da beleza, e as magnificncias harmnicas so a razo 
divina dos nmeros; mas tudo isso, para ser vivo e real, deve aplicar-se ao que . Irmo, o 
positivo de Deus  mil vezes mais potico que o ideal do homem. Procuremos Deus na humanidade e 
no desesperemos de seus destinos: porque suas prprias desordens conduzem-na  harmonia, e se 
Deus nos contou no nmero daqueles que so os primeiros a ver onde deve ir esse povo errante 
atravs das solides, coloquemo-nos  frente desse grande e laborioso movimento, ao invs de nos 
isolar e morrer, - Irmo, obrigado para ti, diz o poeta, e obrigado para aquele que te inspira! 
De hoje em diante no me retirarei mais do campo de batalha para morrer s, enquanto ainda 
poderia combater; julgar-me-ia um covarde e um desertor. Se eu cair com as armas na mo na 
primeira ou segunda fileira da milcia humanitria, morrerei cheio de coragem e bendizendo a 
Deus, e minha alma no se apresentar s diante do juiz supremo. Desde esse dia, o filsofo e o 
poeta uniram-se numa santa amizade, e nunca menosprezaram os mais humildes trabalhos para 
sustentar sua vida. Atravessaram assim todas as classes da sociedade e encontraram em todos os 
lugares coraes doentes que esperavam o blsamo de uma palavra de sabedoria e de amor. Por toda 
parte sentiram que poderiam ainda fazer o bem, e as dores da vida lhes pareciam leves; porque as 
suportavam com coragem, para inspirar coragem queles que sofriam como eles, e o devotamento 
dava-lhes uma nova fora.
IV - O NOVO NICODEMOS
Havia naquele tempo um sacerdote que amava a verdade, e que procurava o bem com toda a 
sinceridade de seu corao.
Ora, uma noite em que velava e orava, Cristo veio sentar-se junto dele e o olhou com bondade.
- Mestre, sois vs, finalmente? perguntou o pastor. H muito tempo vos procuro, e sois vs que 
vindes a mim durante a noite!
Jesus lhe respondeu: - Nicodemos, veio ver-me  noite porque tinha medo dos judeus: sei que tua 
existncia depende da nova sinagoga e no quis comprometer-te.
Porque os escribas e os fariseus, e os falsos doutores da lei perseguem-me ainda e perseguem 
tambm queles que me recebem.
- Senhor, disse o sacerdote com tristeza, os gloriosos anos que compem os bons sculos da 
Igreja foram infecundos para o futuro? A verdade escapa pois sempre s ardentes aspiraes do 
homem? Os santos e os mrtires enganaram-se, visto que dezoito sculos de luta e de estudo s 
tiveram como resultado fazer ainda vossos inimigos aqueles que deveriam ser vossos ministros! 
Jesus disse-lhe: - Eles no so todos meus inimigos, e meu Pai conta ainda entre eles almas 
generosas e coraes puros. Irei a eles como vim a ti, para lembr-los dos signos dos tempos e 
para abrir seus olhos para que vejam. Venho explicar-te ainda em segredo o que ensinava em 
segredo a esse doutor da antiga lei, que era tambm um homem de desejo. Eu lhe dizia que a 
entrada do reino de Deus era um novo nascimento. A vida do mundo  uma gerao incessantemente 
renovada, e  preciso que os germes do ano que morre sejam depositados na terra para preparar as 
riquezas do ano que nascer. Mas no se deve colocar o vinho novo nos velhos frascos. A vinha de 
meu Pai nunca  estril, e de ano para ano renova seus frutos, mas ele chama os vinhateiros em 
diferentes horas do dia.  por isso que eu chamava os fiis doutores da antiga lei para um novo 
nascimento, porque sua velha me, a sinagoga judaica, estava moribunda, e para nascer seria 
preciso sair de seu seio. E aqueles que acreditaram deixaram o cadver da sinagoga mas ficaram 
unidos  sua alma, e foram os primeiros filhos da Igreja universal. Mas a Igreja universal era 
um cu novo e uma terra nova; e para renovar todas as coisas precisava lutar primeiramente 
contra todos os poderes da terra e do cu.  por esse motivo que os primeiros cristos 
construram uma arca para lutar contra o furor dos ventos e a elevao das guas. Essa arca foi 
a Igreja hierrquica, a santa Igreja catlica, a guardi do smbolo da unidade. Tanto que a arca 
 levada pelas guas, caminha sob o sopro de Deus, e  em seu seio que toda alma viva procura um 
refgio: - mas se ela parar, a nova famlia dever sair para povoar novamente o mundo, e est a 
o novo nascimento de que te falei. O sacerdote lhe diz: - Senhor, devo sair da Igreja catlica? 
Mas a que outra Igreja poderia reunir-me? - No te digo para sair da Igreja catlica, retoma 
Jesus, mas convido-te a nela entrar. Digo-te que te separes das sombras para comeares a viver 
na luz. Digo-te que saias da escola para entrares na sociedade e nela aplicares a cincia que 
deves adquirir! Eu no tinha vindo para destruir a lei antiga, mas para lhe dar cumprimento, e 
venho agora para cumprir a nova lei. No disse eu: Crede primeiramente e compreendereis depois, 
e conhecereis a verdade, e a verdade vos tornar livres? No disse eu que minha segunda apario 
seria como o relmpago que fustiga os olhos de todos e que brilha ao mesmo tempo sobre o mundo 
inteiro? No anunciei eu que o esprito de inteligncia viria e que sugeriria a meus discpulos 
o complemento de minhas palavras? E no dizem vossos smbolos que o esprito de inteligncia  o 
esprito de amor que deve operar uma criao nova e que rejuvenescer a face da terra? Ora, no 
 o esprito do amor o esprito de ordem e de harmonia que deve associar todos os homens e faz-
los comungar com a unidade divina e humana? Sa pois de todos os liames que impedem os irmos de 
caminharem junto de seus irmos, derrubai as barreiras que separam, ampliai as moradas que se 
isolam, fugi das doutrinas que reprovam uns e escolhem outros, sa da sinagoga cega, entrai na 
Igreja catlica, que no  mais agora um conventculo de padres e de doutores, mas a associao 
universal de todos os homens de inteligncia e de amor. - Senhor, disse o sacerdote, farei tudo 
o que me disseres. Onde irei primeiro e como comearei? - Ficai onde estais, diz Jesus, e fazei 
o que tendes a fazer. Instru as crianas, catequizai os pobres, visitai os doentes e orais pelo 
povo. Que nada seja mudado em vossas obras, mas que um amor universal vivifique e as fecunde! 
Pregai a misericrdia e a paz, pregai a modstia e o perdo das injrias, pregai as santas 
aspiraes voltadas para Deus e a unio entre os irmos! Que a caridade seja a lei de vossa 
alma, e no imporeis  conscincia dos outros constrangimentos desesperantes! Sede doces e 
humildes de corao como meus primeiros discpulos, quando falardes s mulheres, s crianas e 
ao povo pobre; mas sede inflexveis como meus mrtires, quando vos quiserem corromper ou 
intimidar! O que te digo, digo-o para todos aqueles que, como tu, acreditaro no esprito de 
inteligncia e de amor, e  por esse motivo que dirijo a palavra a muitos. No confundais o 
esprito de abstinncia com o esprito de morte, porque s ordenei a meus discpulos de se 
absterem por um tempo das riquezas de seus pais, para que aprendessem a us-las dignamente. Em 
verdade te digo que no vim para matar a carne, mas para salv-la submetendo-a ao esprito. 
Porque no deve haver diviso entre o esprito e a arne do homem; Deus os criou e abenoou 
igualmente. O esprito  o rei da carne; um rei no deve reinar para destruir. Os rgos e os 
sentidos so os sujeitos da inteligncia. Um rei deve impedir seus subalternos de fazerem o mal; 
mas deve tambm prover sua prosperidade e sua felicidade. A atrao no  pois a lei geral dos 
seres, e o equilbrio no  a harmonia das atraes? Que o esprito pois no destrua a carne, e 
que a carne no apague o esprito. Porque um ou outro desses excessos seria a morte! Ora, no 
vim dar morte queles que vivem, vim para trazer sade queles que estavam doentes e vida 
queles que estavam mortos! Tendo dito essas coisas, Jesus desapareceu ao olhar do bom padre e 
deixou-o cheio de esperana e de coragem; pois ele via a fora de Deus relevar de tempos em 
tempos as fraquezas dos homens e compreendia como a religio caminha atravs dos sculos 
crescendo e triunfando sempre.
V - O TMULO DE SO JOO
Naquele tempo, Jesus percorreu com a rapidez do esprito todos os pontos da terra. Todos estavam 
tristes e aguardavam. E por toda parte o Cristo ainda estava s, no Jardim das Oliveiras. Ele 
entrou como um pobre peregrino na baslica de So Pedro onde ningum o reconheceu, aproximou-se 
do tmulo dos apstolos para ver se suas relquias estavam prontas para a ressurreio; mas as 
cinzas dos santos estavam frias e eles continuavam a dormir seu sono. Ora, ele  um desses 
apstolos que, segundo a tradio, jamais deveria ter morrido; aquele que a pintura simblica 
representa sempre jovem, e que tem uma guia por emblema;  aquela a que chamamos o Apstolo da 
caridade e o discpulo do amor.  aquele que, segundo as lendas dos primeiros sculos, deve 
despertar no fim dos tempos, para salvar o mundo, avivando o fogo sagrado da caridade fraternal. 
E, com efeito, dizem as mesmas lendas, seus restos no foram reencontrados: os fiis de feso 
acreditaram sepult-lo e guard-lo entre eles, mas os anjos chegaram e esconderam o apstolo 
adormecido nas solides de Patmos. Jesus ento foi  ilha de Patmos, que parece ainda assustada 
com o barulho dos sete troves; e aproximou-se da gruta onde dormia seu discpulo fiel.  
entrada do tmulo, uma forma celeste estava sentada imvel; era como uma mulher coberta por um 
longo manto azulado que lhe cobria a cabea e a envolvia inteira, caindo em volta dela em 
grandes dobras. Suas mos plidas e um pouco longas estavam unidas com fervor, e seus olhos 
plenos de uma tristeza resignada e de uma esperana infinita estavam fixos no tmulo. Jesus 
aproximou-se dela e lhe disse: - Minha me, s tu? Sabias sem dvida que eu deveria vir aqui? - 
Eu sabia, meu filho, respondeu Maria; porque aquele que repousa aqui, tu o amaste ternamente; e 
quando tu estavas para morrer, confiaste-me a ele dizendo: "Eis tua me." Agora, para que possa 
retornar  terra na pessoa das mulheres que compreendero o que  ser me,  preciso que o 
discpulo do amor reviva para me proteger. Porque devo,  meu filho, na pessoa de todas as 
mulheres de inteligncia e de amor, colocar-te no mundo uma segunda vez. Minha me, retomou 
Jesus, lembra-te do que o anjo disse s mulheres que me procuravam no sepulcro: "Por que 
procurais um vivo entre os mortos? Ele ressuscitou, no est mais aqui." 
- Sabes que o profeta Elias, segundo as tradies judaicas, devia retornar  terra para me 
preparar os caminhos. A forma de Elias estava transfigurada e seu esprito voltou na pessoa de 
Joo Batista. Assim em verdade te digo que vives agora na terra na pessoa de todas as mulheres 
que sentem estremecer em seu seio a esperana do futuro.  por esse motivo, minha me, que 
apareces hoje pela ltima vez sob tua figura simblica. Joo, meu discpulo bem-amado, legou seu 
esprito a todos os homens cheios de f e de amor que querem construir a nova Jerusalm, a 
cidade santa da harmonia, e em verdade te digo que aqueles que sabem honrar sua me so dignos 
de serem chamados os filhos da mulher. Porque submetem seus coraes s inspiraes de teu 
corao, aqueles que querem repartir o trabalho com todos os filhos da grande famlia segundo os 
atrativos e as aptides de cada um, a fim de que todos formem juntos o mel da colmia humana que 
servir depois de alimento para todos. Eles sabem o que  a mulher, aqueles que querem libertar 
seu amor de toda servido, para que ele jamais se prostitua e que a fonte das geraes seja 
pura. Levanta ento e vem,  minha me, vem ao Calvrio, assistir a meu ltimo triunfo 
simblico; depois reviveremos na humanidade inteira. Todas as mulheres sero tu, e todos os 
homens sero eu, e ns dois faremos apenas um. E o Cristo, levantando sua me e a carregando nos 
braos como ela o havia carregado tantas vezes quando ele era pequeno, deixou a ilha de Patmos, 
e caminhando sobre as ondas do mar, foi em direo s costas da Palestina. Nesse momento o sol 
levantou-se e fez resplandecer toda a superfcie das guas e as duas formas celestes deslizavam 
sem lanar sombra e sem deixar traos, como um casal de pssaros maravilhosos, ou como uma nuvem 
leve, cheia de cores da aurora, e colorida com os reflexos do arco-ris.
VI - ADEUS AO CALVRIO
Jesus atravessou os campos desolados da Judia e parou no cimo rido do antigo Calvrio. L um 
anjo com sobrancelhas negras e olho sombrio estava sentado, envolvido em suas duas vastas asas. 
Era Sat, o rei do velho mundo. O anjo rebelde estava triste e cansado, e desviava o olhar com 
desgosto de uma terra onde o mal estava sem talentos e onde o aborrecimento de uma corrupo 
tmida sucedera aos combates titnicos das grandes paixes antigas. Ele sentia que 
experimentando os homens instrura os fortes e enganara apenas os fracos; tambm j no se 
dignava a tentar ningum, e sombrio, sob seu diadema de ouro, escutava vagamente carem as almas 
na eternidade, como as gotas montonas de uma chuva eterna. Possudo por uma fora que lhe era 
desconhecida, viera sentar-se no Calvrio e, lembrando a morte do Homem-Deus, estava com inveja. 
Era um anjo poderoso e belo; mas estava com inveja do Cristo, e essa inveja era figurada por uma 
serpente que mergulhava a cabea em seu peito e carcomia seu corao. Jesus e Maria estavam em 
p perto dele e olhavam-no em silncio, com grande piedade. Sat olhou por sua vez o Redentor e 
sorriu com amargura. - Vens, perguntou-lhe Sat, experimentar morrer uma segunda vez por um 
mundo que no pde salvar teu primeiro suplcio? Experimentaste inutilmente transformar as 
pedras em po para alimentar teu povo, e vens confessar-me tua derrota? Caste do alto do 
Templo, e tua divindade quebrou-se na queda? Vens para me adorar, a fim de possures o mundo? 
Vai, agora  muito tarde, e no te saberia enganar. O imprio do mundo escapou queles que me 
adoravam em teu nome; e eu mesmo estou inerte num reino sem glria. Se ests desalentado como 
eu, senta perto de mim, e no pensemos nem em Deus nem nos homens. - No venho sentar-me junto 
de ti, disse-lhe o Cristo, venho levantar-te, perdoar-te e consolar-te, para que deixes de ser 
mau. 
- No quero teu perdo, responde o anjo mau, e no sou eu que sou mau.
O mau  aquele que d aos espritos a sede de inteligncia, e que envolve a verdade em um 
mistrio impenetrvel.  aquele que deixa entrever a seu amor uma virgem ideal, uma beleza 
embriagadora que os lana no delrio, e que a d a eles para arranc-la logo nos seus primeiros 
abraos e carreg-la com cadeias eternas,  aquele, finalmente, que deu a liberdade aos anjos, e 
que preparou suplcios infinitos para aqueles que no queriam ser seus escravos! O mau  aquele 
que matou seu filho inocente sob pretexto de vingar nele o crime dos culpados, e que no perdoou 
os culpados, mas lhes fez um crime a mais com a morte de seu filho! - Por que me lembrar to 
amargamente da ignorncia e dos erros dos homens? retoma Jesus: sei melhor que tu o quanto 
desfiguraram a imagem de Deus, e tu mesmo bem sabes que Deus no se parece com a imagem que 
fizeram dele. Deus s te deu sede de inteligncia para te embeber para sempre da verdade eterna. 
Mas por que fechar os olhos e procurar o dia em ti mesmo ao invs de olhar o sol? Se procurasses 
a luz onde ela est, tu a verias; porque no existem em Deus nem sombras e nem mistrios, as 
sombras esto em ti e os mistrios so as fraquezas de teu esprito. Deus no deu liberdade a 
suas criaturas para tom-la depois, ele a deu a suas criaturas como esposa e no como amante 
ilegtima; ele quer que a possuam e no que a violentem, porque essa casta filha do cu no 
sobreviveria a um ultraje, e quando sua dignidade virginal  ofendida, a liberdade est morta 
para aquele que a desconheceu. Deus no quer escravos:  o orgulho revoltado que criou a 
servido. A lei de Deus  o direito real de suas criaturas, so os ttulos de sua liberdade 
eterna. Deus no matou seu filho, mas o filho de Deus deu voluntariamente sua vida para matar a 
morte: e  por isso que ele vive agora na humanidade inteira e que salvar todas as geraes, 
porque de provao em provao ele conduz a famlia humana  terra prometida, e ela j saboreou 
os primeiros frutos. Venho pois anunciar-te,  Sat, que chegou tua ltima hora, a menos que 
queiras ser livre e reinar comigo sobre o mundo, pela inteligncia e pelo amor. Mas no mais te 
chamars Sat, retomars o nome glorioso de Lcifer, e colocarei uma estrela em tua fronte e uma 
tocha em tua mo. Sers o gnio do trabalho e da indstria, porque lutaste muito, sofreste muito 
e pensaste dolorosamente! Estenders tuas asas de um plo ao outro e pairars sobre o mundo; a 
glria despertar com tua voz. Ao invs de ser o orgulho do isolamento, sers o orgulho sublime 
do devotamento, e dar-te-ei o cetro da terra e a chave do cu.
- No compreendo, disse o demnio sacudindo tristemente a cabea, e no te poderia compreender: 
sabes bem que no posso mais amar! E com um gesto doloroso o anjo decado mostrava ao Cristo a 
chaga que lhe rasgava o peito e a serpente que lhe corroia o corao. Jesus voltou-se para sua 
me e a olhou: Maria compreendeu o olhar de seu filho, aproximou-se do anjo infeliz e no 
rejeitou estender a mo em sua direo e tocar seu peito ferido. Ento a serpente caiu por si 
mesma e expirou aos ps de Maria, que lhe esmagou a cabea; a chaga do corao do anjo ficou 
cicatrizada, e uma lgrima, a primeira que verteu, desceu lentamente pelo rosto arrependido de 
Lcifer. Essa lgrima era preciosa como o sangue de um deus; e por ela foram resgatadas todas as 
blasfmias do inferno. O anjo regenerado prosternou-se no Calvrio e beijou chorando o lugar 
onde outrora estivera pregada a cruz. Depois levantou-se triunfante de esperana e 
resplandecente de amor, e atirou-se nos braos do Cristo. Ento o Calvrio tremeu; seu cume 
rido revestiu-se rapidamente de um verdor fresco e brilhante e coroou-se de flores. E no lugar 
onde estivera a cruz uma nova videira ergueu-se e se carregou de frutos maduros e perfumados. O 
Salvador disse ento: - Eis a videira que dar o vinho da comunho universal, e ela crescer at 
que todos os seus ramos envolvam toda a terra. Depois, tomando sua me pela mo, estendeu a 
outra mo ao anjo da liberdade e lhe disse: - Que nossas formas simblicas retornem agora ao 
cu, no mais voltarei a sofrer a morte nessa montanha; Maria aqui no mais chorar seu filho e 
Lcifer no mais trar aqui os remorsos de seu crime agora extinto. Somos apenas um mesmo 
esprito: o esprito da inteligncia e do amor, o esprito de liberdade e de coragem, o esprito 
de vida que triunfou sobre a morte. Todos os trs ento elevaram-se no espao; e se elevaram a 
uma altura prodigiosa; viram a terra e todos os seus reinos que estendiam seus caminhos uns 
juntos dos outros como braos entrelaados, viram os campos verdes j das primeiras colheitas 
fraternais, e do Oriente ao Ocidente ouviram o preldio misterioso do cntico da unio. E ao 
norte, sobre a crista de uma montanha azulada, viram desenhar-se a forma gigantesca de um homem 
que elevava seus braos em direo ao cu. Sobre seus braos via-se ainda o trao recente das 
chagas que acabavam de se romper, e seu peito estava cicatrizado como o de Lcifer. Sob seu p 
direito, na ponta mais aguda da montanha, palpitava ainda o cadver de um abutre cuja cabea e 
asas estavam pendentes. Essa montanha era o Cucaso; o gigante liberto que estendia suas mos 
era o antigo Prometeu. Assim os grandes smbolos divinos e humanos reencontravam-se e se 
saudavam sob um mesmo cu; depois desapareceram para dar lugar ao prprio Deus que vinha morar 
para sempre com os homens. 
VII - A LTIMA VISO
Acima das formas materiais e da atmosfera terrestre, h uma regio em que as almas lanam-se 
livres de suas cadeias.  l que os aromas etreos obedecem ao pensamento, revestindo-o de todos 
os esplendores da forma ideal e povoando maravilhosas belezas do mundo espiritual, da poesia e 
das vises.  a essa regio que nos arrastam os mais belos sonhos durante nosso sono, e  l 
que, durante suas viglias laboriosas, a inspirao eleva o gnio dos grandes poetas a quem o 
sentimento de harmonia fez pressentir em todos os tempos os grandes destinos humanos.  l que 
vivem as imagens e que reinam as analogias. Porque a poesia est nas imagens; e a harmonia das 
imagens  essencialmente analgica.  nessa regio ideal que squilo via sofrer Prometeu, e que 
Moiss escutava falar Jeov.  l que o maior poeta do Oriente, a guia de Patmos, o chantre do 
Apocalipse, via a Igreja crist sob a forma de uma mulher em trabalho que dava  luz penosamente 
o homem do futuro.  nesse mundo maravilhoso da poesia e das vises que Deus apareceu-lhe 
encoberto de luz, e tendo na mo o Evangelho eterno que se abria lentamente, enquanto os 
flagelos agiam sobre o mundo e os anjos exterminadores limpavam a terra para dar lugar  cidade 
da unidade santa e da harmonia, a nova Jerusalm que descia do cu totalmente edificada, porque 
a idia da harmonia existe em Deus e se realizar por si s na terra quando os homens 
compreenderem. A figura gloriosa do Cristo, depois de ter percorrido a terra, subiu a essa 
regio etrea, e l o Redentor fez ver ao anjo, outrora rebelde e doravante regenerado, a grande 
assemblia dos mrtires. L, encontravam-se todas as vtimas do despotismo humano, todos aqueles 
que prefeririam morrer a mentir para a conscincia; As vtimas de Antoco, os mrtires da antiga 
Roma e os suplcios da Roma nova. Uns por crenas legtimas, outros por iluses e sonhos, eles 
tinham corajosamente afrontado a tirania dos homens, e todos eram puros perante Deus, porque 
tinham sofrido para conservar o mais nobre e mais belo de seus dons: a liberdade! Por muito 
tempo suas almas vestidas de tnicas brancas manchadas de sangue gemeram sob o altar e pediram 
justia: mas finalmente chegara o dia e todos juntos, com palmas na mo, avanavam e se 
colocavam frente ao Redentor. O Cristo apareceu no meio deles, entre sua me e o anjo 
arrependido, e perguntou-lhes que vingana queriam de seus perseguidores. - Senhor, que suas 
almas nos sejam dadas, a fim de que possamos deles dispor para a eternidade, como eles 
dispuseram de ns no tempo. O Cristo, ento, restituiu-lhes as chaves do cu e do inferno e lhes 
disse: - As almas de vossos perseguidores so vossas. Ento um grito de alegria e triunfo 
ressoou das profundezas do cu at as profundezas do abismo, as almas dos mrtires abriram as 
portas do inferno e estenderam a mo a seus carrascos. Cada condenado encontrou um eleito como 
protetor: o cu ampliou seu espao e a virgem-me chorou de alegria vendo estreitar-se em torno 
dela tantos filhos que acreditava perdidos para sempre. Enquanto o cu inteiro sorria com esse 
magnfico espetculo, via-se sobre a terra erguer-se um novo sol e a noite dobrar seus vus em 
direo ao Ocidente. As nuvens sombrias do passado desvaneciam-se carregadas de fantasmas; eram 
as sombras das grandes monarquias extintas e dos velhos cultos desaparecidos. Entre a noite e a 
aurora nascente o crepsculo branqueava a cabea de um velho que estava sentado com o rosto 
voltado para o Oriente. Era o viajante dos sculos cristos, o maldito da civilizao brbara, o 
tipo dos prias, o velho Aaswerus que repousava. O povo finalmente, tinha uma ptria, e o judeu 
errante obtivera seu perdo. A terra tornara-se o templo de Deus. A associao universal 
realizara a caridade crist. Todos viviam e trabalhavam para si e cada um para todos. Cada um 
desfrutava em paz do fruto de suas obras, e nenhum dos filhos de Deus padecia de fome perto da 
mesa de seu pai, porque o trabalho repartido igualmente facilitava a vida de todos. A associao 
centuplicara as riquezas da terra, e a unio de todos os interesses dera aos trabalhos do homem 
uma direo to divina e uma fora to maravilhosa, que as prprias estaes mudaram, e havia, 
segundo a promessa do apstolo, um cu novo e uma terra nova, e Jesus disse ao anjo da liberdade 
e do gnio: - Eis a obra que deves concluir. Eis a nova cidade da inteligncia e do amor. A 
terra est pronta, ela estremece de esperana. Os homens vem-na agora como a vira outrora o 
profeta, coberta de cinzas e de ossaturas; mas uma vida nova j fermenta nessa cinza, e uma 
vibrao divina percorre essas ossaturas dessecadas. Brevemente elas se levantaro ao apelo do 
novo esprito, e um novo povo cobrir os campos da terra. A humanidade sair ento de um longo 
sono, e lhe parecer ver o dia pela primeira vez! Tendo dito essas palavras, o Cristo 
prosternou-se diante do trono de seu pai, dizendo: - Senhor, que vossa vontade seja feita assim 
na terra como no cu!  E a virgem, que caracteriza a mulher regenerada, e o anjo da liberdade 
tornado o gnio da ordem e da harmonia, e todos os mrtires consolados, e todos os condenados 
penitentes e libertos de suas penas, responderam todos juntos a palavra misteriosa que une a 
vontade das criaturas  do Criador, e todas as foras humanas ao poder divino: Amm!
SCA 

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